Helen McCrory se olhava no espelho com o olhar perdido de quem está com o coração afoito e cheio de dúvidas quanto ao que decidir. Era difícil confessar a si mesma que estava apaixonada por outro homem, que não fosse o seu marido, mesmo sendo uma mulher livre. Era estranho e, ao mesmo tempo, tão normal que a estranheza causada era impactante. O que teria de errado?

Certa vez, quando ainda vivia em Zanzibar, uma estranha lhe disse para abrir os olhos e olhar atentamente para o mundo que a cercava. Havia beleza em tudo e os sonhos sempre estavam disponíveis a quem estivesse se dispondo a alcançá-los, entretanto, nem tudo seria bonito e feliz.

Realmente, nem tudo eram flores, quando o caminho obrigava a deixar para trás coisas e pessoas às quais amávamos. O pior era quando a vida cobrava um preço alto pelo presente ofertado. Quando ela apontava e dizia que estávamos destinados a abrir mão de um amor verdadeiro, daqueles que aquecem o peito e roubam o ar, que só acontecem uma vez na vida.

Respirando fundo e refletindo, ao encarar o próprio rosto, Helen se cobriu com a certeza de que aquele sentimento viveria sempre dentro do seu peito e seguiria mais forte do que todas as realidades à sua volta. Alan Rickman era um amigo, um sentimento, uma presença constante desde o dia em que se conheceram.

Com os seus incentivos, com os seus elogios, com os seus sorrisos ou com as suas palavras tão significativas, não existia um momento em que não a incentivasse para se desafiar e ir mais além na carreira e nos desejos. Era ele quem lhe dava pequenos choques, vez ou outra, para que acordasse e percebesse quem poderia ser mais adiante. Como desistir?

As suas pequenas gotas de orvalho doces e elogiosas, que lambiam o seu ego lentamente e a guiavam para novos rumos, ainda ecoavam em seus pensamentos. Uma vez só na vida, sem uma segunda chance, um amor surgiu. Amor, em estado mais puro, sem que precisasse procurar. Estava ali, se esboçando em gestos que a seduziram e a levaram para um prazeroso jogo em que ele movia céus e terras para vê-la feliz.

Sorrindo para o seu reflexo, Helen lembrou que Alan a comparava com Jane Austen, enfatizando o magnetismo de suas palavras e o frisson de seu olhar. Nas palavras dele, ela sempre seria uma adaga fiada, um vulcão, um desejo oculto e o vento forte que se transforma em brisa para conduzir aqueles que lhe tentassem.

Queria se ver pelos olhos esverdeados de Alan e verdadeiramente tornar tudo mais bonito e intraduzível, refazendo os toques de carinho e o zelo silencioso que os cercavam. Realmente, era algo que não se repetiria.

Uma só vez, mais rápida e mais inteligente do que ele, enchendo a vida pacata daquele homem com um pouco de caos e energizando tudo com as ondas caóticas que representava o seu próprio ser. Como seria escrever um evento único? Um acontecimento que modificou tudo sendo algo tão normal?

Talvez, algum dia, alguém escrevesse uma fábula. Daquelas extremamente clássicas, cheias de moral e ensinamentos, em que se descrevesse a estória de um peixe apaixonado por uma leoa. Mas, como caracterizar o que não compreenderiam? Como descrever o que muitos se negavam a enxergar?

Tateando na escuridão, certamente, um toque perturbador faria com que todos vissem o óbvio... ela o amava também. A leoa se apaixonou também pelo peixe e faria qualquer coisa por ele, apenas para ver em seus olhos o afeto devotado que já ultrapassava todas aquelas demandas meramente carnais.

Apenas uma vez, sem repetição, o abrir de seus lábios expressaram liberdade quando se uniram aos dele. Muitos Martinis, muitos risos, muitos beijos, muitas conversas, muitos e muitos mais. Sinais que mostravam o quanto Alan a enxergava como única. Ela não era só mais uma amiga que entrara em sua vida. Helen sabia que significava mais.

Aquilo era uma memória dos dois que gostaria de ter gravada em sua mente. Como uma tatuagem que marcasse Alan como aquele que acendia o fogo de sua alma, por paixão e por tantos outros sentimentos inconfessáveis.

Lágrimas queimaram os seus olhos. A saudade era um sentimento ácido, nocivo e doloroso, quando a realidade era uma clara despedida e perda. Um até breve que se transformava em adeus, assim que ele entrou no hospital, mostrando a inconstância de seus sonhos.

Saindo do local onde estava, com os braços cruzados junto ao corpo, Helen encarou o céu. Seus olhos castanhos em brasa estavam fixos no horizonte, enquanto secava o rosto com as costas das mãos e pensava no quanto aquela estranha estava certa. Realmente, um amor daqueles não se repetiria, não existiria outro que fosse tão forte.

Era tempo de agir, de expressar com todas as letras o que sentia, de queimar com o fogo incessante do próprio coração e seguir em frente. Mesmo que fosse quebrar a cara e levar o pior fora de sua vida, sempre fora corajosa e decidida. Era mulher e lutaria até o fim.

No entanto, a vibração do celular interrompeu os seus pensamentos, trazendo uma mensagem importante. Frases curtas que indicavam a verdade. Ela era única e o fogo também ardia dentro dele. Abrindo um sorriso que iluminou completamente o seu rosto, Helen concluiu que, incontestavelmente, Alan não poderia amar mais ninguém.