Névoas rondavam os cantos sorrateiramente, sem perceber por onde andava, Draco se sentia sentimentalmente desnorteado e com o coração partido. Seus sentidos o traíam, seus pensamentos eram obscuros, sua cabeça doía e os seus membros pareciam não corresponder aos comandos que lhe eram dados... em outras palavras, sua vida e mente estavam um completo caos.
Com o olhar perdido, secava as lágrimas que escorriam em seu rosto e considerava aquela notícia recebida como um golpe doloroso. Talvez, quem sabe, fosse uma nova condenação enviada pelos deuses para que respondesse aos crimes cometidos no passado. Não adiantava pedir perdão, quando era incapaz de se perdoar e deixar de olhar para o próprio reflexo como a imagem de um desgraçado desde o nascimento.
A realidade era a de que se encontrava sozinho no mundo. Sua família se resumia apenas a ele e a Scorpius, o seu filho com quem tinha uma relação bastante complicada, após a perda de Astoria. Tal constatação o matava um pouco. Certamente, a maldição que assolava todas as mulheres de sobrenome Greengrass, arrastava todos à sua volta ao precipício.
Certamente, a renovação do seu abatimento se devia ao fato de ter confiado cegamente na possibilidade de que, tão cedo, não receberia outro choque tão profundo e dilacerante. Por meses, talvez anos, foi capaz de crer que a vida lhe dava uma segunda chance, uma nova oportunidade para se tornar alguém melhor e mais decente com todos a quem amava.
Entretanto, mais uma vez, agira como um canalha. Errara cruelmente e, agora, sofria a dor do ressentimento e da culpa por outra morte. Como pôde ser tão cruel e egoísta ao abandonar àquela quem tanto amava e que era a responsável por sua existência?
Narcissa não era merecia morrer sozinha, não merecia passar por tamanhas dores e provações em um quarto escuro, sem ter alguém que lhe segurasse a mão nos momentos mais difíceis em que delirava. Sentindo o peso de carregar mais uma culpa, se questionava onde estava quando a sua mãe faleceu? O que era mais importante do que estar ao lado dela? Por que não levou Scorpius para passar mais momentos juntos com a avós? Por que o privara de construir boas memórias com ela? Que tipo de filho desalmado se transformara para ignorar a saudade que sempre ardera em todo o seu ser?
Dando mais alguns passos lentos, antes de parar perto de uma esquina suja, ignorava os olhares que lhe eram direcionados. O seu modo de agir e suas vestes destoavam das pessoas em seu entorno. Sua mente refletia sobre todos os detalhes de sua própria história, do quanto foi amado e adorado por Narcissa e, acima de tudo, de todos os esforços que ela fora capaz de mantê-lo vivo.
Se pudesse, se algum dos deuses lhe oferecesse uma oportunidade, entregaria toda a sua fortuna para ter uma chance de a olhar bem dentro dos olhos e expressar os seus sentimentos da forma mais sincera que conseguisse. Queria apenas mais um abraço, queria voltar a ser apenas um menino, queria tantas e tantas coisas que eram impossíveis.
O tempo e a morte eram impiedosos demais para lhe proporcionar uma outra saída, lhe dar um traço de esperança, por menor que fosse. O que mais poderia fazer além de chorar?
Respirando fundo, com os olhos fechados para controlar a ansiedade, imaginava sua antiga casa o mais forte possível. O lugar que mais queria estar no mundo, naquele momento, era a Malfoy Manor, onde suas melhores e piores lembranças estavam guardadas.
Estar ali, segundos depois de desejar tanto, em frente àqueles portões e atravessar os jardins significava vencer todos os traumas e destruir a barreira que o afastara de si mesmo por tantos anos. Passando a mão nos cabelos, Draco esticou uma das mãos e empurrou a porta para trás.
Andaria por aqueles corredores de um novo jeito, sem medos e sem aflições que o sufocavam, mas mantendo as mágoas que cresceram com o passar dos anos. Os corredores cinzentos se expunham orgulhosos, como todos os Malfoy que ali habitaram, vigiando os seus movimentos e as suas amargas lembranças. Era uma espécie de renascimento necessário para ter forças e seguir em frente.
Quem sabe as dores que escondia eram muito mais profundas do que as vivenciadas? Como poderia saber se sua mãe sempre se portara como uma fortaleza? Narcissa era uma mulher extremamente discreta e misteriosa, com seus olhos oceânicos, sempre escondendo segredos e pensamentos.
- Mãe, me perdoe por não ter feito muito mais pela senhora, mas eu falhei. Eu juro que queria ter sido um filho melhor... eu... eu sinto tanto a sua falta. Aquele sussurro de dor anunciara o domínio do remorso e o desgosto pela perda. Abraçando o próprio corpo, se sentou na cama e chorou como uma criança machucada gritando pela presença da mãe. Parecia que a angústia voltava violentamente aos seus pensamentos.
Cada detalhe, cada cicatriz, cada receio, cada detalhe que considerava esquecido, estava à sua frente o encarando. Não havia nada que impedisse o crescimento do aperto em seu peito. Desejava com todas as suas forças ter a mãe de volta e, da pior forma possível, compreendera a tristeza de Scorpius desde que Astoria partira.
Seus músculos vibravam ao compasso do seu coração desesperado. Involuntariamente, Draco bateu com um dos braços na cômoda, ao tentar controlar a própria respiração. Olhando para as gavetas, sem pensar em nada específico, os minutos se passaram ainda mais silenciosos do que os anteriores. Seu espírito voltava aos poucos a ter um pouco de tranquilidade, após a explosão, para decidir sobre o que deveria fazer.
Há anos trancada por feitiços poderosos, aquela cômoda representava o muro que Narcissa construíra em torno de si e, ao ser aberta, revelara uma espécie de caderno ou diário. Dúvidas se amontoavam na mente de Draco e se sobrepunham umas as outras. Quais confidências se encontravam ali? Era correto ler desabafos tão íntimos? De que forma ela se mostrara naquelas páginas? Será que em algum momento desabafara sobre os seus segredos mais bem guardados?
Se enchendo de coragem, começou a folhear o diário, parando no dia de seu nascimento. Queria saber como a mãe se sentira após a primeira vez que o viu e guardar aquela lembrança única em seu coração.
Com os olhos fixos no papel, Draco sentia o seu coração na garganta, ao ler as frases que seguiam. Só poderia ser um pesadelo o que estava vivendo. Sua vida não passava de uma completa mentira, uma narrativa trágica em que, a verdade, só se revelou após uma série de desgraças.
Draco descobrira, naquele momento, que não era um Malfoy. Era filho de um homem ao qual Narcissa amou até o último segundo de vida, era um Snape, o que explicava algumas coisas. Como era possível que nunca percebera nada estranho? Ele sempre o tratara como um príncipe e como um menino precioso.
O seu professor predileto, o seu maior herói, o bruxo a quem tanto admirava e aquele que preferira à morte do que denunciá-lo para Voldemort era muito mais do imaginava. Com um sorriso triste, passava os dedos por aquelas linhas, considerando o fato de que Severus Snape era o seu pai. Seu pai e isso teria de ser de algum modo reconhecido.
Draco, após pensar muito no que fazer, decidira que enterraria Narcissa ao lado de Snape. Era uma forma de dizer o quanto se orgulhava dos dois e que gostaria que ambos fossem felizes juntos. Muito mais do que haviam sido ou que, um dia, ele mesmo fora ou poderia ser.
