Ai gente, desculpa…já aviso que termina meio triste de novo. Não sei o que acontece, mas juro de dedinho que o próximo vai terminar feliz, tá?

6x21

Depois daquela conversa, Lisbon pediu desculpa a Pike e alegou que precisava descansar. Evitou desapontar ainda mais o namorado e bebeu de uma vez só a taça de vinho que a esperava na mesinha em frente ao sofá. Se despediu com um rápido beijo de boa noite e subiu para dormir. Pelo menos, foi o que ela disse que iria fazer. Na verdade, ela contabilizou mais uma noite em claro por causa dele, Patrick Jane.

Que tipo de conversa foi aquela? Foi uma briga, uma declaração, uma despedida? Será que aquela sensação de aperto no peito iria passar se ela finalmente aceitasse se mudar com Pike? Aquela tinha sido uma das conversas mais sinceras que ela teve com Jane e mesmo assim, sentia que nem todas as cartas estavam na mesa.

"Eu queria ser o cara certo pra você" - ele teria mesmo dito isso ou era a confusão mental na qual se encontrava que estava criando diálogos que ela apenas gostaria de ouvir?

Ele jamais seria o Pike, o homem que ela conheceu há algumas poucas semanas e, mesmo assim, já era capaz de dizer exatamente o que ele estava pensando, sentindo, suas reações e atitudes. Ok, isso poderia ser previsibilidade demais. Mas qual o mal em ser previsível? Certo, poderia ser um pouco chato, às vezes. Mas, ninguém nasce pra viver uma montanha-russa de emoções todos os dias. Jane era isso, uma montanha-russa. O cansaço ia vencendo aos poucos a batalha contra a ansiedade que a mantinha acordada em plena madrugada. Imagens da montanha-russa na qual andou pela primeira vez na infância vieram à sua mente. Ela passou anos ansiando por uma volta, mas ainda era muito pequena e precisou esperar crescer até a altura permitida. Repentinamente, enxergou Jane sorrindo e estendendo a mão para ajudá-la a subir no carrinho. Ele apertou o cinto de segurança de ambos e pegou sua mão. O carrinho foi subindo vagarosamente e ambos se olhavam, com o sorriso de orelha a orelha. Que sensação gostosa. A mão dele era tão quentinha, parecia o lugar perfeito para a sua própria mão. Hora da descida, ela havia esquecido que era tão alto e tão íngreme. Lisbon segurou a respiração, mas Jane jogou os braços para o alto, levando junto a mão que ele segurava. A descida foi rápida e cheia de gritos de excitação e risadas já quase sem fôlego. Quando o carrinho parou, eles tremiam, o corpo cheio de adrenalina e emoção. Na porta do brinquedo, Pike indicava o caminho para fora: "Acabou o passeio, pessoal."

Lisbon despertou daquele sono inquieto com Pike dando leves batidinhas em sua perna.

"Teresa, está na hora. Temos uma entrevista com o chefe do FBI de D.C. logo mais."

A reunião foi muito melhor do que ela esperava que fosse, mas nem deu tempo de ficar feliz pela ótima proposta de trabalho e já sentiu o incômodo de ter Pike a pressionando por uma decisão. Pior do que isso, só quando Jane apareceu com cara de poucos amigos e um seco "Bom dia, Lisbon" e um olhar para Pike. E se ele simplesmente caminhasse até o casal, pegasse Teresa pela mão e dissesse para o rival algo como "sinto muito, ela não quer ir com você, ela quer ficar comigo" e saísse caminhando com Lisbon ao seu lado para um mês sabático rodando por praias paradisíacas em seu Airstream? Convenhamos, ele já fez coisas muito mais absurdas.

"Teresa? Tudo bem, Teresa?" - Pike e seu olhar preocupado arrancaram Lisbon de seus devaneios.

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Lisbon continuava perdida em seus pensamentos, mas dessa vez, contemplava o nada em sua mesa.

"O que está fazendo?" - Jane chegou lentamente, um pouco mais relaxado.

"Nada. Pensando." - Lisbon tentou soar casual, mas, por dentro, temia que Jane falasse em voz alta cada um dos pensamentos que a incomodavam.

"Em quê? Sobre o sentido da vida?" - ele perguntou, quando queria mesmo saber se ela tinha escolhido uma vidinha perfeitamente monótona ou dar a ele um milésimo voto de confiança.

"Algo do gênero." - nada no mundo a faria confessar que estava pensando em escolher entre uma vidinha perfeitamente monótona ou dar a ele um milésimo voto de confiança.

Foi impossível para Wyllie não notar a reprovação no olhar de Jane enquanto ele se aproximava com os arquivos para orientar a dupla. Lisbon achou esquisito o comportamento do colega, que simplesmente deu meia volta em direção a sua mesa.

"Eu também andei pensando na vida" - disse Jane forçando um ar pensativo. "Pensei em tudo o que você me disse na outra noite."

Lisbon sentiu sua garganta secar enquanto o olhar de Jane penetrava em seus olhos invadindo sua alma de uma forma que poucas vezes ela sentiu antes. Mas ela se recusou a desviar o olhar. Não dessa vez, não importava o quanto sentisse o rosto aquecendo, quase queimando, ela não tinha mais nada a perder.

Jane não sabia como reagir a essa Teresa destemida, sentiu a respiração trancada e deixou escapar um "Wow".

Lisbon foi se inclinando para a frente em direção a ele, os olhos bem abertos quase totalmente negros pela dilatação exagerada de suas pupilas. O que ela estava fazendo?

"Algum novo pensamento que valha a pena compartilhar comigo? Ou prefere esperar mais dez anos para me dizer o que você está sentindo agora?"

Da porta de seu escritório, Abott chamou a dupla para uma reunião e pediu ideias de como conseguir provas contra os suspeitos do caso no qual o time estava trabalhando.

Fingir abrir a barriga de um homem vivo, isso era o exemplo perfeito do repertório de absurdos de Patrick Jane. Raptá-la e fugir para uma ilha não seria nada demais. E ele já sabia até o caminho para a ilha… Lá estava ela perdida em pensamentos novamente.

Mas não havia mais tempo para sonhar acordada, era hora de ir para casa e lá estava Jane, sentado lendo um livro perto de sua mesa. Lisbon respirou fundo e se dirigiu até lá para pegar sua bolsa.

"Como foi com Abbott?" ele perguntou sem desviar o olhar do livro.

"Bem" - sua voz com um fundo de insegurança.

"Obrigado - ele esboçou um sorriso de quem tinha certeza de que ela o livraria de qualquer problema - "Nós formamos um bom time às vezes."

"Sim, fazemos. Boa noite, Jane".

"Espere. Eu não respondi sua pergunta hoje cedo."

Ao notar uma sobrancelha erguida o encarando, ele esclareceu:

"Se eu tinha algum pensamento para compartilhar…eu tenho."

"Jane, não é uma boa hora" - ela trocou o peso do corpo de uma perna para a outra, temendo se colocar em mais uma situação embaraçosa, como na noite anterior.

"Você está indo embora em alguns dias…" - Jane largou o livro e mirou diretamente em seus olhos buscando e encontrando a confirmação do que havia dito - "se não fosse, você já teria dito ao Pike." - ele foi se levantando e continuou falando com sua voz baixa e ritmo cadenciado - "Eu entendo, de verdade. Você está com raiva, magoada, cansada de esperar e tem toda a razão."

Ao perceber a expressão no rosto dela, teve certeza de que ela esperava alguma explicação para o seu comportamento e resolveu dividir todas as suas recentes conclusões:

"Lisbon, eu me forcei a receber migalhas da sua presença. Não me acho merecedor do seu olhar, da sua atenção, do seu carinho. Fui nos mantendo distantes, sabendo que no dia seguinte sentiria o aroma do seu shampoo, ouviria sua voz irritada com alguma coisa que eu fiz. E, mesmo quando Pike apareceu, eu senti um certo alívio. Finalmente, alguém lhe trataria como você realmente merece, com devoção. E eu…eu alimentaria a minha alma com a luz que você espalha por onde passa. Mas eu não pude suportar a ideia de viver num lugar onde você não está. Seria como caminhar sem rumo no deserto."

"Jane, não é uma boa hora porque eu acabei de aceitar a proposta do Pike. Ele está lá embaixo me esperando para sairmos para comemorar." Era exatamente aquele olhar perdido de Patrick que ela queria ter evitado indo embora o mais rapidamente possível. Mas apesar de tudo, ele merecia saber dos motivos para ela ter tomado aquela decisão:

"Eu sinto muito, mas eu não posso viver numa montanha-russa por mais dez anos, sempre na incerteza de que você vai me abandonar, fugir, ignorar minhas chamadas, tomar decisões importantes por nós dois. Você decidiu me proteger antes e, agora, eu decidi proteger a mim mesma. Sinceramente, estou muito orgulhosa de você ter conseguido colocar tudo isso em palavras. Eu mesma, nunca consegui falar em voz alta o que eu sinto…ãhn…sentia por você. Se você tivesse dito muito menos do que isso quando voltou da Venezuela, eu teria pulado em seus braços sem pensar duas vezes. Também estou surpresa com a minha própria reação, mas as palavras não parecem mais ser suficientes. Vamos aproveitar esses dias que ainda temos juntos, ok?"

Lisbon pegou sua bolsa e saiu deixando um Patrick Jane petrificado para trás.

A atmosfera pesada parecia ter engolido Jane, que ficou imóvel por alguns minutos. Aos poucos, sua respiração foi normalizando e os pensamentos voltaram ao seu ritmo de sempre: rápidos, muito rápidos. "Palavras não são mais suficientes", "pularia em seus braços sem pensar duas vezes", "o que eu sinto por você"...

Por fim, ele entendeu que aquela conversa tinha a forma do fim do mundo, soava como o fim do mundo, mas não era o fim do mundo. Ele já esteve em situações muito piores e não iria desistir, nem que tivesse que se deitar na frente do avião para ele não decolar.