CAPÍTULO VIII
Hora de trivialidades! — anunciou Lily.
— Pode mandar — concordou James, animado.
Estavam sentados à mesa da cozinha de Lily, consumindo o jantar delicioso que James preparara enquanto ela trabalhava na agência de turismo. Bife de panela, purê de batata, cenouras cozidas. Lily saboreou cada garfada.
— Muito bem, aí vai: O hino nacional da Grécia tem 158 versos e não há notícia de ninguém que o tenha decorado.
James riu.
— Já sabia, porque li o postal que seus pais enviaram, e foi sua mãe que contou essa trivialidade. Não ganha pontos por essa, ruiva.
— Você leu a minha correspondência, James?
— Não, na verdade, não — assegurou ele. — Há uma lei informal que diz que postais são de domínio público.
— Não existe tal lei — afirmou Lily, irada. — Correspondência é correspondência. É particular.
— Errado — afirmou James, meneando a cabeça. — Pergunte ao carteiro que entrega essas coisas. Ele vai confirmar que postais são abertos a escrutínio público. O fato provavelmente vale alguns pontos no jogo de trivialidades, pensando bem… Principalmente porque você não sabia que isso era verdade.
Lily riu. — Você trapaceou.
— Não trapaceei — protestou James, indignado.
— Trapaceou, sim. Mas vou perdoá-lo por conta deste jantar fantástico. Estava mesmo saboroso, James, e gostei muito. — Ela fez uma pausa. — E então, acabaram com as formigas?
— Que nada. Deixei dois recados para o proprietário, mas ele ainda não deu retorno. Passei o meu telefone e o seu, e as duas secretárias eletrônicas estavam ligadas quando fui ao supermercado, mas… vou tentar novamente amanhã.
— Oh.
— Não se importa que eu use o seu sofá de novo, não é, Lírio? Quero dizer, se for contra, posso procurar um hotel ou ficar na casa dos meus pais. Minha mãe adoraria ter a mim debaixo da asa dela outra vez.
— Não, pode ficar — respondeu Lily. Embora mal tivesse pregado o olho na noite anterior, por estar ciente demais da proximidade de James. — Ora, não sou idiota. Cheguei em casa e o jantar estava na mesa, os armários e a geladeira, cheios de mantimentos, e meu apartamento, um brinco. Você é um colega de apartamento bastante desejável.
James teve vontade de espetar o garfo no coração. Agora ganhara o título de colega de apartamento? Raios. Não, não devia se desanimar. Havia apenas começado a luta.
— Eu tinha tempo livre, só isso — justificou. — O que fiz não foi grande coisa. Gosto de cozinhar e…
— Você não suporta bagunça — completou Lily, sorrindo. — Arrumou a casa porque estava ficando doido.
— Bem, mais ou menos. Sabe, ruiva, se colocasse as coisas no lugar após usá-las, não perderia tudo todo o tempo — aconselhou ele. — Por exemplo, você descalçou os sapatos assim que entrou no apartamento hoje. Estou vendo um pé no meio da sala, mas onde está o outro?
Lily soergueu-se na cadeira e olhou ao redor.
— Sei lá. Deve estar lá em algum lugar.
— Debaixo do sofá.
— É? Está brincando? Bem, eu o teria encontrado, eventualmente.
— Sim, mas pense nisso — continuou James, inclinando-se em sua direção. — Se tivesse dedicado dez segundos para ir ao quarto guardar os sapatos no armário, eles estariam prontos para uso na próxima vez que os quisesse. É realmente simples.
— Vou tentar a sua teoria… um dia desses — prometeu Lily. — Oh, não sei, James. Administro a agência como uma máquina lubrificada, mas quando chego em casa, só quero…
— Relaxar — completou ele, rindo.
— Isso não foi gentil — acusou ela, embora sorrisse. — Não sou relaxada em casa, sou… descontraída. Pronto. É isso.
James ergueu o sobrolho.
— Imagine esse tipo de descontração quando o bebê estiver aqui. Vai precisar de mamadeiras prontas, não poderá ficar sem fraldas no meio da noite e terá de manter a roupa lavada em dia.
Lily franziu o cenho.
— Nisso tem razão. Talvez eu deva começar a aplicar minhas habilidades organizacionais em casa também. Farei isso… talvez… mais tarde, em poucos meses. Não, você tem razão. Preciso me organizar a partir de agora, ou terei problemas quando o bebê chegar.
— Isso mesmo — apoiou James. — Vai gostar de ter uma casa organizada, Lírio. Eu garanto que sim.
— Mas não espere milagres — avisou ela. — Não posso mudar da noite para o dia, sabe.
— Mas pode mudar se estiver determinada. — James ficou sério de repente. — Todos podemos mudar. Nossas ações e atitudes não são perenes. A fim de crescer como pessoa, todos precisamos estar abertos a novas idéias, ansiosos por nos ajustar ao que nos cerca e…
— Oh, está bem — concordou Lily. — Vou me esforçar. Vou colocar os sapatos no armário sempre que chegar em casa do trabalho.
James franziu o cenho.
— É um começo… acho. — Lembrou-se de algo. — Fiz torta de cereja com base em uma receita.
Lily arregalou os olhos.
— É? Receita de quem?
— De meu pai. Quando éramos pequenos, meu pai e eu fazíamos o jantar duas noites por semana, e minha mãe, nos outros dias. Quando Jane veio morar conosco, uniu-se ao grupo de minha mãe. Jack reclamava, mas eu me divertia.
— Espantoso — avaliou Lily. — Por que nunca me contou isso antes?
— O assunto não surgiu, acho. Agora, apareceu, porque estamos morando juntos.
— Podia falar diferente, James? Não estamos morando juntos, estamos apenas…
— Estamos morando juntos — teimou James. — Fazemos as refeições, dormimos, passamos o tempo sob o mesmo teto. Isso, na minha opinião, é morar junto.
— Sim, mas a expressão morar junto implica duas pessoas estarem tendo… um relacionamento. Quero dizer… — Lily ergueu o queixo. — Não estamos dormindo juntos.
— É verdade — admitiu James, pensativo. — Claro, podíamos fazer amor, se quiséssemos. — Deu de ombros. — Mas não queremos.
Lily franziu o cenho.
— Não queremos?
— Claro que não — respondeu James, fitando-a com atenção. — A noite de amor que partilhamos foi um acaso feliz, fruto de uma série de circunstâncias que resultaram em… — Pigarreou. — A verdade, Lílian, é que resultou no ato de amor mais lindo que já partilhei com alguém em toda a minha vida.
— Oh, eu sei — confessou Lily, sonhadora, fitando o espaço. — Não vou discutir quanto a isso, James. Foi tão… esqueça — Recompôs-se.
— Não posso. — Ele pousou a mão sobre a dela na mesa. — Tentei. Acredite. Mas simplesmente não posso apagar as lembranças da nossa noite juntos. Sem mencionar que resultou no nosso garotinho, algo ainda mais difícil de esquecer. Aquilo definitivamente aconteceu, Lílian, e foi… foi muito especial.
— Sim — concordou ela suave. — Sim, foi.
O calor da mão de James subia pelo braço dela, alcançando os seios como uma corrente elétrica. Agora, espalhava-se por todo o seu corpo, aquecendo cada célula.
Por que James lhe causava tal impacto sensual? Tratava-se de seu melhor amigo, não seu amante. Bem, fizeram amor naquela noite gloriosa, mas… Arre, era tudo tão inquietante e confuso.
Lily recolheu a mão e levantou-se.
— Você cozinhou, eu arrumo a cozinha. É justo.
— De jeito nenhum — protestou James. — Você trabalhou o dia inteiro, Lírio. Eu só passei no escritório e entreguei meu relatório. Vá erguer os pés e eu cuido da bagunça aqui.
— Você também fez as compras, limpou o apartamento e preparou uma refeição maravilhosa. — Lily meneou a cabeça. — Não, eu vou arrumar a cozinha.
James se levantou.
— Vamos entrar em um acordo, está bem? Faremos isso juntos.
— Assim está bem — concedeu ela. — Vamos acabar na metade do tempo. Então, vou vestir meu robe verde e assistir a Casablanca na televisão. Não pense que vou usar o robe verde por estar preocupada ou indisposta. Eu o uso às vezes simplesmente porque é confortável.
— Você usava o robe verde na noite em que… — James pigarreou e recolheu os pratos da mesa. — Não tenho certeza se serei capaz de vê-la naquele robe horrível sem me lembrar de… Esqueça.
— Talvez seja melhor não usá-lo enquanto você estiver… enquanto estivermos…
— Morando juntos — completou ele, levando os pratos a pia. — Um raio não vai cair na sua cabeça se você disser isso, Lily. Nós estamos morando juntos.
— Está bem, está bem — concordou Lily. — Então… estamos… estamos morando juntos. Mas só até você exterminar as formigas.
— As o quê? Oh! Sim! As formigas. Claro, elas deviam pelo menos pagar o aluguel, se vão morar no meu apartamento. — Ele começou a carregar a lava-louça. Lily levou mais pratos da mesa e pousou-os no balcão.
— Não acha estranho as formigas terem invadido só o seu apartamento? Não vi uma sequer aqui.
— Quem sabe o que se passa na cabeça de uma formiga? Ei, tem jogo de futebol na televisão hoje, vai ser disputado.
— Mas vai passar Casablanca também — resmungou Lily.
— Lírio, você já viu esse filme pelo menos vinte vezes — acusou James, guardando o resto de carne e legumes na geladeira.
— Vinte e duas, mas nunca me canso dele — informou ela. — É um clássico, um dos filmes mais românticos já feitos.
— Hum — grunhiu James. Limpou o balcão e enxaguou o pano. — Pronto. A cozinha está arrumada.
— É, e eu não ajudei muito.
— Não se preocupe com isso. Ouça, que tal se eu trouxer a minha televisão para cá e assistir ao jogo com o som desligado, enquanto você chora com seu filme? Que tal?
Lily sorriu.
— Você é um gênio.
— Não, só um homem tentando lidar com o desafio que é morar com uma mulher.
— E está se saindo bem — afirmou Lily. Pôs-se na ponta dos pés para beijar James no rosto.
Ele voltou à cabeça no momento exato, e seus lábios se roçaram de leve. Fitaram-se nos olhos, e o tempo pareceu congelar. Seus corações dispararam.
Cada um deu um passo à frente para diminuir a distância. Lily levou os braços ao pescoço de James, e ele a envolveu pela cintura.
Ele aprofundou o beijo, e ela correspondeu com total abandono, saboreando o gosto dele, deleitada com os braços fortes e a onda de calor que lhe invadia o corpo.
Lily percebeu a ereção dele, excitando-se ao saber que James a queria tanto quanto ela o queria. O momento tinha uma qualidade sensual, que os enredava com mais força… mais ardor… e não permitia que se soltassem.
James gemeu. Lily também emitiu um som de abandono.
Lílian Evans! Chamou a consciência. O que pensa que está fazendo?
Ela interrompeu o beijo, respirou fundo e recuou um passo, forçando James a liberá-la.
— Isso… — Respirou fundo. — Isso não devia ter acontecido.
— Por que não? — questionou James. — Por que não, Lily? Desejamos um ao outro. Não há nada de errado nisso.
— Nada de errado? — protestou ela, levando as mãos aos quadris. — Céus, James, é deselegante. Estamos falando de luxúria aqui. Sexo. Não amor entre duas pessoas, amor pleno, apenas sexo fisicamente satisfatório.
— Não — discordou ele, meneando a cabeça. — É mais que isso. Não somos estranhos que se encontraram em um bar de solteiros e decidiram ir até o fim. Nós nos respeitamos, conhecemos um ao outro melhor do que algumas pessoas se conhecem durante uma vida inteira. Nós nos amamos também, do nosso jeito. Somos amigos, Lily, e isso conta muito, de verdade.
— Mas não basta — afirmou ela, as lágrimas brotando.
— Basta, sim — teimou James, agarrando-a pelos ombros. — Não percebe, Lírio? Nossa amizade é base sólida para um casamento. Podemos fazer dar certo, se estivermos determinados, se concordarmos que é isso o que queremos. Seremos uma família. Você, eu e o nosso filho. Será ótimo, Lírio. Será.
— Não, não, não — refutou ela, enxugando as lágrimas. — Eu me vejo sentada à cama da nosso filhinho… "Conte-me como foi que você e papai se apaixonaram", pedirá ele. "Foi romântico, mãe? Como era, o que sentia, o que pensava. Como soube que papai era sua alma gêmea para a eternidade?"
Lily o encarou:
— O que direi a ele, James? "Bem, filho, não foi bem assim. Seu pai e eu éramos apenas amigos que sentiam atração um pelo outro. Almas gêmeas? Não. Apaixonados? Não, nunca chegamos a esse ponto. Éramos camaradas, parceiros. Éramos…"
— Pare, Lílian, pare — ordenou James, soltando-a. — Basta.
Ela se abraçou.
— Por que está disposto a aceitar menos do que sonhou ter com uma mulher, James? Vem procurando sua alma gêmea, esperando encontrá-la e ter tudo, assim como os outros Potter.
E continuou:
— Só porque criamos uma vida juntos não significa… Oh, James, não percebe? Não estamos apaixonados um pelo outro como devíamos, para planejar uma vida juntos como marido e mulher. Simplesmente, não… não estamos apaixonados.
— Como sabe? — rebateu ele, erguendo a voz. — O que a torna especialista no assunto, Lily?
Justificou:
— Minha família está convencida de que as almas gêmeas são também as melhores amigas umas das outras. Como sabe que eu e você, amigos que somos, não somos também almas gêmeas? Já pensou que podemos estar apaixonados e não saber?
Lily ergueu o queixo.
— Não seja ridículo. Nós saberíamos, se fosse verdade.
— Oh, mesmo? Bem, explique-me então. Quais são os sinais, os sentimentos, as emoções… o que uma pessoa experimenta quando está apaixonada? Vamos, diga.
— Bem, como posso saber? — rebateu ela, erguendo a voz também. — Nunca me apaixonei na minha vida inteira. Eu… eu imagino que… que uma pessoa simplesmente sabe quando… simplesmente sente… simplesmente… — Agitou as mãos. — Não faço à mínima idéia de como duas pessoas percebem que estão apaixonadas. Não sei.
James suspirou.
— Nem eu. Mas o que temos é bastante para um casamento e para criar uma criança.
— Não. Não basta.
— Está bem — desistiu James. — O assunto está encerrado… por enquanto. Vou buscar minha televisão. Seja camarada e me sirva uma fatia de torta, sim? Obrigado, colega.
— Não precisa ficar tão aborrecido — protestou Lily às costas dele.
Sobressaltou-se quando ele bateu a porta. Então, sem querer, levou os dedos aos lábios ainda latejantes devido à intensidade do beijo que partilhara com James. A seguir, acariciou o abdome dilatado.
— Oh, benzinho — murmurou, vertendo lágrimas. — Estou tão confusa, tão desnorteada. Sua mamãe está um bagaço, querido. Só espero poder entender meus sentimentos complexos, porque meu relacionamento com seu papai… meu futuro inteiro… estão em jogo.
CONTINUA...
Olááá, garotas :DDD
E como prometido tá aí mais um capítulo dos lindos e irritantes James e Lily! rsrsrs Adooooro!
A próxima atualização será na Quinta-feira 20.12.2012
Vamos aos Agradecimentos:
Ninha Souma, Julia Menezes, Evellyn Rodrigues, Thaty, Julie Horan. Muito obrigadaa pela atenção de vocês com a fic! Fico muuito feliz com os coments de vocês! Ainda estou escolhendo a minha próxima adaptação, como tenho alguns livros salvos no pc fico na dúvida sobre qual escolher pra adaptar rsrsrsrs... Espero contar com vocês nessa próxima aventura, prevista para iniciar na primeira semana de Janeiro de 2013.
Obrigada pela atenção, garotas!
Beijinhos ;**
Aguardo retorno :DDD
MaryGheizon.
