Jogada Arriscada


"Ah, não. Essas cartas estão ruins pra mim." Kiyone se queixou ao notar o alto valor dos naipes em suas cartas, somando vinte. Nem tinha coragem de pegar sua carta virada, já temendo o pior. "Creio que tenha perdido."

"Ora. Então está desistindo? Muito triste ter que saber, mas se está se rendendo..." O croupier parecia animado com o espírito baixo de Kiyone e quando ia estalar os dedos, Mihoshi interveio.

"Para. Não pode levá-la agora. Kiyone, por favor, não se dê por vencida. Pode parecer não ter saída, mas..."

"Mihoshi, sejamos realistas. Não há chance desta última carta me salvar. Lembra que até eu perdia pra você em boa parte do tempo em que jogávamos? Claro que ganhava às vezes, mas agora...não sinto ter essa fé. Melhor você me deixar e sair enquanto está por cima."

"Isso jamais, querida. Prometemos dar apoio uma pra outra em qualquer situação em que nos metêssemos. Você já me salvou de umas e boas mais vezes do que sei contar e não vou te largar nessa hora tão difícil. Ei, senhor moço do baralho." Ela se voltou pro homem, ou seja quem fosse por trás daquela aparência, desafiante. "Quero aumentar a aposta: o dobro ou nada."

"Dobro ou nada? Raramente me propõem algo assim, mas diga o que tem em mente."

"Aumento a aposta: minha alma e a de Kiyone com a carta que tenho virada mais as cartas dela. Se eu errar, leva nós duas; se eu ganhar, nos liberta. Você aceita...ou prefere desistir?" Nessa hora, a moça de cabeço verde se virou apavorada.

"Como é? Mihoshi, sua cabeça de bolha. Faz ideia de onde está se metendo? Acha que vai conseguir...?"

"Kiyone, por favor. Confie em mim. Alguma vez eu te decepcionei ou fiz algo que não pude corrigir? Não desista. Por mim."

O olhar penetrante da loira bronzeada era um fator que Kiyone reconhecia em sua amiga desde crianças. Quando lançava esse brilho nos olhos, era um sinal que tudo iria dar certo e jamais houve oportunidade que pudesse ter falhado. Recuperando a confiança, Kiyone acenou com um leve sorriso, certa do que iria vir.

"Obrigada, querida. E então? Topa a aposta...ou se rende?"

"Você tem coragem. Eu aceito, as duas almas por essa jogada. Melhor estar pronta para pagar." Falou o homem com ares de que tinha a certeza da vitória. Mihoshi e Kiyone se sentaram, esperando para dar a virada que decidiria tudo.


Nos esgotos, não havia nada que não fosse lixo e águas poluídas, deixando a lugar meio instável para uma caminhada segura, sem contar o odor fétido remanescente do acúmulo de resíduos, porém, havia chão seguro o bastante para colocarem os pés e irem na direção da cidade. Mihoshi e Kiyone iam iluminando por onde andavam para evitar buracos ou escorregões, o que se deu mais de uma vez pela quantia de limo contido nos chãos. Mihoshi precisou ser pegar umas duas vezes pra não cair na água suja.

"Cuidado, Mihoshi. Vai saber o que se esconde nessa sujeirada. Cara, sinto pena de quem trabalha em esgotos."

"Nem me fale. Por isso que assino abaixo-assinados pra controle de poluição e colaboro com a manutenção dos esgotos. Não só pela nossa saúde, mas pela preservação da água. Jogando toda essa porcaria, só apressamos o esgotamento do suprimento de água. Devia ser em coisas assim que a ciência devia ser empregada, não em fazer melecas comedoras de gente e animais."

"Que vai ser o destino dessa cidade se não apertarmos o passo ligeiro. Vamos, deve ter um bueiro para acessarmos as ruas da cidade. Assim que sairmos daqui..."

Mas quando ia falando - BAM - um tiro passou raspando pelas duas amigas, as assustando. Ao se virarem, um grupo de soldados com roupas isolantes as tinha na mira.

"Fiquem exatamente onde estão. Mais um passo e cairão mortas. Agora venham pra cá e se rendam." Ordenou um dos soldados com o rifle ainda quente do tiro.

"Nos rendermos? Para nos darem de comida pra aquela gelatina super desenvolvida? Nem em sonhos. Se nos quiser, venham nos pegar." Kiyone disse desafiante.

"Bem, se vão agir assim...homens, ao meu sinal, atirem. Um, dois..." Entretanto, por pura coincidência, uma rajada de água suja desceu de um cano no teto, atingindo os soldados em cheio, os distraindo instintivamente. Nessa chance, Mihoshi e Kiyone se puseram a dar sebo nas canelas pras galerias mais altas. tão logo se limparam na medida do possível, os soldados retomaram sua perseguição, exceto por um que ainda tirava água de sua arma.

"Ótimo. Agora estou pronto. Ei gente, me espereeeee..." O chamado do soldado acabou esticado e logo cortado ao ser puxado por alguma coisa e ao se virar, foi sua última visão antes da enorme massa vermelha o envolver.

"NÃO, SAI DAQUI, SAI. NÃÃÃÃÃOOOO." Sendo estas suas palavras finais antes de sua cabeça ser coberta e digerida, levando a gigantesca criatura a ir adiante por mais comida.

A dupla de mochileiras ia firme na corrida, contudo tomando cuidado com poças e limo escorregadio, buscando ficar longe do pelotão armado que cuspia balas quentes contra as perseguidas, sem estar ciente do que vinha em seus calcanhares. Mais soldados iam sendo capturados pelo monstro devorador, mas seus companheiro de fronte não davam conta do acontecido.

Por fim, Mihoshi e Kiyone encontraram uma escada de acesso para a rua, se mostrando ser bem firme pra subir. Ao escalarem, se depararam com uma tampa, porém não tinha tranca ou demonstrava ter algo fechando a saída.

Quando iam abrir, um disparo foi escutado. Ao olharem pra baixo, era o líder do pelotão apontando um revolver. Pela expressão, dava a ideia óbvia que não ia permitir a fuga delas. "Tá legal. Chega disso. Desçam por bem ou vão tomar chumbo. Talvez convença o doutor a ser mais clemente com duas lindezas como vocês."

"Desculpe se não engolimos essa, mas se nos quer, venha nos pegar aqui em cima." Mihoshi falou toda corajosa. Ela tinha medo, mas não queria mostrar para não fazer feio. "E além disso, não notou que seu pessoal desertou? Não estou vendo ninguém aí com você."

"Como 'desertou'? O que quer dizer...?" Ao se virar, viu que de fato Mihoshi tinha razão. Todo o grupo sumira como por encanto, exceto por um soldado de pé há poucos metros, mas parecendo estranho. "Ei, você. Onde estão ou demais?" Sem resposta. "Fale comigo." Nada foi dito. "Qual o seu problema? Quando eu digo, deve..."

Mas ao chegar perto, o líder ficou horrorizado, já que o soldado tinha seu traje preenchido pela criatura de lodo por dentro e por trás do visor, seu rosto semi-devorado e sugado para baixo, caindo pra dentro da forma principal do monstro. Sem pensar, se virou e correu pra escada do bueiro.

"ME AJUDEM. ME AJUDEM, POR FAVOR. AQUELA COISA DEVOROU MEUS HOMENS." Ele implorava chocado quando subia a escada, mas de repente, algo o segurou. Ao ver, era o monstro que o alcançara. Em desespero, tentou atirar, mas os tiros nada fizeram. "Por favor, não me deixem morrer."

Apesar do que ele queria fazer antes, Kiyone se recusou a abandoná-lo, descendo para lhe dar a mão, mas tudo que pôde foi segurar seu cinto de armas. Mihoshi quis ajudar também, mas a força delas não era o suficiente para puxar o apavorado homem segurado pela monstruosidade abaixo. Mesmo assim, davam tudo de si.

Infelizmente, o esforço acabou sendo em vão, pois numa puxada, o monstro gelatinoso puxou o soldado para baixo, não deixando para as garotas nada, exceto seu cinto de armas com um revólver e granadas. Nada puderam fazer senão ver o pobre coitado envolto no truculento corpo mole, sendo devorado em segundos.

"Nossa. Ele virou aperitivo."

"E vai ser o mesmo conosco e a cidade se não sumirmos agora daqui. Rápido, abre a tampa." Ordenou Kiyone para sua companheira que logo obedeceu, indo ligeiramente ao notar a criatura subindo buraco acima.

Em meio às ruas da cidade, reinava o silêncio com poucos pedestres presentes. Mal sabiam essas pessoas, assim como o restante de sua população, que algo podre e perigoso se espreita por baixo da cidade.


Nessa hora, uma tampa de esgoto se ergueu e dali, Mihoshi e Kiyone saltaram às pressas do buraco, correndo em desespero. Todos ao redor viram a cena, mas não sabiam o que dizer. Precisou Kiyone lhes passar o alerta.

"FUJAM, SALVEM SUAS VIDAS, SE NÃO QUISEREM VIRAR LANCHE DE UMA GELEIA TAMANHO-FAMIÍLIA."

De início, não pareciam acreditaram, mas bastou a gigantesca massa de lodo vermelho translúcido explodir do esgoto como um gêiser pra população correr a toda. Quem teve o azar de não se agilizar na hora, foi envolto e absorvido pela criatura, sendo sugado até os ossos, literalmente.

A dupla recém fugitiva se apressou em ficar longe da criatura, ainda mais do que tinham visto ela ter feito quando a descobriram.

"Corre, Mihoshi, corre. Não vai querer virar sobremesa daquela coisa, né?"

"Nem pensar. Não quero terminar assim, não antes de te dizer algo de grande importância."

"Deixe pra falar quando estivermos longe...ou se for o fim e espero que não aconteça agora. Ali, naquele beco."

Mihoshi e Kiyone aceleraram na direção de um beco escuro, esperando haver uma passagem pro outro lado, mas por infelicidade, o acesso pra rua seguinte viu-se fechado por uma cerca e caixas de lixo. Não tinham como escalar e as caixas eram fracas demais pra poder subir. Ambas se encostaram na cerca.

"Ai, não. Não temos pra onde ir, e aquela coisa já sentiu nosso cheiro." A loira apontou pra rua, observando a imensa massa rastejando na direção da viela. Kiyone buscou olhar para todos os lados, esperando haver outra forma de escapar. Foi que seus olhos viram algo no meio de um armário quebrado.

"Olha, Mihoshi. Tem uma porta ali. Me ajuda a tirar essas tralhas do caminho." As duas moças foram tirando os pedaços do armário da frente, evitando serem pegas pelas partes maiores que poderiam acertá-las. Nesse meio-tempo, o lodo ambulante ia de encontro com elas.

"Por fim, saiu tudo. Entra, Mihoshi." Kiyone segurou na maçaneta, esperando que a porta estivesse destrancada.

"Essa não. A porta tá emperrada. Me dá uma força aqui." Ambas foram batendo com os ombros pra abri-la, mas não cedia. Pouco a pouco, a gosmenta abominação ia chegando perto. "AAAAHHHH." Gritaram em completo terror da visão atrás delas.


"E então? Pularam o valor?" Pergunto o croupier, esfregando as mãos como que se sentindo vitorioso. Todavia, Mihoshi não tinha em seu rosto a expressão de derrota e Kiyone reparou tal confiança e sabia que não era à toa.

"Se pulamos?" A loira de belos olhos claros viu sua carta e olhou com firmeza pro homem perante dela. "Não, seu bobão. Toma essa." Sua carta era um Ás e somada aos vinte de Kiyone, lhe rendeu a vitória. Kiyone olhou abobalhada para aquele resultado, mas mais esperançosa do que há um minuto e quando caiu em si, pegou o baralho e jogou na cara do croupier, puxando sua companheira pra fora da sala escura.

"Droga. Detesto ver ganhadores, mas não resisto a um dobro ou nada, muito menos quando falam se desisto ou não." Ele reclamou bem aborrecido.


Saindo do prédio, a dupla suspirou com alívio ao notar que a criatura tinha ido embora. Se recuperando, se virou pra Mihoshi e abraçou-a com segurança e carinho. A seguir, lhe passou uma expressão cheia de amor.

"Obrigada, meu anjo, por não ter desistido de nós quando eu já tinha perdido as esperanças. Mas me conta: você sabia o que ia rolar, não é? Por favor, me conta."

"Eu digo, mas agora temos algo mais importante em frente. Como deter aquela geleia ambulante?" Ambas saíram do beco e andaram pela rua, vendo os estragos causados, inclusive os pobres coitados atingidos pela criatura, desde do que foram comidos inteiros até os mais sortudos de escaparem vivos, mas em certos casos, talvez fosse melhor terem morrido devido as feridas resultantes.

"Caramba. Nunca tinha visto tanto horror desde que assistimos a maratona de Hellraiser e olha que ver aqueles filmes me deixou com pesadelos sobre mutilação."

"Nem me diga, mas agora como faremos, Kiyone?"

"Que tal pôr um pouco de fé nessa sua sorte, Mihoshi? Admito que quando a coisa tá feia, sua sorte entra em ação."

"Não que duvide do que fala, querida, mas como acha que isso funcionaria? De repente, olhando para trás e vendo a solução para o problema bem à vista?" E ao se virarem, Mihoshi e Kiyone repararam no imenso caminhão-tanque estacionado e notando o que tinha escrito na porta da carreta, um brilho radiante lhe passou pelos seus olhos, se admirando com alegria.

"A velha sorte de novo?" Perguntou a moça bronzeada.

"Devíamos jogar na loteria." Concluiu a parceira de cabelo esverdeado, olhando pro cinto de granadas em sua mão e certa do plano em sua mente poder dar certo.

Continua...