Palavras para me explicar, pedir perdão ou seja lá o que for seriam, nesse momento, absolutamente inúteis.

Fiquei ANOS fora do universo do FanFiction, sem atualizar aqui, ignorando as pessoas que haviam deixado reviews maravilhosas e demonstrado o quanto se importaram com a trama, como torciam pelos acontecimentos. Essas pessoas me falaram de suas expectativas com relação ao que eu escrevia e sobre como esperavam uma atualização nova – e eu simplesmente as decepcionei ao máximo, desaparecendo. Um monte de coisas chatas e complicadas aconteceram na minha vida neste meio tempo, mas vocês não são, evidentemente, culpados disso, e nada justifica a ausência.

Mesmo nesse período de distância, eu própria tendo mudado bastante, a consciência me atormentava um bocado, e eu sabia que tinha de voltar para, ao menos, terminar Sina. Tenho ainda muitos planos com relação a histórias, mas, se estes não se concretizarem, seria bom que pelo menos eu acabasse o que havia anteriormente proposto.

Provavelmente ninguém ou muito pouca gente vai ler, até porque nem devem mais manter a esperança de uma atualização. Isso era, na verdade, bastante improvável, considerando-se meu distanciamento. Mas eu nunca deixei de me sentir em dívida com as pessoas especiais que liam, que comentavam, e por isso adotei o firme propósito de finalizar este projeto. Espero que haja aí alguém para apreciá-lo, especialmente a Yuuki, que é minha madrinha em fanfics e a pessoa a quem essa aqui em particular é dedicada.

No mais, beijos a todos e espero que gostem. Ao final vocês lerão mais palavras minhas. Este é o penúltimo capítulo desta fic.

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IV – Honrar (Parte III)

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"Eles querem você, Hyuuga Neji".

Por um momento, foi quase possível enxergar o som no ar. Ele saiu em câmera lenta da boca de seu tio, veio em direção ao seu ouvido em ondas sonoras trêmulas, quase murmuradas, mas ainda assim com uma força descomunal. O som bateu-lhe primeiro no lóbulo direito, mordendo-o, não do jeito provocante e ao mesmo tempo carinhoso que Tenten sabia e costumava fazer, mas com força suficiente para parecer arrancar sangue, suprimindo-lhe todas as energias em um ósculo sufocante. Depois, o som escorregou, sinuoso, pelo canal auditivo, alcançou o labirinto, desnorteando aquele ninja habituado às batalhas a tal ponto que ele por um momento perdeu a noção de onde ou como estava; a onda sonora por fim atingiu como um raio o ponto cerebral da compreensão, e ali explodiu.

E então a certeza de tudo o venceu de uma forma ao mesmo tempo desesperadora e serena. Sim, eles o queriam. Queriam seus olhos plenos de mistérios, queriam as habilidades ninjas que ele explorara ao máximo e relacionara, quase como genes delicadamente tecidos por seu próprio organismo, à sua técnica ocular. A ciranda da vida enredava-o novamente e, depois de ter cobrado daquele garotinho de quatro anos o peso que fora viver sem a referência paterna, agora pretendia cobrar do homem o peso da própria vida.

O sorriso de Neji, irônico e mordaz, ainda se mantinha nos lábios finos. O ninja ergueu a cabeça lentamente, para olhar, com olhos de pedra, a face de seu algoz, seu carrasco, seu carcereiro – seu tio.

"Então eles me querem", murmurou. "Certamente o conselho patriarcal dos Hyuuga já sabe da correspondência que o senhor mencionou ter recebido.".

"Conversei recentemente com eles.". A voz continha um leve traço de emoção e alguma dor, mas que o mais velho controlava a todo custo. "Cremos todos que nos equivocamos ao pensar que, após tantos anos, a vila da Nuvem teria se esquecido de nós e de nosso poder. O plano deles apenas foi amadurecido enquanto esperavam a oportunidade necessária, além do ninja necessário.".

Agora o sorriso de Neji se fora, substituído por uma raiva fria, crescente e desesperadora.

"E é essa a desculpa que você quer me dar!". Levantou-se da cadeira, traçando lentamente um círculo em torno do móvel, crispando as mãos em uma tentativa desordenada de manter o controle. "O sábio clã Hyuuga, mais antigo do que o próprio sistema de vilas, foi capaz de uma falha estratégica tão óbvia!"

Sua voz baixou para um murmúrio, tão cheia de modulações que, por um instante, pareceu lembrar a frágil criança que ele fora, e não o forte shinobi de agora.

"Meu pai estava errado, então?". Hiashi encarou-o sem entender. "Ninguém é voluntário para o sacrifício, não é? Somos todos reféns de uma tradição muito maior. Não há Hizashi. Nunca houve Hizashi...", a voz pareceu sumir totalmente, mas o timbre voltou. "O que há não somos nós. Há apenas o clã Hyuuga, e para ele somos ocasionais marionetes.".

Hiashi ergueu a fronte para olhar o sobrinho nos olhos, e Neji ficou surpreso de ver, no transparente daquelas retinas, resquícios de lágrimas que, no entanto, jamais cairiam. A idade do homem jamais estivera tão explícita quanto naquele momento. Foi preciso apoiar a mão no espaldar da cadeira onde estivera sentado; mas, após esse breve momento de hesitação, Hiashi foi capaz de erguer a voz dura e dizer:

"Não me fale em marionetes, criança", e quando Neji ousou entreabrir os lábios para protestar, o olhar duro do tio o fez calar-se imediatamente. "Ninguém tanto quanto eu lamenta a morte de Hizashi... nem mesmo você, na sua inocência infantil tão brevemente cortada com a morte prematura de meu irmão, teve necessidade dele tanto quanto eu tive ao longo dos anos, e ainda tenho; e toda vez que penso que...". Hiashi meneou a cabeça grisalha, sentindo os anos pesando sobre seus ombros curvos, mas respirou fundo e pôde prosseguir. "Toda vez que penso que sentenciei a morte de meu irmão, sinto que marquei meu passaporte para o inferno, que eu deveria ter ido no lugar dele. No entanto, Hizashi morreu também para ser seu exemplo... e digo-lhe com toda convicção que nunca quis que o filho de meu irmão tivesse a mesma sorte.".

O velho transpôs a mesa até conseguir ficar frente a frente com o sobrinho. Ergueu a mão tétrica para tocá-lo no ombro direito e encará-lo de perto, para só então completar:

"Você acredita em destino, Neji? Quanto mais penso neste assunto, mais creio que há algo acima de nós, uma força sádica e que gosta de nos maltratar. Sim, Neji, irei duplamente para o inferno, porque amaldiçoei o meu irmão, e porque agora me vejo obrigado a também amaldiçoar você".

Neji abaixou os olhos. Era incapaz de falar.

"Todas as exigências que você fizer serão atendidas. É certo que você nunca constituiu família, mas se houver alguém...", Neji ergueu os olhos, assustado, por um segundo, será que o tio saberia?, "enfim, qualquer pessoa que você escolher será beneficiada e terá fartura até o fim de seus dias. Um memorial pode ser erguido em seu nome, se você assim o desejar... O clã sempre o honrará, e seu nome jamais será esquecido.".

Neji sorriu tristemente. "Se crê que o meu desejo é obter fama e homenagens após a minha morte, então você nada sabe da minha conduta shinobi.".

"Ao contrário, Neji", replicou o tio. "Creio conhecê-lo suficientemente bem para poder dizer, em segurança, que também creio que o nome do clã está acima de qualquer um de nós. E quem sabe não sejamos todos marionetes do mais amargo dos destinos?".

Hiashi desviou o olhar, e seu tom de voz pareceu mais pesado e emocionado do que nunca.

"Tudo que fiz foi errado, Neji", murmurou. "Não tenho quem me suceda, estou velho e já vivi demais para o cargo que ocupo... enquanto não há ninguém que possa preencher o lugar do velho patriarca. E mesmo agora, que vejo o fim da vida não muito longe... o máximo que posso fazer é lançar sobre o melhor dos Hyuuga a sua sentença de morte.".

As palavras deram voltas no mais profundo da consciência de Neji. Sentença de morte.

Havia quem dissesse que, no instante da morte, toda a vida passa, em um único segundo duradouro, diante dos olhos daquele que partirá. Ao receber a sentença inexorável de uma morte inadiável, fora fácil para Neji recordar, quase que inconscientemente, de tudo. Ele viu a criança que fora, tão crédula e amorosa a princípio, tão trêmula e receosa diante do corpo inerte do pai, tão vingativa e plena de ódio nos anos que se seguiram.

Viu a si mesmo no Chuunin Shiken, a ponta dos dedos atingindo o ponto exato que faria a prima odiada, Hinata, cuspir sangue no assoalho. Jamais teria perdido aquela luta – não só por causa da incapacidade de sua oponente, mas sobretudo porque suplantar a souke era para ele uma suprema honra. Para a vila, aos olhos de seu sensei, Gai, dos demais avaliadores e até mesmo do Terceiro Hokage, ele era o genial rebento do clã mais tradicional de Konoha. Dentro dos muros que resguardavam a família, no entanto, ele jamais pudera se livrar das amarras de seu nascimento supostamente inferior. Por isso, não admitiria perder para a principal herdeira.

Viu a si mesmo sendo observado por boa parte dos habitantes da vila, lutando contra um escandaloso ninja de roupas berrantes – Naruto, o pior aluno da academia em anos e alguém que jamais poderia superar um gênio como ele. Confessou o destino de ódio dos Hyuuga para toda Konoha e viu, incrédulo, a inimaginável vitória do jinchuuriki se materializar diante de seus olhos. Após a luta, um pergaminho colocado diante de si revelara uma verdade até então escondida. E os questionamentos da criança de outrora voltaram, cada vez mais visíveis.

"Pai, o destino é como uma nuvem que flutua numa corrente pré-determinada?

Ou ele é capaz de pegar a corrente que ele mesmo escolhe?

Eu ainda não entendo...

De qualquer forma, nós devemos acabar da mesma maneira."

Aquela criança de treze anos tinha sido tão sábia – era o que Neji via então. Ah, sim, estava escrito em algum lugar que o seu destino e o de seu pai eram traçados pela mesma mão dominadora, contra a qual não adiantava lutar – só de pensar em tal batalha já se sentia física e emocionalmente esgotado. Em algum canto de sua mente uma cena fugaz reluziu – ele segurando Tenten pelos quadris, movendo-se com raiva e urgência, os gemidos dela enchendo o quarto, o suor de ambos mesclando-se ao longo de uma madrugada inteira. Agora sabia que adoraria ter aquilo para o resto da vida. E, claro, também sabia que nunca poderia ter, ainda mais depois daquela conversa – embora precisasse urgentemente de uma última dose. E então se decidiu.

"Faço uma exigência apenas, Hyuuga Hiashi", disse o jovem, a voz novamente decidida. "Que me sejam concedidos mais quatro dias, a contar de hoje. Na manhã do quinto dia me deslocarei sozinho para fora de Konoha, e não desejo ser acompanhado por ninguém. Até lá, tudo acerca de nosso acordo deverá ser mantido em absoluto sigilo."

Em quatro dias ela voltaria. Apenas aquilo lhe era necessário. Ao ouvir as palavras do sobrinho, Hiashi aquiesceu com a cabeça. Havia em seus trejeitos, apesar de tudo, um certo alívio em ver que, como o pai, Neji lidara passivamente com a perspectiva da morte. Para o jovem, os questionamentos de infância pareciam enfim ter encontrado uma resposta.

"Pai, o destino é como uma nuvem que flutua numa corrente pré-determinada?"

"Agora eu sei, pai", pensou.

"Sim, acredito em destino", murmurou Neji. "E há como lutar contra o mesmo?", perguntou, curvando a cabeça diante do patriarca.

"Creio que não, Neji.". A voz de Hiashi tinha a gravidade de quem lança um estigma.

E é isso que sou, concluiu Neji. Um estigmatizado. A bouke sempre será marcada pelo estigma da honra.

Lentamente, o joelho direito curvou-se. Depois o esquerdo. Em poucos segundos o ninja estava ajoelhado, rendido, diante de Hiashi, que, com medo de sua voz trair aquela decisão, apenas estendeu as duas mãos sobre os ombros de Neji, um após o outro.

Hiashi precisou puxar o ar do fundo dos pulmões para poder concluir aquela solenidade sem hesitar.

"Faça o que tem de fazer, meu filho."

O sol de fim de tarde encontrou uma fresta na cortina entreaberta e por ali entrou. No chão, projetadas em tamanho maior do que os modelos originais, estavam as sombras do tio, que comandava. E do sobrinho, que se submetia.

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Encolhida em posição quase fetal, escondida em um nicho logo à esquerda da sala principal da biblioteca, oculta entre uma estante de mogno mais extensa e uma reentrância natural pertencente à arquitetura da casa, Hinata chorava.

Ela conhecia aquele esconderijo há muito tempo. Ele lhe servira diversas vezes, quando o peso de ser uma Hyuuga e a tímida consciência de sua inabilidade para tal tarefa a haviam invadido na infância, e ela precisara desesperadamente de um local para chorar. Diante dos olhos duros de Hiashi, que a treinava desgostoso, sem esconder de ninguém – muito menos dela mesma – que Hinata era a sua maior decepção, ela não conseguia nem, por um lado, superar suas limitações e provar ser digna da confiança desestimulada do pai; nem, por outro, parar de derramar lágrimas de desespero. Se havia algo que Hiashi detestava mais na filha primogênita do que o fato de ela ser um desastre ambulante era o fato de que, para tudo e por tudo, ela sentia uma súbita e incontrolável necessidade de chorar. Suas lágrimas pareciam surgir a todo instante, e muitas vezes o pai fora irônico a respeito, interpretando o sinal físico de dor como a evidência suprema da fraqueza incondicional de sua herdeira.

Desde bem menina, Hinata sabia que deveria parar de chorar, ao menos na frente do pai. Mas como, se a dor que experimentara desde as suas mais remotas lembranças não tinha tamanho, e parecia ser fisicamente impossível evitar que as pequenas gotas escorressem silenciosas por sua face, deixando, ao chegarem aos lábios, um familiar e amargo gosto de desprezo? Após algum tempo, descobrira que escapar era a solução.

E começou, desde a mais tenra infância, a procurar lugares onde se esconder.

A princípio, encontrou vários. Mas muitos dos locais que ela achara excelentes se revelaram óbvios, e algum criado ou parente acabava a encontrando nesses seus redutos, com os olhos inchados e as bochechas empapadas. O pior de tudo era quando Hiashi a descobria. Nesses casos, era tão fulminante o olhar, mistura de repulsa e nojo, que seu pai lhe dirigia; era tão sintomático o fato de ele nunca a recolher em seus braços fortes, sempre optando por enviar o integrante mais inferior da bouke para recolhê-la, evidenciando o quanto a detestava; tudo era tão opressor que Hinata apenas encolhia-se mais por dentro do amplo casaco que utilizava, parte dela querendo provar para o pai que conseguia – e a parte maior desejando evaporar, menina para sempre.

Mas por debaixo das vestes a menina se tornara mulher. Não fora demorado o desenvolvimento de seu corpo, trazendo-lhe situações com as quais não sabia muito bem lidar, tornando-a alvo súbito de múltiplos olhares, apesar da timidez evidente e da discrição nas roupas. Nada disso a atraía. Desde os primeiros passos na academia ninja, desde a época em que toda a sua geração era gennin, mesmo na época em que todos a mandavam se afastar de um certo jinchuuriki, ela sempre tivera para quem olhar.

Naruto. Apenas a lembrança do ninja hiperativo já era capaz de fazer seu coração apertar, e as lágrimas derramadas em oculto na biblioteca pareciam ficar ainda mais quentes.

Aquele menino loiro, de olhos azulados, só podia ser um anjo. Metáfora óbvia, Hinata sabia, mas não havia como escapar daquela associação. Sim, era totalmente estranho encontrar, por longos anos de desolação, a única alegria na imagem gravada de um garoto que sequer a conhecia e que, provavelmente, mal sabia de sua existência. Porém, era assim que funcionava. A força dele era o que a fortificava; seu anseio em tornar-se valoroso aos olhos da vila a animava; sua promessa de mudar, um dia, as regras do clã, feita durante a batalha contra seu primo na Arena Chuunin, a acalentava.

Acima de tudo, aquele sorriso encantador a fazia sorrir. E nem mesmo em seus sonhos mais doces imaginara um dia ser digna da felicidade de ter não só o sorriso, mas sua atenção genuína e sincera, seu carinho gentil, e – por que não dizer? – inclusive seu amor.

Ironicamente, sua alegria viera da catástrofe. Quando Pain invadira Konoha e Naruto tornara-se refém daquelas mãos torpes, a coragem fora rápida em vencer a timidez, o medo da perda a estimulara, o impulso de um autosacrifício movera suas pernas em direção à luta e abrira seus lábios na confissão tantas vezes em seu coração gravada e regravada, mas cujo conteúdo jamais ousara proferir em voz alta.

Onde estava aquele impulso para se sacrificar, agora?

Hinata colocou as duas palmas de suas pequenas mãos bem abertas sobre sua boca, tentando abafar um soluço maior que poderia denunciar sua localização. Felizmente, sua habilidade para a camuflagem era bem treinada. O fato de ter sido sempre considerada como uma atacante inábil, somado ao fato de pertencer, junto a Kiba e Shino, a um grupo de rastreadores, fizera com que investisse na dissimulação e apurasse seu talento para o disfarce de um modo tão afiado que mesmo dois shinobis de elite e portadores do byakugan, tais como Hiashi e Neji, poderiam facilmente não notá-la, a não ser que estivessem em um nível de atenção muito apurado – o que, felizmente para si própria, não era o caso. Mas o ruído a poderia entregar, e ela calou o som com tanta força que sua garganta doía.

Ela sabia que devia tudo a Neji. Que o primo misterioso e taciturno, que até mesmo já a odiara, também era seu guardião, e representara uma espécie de apoio silencioso tão importante para ela que sentia muitas vezes vontade de jogar-se aos seus pés, implorando perdão por ter nascido na souke e por isso ser sempre vista como superior a ele, quando na verdade ela é que era a menor entre ambos.

Hinata sabia que a Nuvem ficaria extremamente satisfeita em tê-la. Seus olhos eram tão valiosos quanto os de Neji; eles certamente preferiam os olhos astutos de seu primo, um ninja muito mais famoso e experimentado, mas, se soubessem do selo que trancaria aqueles poderes após a morte do portador, seria a ela que desejariam.

Sabia que a atitude mais honrada seria levantar-se da prostração em que se encontrava, revelar-se ao pai e ao primo, gritar o absurdo daquela situação, e oferecer-se em sacrifício, reparando a entrega de Hizashi no passado, e demonstrando de uma vez por todas que aquela separação estúpida entre souke e bouke não valia nada, que a honra de um ninja está em sua conduta e não é, nem nunca foi, determinada pelo acaso de seu nascimento, e que, por aqueles motivos e tantos outros, Neji era quem deveria ficar, tornar-se um brilhante líder de clã no futuro, conduzir o exército dos Hyuuga a uma vitória definitiva sobre o povo traidor da vila da Nuvem.

Mas Hinata também sabia que ela nunca conseguiria fazer nada daquilo, mesmo sabendo que era o certo. E ela não conseguiria por causa dele, Naruto.

Não sabia como poderia abrir mão daquela alegria que lhe coloria o mundo. Era egoísta demais para abrir mão da felicidade que, após tantos anos e à custa de muito esforço, à revelia de tantas lágrimas derramadas, finalmente a alcançara. Durava há tão pouco tempo aquela alegria tão intensa que se aproximava do êxtase, renovada na doce rendição que era estar com Naruto dia após dia, quando os intervalos entre as constantes missões o permitiram. Acostumara-se a viver com ele os dias de folga, cozinhando no pequeno apartamento, sorrindo ao vê-lo saudar cada refeição e divertindo-se com ele em tantas situações cotidianas que representavam pequenos flashes de incalculável satisfação. Era tão incrível que tinha medo de acordar daquele sonho bom, do qual voluntariamente não sabia como se desprender.

Ela não sabia também como poderia viver sem sensações mais recentes que seu namorado – era tão doce chamá-lo assim – lhe trouxera. Hinata sentia a quentura subir-lhe ao rosto ao lembrar das mãos ásperas e salpicadas de cicatrizes, mãos de um ninja, que Naruto possuía, e de como elas eram tão hábeis ao desatar todos os nós que ainda poderiam estar sobre seu corpo, apertando sua pele branca com força suficiente para fazê-la arquear as costas e inclinar a cabeça para trás, em um maldisfarçado gemido. Lembrava dos dentes mordiscando-lhe o pescoço, da voz sussurrada, que arrepiava seu corpo até lugares antes desconhecidos, dizendo "Hinata, não sabe o quanto estou querendo você...".

Lembrava dos primeiros contatos trocados, em geral no sofá do minúsculo apartamento que ele tinha. Ali ficaram evidentes a inexperiência dela e o desejo dele, e a mescla entre aqueles dois elementos gerava uma faísca que ansiava por se tornar incandescente a cada toque, a cada beijo.

Lembrava da primeira noite, que Naruto planejara de modo romântico, espalhando velas aromáticas pela casa, e de como o jeito atrapalhado dele – que acendera as velas muito antes da hora em que eles deveriam efetivamente chegar ao apartamento, após o jantar – quase causara um incêndio nos aposentos. Ambos ficaram preocupadíssimos, correndo de um lado a outro carregando baldes de água e apagando cada foco; lembrava das gargalhadas amorosas que ambos davam, sentados no chão, sujos devido à correria, à fuligem e às poucas cinzas. Lembrava que ele a carregara para o banho, e ficara nua, totalmente nua, diante dos olhos dele, que a encarava com veneração. Lembrava dele ter se ajoelhado, com ternura e respeito, diante dela, pedindo permissão para prosseguir; e ela dera.

Lembrava que, debaixo do jato de água fria, a língua dele tinha gosto de pecado, um pecado proibido e por isso mesmo bem mais gostoso, que ela adorava cometer. Lembrava que ele a erguera pelas pernas, escorando-a na parede, e que os lábios dele em contato com seus mamilos umedecidos a fizeram gritar como jamais julgara que poderia ser possível. Lembrava que a inevitável consumação daquele ato lhe trouxera ondas de dor, que ela tentou amainar enterrando forte os dedos por entre os fios de cabelo loiro de seu amado, mas havia também o inexprimível prazer de tornar-se uma só com ele; e lembrava que, enquanto o sangue lhe escorria pelo corpo, só conseguia pensar que seria por toda a vida a mulher daquele homem, e de nenhum outro mais.

Hinata chorou com mais intensidade. Sua felicidade custava muito caro. Para que seu sonho bom com Naruto pudesse perdurar, ela não poderia salvar Neji, entregando-se voluntariamente à vila rival. Ela nunca teria coragem.

A pouca atitude que ela talvez pudesse ter esvaíra-se na tarde anterior, quando ela recebera alta do hospital e, na saída deparara-se com o namorado a esperando. Ele a pegara no colo e a levara para o alto do monumento dos kages, bem sobre a cabeça daquele que, agora, toda a vila sabia que era o seu pai.

Lado a lado, os dois sentados: aquilo já representava para a Hinata a suprema felicidade. No entanto, algo mais estava por vir. Após as perguntas cotidianas, Naruto chegara mais perto dela, colocando a mão em seu rosto, assumindo o tom sério que raras vezes aparecia na sua fala.

"Hinata... eu melhor do que ninguém sei que você é uma ninja forte e corajosa. Duas vezes você salvou minha vida" – e Hinata lembrou-se, sorrindo, de uma época, há alguns anos, em que ele lhe dissera a mesma coisa. "Muitas missões completamos juntos, outras você completou sozinha ou com o seu time, e sei que você obteve sucesso em quase todas elas.". Ao dizer aquilo ele sorriu de modo carinhoso, gesto ao qual ela retribuiu.

Mas o sorriso dele foi substituído por um semblante preocupado.

"Acho que, no fundo, eu nunca pensei que pudesse perder você.". Ele fez uma careta distraída. "Ou até pensava, mas tinha medo de admitir. O fato é que ver você ser atingida e quase raptada... na verdade, se não fosse o Neji ter te seguido, nem sei onde e como você estaria agora...".

Hinata ia escutando as palavras de seu amado com um arrepio na espinha. Era em parte o medo posterior ao trauma, o grande susto que lhe vinha quando pensava nas coisas horríveis que poderiam ter acontecido caso tivesse mesmo sido raptada. Por outro lado, havia naquele arrepio uma pontinha de prazer. Porque era muito bom ver o quanto Naruto temera por ela, e porque um pressentimento secreto lhe dizia que as palavras seguintes iriam mudar sua vida.

Naruto pareceu hesitar, tomado pelo nervosismo. Mas continuou. "Hinata... há um certo tempo eu já sabia que você era fundamental na minha vida. Acho que só demorei um pouco pra perceber!". Ele riu, aquele riso que ela amava. "Então... eu não sou muito bom com as palavras, mas eu apenas queria dizer que ter você ao meu lado é mais do que essencial... e eu estarei sempre aqui. E isso é uma promessa.".

Nesse instante Naruto retirou uma pequena caixinha vermelha do bolso.

E então o sonho mais impossível se tornou real.

Hinata pressionou a aliança pendurada no cordão de prata que utilizava no pscoço, escondido sob a hitaiate. Não podia, por enquanto, exibi-la ogulhosamente no dedo anelar, já que, afinal, era a herdeira de um clã importante e, antes de oficializarem um casamento naquelas circunstâncias, tantas burocracias estavam para ser cumpridas. Mas o compromisso para ela valia mais que qualquer anel, que qualquer reino, que o universo inteiro.

Hinata sabia que jamais abriria mão daquilo, e por isso não parava de chorar.

Chorava porque era uma covarde.

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CONTINUA...

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Como foi difícil escrever esse capítulo.

Quem lê o mangá sabe que recentemente aconteceu algo com o Neji (não direi aqui o que é para não dar spoiler a alguma pessoa desatenta que porventura por aqui passar). Só isso já dificulta tudo, embora eu ache que a situação do Neji no mangá possa ser reversível – sabe-se lá o que Kishimoto fará até o final dessa guerra ninja na qual o mangá atualmente se encontra. Acho que isso, somado às ideias que cercam a fic, tornou tudo ainda mais complicado.

Quando idealizei essa fic, há alguns anos (e mais uma vez me perdoem pelo sumiço), não tinha escrúpulos em fazer o Neji morrer por seu clã. A proposta da fic era exatamente mostrar que existe um destino, uma sina – daí o nome da fic – da qual o Neji não conseguiria escapar, nem se quisesse. Mas foi complicado escrever, especialmente essa conversa com o Hiashi. Hesitei muito, mudei muito antes de fazer a versão final, que continuo achando ruim, mas que publicarei mesmo assim, senão o arquivo fica rolando no meu computador para sempre, sem nunca ser publicado. Todas as críticas serão aceitas, e provavelmente estarão muito certas.

Com relação a essa "segunda parte" do capítulo, gostaria de dizer: não odeiem a Hinata, por favor. Na verdade, gosto muito dela e meu casal preferido de todos os mangás que conheço certamente é ela com o Naruto. Ainda assim, não resisti a dar um certo ar negativo a ela na fanfic, porque ela é a pessoa que não foi capaz de salvar o Neji, e colocou a própria felicidade adiante da moral e da honra familiares. Como julgá-la? Sem querer, criei uma situação negativa para ela – e ao mesmo tempo complexa. O paradigma me parece tão interessante que não resisti a ele.

Há duas referências explícitas ao mangá no capítulo. A primeira é a recordação de Neji quanto às suas frases infantis – "Pai, o destino é como uma nuvem..." e o mais que segue são as frases que Neji diz para si mesmo após ler o pergaminho que Hiashi lhe entrega, quando acaba sua luta na Arena Chuunin. Achei-as extremamente pertinente. A outra referência está mais para o final do capítulo, quando Naruto diz a Hinata que ela duas vezes salvou sua vida. Não inventei a frase – ele realmente disse isso a ela no mangá. Não direi em que contexto para, mais uma vez, não dar spoiler, mas acredito que alguns irão se lembrar.

Se alguém ainda estiver aqui para ler, seja um dos antigos ou algum novo, eu realmente agradeceria muito se me deixassem algum recado, mesmo que seja para me criticar ou me espinafrar – admito que mereço.

E espero especialmente ainda encontrar por aqui Uchiha Yuuki, Makaylla012, SunaHikaru, Aeryshu, Megume A, Naia Riedel, Lust Lotu's, Prisma-san, Hyuuga Tenten, Hyuuga Ale. Por todo o carinho demonstrado, obrigada, obrigada e obrigada.

Espero encontrá-los no próximo capítulo – acho que todo mundo deduziu que terá encontro NejiTen, com provável hentai e mais um monte de coisas que minha mente ainda inventará. Porque não, eu não me decidi por um final adequado para essa fic, e aceito sugestões.

Próximo capítulo: Amar