Fazendo A Aposta


Em meio às ruas da cidade, reinava o silêncio com poucos pedestres presentes. Mal sabiam essas pessoas, assim como o restante de sua população, que algo podre e perigoso se espreita por baixo da cidade.

Nessa hora, uma tampa de esgoto se ergueu e dali, Mihoshi e Kiyone saltaram às pressas do buraco, correndo em desespero. Todos ao redor viram a cena, mas não sabiam o que dizer. Precisou Kiyone lhes passar o alerta.

"FUJAM, SALVEM SUAS VIDAS, SE NÃO QUISEREM VIRAR LANCHE DE UMA GÉLEIA TAMANHO-FAMIÍLIA."

De início, não pareciam acreditar, mas bastou a gigantesca massa de lodo vermelho translúcido explodir do esgoto como um gêiser pra população correr a toda. Quem teve o azar de não se agilizar na hora, foi envolto e absorvido pela criatura, sendo sugado até os ossos, literalmente.

A dupla recém fugitiva se apressou em ficar longe da criatura, ainda mais do que tinham visto ela ter feito quando a descobriram.

"Corre, Mihoshi, corre. Não vai querer virar sobremesa daquela coisa, né?"

"Nem pensar. Não quero terminar assim, não antes de te dizer algo de grande importância."

"Deixe pra falar quando estivermos longe...ou se for o fim e espero que não aconteça agora. Ali, naquele beco."

Mihoshi e Kiyone aceleraram na direção de um beco escuro, esperando haver uma passagem pro outro lado, mas por infelicidade, o acesso pra rua seguinte viu-se fechado por uma cerca e caixas de lixo. Não tinham como escalar e as caixas eram fracas demais pra poder subir. Ambas se encostaram na cerca.

"Ai, não. Não temos pra onde ir, e aquela coisa já sentiu nosso cheiro." A loira apontou pra rua, observando a imensa massa rastejando na direção da viela. Kiyone buscou olhar para todos os lados, esperando haver outra forma de escapar. Foi que seus olhos viram algo no meio de um armário quebrado.

"Olha, Mihoshi. Tem uma porta ali. Me ajuda a tirar essas tralhas do caminho." As duas moças foram tirando os pedaços do armário da frente, evitando serem pegas pelas partes maiores que poderiam acertá-las. Nesse meio-tempo, o lodo ambulante ia de encontro com elas.

"Por fim, saiu tudo. Entra, Mihoshi." Kiyone segurou na maçaneta, esperando que a porta estivesse destrancada.


Passando pela porta, se puseram a segurar firme a maçaneta com esperança da coisa não entrar. Olhando ao redor, nada além de uma completa escuridão, mas sem aviso, uma iluminaria de teto se acendeu, revelando uma mesa verde e três homens sentados. Um de meia-idade usando óculos e vestido como um croupier de cassino, segurando um baralho e parecendo ansioso em distribuir as cartas em sua mão. À sua esquerda, via-se um homem de cabelo roxo arrepiado sem camisa, exibindo um olhar de quem desejava matar alguém logo e por último, um indivíduo enorme com pouco aspecto de gente normal, tendo pele azulada pálida, uma longa cabeleira com algumas pontas lembrando chifres e olhos amarelos sem pupilas, vestindo uma túnica vermelha e preta lembrando um traje de lutador. Era como se fosse um tipo de demônio.

"Ei, olá, meninas. Já era hora de chegarem." Cumprimentou o croupier com gentileza.

"Que olá, o quê. Venham aqui logo nos ajudar com a porta. Estamos em grande perigo." Avisou Kiyone, mas os homens não pareceram fazer caso. "Sabem onde é a saída?"

"Estão segurando a porta dela agora." Respondeu o de cabelo roxo.

"Ei, tentem relaxar, meninas. Não tem nada." Falou o sinistro do grupo.

"Dá licença, mas o que está se passando?" "O que você acha, hein?" Disse o sujeito sem camisa pra Mihoshi com impaciência.

"Me digam, Mihoshi e Kiyone? Que acham de um joguinho amistoso de baralho? Conhecem Vinte-E-Um?" Perguntou o croupier no seu modo relaxado.

Não notando qualquer sinal de movimentação do lado de fora e até sem saber como sabiam seus nomes, as duas moças largaram a porta e se ajeitaram em duas cadeiras vazias na mesa. Haviam muitas dúvidas se passando em suas mentes e perguntas a serem respondidas.

"Vocês são de verdade?"

"Sinto dizer, Kiyone, mas o monstro fez de vocês aperitivos."

"Conversa fiada. Qual é a de vocês, hein? Como sabe quem somos?" A mulher de cabelo longo indagou irritada. O cara sem camisa tratou de falar.

"Ora essa, estamos perdendo tempo. Tão dentro ou fora, gurias?" "Hmmm. Tamo fora." "Se é assim, prossigamos com o jogo."

"Como quiser. Ah, Kiyone e Mihoshi." O croupier levantou um só dedo pra porta. "Eis a saída." E de lá, se escutava novamente o grunhido da monstro de massa vermelha, tendo a impressão de que as aguardava do lado externo. Mihoshi olhou preocupada, mas se mantando positiva.

"Ei, Kiyone. Não dá pra darmos um tempinho aqui?"

"Nessas circunstâncias, amiga...acho que dá tempo pra um joguinho rápido. Estamos dentro." A dupla feminina retomou seus assentos. O croupier sorriu contente pela resposta, mexendo incessantemente em seu baralho.

"Sábia escolha, queridas. Certo, damas e cavalheiros. O jogo é Blackjack, mais chamado por aí de Vinte-E-Um e o objetivo, chegar o mais próximo de vinte e um sem ultrapassar esse número. Reis, Damas e Valetes equivalem a dez e o As, dependendo do caso, é um ou onze. Dúvidas ou perguntas?" Mihoshi levantou a mão. "Sim, Mihoshi?"

"Sim, quero saber...tem um prêmio? Se é uma aposta, deve estar valendo algo, não?"

"Mais uma vez, cavalheiros e damas, a aposta é...SUAS ALMAS." Ele praguejou, exibindo uma expressão demoníaca, literalmente, deixando claro não ser um humano com quem lidavam naquela hora. A loira tomou um susto, se abraçando na sua parceira. Kiyone a amparou gentilmente. Logo, o croupier regressou a sua face humana. "Adora fazer isso."

"Estão cientes do que se passa, meninas?" Perguntou o grandão com aspecto sinistro.

"Bem, creio que sim." Mihoshi falou, se recuperando do susto e vendo como a coisa funcionava. Se soltando da mulher de cabelo esverdeado, buscou se recompor.

"Sendo assim, posso distribuir as cartas?"

"Espera. Se importa de eu segurar o baralho um pouco?" Pediu a moça bronzeada.

"Lamento, mas não é permitido que veja as cartas."

"Não quero ver as cartas, só segurar o deque. Pelo tato e peso, sinto se há cartas marcadas nele. Não vou olhar, prometo. Por favor?" Pediu a garota com ares de inocente, brilhando seus grandes olhos como faróis. O homem das cartas não tinha como resistir e lhe deu o baralho. Mihoshi levantou e baixou a mão com o baralho, mostrando um olhar meio sério, algo contrário do que sempre expressava. Lambeou a ponta do dedo e passou-o nas beiradas das cartas, encostando o ouvido como se buscasse algum som incomum. Os presentes viam aquilo meio desconsertados, inclusive Kiyone. Depois de alguns segundos, devolveu o baralho.

"Certo, está tudo bem, vamos ao jogo. Mas queria pedir o seguinte: quero que Kiyone seja a terceira a pegar as cartas e me deixe em último lugar, tudo bem?"

"Hmmm. Pedido meio estranho. Alguém faz objeção?" Ninguém, até mesmo sua companheira, disse nada. "OK, meu bem. Se quer ir nessa ordem, de boa."

"Dá pra ir logo? Dê as cartas, sim?" Perguntou irritado o cara de cabelo roxo.

"Ok, ok. Dando as cartas bobas agora." O croupier seguiu o procedimento: uma carta virada para cada jogador e a pedido de Mihoshi, deixou Kiyone e ela em terceiro e quarto lugar na distribuição. Mais uma leva de uma carta cada foi passada aos participantes, estas viradas pra cima. Kiyone se virou pra Mihoshi.

"Olha, espero que saiba o que está fazendo. Viu só como quem estamos lidando?"

"Calma, Kiyone. Admito que me assustei de começo, mas estou pronta pro que der e vier. Acredite em mim. Já nos meti em alguma enrascada da qual não pude nos livrar?"

Era algo inquestionável tal afirmação. Verdade que Mihoshi parecia um imã pra encrencas, mas que ela era capaz de desfazer o nó da confusão, nisso Kiyone tomava partido e se ela dizia ser capaz de tirá-las dessa, punha a mão no fogo por essa certeza. Os jogadores observavam as cartas, dando a impressão de uma luz do passado estar se abrindo em suas mentes...

Continua...