Capitulo 6: Me tirem daqui!
No final das contas, eu estou aqui, morando com ela. Não é muito difícil viver com Usami Kiomi. Basicamente, ela tem os mesmos hábitos Dele. Excetuado o fetiche por ursos de pelúcia.
E não, eu ainda não consigo dizer o nome Dele.
Ela acorda todos os dias de mau humor, então ir falar com ela nesse horário é assinar sua sentença de morte. Ainda cedo ela desce para tomar café da manhã comigo, e faz questão de me deixar na faculdade de carro. Quando eu chego, ela esta escrevendo algum romance com caras se pegando, e não é nada bom ir incomodá-la, sob risco de não voltar. Geralmente eu cozinho, mas algumas vezes ela insiste em tentar fazer algo. Nunca da certo. E quando ela esta feliz, ela afaga minha cabeça, mesmo que ela seja menor que eu. A única diferença é que ela não fuma, mas compensa bebendo.
Basicamente, ela tem os mesmos hábitos Dele. Inclusive um em especial que me irrita.
Hoje, por exemplo. Eu fui chamá-la para o jantar, em um dos muitos quartos vagos da casa, que ela usava como escritório. Quando cheguei, ela estava lendo um caderno azul. Como eu a interrompi, ela ficou com ódio de mim, e veio até a porta, os olhos azuis em chamas. Eu não soube o que dizer quando ela começou a falar alguma coisa em francês. Eu tentei perguntar o que diabos ela estava falando, mas ela não parecia entender nada. Provavelmente estava bêbada.
Ela me puxou para a cama, me jogando La com força. Ela continuou falando.
-o que?- eu perguntei, sem compreender suas intenções. Ela me respondeu em francês, como se tivesse decorado aquela fala. - espere um... hey, me solte!- eu disse, tentando me levantar, o que era bastante complicado com ela me prendendo. Neko-chan revelara-se muito forte hoje. Eu me virei para ela, tentando me levantar, mas ela afundou meu rosto no colchão, sem deixar de falar, baixo e pausadamente, num tom que me lembrava... Não, eu me recuso a falar. Numa explosão de nostalgia, eu me vi na minha primeira aula com Ele. Ela estava fazendo exatamente as mesmas coisas que ele. e ela não se tocava do quanto aquilo me feria.- hey! Sua desgraçada, o que pensa que esta fazendo? Pare com isso!- assim como Ele, ela puxou o cordão da minha jaqueta, com o rosto perigosamente próximo do meu pescoço, e colocando a Mao livre por baixo da minha camiseta, até sair pelo espaço da cabeça, apossando-se do meu queixo. –espere um pouco! Pare com isso, sua pervertida!- eu gritei, enquanto seus lábios roçavam delicadamente meu pescoço, fazendo voltarem todas as lembranças sobre ele. Eu tentava esquecê-lo, mas diante disso tudo voltava. O dia em que nos conhecemos, a péssima primeira impressão, o anúncio do casamento do niichan... No inicio Ele era autoritário, e eu quase o odiava. Mas depois Ele se revelou uma pessoa extremamente doce, pelo menos comigo. Foi ai que eu percebi que o... Que o amava. Os dedos dela se moviam sobre meus lábios. E prosseguiu exatamente como Ele havia feito.
Depois de tudo isso, ela simplesmente me soltou e colocou a Mao na minha cabeça.
-excelente.- ela disse, se levantando e puxando novamente o caderno que estava lendo, como se nada tivesse acontecido.- então foi isso o que o baka do meu primo quis dizer...
-o que!?!?- eu perguntei, novamente sem compreender aquela maluca.
-eu te falei, estou fazendo umas pesquisas para meu próximo livro. Um dos meus maiores ajudantes vem sido o Akihiko. Ele me emprestou seu diário.
-voce quer dizer esse caderno aí?
-não, não- ela ironizou- esse aqui é o Death Note que eu tomei do Raito Yagami. Tome, pode olhar.- ela disse, como se não houvesse problema algum.
Realmente não havia. Eu não podia ler aquilo nem que quisesse: estava em francês.
-por algum motivo inexplicável, ele resolveu escrever seu diário em francês. Alem disso, ele ainda usa códigos, extremamente poéticos.
-e como você faz para decifrar isso tudo?- eu disse, passando as paginas. Eu me perguntei, inconscientemente, se havia algo escrito sobre mim, enquanto olhava para sua linda caligrafia. Eu podia não entender nada, mas sua letra era bonita. Lembrava as ondas do mar.
-não adianta só entender de francês. Ele faz continuas citações a poetas europeus e alguns japoneses. Também precisa ter lido seus livros, por que nele tem algumas pistas sobre seu modo de pensar e as pessoas a quem se refere. É muito complicado. Ele nunca chama as pessoas pelo nome, também. Há três personagens que me irritam, o "amor precioso", o "pirralho irritante" e a "nova luz da minha vida". O meu foi o mais obvio, e um dos poucos que consegui decodificar. Sou a "salvadora"...- ela riu.- para o restante, eu preciso fazer umas experiências.- quando eu descobrir qual era o seu apelido, eu te conto, ok? Obviamente Akihiko não ficara bravo, por que, pelo que ele me disse, ele te contou absolutamente tudo.
-se você diz...- eu falei, engolindo a tristeza.- bem, o jantar esta esfriando. Vamos comer.
Seria maravilhoso que ela estivesse certa. Mas nunca vi nenhum conto de fadas que virasse realidade. Principalmente para homens.
