Era uma noite estrelada e de lua negra quando Cordelia e Matthew da carruagem na Gare du Nord. Ela tirou um momento para inspirar o ar úmido e já nostálgico de Paris, antes de se virar para o lado e olhar para seu companheiro de viagem.
As últimas semanas que passaram juntos pareceram como um fragmento isolado do resto da sua vida. Em Paris a gente esquece de tudo ele havia dito logo antes de ela aceitar embarcar nessa inesperada aventura do outro lado do canal da Mancha. E, em parte, ela esqueceu mesmo. Esqueceu a sensação nauseante que foi sentir algo quebrar dentro de si ao encarar James entrelaçado com Grace em um abraço dentro da casa deles. Nunca havia se sentido tão traída quanto naquele momento - exceto talvez por si mesma quando descobriu que tinha aceitado ser paladino de Lilith, um outro capítulo de sua vida recente que queria deixar para trás quando aceitou a escapada para Paris. De fato, os últimos meses foram a própria definição de um carrossel de emoções, de forma que ela nunca tinha vivido e de forma que se esforçou para esquecer.
Repassando os eventos de novo e de novo na sua cabeça nos primeiros dias em Paris, constatou que por mais que a cada vez que compartilhava um momento de ternura ou de plena paixão com James, ela podia sentir lá em seu âmago a conexão arrebatadora dos dois, construindo esperanças falsas apenas para serem estilhaçadas de novo e de novo quando era confrontada com a realidade de que ele não a amava de verdade. Muito provavelmente era apenas o seu desejo sendo projetado naquela situação. Será possível que queremos tanto algo dentro de nós que criamos essa realidade imaginária para nós mesmos? Será que algum dia ela superaria James, mesmo após a anulação do casamento? Foi em meio a mais perguntas que respostas que foi acordada de um transe de ruminações por Matthew na sua terceira noite em Paris, cantando a sua porta na melodia de Ode à Alegria:
Vamos Cordelia vamos sair para dança-a-ar Vamos para Montmartre para desses pensamentos se livra-a-ar
Assim ela foi. Realmente, ela entrou então num modo de esquecimento, deixando-se ser absorvida pela realidade presente de Paris. Sua dor passou a um estado latente, como um ruído surdo no fundo de sua mente, como um oblívio bem vindo, com constantes retoques de anestesia pela atmosfera efervescente, em meio a Nixies dançarinas de cabarés duvidosos, caminhadas sob a garoa Parisiense, longas conversas sobre artistas do novo milênio, refeições impecáveis e, claro, um Matthew eternamente alegre e inquieto.
Ela se lembra da primeira vez que experimentou a sensação de aventura ao lado dele, admirada pelo seu espírito livre. Apenas me deixe ver você feliz em Paris. Ele foi verdadeiramente um companheiro de viagem insuperável, e Cordelia não pode deixar de notar o seu esforço em ficar longe da bebida. Ela sabe o quanto é difícil para ele e o quanto o machucaria se ela o confrontasse, então ela fingiu não perceber os momentos em que ele sumia por alguns minutos no meio de um passeio noturno ou quando ele sutilmente deu alguns goles no seu cantil ontem a noite quando achou que ela estava olhando para o outro lado distraída. Foi nesse momento que ela percebeu que não conseguiriam continuar usando a distração, por melhor que fosse, para fugir dos seus problemas e decidiu que estava na hora de voltar.
Matthew estava a encarando com seus olhos verdes preocupados, porém divertidos, possivelmente se perguntando por estavam parados no movimentado hall de entrada da estação.
- Cordelia? Você vai ficar imóvel por muito tempo ainda? Se sim, vou aproveitar para comprar algo para comer, minha barriga está roncando. - Estamos cometendo um erro em voltar agora?
- Bom, você sabe que eu ficaria aqui, com você. Meu lugar favorito com minha pessoa favorita…Mas você decidiu voltar por um motivo, ainda que você tenha resolvido não me contar qual é, e eu confio na sua decisão porque confio em você, Cordelia. - Você se perdoou?
O olhar de Matthew adquiriu uma camada a mais de uma rara severidade nesse momento. Ele estava tão elegante, Cordelia percebeu, mas sem desrespeitar sua excêntrica maneira de ser, com seu casaco longo e roxo, suspensórios e o cinto com armas escondido pela marca da invisibilidade.
- Me pergunto se algum dia vou me perdoar totalmente. Mas fiz as pazes com a possibilidade de que minha família nunca mais vai me ver da mesma maneira. Vou conversar com eles assim que chegar em Londres, prometo.
- Então, vamos - disse ela pegando em sua mão - não vamos querer perder o trem das 19h
