Capitulo 3: Uma par de olhos nostálgico.
Depois do que me pareceu uma eternidade e meia, eles se afastaram e começaram a conversar, com se estivessem envolvidos em uma bolha particular.
-voce se lembra do que eu te falei...- ele advertiu, dando aquele sorriso carinhoso que sempre fazia meu coração palpitar.
-que você agora é um homem serio e comprometido, que não tem mais tempo para essas brincadeiras de criança...- ela recitou, dando um sorriso idêntico ao dele.- bem, você prometeu que ia me dizer com quem você esta agora!
Usagi-san riu, fazendo doce.
-quem, quando e onde lhe disseram isso? Eu já lhe mandei aquele diário para que você pudesse escrever seu novo romance. Você é quem terá de descobrir quem é...
-ora, como se desse para entender direito... você escreve tudo em códigos! O "amor precioso", o "pirralho irritante", a "nova luz da minha vida"... - ela recitou. Nesse momento não agüentei, e tive que falar algo.
-Usagi-san...- eu falei relutante, interrompendo asa risadinhas dos dois.- o que esta acontecendo?
-ah, Misaki, essa é a pessoa de quem lhe falei. Na verdade, vocês já se conhecem há muitos anos, mas imagino que você não se lembre dela.- ele sorriu, enquanto eu e ela nos entreolhávamos, sem entender nada.- Kiomi-chan, lembra-se do Takahiro?
-como esquecê-lo?- ela riu- soube que ele se casou com a Nori-chan... Lógico que ia dar certo, eu quem juntei os dois!
-esse é o Misaki, irmão mais novo dele. - Usagi-san disse, com simplicidade, puxando um cigarro do bolso do paletó.
O que aconteceu depois foi tudo, menos o esperado. Basicamente, ela ficou me olhando por horas, como se estivesse me reconhecendo, pouco a pouco.
-chibitaka-chan?- por fim ela perguntou. E, numa onda de nostalgia tudo voltou.
Eu estava no colo do meu niichan, que se balançava no parquinho, enquanto esperávamos nossa kaasan voltar do supermercado, quando chegou uma menina de cabelos claros, olhos azuis e sotaque estrangeiro, muito sorridente, e estalou um beijo na testa dele. Meu niichan sorriu e disse um oi. Ela então perguntou quem era a adorável criança que estava no meu colo.
Esse é meu irmãozinho, misaki.
Parece muito com você, taka-chan!
Você acha? As pessoas não costumam pensar isso. Eu pareço mais com a kaasan, e ele lembra nosso tousan.
Não mesmo, ele é a sua versão chibi! Posso pega-lo no colo? Sem esperar resposta, ela me tirou do colo so meu niichan e me segurou nos braços.
Quantos anos você tem, chibitaka-chan?
Assim, olha, eu disse, mostrando três dedos.
Que bom! Você é tão inteligente! Você quer tomar sorvete? Eu estava indo tomar sorvete com uns amigos numa sorveteria que abriu agora. Ela é bonita, tem uns desenhos de gatinhos bem legais e coloridos. Você gosta de gato?
Ela convenceu Takahiro a vir com ela, e não me tirou do colo por um segundo que fosse. Ela também fez questão de me dar um bichinho de pelúcia em forma de gato. Por causa disso, eu passei a chamá-la de Neko-chan.
-Neko-chan?- eu perguntei, reconhecendo a cor do cabelo e os olhos azuis, que a deixavam parecida com Usagi-san.
-olha como você cresceu!- ela disse, me abraçando, desta vez mais carinhosamente.- você ficou maior que eu! Nem acredito que lembrou de mim, depois de tantos anos! O baka do Taka-chan não quis me deixar te levar pra França depois do acidente, mesmo que eu tivesse pedido isso a ele umas mil vezes. Frances não é um idioma tão difícil assim de se aprender!
Sim, a amiga do meu niichan, junto com Usagi-san, foi quem mais o apoiou depois do acidente de carro que meus pais sofreram. Neko-chan estava em París, sua cidade natal, mas havia insistido que ele me enviasse para morar com ela, que prometia me colocar na melhor escola de París. Ela e Usagi-san haviam combinado tudo. Meu niichan iria morar com Usagi-san, assim poderia fazer faculdade sem preocupações. Ele era muito estudioso, e havia passado para Mitsuhashi, mas desistiu de tudo para trabalhar e cuidar de mim.
Depois de muita conversa, Usagi-san convenceu Neko-chan a fazer um discurso. Aparentemente ela havia ganho o premio Naomori, e se tornar a mais jovem escritora a ganha-lo (ela tem 27). Depois que voltamos ao salão, para o alivio de todo mundo da Marukawa, o mar de pessoas a tragou para longe de nossas vistas. Aproveitei logo a deixa para que ele me contasse mais sobre ela.
-Kiomi-chan é minha prima, a meia irmã mais nova de Kaoruko. Ela é a única pessoa da minha família com quem realmente eu pude contar. Ela me apresentou a Takahiro e a varias outras pessoas. Na verdade, essa mulher sempre foi uma catalizadora de relacionamentos, e todos os casais que juntava davam certo. Infelizmente, ou felizmente, quando contei a ela sobre meus sentimentos sobre Takahiro ela já havia apresentado-o a Noriko, e eles já estavam apaixonados. Porem, ela me apoiou em cada segundo que passamos juntos. Inclusive nossos pais nos empurravam um para o outro, o que não era exatamente ruim quinze anos atrás, pois sempre tivemos muitas coisas em comum, como o gosto pelos romances. Mas isso jamais foi pra frente, por que a pesar de nos amarmos, sempre foi algo mais fraterno. Até hoje ela me cumprimenta com beijos, mas isso é resquício das nossas piadinhas particulares de quando éramos adolescentes.
-se você esta dizendo...- eu disse, tentando esconder a pontinha de ciúme que escorregava pela minha voz.
Ele notou isso, algo que eu odeio demais nele, e aproximou o rosto minimamente, esquecendo-se que estávamos em um salão lotado de pessoas.
-suki desu- ele sussurrou, com aquela voz macia dele, me fazendo corar até as orelhas.- não se esqueça disso. Apenas você ocupa o primeiro lugar na minha mente e no meu coração. Eternamente. Vamos, eu já agüentei demais disso.
-espere ai, mas e Neko-chan?
-eu ligo para ela amanha. Tenho coisas mais importantes a fazer agora.
