A Última Jogada


"MEU DEUS. VAMOS MORRER." Gritou um homem ao se deparar com a gigantesca massa vermelha que ia engolindo os pobres transeuntes azarados que caiam na rua enquanto corriam para se salvarem. Os soldados iam com todo fogo que tinham contra o monstro, mas pouco efeito se fazia, levando a vários deles a serem digeridos quando em contato com a forma monstruosa.

Entre os soldados, o sargento Broth começava a se arrepender daquela missão suicida. Verdade que concordara com o novo avanço em relação a arma biológica, porém tinha tido a palavra do doutor Langers que a criatura ficaria mantida sob controle e não atacaria seus homens, somente pra descobrir que certas pessoas não valorizam promessas. Dessa forma, ele seguiu atacando a horrenda bolha viva, mantendo seu pelotão o mais distante possível e protegendo quantos civis conseguisse.

Em uma manobra desesperada, Broth caiu com tudo pra salvar uma mulher e suas filhas presas num carro envolto da bolha monstro, alvejando-o. Foi capaz de atrai-lo pra longe do carro, salvando a família, mas a um custo enorme: acabou agarrado pela perna e puxado para a faminta forma de vida. Como último recurso, puxou o pino de uma granada e tão logo foi absorvido, a bomba explodiu, jogando vários pedaços ao longe. Contudo, foi um esforço em vão, já que os danos puderam ser reparados e as partes lançadas retornaram ao seu corpo.

Ao longe, o doutor Langers se mostrava satisfeito com sua invenção. Nem se importou pela morte do sargento. Em sua visão, era só mais uma pequena perda pela grandiosidade da ciência armamentista.

"Está saindo tudo nos conformes. Meu mascote se mostrou eficaz com sua capacidade de comer tudo que for orgânico. Logo, logo, os tolos do pentágono verão a chance que desperdiçaram e caso não reconsiderem...vamos dizer que haverá mudanças no governo do país."

E a confusão rolava na cidade. Os cidadãos tentavam fugir e os soldados restantes, mesmo com a perda de seu comandante, resistiam ao limite contra a bolha devoradora, esgotando toda sua munição. Completamente cercados e sem mais chance de poderem fugir, rezaram por um milagre.

Sem aviso, um som de buzina de caminhão tomou a atmosfera, chamando a atenção das pessoas. Os que puderam ver, notaram um caminhão-tanque correndo a toda contra a gigantesca geleia viva. Ao volante, estavam Mihoshi e Kiyone.

"Lá está ele, Kiyone, e parece maior do que antes. Também, deve ter se enchido de gente pra ficar tão gordo."

"Então, é hora de um tratamento de dieta ultra-rápida. Mihoshi, tá com as granadas em mão?" A loira mostrou o cinto com as granadas prontas para serem usadas. "Tá legal. Põe o cinto que tá na hora da virada."

Metendo o pé na tábua, a jovem de cabelo verde escuro acelerou o caminhão de encontro com o monstro e no último momento, deu uma grande virada, jogando o veículo e acertando o alvo em cheio. Parecia aos olhos do povo da cidade que estavam seguros, mas tal pensamento foi momentâneo, uma vez que a bolha viva ia se alastrando pelos vãos, envolvendo o veículo tombado.

"Kiyone. Deu certo. Ele está preso sob o caminhão, mas precisamos sair daqui."

"Certo, parceira. Só preciso..." Nesse instante, Kiyone notou que seu conto não soltava. "Oh, meu Deus. O cinto emperrou. Não consigo soltar. Mihoshi, sai daqui rápido. Siga com o plano."

"De jeito nenhum. Nunca que vou te deixar pra virar comida viva dessa coisa." Mihoshi tentou puxar o cinto, mas a trava não soltava. Buscando uma saída, viu o para brisa rachado e num soco, arrancou um pedaço dele e foi cortando o cinto, ao passo que a criatura ia se erguendo.

A tensão e o medo iam tomando as duas bem devagar. Kiyone suplicava pra Mihoshi fugir, mas ela se concentrava em cortar a faixa do cinto e numa golpe final o partiu, libertando a moça. Indo com rapidez, escalaram até a porta da cabine e saltaram, sem antes disso Kiyone largar uma granada armada. Descendo do caminhão, jogaram outras no tanque-trailer, correndo a toda pra ficarem longe da criatura vermelha.

O caminhão acabou todo envolvido, mas subitamente - BUUUUUM - ele explodiu, arremessando seu conteúdo branco e congelante contra a monstruosidade devoradora o cobrindo por inteiro. O monstro gelatinoso começou a parar de se mover, caindo inerte e todo coberto de branco. Sem aviso, ele foi se contraindo e diminuindo, soltando vapor e em menos de 5 minutos, sumiu totalmente, não restando nada além do conteúdo orgânico restante em seu interior espalhado na rua.

O povo se aproximou um tanto receoso por pensarem ainda haver algum perigo, mas para seu alívio, nada tinha sobrado do monstro, somente lamentando a perda das pessoas mortas. Atrás deles, vinha o doutor Langers e alguns dos soldados sobreviventes. A ninguém ocorria um pensamento sequer de que aquele suposto idoso inofensivo que lhes contou da 'ameaça alienígena' e que surgiu quando a bagunça veio a tona.

"Meus amigos." Ele falou para a população. "Lamento por tantas vidas perdidas, mas pensem que teria sido muito pior se não tivéssemos detectado a queda do meteoro e vindo pra cá para evitar o alastramento do monstro. Teremos de fazer alguns exames em vocês para nos certificarmos..."

"PODE CORTAR ESSAS MENTIRAS, SEU ASSASSINO." Escutou-se uma voz vinda de um veículo com tela plana e palco na traseira. Acima dele, via-se Kiyone com um microfone falando bem alto. "Ouçam com atenção. Tudo isso não passa de mentira. Ele veio pra cá usar vocês de cobaias."

"Não a escutem. Ela foi contaminada pelo bacilo alienígena e sua mente está sob o domínio dele. Minha jovem, desça daí e poderei te ajudar."

"Nem vem que não tem, seu sádico manipulador. Gente, acham mera coincidência ele estar aqui tão logo esse 'meteoro' tenha chegado na Terra? Vocês sabem como ele chegou aqui tão depressa e com um grupo pronto? Simples: foi um grande engodo. O meteoro é artificial e aquela coisa foi feita na Terra, mais precisamente num laboratório e o doutor aí foi o cabeça por trás de tudo. Ele precisava de um lugar de testes e escolheu sua cidade como viveiro pro bichinho dele se empanturrar e conseguir dados para sua guerra biológica."

"Pela última vez, devo pedir que desça e me deixe ajudá-la, minha querida, ou seremos forçados a usar de métodos mais fortes." Pediu Langers ao gesticular pros soldados prepararem suas armas, mas Kiyone não se intimidou.

"Ah, quer me ajudar? Se não vai contar a verdade, tenho algo mais concreto. Mihoshi, pode ligar."

Atendendo ao pedido da companheira, Mihoshi ligou seu celular ao sistema de transmissão de tela do carro e baixou um determinado vídeo, mais precisamente a gravação feita por elas no acampamento, mostrando em detalhes e em bom som tudo que tinham visualizado, inclusive as palavras do doutor Langers sobre sua criação e o descaso para com a vida da população local. Lá estava tudo detalhado e sem corte algum. Kiyone via com satisfação o resultado de seu trabalho. O mesmo não tinha como ser dito do idoso cientista.

"E-Esperem um pouco. Não é nada disso que estão pensando. Eu tenho como explicar. Homens, vocês..." Entretanto, ao se virar, notou que os soldados tinham fugido a toda velocidade e com a multidão enfurecida avançando em sua direção, só teve uma escolha: escapar o mais depressa que suas pernas aguentassem, vendo que nem tinha como usar os veículos militares pra fugir, já que não possuía as chaves deles. E lá foi ele com uma turba de linchamento nos seus calcanhares.

"Ha. Tomara que ele curta uma boa corrida." Disse Mihoshi.

"E espero que não o peguem tão cedo...pois acabaria com a diversão." Ela observou contente, mas logo se voltou pra sua amiga. "Olha, Mihoshi. Preciso saber: como previu aquela jogada ao virar minha carta? Não creio ter sido um mero acaso. Pareceu até que tinha em mente quais cartas..."

"Kiyone. Se te contar uma coisa, promete não ficar brava?" A loira disse meio encolhida.

"Ficar brava? Ora, por que eu ficaria? Ah, certo. Sei que teve momentos assim antes que você me irritava, mas nunca que iria ficar zangada ou brava. Talvez aborrecida, mas pode contar que eu serei compreensiva, prometo."

"Bem, se prometeu...lembra quando éramos pequenas e a gente jogava baralho?"

"Sim, me recordo. Era o que você mais apreciava e disse ter aprendido com seu pai que administrava cassinos antes de ser industrial."

"Sabe o que é...eu aprendi a jogar com o papai e sempre fui boa nisso. Gostava tanto das cartinhas para brincar. De tanto mexer, as decorei de tal modo que sei o naipe e número dela só de tocar. Se segurar um baralho, sei dizer se tem cartas marcadas e tocando nas beiradas, qual carta é."

"Caramba. Essa é novidade. Então...isso explica como me vencia na maioria dos jogos, não é?" Kiyone disse com firmeza, mas sem parecer irritada.

"Sim, é sim, mas como ia ficar muito chato eu te ganhar toda hora, às vezes fingia não ter as cartas certas e te deixava me vencer. Me desculpa por não contar. Eu queria, mas quando ia falar, acontecia algo e acabava esquecendo. Me perdoa, Kiyone. Não quis te enganar."

Kiyone ficou parada onde estava, somente olhando pra Mihoshi com seriedade, ponderando no que fazer. Após pensar, foi em sua direção...e a abraçou carinhosamente. A moça bronzeada ficou sem saber daquilo.

"Ki-Kiyone? Quer dizer...?" A jovem de cabelo verde lhe fixou o olhar com um sorriso leve e franco.

"Mihoshi, minha cabeça de bolha. Claro que te desculpo. Admito que não gostei muito de não ter me dito esse segredo, pois nunca escondemos segredos uma da outra, porém foi graças a isso que estamos aqui juntas. Mas me conta: era por isso que insistiu naquela ordem da distribuição das cartas com aquele maluco?"

"Foi sim. Ao tocar na beirada do baralho, pude memorizar as cartas e suas posições, considerando os resultados que iriam sair. Daí, só foi preciso pedir pra ele te dar as cartas em terceiro lugar e pra mim em último. Dessa forma, iríamos ter o que precisávamos para nós duas vencermos."

"Nós duas, você disse?" Kiyone mostrou-se confusa. "Espera um pouco. Tá dizendo que, mesmo que não tivesse feito o lance de dobro ou nada, eu ainda teria ganho sozinha?"

"Foi, mas fiquei preocupada de você querer desistir antes e acabar sendo levada sabe-se lá pra onde e isso eu não ia deixar, não com você, e sabe por que?" Veio um balançar de cabeça sem saber se queria dizer sim ou não. "Pelo que queria te dizer caso não saíssemos vivas: eu te amo. Sou apaixonada por você."

"Você...me ama?" Veio um sim bem baixinho. Kiyone abriu um sorriso mais largo e seus olhos brilharam. "Estou mais do que feliz de ouvir isso dos seus lábios, porque sinto o mesmo. Tenho cultivado essa paixão há anos, só esperando a hora certa de contar, e quero muito mais. Mihoshi, casa comigo?"

"Casar? Nós duas? Eu...eu...ah, claro. Eu quero sim." Kiyone e Mihoshi se juntaram num longo beijo, mostrando o quanto seus corações eram respectivos a tal relação. Nem se deram contar de alguns cidadãos ali perto que ficaram em lugar de caçar o cruel cientista. As duas disfarçaram assoviando ao se separarem. "Err, tudo bem? Como estão passando esta noite?"

"Muito melhor do que há 10 minutos." Disse um homem com jeito de dono de hotel. "Meninas, vocês são duas heroínas. Graças a vocês, nossa cidade foi salva de virar um almoço de self-service daquela coisa melequenta."

"Que é isso. Não foi nada." Kiyone falou descontraída.

"Não, foi muito e queremos recompensá-las. Se quiserem um bom jantar e uma estadia grátis, nossos estabelecimentos estão abertos para vocês. Estejam em sua casa, mesmo que decidam ir embora depois."

"Uau, que joia. Kiyone, vamos ficar um pouco? Falando em comida, me abriu o apetite."

"Não é novidade alguma essa sua fome, mas confesso querer encher a pança também e uma noite numa cama macia viria bem a calhar. Por favor, nos mostrem o caminho."

"Com prazer. Nos sigam." A dupla de mochileiras foi com as pessoas que lhes deviam suas vidas, indo em direção de uma boa refeição e acomodações para descansarem até o dia seguinte, quando retomariam sua viagem.

"Ok então, Mihoshi. Pra onde acha que devíamos ir? Soube de uma cidade de nome Haddonfield em Illinois famosa pelo Halloween, mas não sei bem o por quê."

"Parece divertido. Claro que faltam uns meses até o Halloween e no caminho, poderíamos passar num acampamento chamado Crystal Lake. Soube que é famoso também, mas me preocupo se não iremos nos meter em mais encrencas."

"Que é isso, Mihoshi? Tá até parecendo comigo: esperando que algo vai virar tudo de pernas pro ar. Tá bem que tem vezes que nos deparamos com situações loucas e ridículas como a de hoje, mas não é toda hora que um raio vai cair sob nossas cabeças."

"Sim, você tá certa. Com nomes como esses, Haddonfield e Crystal Lake, o que pode dar errado?"


Enquanto isso, o doutor Langers corria como um coelho fugindo de um caçador da turba determinada a linchá-lo, indo se escondendo de beco em beco, de viela em viela, qualquer lugar onde ficasse oculto.

Entretanto, era sempre localizado e precisava correr e com aquele traje pesado, vantagem na corrida não era algo da qual dispunha. Buscando se abrigar, entrou num beco atrás de um cinema e adentrou ligeiro pra dentro do estabelecimento por uma porta lateral.

Ao entrar, viu a mesa de jogo iluminada e o croupier organizando as cartas, lhe fazendo um gesto pra sentar.

"Noite agitada, não?" Perguntou o homem das cartas.

"Nem lhe digo. Mas e aí? Qual é o jogo?"

"Pôquer. Pôquer de salão. Vai uma apostinha?"

"Oh, claro. Por que não?"

"Então vamos lá, e só vai lhe custar o olho da cara." Num gesto veloz, o croupier arrancou o olho de Langers, o fazendo gritar de dor, tapando o buraco onde estava o olho.

"AAAAHHHHH." E com o olho que sobrou, viu seu globo ocular colocado em cima da mesa, dando a impressão de o estar observando, ao passo que o croupier numa expressão bem maldosa, distribuía as cartas num novo jogo cujo valor ia além do que se pensava.

FIM.


Uma das minhas ideias mais antigas por fim escrita.

Usar o duelo de Shiryu com o Máscara da Morte já estava nos planos, mas pra segunda história, era originalmente o fim de Gendou ikari, contudo não consegui desenvolver o conceito para justificar a presença dele na mesa do jogo ou poder achar um substituto adequando pra escapar da aposta. Assim, me voltei pro clássico Pirata do Espaço(Groizer X) para obter a mecânica necessária.

A Bolha Assassina me pareceu o cenário adequado para o terceiro conto, especialmente se ele pudesse envolver minha linda dupla oposta que se completa.

Quem viveu nos anos 80 e era fã de comédias de amor, vai certamente reconhecer a situação onde Mihoshi e Kiyone se envolveram na parte 4, sem contar as citações de outros filmes do gênero terror mencionados na quarta e última parte.

Sendo um conto baseado num filme de horror, o fim deveria ser algo digno do gênero. Um pouco pesado? Talvez, mas que filme desse gênero não tem algo assim?