CAPÍTULO II

Lily acordou ao som do telefone, mais uma voz abafada. Ergueu-se sobressaltada e viu James de costas, sentado na cama, falando com o interlocutor.

— Sim, estava dormindo, mas acordei… O quê? Bem, passe-me os detalhes, acho…

Lily cobriu-se com o lençol até o queixo e recostou-se no travesseiro, o olhar fixo nas largas costas desnudas de seu vizinho.

Céus, fizera amor com James Potter! Partilhara o ato mais íntimo de todos com seu melhor amigo!

Oh, era terrível, simplesmente horrível. Como pudera ceder à tentação? James era seu camarada, seu amigão, seu parceiro, seu…

Sorriu ao recordar etapas da noite anterior.

Seu amante, completou, extasiada. Nunca, em seus vinte e seis anos de existência, experimentara sexo tão bom.

Não que tivesse tido muitos amantes para comparar, mas sabia, simplesmente sabia, que o que acontecera entre ela e James fora muito mais maravilhoso do que o normal. Com certeza, fora mais fantástico do que tudo o que ela já experimentara.

Ela e James revelaram-se perfeitos juntos, como se um passe de mágica os tivesse unido. Deram, receberam e, então, a suprema recompensa. O momento final, o ponto alto da jornada, fora intenso e a levara a um lugar em que nunca estivera… ao qual tinha acesso somente com James.

Ai, ai, ai, que noite!

— Não há mais ninguém disponível? — questionava ele ao telefone. — Acabo de chegar de Kansas City e estou cansado exausto mesmo… Sim, ouvi, mas… e Peter?

Lily parou de divagar com as lembranças e agarrou-se mais ao lençol.

Pense, incentivou-se. Haviam concordado em não remoer o acontecido na noite anterior, mas estavam na manhã seguinte e definitivamente era hora de pensar, pensar, pensar.

Em poucos segundos James desligaria o telefone, olharia por sobre o ombro e a fitaria.

O que diria, então? Como deveria se comportar? O que James comentaria e faria após o que ocorrera entre ambos? Desejou poder vestir seu robe de chenile verde e se refugiar em seu próprio apartamento sem dizer nada a James Potter.

Calma, Lílian, ordenou a si mesma. Era uma mulher madura, que fizera amor com um homem maduro. Isso acontecia entre as pessoas o tempo todo. Não havia nada com que se preocupar, céus.

Fechou os olhos e meneou a cabeça. Uma parte sua estava horrorizada com o que fizera. Já outra parecia apreensiva com a possibilidade de terem destruído uma rara e preciosa amizade. Uma terceira parte ainda não lamentava nem um pouco ter partilhado o ato de amor mais fantástico do mundo.

Oh, céus, desesperou-se, abrindo os olhos novamente, o que diria a James?

— Sim, está bem — declarou ele ao interlocutor. — Onde a passagem vai estar? Tem certeza de que não há outro vôo para mais tarde que não esteja lotado? Terei de me apressar… Está bem, está bem. Até. — Desligou o telefone. — Raios.

Adulta madura, adulta madura, adulta madura, entoava Lily mentalmente, vendo James voltar-se lentamente para ela. Sou uma adulta madura.

— Oi, Lírio — James falou, tranqüilo, inexpressivo.

— Ohh, sou invisível — informou Lily, e cobriu a cabeça com o lençol.

James deitou-se ao lado dela, sem estabelecer contato.

— Eu também — afirmou, com um suspiro. — Não estou aqui, portanto, não tente falar comigo.

Lily baixou o lençol só o bastante para espreitar James.

— Isso é jeito de um adulto maduro se comportar? — protestou, as palavras abafadas pelo tecido de algodão. — Que vergonha.

Ele virou-se de lado, apoiado em um braço.

— E você, está agindo como uma adulta madura? — provocou, erguendo o sobrolho. — Escondendo-se assim debaixo do lençol… Não me convence, ruiva.

Ela suspirou, baixou o lençol até o queixo e encarou James.

— Não sei o que dizer — confessou. — Realmente, não sei. Estou muito confusa no momento. Só sei que não quero perdê-lo como meu melhor amigo, James. Isso acabaria comigo.

Continuou: — O que fizemos foi errado, acho, porque amigos não… Mas, por outro lado, foi tão bonito, tão incrível, mas… não devíamos ter… Se bem que… Oh, o que estou dizendo não faz sentido!

— Faz, sim — opinou James. — Está dizendo exatamente o que eu teria dito, se você não tivesse desatado a falar primeiro. Preciso de você como minha melhor amiga, Lily, assim como era antes que… Mas tem razão. O que partilhamos foi realmente incrível. Foi… bonito, conforme você mesma disse.

Prosseguiu: — Não sei dizer se me arrependo de termos feito amor, mas, pelo mesmo motivo, vou lamentar pelo resto da vida se isso me custar a sua amizade.

Fitaram-se, e o desejo renasceu entre ambos, ganhando calor à medida que as lembranças da noite anterior retornavam. .

James desviou o olhar, quebrando o encanto que começava a envolvê-los.

— Não, não vai acontecer novamente — decidiu, amuado, fitando a parede oposta. — Nunca mais. — Respirando fundo, encarou-a novamente. — Lily, ouça, está bem? Sabemos, há muito, que somos diferentes demais, pólos opostos em muitas coisas, que nunca poderíamos ter um relacionamento. Simplesmente não daria certo. Não é?

— É — confirmou ela. — Não daria certo. Não mesmo.

— Com certeza, fizemos um bom sexo. Eu pelo menos nunca experimentei nada… — Deteve-se. — Apague isso. A questão aqui é a nossa amizade, o quanto isso significa para nós. Certo?

— Certo — confirmou Lily, pressionando a mão na testa. — Nossa amizade.

— Agora, precisamos concordar em nunca discutir o que aconteceu ontem à noite — analisava James. — Estou pensando enquanto falo, portanto, preste atenção. Isso mesmo. Não devemos jamais tocar nesse assunto.

E justificou:

— O que partilhamos foi fantástico, de verdade, mas acabou, ficou para trás, e vamos esquecer que aconteceu. Neste momento, renovamos nossos votos de amizade.

— Oh, bem… parece bastante razoável… acho. Vamos simplesmente… nos esquecer… do ato… que foi tão incrível e sensual, tão maravilhoso que desafia uma descrição e…

— Raios, Lily, cale-se!

— Desculpe-me, desculpe-me — apressou-se ela. — Eu me empolguei um pouco. Entendo o que disse, James. Não sei como vamos… renovar os votos que nem me lembro de termos feito antes, mas…

— Foi só uma expressão — esclareceu ele. — Simplesmente, concordamos em continuar como amigos, camaradas, parceiros, tudo mais. Está de acordo?

— Claro — afirmou Lily, convicta. — É um excelente plano, James , e estou contente que tenha conseguido elaborá-lo sozinho, porque meu cérebro parece mingau. Declaro que você, James Potter, é meu melhor amigo e sempre será.

— Muito bem — elogiou ele, assentindo. — E eu declaro que você, Lílian Evans, é minha melhor amiga e sempre será. E isso acerta tudo.

— Com certeza. — Lily fez uma pausa. — Você poderia por favor ir à sala pegar meu robe para eu me vestir e poder voltar para meu apartamento?

— Por que não vai pegar você mesma?

— Porque não estou vestida, James — explicou ela, os olhos arregalados. — Não vou desfilar na sua frente como vim ao mundo.

— Mas quer que eu vá pegar seu robe como vim ao mundo? — replicou ele, e meneou a cabeça. — Isso é ridículo. Estamos longe de nos comportar como adultos maduros. Basta.

James afastou o lençol, deixou a cama e encaminhou-se à porta.

— Oh, céus — sussurrou Lily, de olhos cerrados. Um segundo depois, espiava. — Ai, ai, ai.

— Está espiando, Evans — acusou James, detendo-se na soleira.

— Pode crer, Potter — confirmou Lily, e fechou os olhos novamente.

Pouco depois, sentia o pesado robe verde enroscando-se em sua cabeça. Nem se mexeu. Ouviu James abrir e fechar uma gaveta da cômoda junto ao closet e, a seguir, fechar a porta do banheiro.

Quando a água do chuveiro começou a correr, pulou da cama, vestiu o robe, verificou se a chave de seu apartamento ainda estava no bolso e deixou o quarto apressada.

Da porta, ainda fitou a cama.

O plano de James era consistente, concluiu. Nenhum dos dois queria fazer nada que ameaçasse a amizade rara e especial que compartilhavam. Portanto, não falar mais sobre o acontecido na noite anterior parecia uma boa idéia. Nunca mais tocariam no assunto, apenas continuariam suas vidas como se nada tivesse acontecido.

Com um suspiro, deixou o apartamento de James. Em sua própria moradia, Lily experimentou a sensação estranha de que levaria muito tempo, se conseguisse, para se esquecer do ato de amor que partilhara com seu melhor amigo.

Durante a hora seguinte, Lily tomou banho, lavou e secou os cabelos e vestiu calça jeans com blusa vermelha esportiva. Os armários e a geladeira quase vazios não lhe proveram um bom café da manhã, à base de cereais sem leite, um copo de suco de laranja e uma fatia de salsichão.

Já melhorara da infecção nasal, percebeu, ao sentar-se à mesa da cozinha. O antibiótico aparentemente surtira efeito. Sentia-se quase uma nova mulher.

Apoiou os cotovelos na mesa, encaixou o queixo na mão e fitou o espaço.

Bom, era uma mulher diferente da que se sentara bem ali na manhã anterior… o que parecia fazer uma eternidade. Agora, integrava o seleto grupo dos que haviam experimentado o amor como… simplesmente sabia… devia ser.

Infelizmente, nunca mais poderia repetir aquele êxtase.

Com certeza, não faria amor com James novamente, e as chances de ficar íntima de outro homem no futuro também eram remotas.

— Aquele bobo — acusou, em voz alta. — Agora, ninguém vai se comparar ao que partilhei com James, e tudo por culpa dele.

Pare, Lílian, ordenou-se, enquanto se levantava. Levou a tigela e o copo à pia e largou-os lá. Não estava se comportando como adulta madura, novamente.

Nada do que acontecera na noite anterior era culpa só de James. Igualmente responsáveis pelo que haviam feito, tinham também concordado em lidar com as conseqüências de suas ações à luz do dia, usando a razão.

James continuaria à procura da mulher de seus sonhos, sua alma gêmea, a mãe de seus futuros filhos. Enquanto ela continuaria saindo com o amigo do primo de alguém… excluindo dentistas… na esperança de se apaixonar pelo sr. Certinho e viver feliz para sempre.

— Certo? — indagou a si mesma, vagando pela sala. — Certo.

Atirou-se no sofá e pousou os pés descalços na mesinha.

Por que a imagem de James na cama com uma mulher sem rosto lhe causava um nó no estômago e um arrepio?

Não sabia, mas com certeza não fazia sentido. James retomaria sua vida como era antes de fazer amor com a melhor amiga e vizinha. Pretendia esquecer o ocorrido e nunca mais tocar no assunto.

E assim seria.

Ele continuaria com suas atividades, ela com as dela, e continuariam amigos, como se nada tivesse acontecido.

Pois que assim fosse. Ótimo. Mas, se era tão satisfatório, por que aquela imensa vontade de chorar?

Talvez ainda não tivesse superado a infecção nasal, considerou, apertando a mão no rosto, na testa, nas bochechas. Ainda estava debilitada e, por isso, emotiva.

Isso fazia sentido.

— Muito bem — concluiu, levantando-se.

Tinha um dia cheio pela frente, e levou um dedo ao queixo enquanto planejava. Rascunharia uma lista e sairia às compras de supermercado. Depois, juntaria a roupa suja, iria à lavanderia no subsolo do prédio e brigaria com as máquinas que costumavam sumir com peças. Em seguida, executaria uma faxina completa no apartamento.

— Ohhh, raios — resmungou, soltando os braços. — Que jeito horrível de passar o domingo!

Bateram na porta, e Lily foi atender. Franziu o cenho ao ver James, de calça jeans e suéter preto.

— Deselegante — acusou ele, entrando sem pedir licença. Do meio da sala, voltou-se. — Deixar a minha cama e desaparecer enquanto eu estava no banho foi muito deselegante, ruiva.

— Por quê? — Ela fechou a porta. — Sabia que eu correria para cá assim que recuperasse meu robe verde.

— Há uma etiqueta relacionada à manhã seguinte, srta. Evans — avisou ele, cruzando os braços. — Sumir da cena enquanto eu tomava banho não combina com a srta. Bons Modos.

— A srta. Bons Modos não liga muito para isso — observou Lily, imitando a pose de James. — Já superamos a questão da manhã seguinte, Sr. Potter. Analisamos o ocorrido a fundo e concordamos em nunca mais tocar no assunto… portanto, esqueça.

James suspirou e passou a mão nos cabelos.

— Desculpe-me — murmurou. — Tem razão. Já superamos a manhã seguinte. Só estou irritado porque tenho de pegar um avião para Detroit em duas horas. Seria ótimo se pudesse ir agora escolher um carro novo, mas não posso, e com certeza não estou animado para ir a Detroit.

— Vai partir de novo? Assim? — Lily sentou-se no sofá. — Geralmente dão-lhe alguns dias para se recuperar e cuidar de assuntos pessoais, entre uma missão e outra.

— Geralmente — confirmou James, sentando-se no outro sofá. — Mas trata-se da emergência mais importante do que as outras, e ninguém mais está disponível.

— Mas e o casamento da sua irmã, James? Jane e Amos vão se casar no próximo fim de semana. Não pode faltar. E se o trabalho em Detroit ainda não tiver acabado?

— Falarei com Jane, se o trabalho se prolongar — planejou ele. — E verei se eles vão adiar o casamento de novo. Se for ocorrer mesmo no próximo final de semana, volto só para o casamento e, em seguida, vôo novamente para Detroit. Como eles já adiaram duas vezes…

— Não por querer — protestou Lily. — Jane e Amos estão determinados a se casar na sala da casa que estão construindo. Primeiro, foram as chuvas que atrasaram a construção. Agora é um problema com o carpete que escolheram. Francamente, não sei se vão conseguir se casar no próximo fim de semana.

— E, como eu disse, vou telefonar para Jane, lá de Detroit. — James fez uma pausa. — Você… hum… tem alguém para levá-la ao casamento?

Lily meneou a cabeça.

— A cerimônia é só para a família, e fui honrada com um convite, mas nem sonharia em chamar mais alguém.

James assentiu.

— Então, por que não vamos juntos, quando eles finalmente trocarem as alianças?

— Por mim, está ótimo. Além disso, compramos o presente juntos… a churrasqueira a gás está no seu quarto vago. Devíamos estar juntos na hora da entrega.

— Combinado. — James levantou-se. — Bom, preciso fazer as malas e ir para o aeroporto. Como você está? Sabe, a infecção…

Lily levantou-se também.

— Acho que estou curada. Talvez. — Riu. — Preciso me convencer disso, pois tenho de comprar mantimentos, lavar a roupa e limpar o apartamento. Essa é minha agenda excitante para hoje.

— Melhor que voar para Detroit. Bem, tenho de ir. — James não se mexeu. — É, eu vou então.

— Está bem. Até. Bom vôo. Até a volta, James.

— Até, Lírio. — Nem assim James se mexeu.

Fitaram-se detidamente, ambos de coração disparado. Ele avançou um passo, e Lily recuou um. Ele piscou, pigarreou para quebrar o encanto e seguiu para a porta.

— Tchau. — Com isso, ele deixou o apartamento, fechando a porta com mais força do que o necessário.

— Tchau — sussurrou Lily na sala vazia, e então assoou o nariz na tentativa de controlar as lágrimas, que brotavam inexplicavelmente.


Oláa, garotas!

O próximo capítulo será postado na quinta-feira 30.11.12

Fiquei muito feliz com os comentários de vocês! Maaaas, assim sabe... Acredito que poderíamos ter um pouco maaaais...

Quem sabe se eu encontrar um pouco mais de comentários meu coração fique beeem mais ALEGRE e eu acabe postando antes, né?!

Posso ser até maaais legal ainda e postar não um, mas dois capítulos! MaryGheizon chantagista aparecendo! kkkkkkkk

Então é isso, quanto maaais comentários, mais rápido teremos poste!

Agradecimento ESPECIAIS:

Julie - Fico muuuito feliz cada vez que vejo seus comentários, e fico maais feliz ainda por saber que você está gostando e acompanhando! Dedico esse capítulo a você! Já se tornou minha leitoraa fiel :D

Julia Menezes - Que bom que está gostando... Muita coisa ainda vem pela frenteeeeee... Prepare o coração!

Guest - Seja suuuper vinda a esse lindo romance :) Você vai AMAR!

Beijinhos, Beijinhos ;**

MaryGheizon.