Vespertine (Vespertino)

By: Cynchick

Traduzido por: thebittersweetc


Capítulo 1: O Encontro


Há outro lugar?

Além do preto e do branco

Um lugar onde eu possa te encontrar?*


O inverno chegou mais cedo na região norte do país do Relâmpago. Embora ainda fosse fim de outono, qualquer desafortunado viajante obrigado a suportar as temperaturas frígidas e ventos cortantes acreditaria ter sido decerto transportado para o meio do inverno. Haruno Sakura era um desses desafortunados viajantes, e agora ela amaldiçoava sua sorte - e sua shishou – de estar numa missão em um lugar tão remoto e desolado.

Bem, talvez ela estivesse exagerando um pouquinho e morar no país do Fogo quem sabe a tenha mimado. Nem estava nevando ainda, e se Sakura tivesse de ser honesta, ela teria de admitir que o país era, na verdade, bonito e intocado com suas colinas, florestas enevoadas e lagos cristalinos que refletiam montanhas altas e verdejantes. Embora ela tivesse visto o suficiente dessa paisagem em sua viagem de quarenta e outro quilômetros pelo país para bastar por uma vida inteira.

Um vento forte foi a seu encontro quando ela chegou no topo de um morrinho, fazendo-a se encolher ao avistar uma cidade na outra extremidade da descida. Placas alguns quilômetros atrás a direcionaram até ali, mas ela puxou seu mapa e bússola do bolso do casaco só para garantir. As comunidades eram muito afastadas umas das outras, então ela não queria perder horas indo na direção errada.

Após ter sucesso na sua missão de trocar informações e conhecimentos com a médica chefe da Vila Oculta da Nuvem, Sakura fora para a fonteira noroeste do país do Relâmpago concluir uma última tarefa para sua Hokage antes de voltar para casa: Konoha estava com o estoque baixo de várias ervas medicinais que só cresciam em baixas temperaturas e altitudes elevadas, e ela fora mandada para uma dessas regiões. Sakura teve esperança de achá-las em Kumo e ser poupada da viagem extra, mas ela não teve sorte. Tsunade tinha marcado seu mapa com a localização de três cidades que deveriam ter as ervas em estoque, assim Sakura havia escolhido a maior delas, assumindo que seria o melhor lugar para conseguir tudo que precisava.

Uma intensa rajada de vento quase arrancou o mapa de suas mãos antes que ela rapidamente o dobrasse e guardasse no bolso com a bússola. Outra lufada fez seu dente ranger, então ela puxou seu felpudo gorro verde para cobrir as orelhas e amarrou mais forte o cachecol de mesma cor na parte inferior do rosto antes de se arrastar pelos últimos quilômetros até a cidade.

A vila de Moyama ficava aninhada entre os sopés florestados e enevoados de uma enorme cadeia montanhosa. Com um só olhar, Sakura via que esse era o tipo de vila simples e funcional, com poucas conveniências modernas ou comodidades. As construções eram todas de pedra, com telhados pronunciadamente inclinados para suportar fortes tempestades de neve e muitas chaminés - uma vista rara para quem vinha de um país de clima temperado. A ausência de linhas de transmissão ali e nos arredores denunciava que a cidade inteira tirava sua eletricidade de geradores.

Passado pelos portões, ela parou em frente ao guarda e perguntou onde poderia encontrar a clínica. Ele tragou seu cachimbo e a encarou com curiosidade por um longo momento antes de finalmente apontar para a direção certa e voltar sua atenção a um jornal, que ela reparou ser da semana passada. Sakura suspeitava que eles não recebiam muitos visitantes ali. Eles pareciam bastante isolados do resto da sociedade.

No fim, ela nem precisava ter pedido informações, já que só tinham duas ruas que não eram residenciais, que se cruzavam no meio para formar a praça da cidade. Ela estava certa quanto a esse ser um lugar sem extravagâncias; não havia nenhum tipo de entretenimento além de um barzinho numa hospedaria. Eles sequer tinham uma biblioteca, o que era quase um crime na sua opinião. Não que ela estivesse planejando tirar férias lá, mas ainda assim. Lugar chato.

Ela avistou a clínica do outro lado da rua e correu em sua direção, ansiosa para sair do frio, mas foi obrigada a parar quando uma carroça passou a sua frente. O motorista a olhou de forma estranha, seu olhar fixo nela até se afastar e ser obrigado a virar a cabeça. Sakura franziu o cenho para as costas dele e se perguntou se tinha algo estranho com a sua aparência. Após dar uma rápida conferida, ela continuou pela rua. Um sininho tilintou acima de sua cabeça quando ela entrou na clínica, e pelos primeiros segundos ela ficou parada na entrada absorvendo calor, suas bochechas coradas pelo frio formigando ao aquecer.

Uma corpulenta mulher de meia-idade, com cabelo castanho marcado pelo branco, veio dos fundos e sorriu para ela. Ela tinha uma aparência amigável, com bochechas redondas e olhos azuis enrugados e calorosos. — Posso ajudar?

Sakura desenrolou o cachecol do rosto e se aproximou da mesa de recepção. — Sim, eu preciso falar com a médica chefe, por favor.

— Sou eu mesma. — ela disse. — Me chamo Junko. Você tem um sotaque interessante. Não costumamos ter estrangeiros aqui com frequência.

De novo aquele olhar. Ao falar, a mulher a estudou com um olhar astuto que beirava a desconfiança. Sakura não podia imaginar porque incitava essas reações dos moradores. Eles provavelmente só não eram receptivos a gente de fora.

— Sou da Vila Oculta da Folha, no país do Fogo. — ela explicou, observando os olhos de Junko se arregalarem ao reconhecer nome e o que isso implicava. — Me chamo Sakura. Sou a aprendiz da Hokage, Tsunade.

A surpresa de Junko se transformou em entusiasmo. — Senhora Tsunade? Ah, não a vejo há anos! Como ela está?

— Está bem. — Sakura disse amigavelmente. Nunca deixava de surpreendê-la a quantidade de pessoas que sua shishou conhecia de viagens. Sua fama parecia se espalhar por todos os cantos do mundo.

— Fico feliz em saber. E você disse que ela agora é a Hokage? Bem, nada mais justo. Uma mulher tão forte daquelas, fora que eu nunca encontrei uma curandeira melhor em todos esses anos. Você disse ser aprendiz dela? — Sakura assentiu, e Junko sorriu. — Então você deve ser bem talentosa.

Sakura retribuiu seu sorriso com orgulho. — Vim procurar algumas ervas medicinais que só crescem nessa região. Eu trouxe uma lista… — ela deslizou a mochila do ombro e procurou no bolso da frente até achá-la, depois a entregou.

A mais velha leu a breve lista e assentiu. — Você veio ao lugar certo. A maioria dessas ervas são encontradas na primavera, então nosso estoque já está um pouco baixo nessa época do ano, mas num lugar tão pequeno quanto esse, não é toda hora que precisamos delas, sendo assim posso te dar uma boa quantidade de cada. Vou lá nos fundos pegar para você. — ela se dirigiu até a sala dos fundos com a lista em mãos, mas parou subitamente e tornou a se virar. — Ah! Onde estão meus modos, você deve estar cansada após viajar esse caminho todo, fora que deve estar congelando. Fica a vontade, meu bem. Gostaria de um chá?

— Sim, por favor. — ela assentiu com gratidão e se sentou no banco acolchoado colado a parede, grata por tirar os pés do chão. Junko voltou após uns minutos e entregou-lhe uma xícara fumegante.

— Aqui, isso deve te aquecer. Agora eu vou lá pegar as ervas.

Sakura a agradeceu e circulou as duas mãos na xícara quente de cerâmica, inalando o cheiro de camomila com um suspiro satisfeito. Enquanto esperava, ela se distraiu observando a recepção. A clínica era limpa e organizada, mas bem pequena, e provavelmente mal equipada. Populações menores significavam menos pessoas pagando por serviços médicos, o que em troca resultava ma falta de equipamentos avançados ou farmacêuticos. Ali eles com certeza usavam mais métodos holísticos para tratar os pacientes.

Ela sentiu a presença de outras pessoas nos fundos, com certeza outras enfermeiras e até pacientes, mas não deu muita atenção a isso e acabou matando tempo folheando uma revista de decoração do ano passado que achou numa mesa próxima. Ela estava na metade quando Junko retornou com uma pequena sacola de papel nas mãos. Sakura se levantou e foi até a mesa de recepção.

— Pronto; está tudo aqui. Pode falar para a Senhora Tsunade que ela pode vir pegar essas ervas sempre que precisar. No próximo ano podemos até colher a mais para Konoha se quiser.

Sakura sorriu. — Obrigada, vou falar para ela. Quanto eu te devo?

Junko queria dar os itens de graça, um favor para Tsunade, que ela respeitava muito, mas Sakura insistiu em pagar tudo, sabendo que essa pequena clínica não podia se dar ao luxo de dar seus suprimentos assim de graça, mesmo para velhos amigos. Junko no fim cedeu e aceitou seu dinheiro, e então a instruiu sobre o melhor jeito de armazenar e preservar as ervas exóticas. Quando a transação terminou, Sakura perguntou se Junko precisava de alguma ajuda na clínica antes que fosse embora. Movimentados ou não, hospitais sempre precisavam de uma mãozinha extra.

— Ah, não, está tudo bem por aqui. — ela recusou educadamente, porém Sakura percebeu um momento de hesitação velada antes da resposta. Junko então mudou de assunto. — Você vai pernoitar na cidade? Recomendo que sim; o clima fica congelante lá fora depois que o sol se põe.

Sakura considerou a proposta. Já estava fazendo frio e ventando bastante no caminho para lá; ela definitivamente não adorava a ideia de congelar até a morte nas colinas à noite. Seu retorno a Konoha só era esperado em alguns dias, de qualquer forma. — Acho que vou sim.

— Ótimo. Imagino que tenha passado pela hospedaria ao vir para cá? — Sakura confirmou, então Junko deu um riso curto. — Essa cidade é tão pequena que é difícil não ver alguma coisa. Tem um bar no andar inferior, já que você deve estar com fome. Eles fazem um ensopado ótimo para aquecer os ossos-

Junko foi subitamente interrompida por uma pequena comoção nos fundos da clínica. Uma porta bateu. Vozes femininas, apressadas e preocupadas, ecoaram pela recepção junto de passos embaralhados, e então duas enfermeiras emergiram do corredor. Uma das mulheres tinha o braço ao redor da outra, que segurava seu antebraço contra o peito como se estivesse com dor. O olhar que a enfermeira que ajudava a outra lançou para Junko transmitiu uma mensagem importante que a médica pareceu entender perfeitamente, a julgar pela firmeza com que pressionava os lábios. As duas enfermeiras desapareceram na sala dos funcionários atrás da mesa de recepção.

Sakura as seguiu com o olhar e depois olhou para Junko. — Está tudo bem?

A mais velha soltou um suspiro cansado e balançou as mãos despreocupadamente. — Não precisa se preocupar, meu bem. Só estamos tendo um probleminha com um paciente muito teimoso, só isso.

Sakura tinha a impressão que 'teimoso' era um eufemismo velado, se o paciente estava sendo agressivo. — Posso ajudar em alguma coisa? Tenho experiência com pacientes teimosos.

Junko deu um riso curto. — Não, a menos que você consiga segurar um homem adulto na cama enquanto cuidamos dele.

Na verdade, ela conseguia. Mas ela iria embora pela manhã, e se ela deixasse um paciente ressentido ainda mais irritado, essas mulheres teriam que lidar com ele depois. Ela não queria tornar o trabalho delas ainda mais difícil. — Se ele não quer ajuda, então por que veio para cá?

Junko hesitou de novo, relutante em contar sobre os problemas da vila para uma estrangeira, mas após um momento ela cedeu. — Bem, talvez você possa ajudar. Você é uma ninja, certo? Você deve saber como lidar com esse tipo de gente. Talvez você possa nos dizer o que estamos fazendo de errado.

Ela se inclinou sobre o balcão. — Sabe… ele não veio até nós. Ele não é dessa vila ou das proximidades, pelo que sabemos. Esse homem… ele cambaleou pela cidade e desabou na rua umas três semanas atrás. Ele estava vagando… parecia um morto vivo, consegue imaginar? Estava coberto de queimaduras e feridas antigas não tratadas. Acreditamos que ele seja um tipo de soldado porque parecia que ele tinha saído de uma batalha horrível, e se ele acabou daquele jeito, não quero nem saber o que aconteceu com quem perdeu. Nós o trouxemos para cá e o revistamos, mas ele não tinha nenhuma arma, pertences ou identificação. Ele estava desnutrido também - ainda está, para ser sincera, já que ele mal toca na comida que damos a ele.

Sakura estava acostumada com homens cambaleando pela vila e desabando na rua. Às vezes, após uma missão especialmente difícil, era tudo o que um shinobi conseguia fazer para voltar para casa vivo. Mas os cidadãos dessa cidade não estariam acostumados com esse tipo de coisa. — Você não conseguiu descobrir nada sobre ele?

Sakura estava genuinamente curiosa, contudo incapaz de ignorar o alarme soando na sua cabeça. Os únicos militares dessa área deveriam ser ninjas da Nuvem, e estes seriam facilmente reconhecidos pelos locais. Se haviam batalhas acontecendo pelos arredores, ela precisava pegar as informações que podia e repassá-las para a Hokage.

Junko sacudiu a cabeça. — Bem, ele esteve inconsciente pelos primeiros dias, e desde que acordou não falou uma única palavra. Tenho certeza que ele teria se mandado num piscar de olhos se não estivesse tão fraco para sair da cama. — Ela abaixou a voz em tom de conspiração. — Acho que ele pode ser um desertor do exército e não diz nada para não podermos entregá-lo, não que faríamos isso. Não é da nossa conta. Nosso trabalho é salvar. — Seu tom sugeria uma forte desaprovação pelo meio bélico, o que provavelmente incluía a escolha de Sakura em ser ninja.

— Seus ferimentos foram tão graves assim para ele ainda estar de cama três semanas depois?

— Não, eles já estão quase curados, embora não tenha sido fácil devido à infecção que ele pegou por deixá-las sem tratamento por sabe deus quanto tempo antes de parar nas nossas mãos. Quando ele estava inconsciente, nós o examinamos e descobrimos que não só ele estava bem machucado como também doente. Alguma doença que faz ele tossir sangue. No início eu achei que fosse tuberculose, mas não era isso. Não é nada que eu já tenha visto antes nos meus anos todos de medicina. Não sei dizer se é respiratório ou intestinal, e ele certamente não vai me dizer nada, mas de uma coisa eu sei: está matando ele faz algum tempo, e não há nada que eu possa fazer, além de aliviar a dor, mesmo que ele permita. Ele está morrendo, e pelo estado em que está, diria que tem mais uma ou duas semanas de vida. É uma pena; um homem forte como ele, sobreviver a batalha de sua vida, só para morrer nas mãos de uma doença debilitante. — Ela sacudiu a cabeça em tristeza.

— Posso dar uma olhada nele, se quiser. Posso curar com chakra; talvez tenha algo que eu possa fazer que a medicina tradicional não consiga. — Sakura ofereceu, simpatizando com a frustração impotente que Junko estava sentindo.

Junko considerou por um momento, mas finalmente balançou a cabeça em recusa. — Obrigada por oferecer ajuda, mas não posso aceitar. Ele é instável demais e, francamente, perigoso. Ele assusta minhas enfermeiras, e depois do que aconteceu hoje, acho que nenhuma delas vai chegar perto dele de novo. Me preocupo com a segurança delas e da minha também, para falar a verdade, então não vou te pedir para se arriscar.

Sakura suprimiu um suspiro. Aparentemente, a aparência doce e materna de Junko escondia uma personalidade forte e sensata. Ela entendia o raciocínio, ainda que não se aplicasse a ela. Ela estava prestes a dizer ser capaz de se cuidar perfeitamente bem, mas Junko continuou, sua voz ficando baixa e apreensiva.

— Ele está tão fraco que nem consegue andar… e ainda assim consegue machucar o braço da Mai? Tem algo errado a respeito dele; ele tem uma aura bem intensa e desagradável que eu só tinha sentido antes nos tipos errados, se é que me entende.

Sakura estava quase certa, após ouvir Junko, que o paciente problemático no outro quarto era um nukenin. Ela tentou sentir o chakra dele para confirmar sua suspeita, mas ele estava o mascarando, ou estava fraco demais para originar o suficiente para ser detectado.

A maioria dos civis lidava com ninjas de forma cautelosa e suspeita. Eles eram geralmente tidos como um bando de figuras aterrorizantes do submundo. Misteriosos, impiedosos, imorais e capazes de fazer coisas que os incapazes de manipular chakra julgavam desafiar as leis da natureza. Se ele estava estressado e irritado, a pressão de seu chakra era certamente o porquê essas mulheres se sentiam tão nervosas ao seu redor.

— Eu conheci algumas pessoas estranhas e poderosas na vida, sua mestra Tsunade sendo uma delas, — Junko continuo. — Mas esse cara de fato está em outro nível. Você nunca suspeitaria só de olhar - para ser bem sincera, ele é realmente um jovem bonito - mas tem algo… sinistro sobre ele. Shion, minha outra enfermeira, disse que nas primeiras semanas dele aqui, quando ela tentou colocar uma intravenosa nele, ele afastou suas mãos com um tapa e ficou tão irritado que seus olhos ficaram vermelhos. Não sei se ela viu direito ou não, mas não sei o que fazer.

Junko continuou a reclamar sobre seu paciente indesejado, mas Sakura parou de ouvir quando a realidade da situação caiu pesadamente sobre ela. O guarda e o motorista da carroça tinham lhe dado olhares estranhos que ela ignorara. Junko parecera quase desconfiada dela quando comentou sobre seu sotaque do país do Fogo.

"Não costumamos ter estrangeiros aqui com frequência…"

"... desabou na rua umas três semanas atrás…"

"... realmente um jovem bonito…"

"... ficou tão irritado que seus olhos ficaram vermelhos…"

Sakura só conhecia uma coisa capaz de fazer os olhos de uma pessoa ficarem vermelhos após um pico de adrenalina. Quanta coincidência podia ser que exatamente quatro semanas atrás, como parte de uma equipe de busca examinando a fronteira norte do país do Fogo, seu time tenha encontrado os destroços de uma intensa batalha numa antiga fortaleza Uchiha?

Como ele tinha conseguido se afastar tanto do local da batalha com ferimentos tão graves, ou qual era o seu destino, ela não fazia ideia. Mas uma certeza ela tinha.

No quarto ao fim do corredor, há apenas alguns passos de distância, estava Uchiha Sasuke.

Anos após ele abandoná-los por poder e vingança, meses após seu time confrontá-lo no esconderijo de Orochimaru de forma desastrosa, porém agora ele estava a meros passos e completamente ignorante de sua presença.

E de acordo com Junko, ele estava morrendo.

Ele não pareceu uma pessoa com doença terminal quando avançou nela com uma espada carregada de Chidori na última vez que se viram, mas coisas mais estranhas já tinham acontecido antes. Sakura perdeu todas as ilusões a respeito de seu antigo companheiro de time após esse incidente. Dessa vez, ela não sentia nenhuma das esperanças irreais de antes. Ainda assim, ela não podia deixar de sentir algo… decerto não felicidade, mas… alívio? Que ele estivesse vivo, que seu paradeiro e estado não fossem mais uma interrogação. Ela ainda se importava com ele, mesmo após tudo o que ele fizera. Parte dela sempre se importaria, independente de quão irritada, decepcionada e traída se sentisse.

Esses sentimentos conflitantes lutavam por dominância dentro dela, mas o que superou o resto e veio a tona foi uma profunda tristeza e arrependimento. Se o que Junko disse estava certo, se esse era mesmo o seu fim, então ela só tinha uma opção.

— Preciso vê-lo.

Seu olhar sem foco e murmúrio baixo fez parecer que ela estava falando para si mesma, mas Junko a ouviu e olhou para ela com uma carranca surpresa. — Agradeço que queira ajudar, de verdade, mas como eu disse-

— Por favor, — ela insistiu. A expressão relutante de Junko apenas se agravou, e Sakura quase não conseguiu segurar o suspiro de frustração. Se ela parecesse ansiosa demais, a mulher mais velha saberia que ela tinha algo em mente. Ela tentou outra abordagem. — Esses sintomas que você descreveu… acho que já li sobre eles. Acho que sei o que é essa doença. Quem sabe eu possa ajudá-lo. — Talvez fosse uma mentira, talvez não. Talvez ela realmente soubesse. Talvez ela pudesse salvá-lo.

Nesse momento ela só precisava chegar naquele quarto.

Junko a observou com ceticismo, relutante em ceder. Mas como médica, ela não poderia deixar de tentar qualquer opção que pudesse salvar seu paciente, e Sakura sabia disso. Enfim a doutora suspirou e concedeu. — Tá bom. Espero que você consiga fazer algo. — Ela removeu seu estetoscópio do pescoço e o entregou para Sakura. — É a última porta a direita, mas depois não diga que eu não avisei.

— Vou ter cuidado. — Sakura prometeu distraidamente, vestindo o estetoscópio. Era tudo o que ela podia fazer para se impedir de correr pelo corredor.

Mas por volta de metade do caminho, seus passos inconscientemente diminuíram em dúvida. E se ele surtasse ao vê-la e se machucasse de alguma forma? E se ele estivesse tão consumido pela doença que… Não. Ela sacudiu a cabeça com firmeza, com raiva de si mesma por pensar essas coisas. Nenhum dos 'e se' importavam. Ela estava falando de Sasuke. Ela precisava fazer isso, nem que fosse só para ter um encerramento e se despedir.

Parecia estranho que tudo pudesse terminar assim, ali naquela pequena clínica no meio do nada. Parecia errado. Era para Sasuke voltar para eles, para Konoha, seja por uma epifania, senso comum ou o misterioso poder da amizade de Naruto. Uma parte obscura dela, a mesma que ficou mais desesperançosa cada ano que passou após a deserção dele, tinha até imaginado que ele e Naruto se enfrentariam em mais uma batalha épica, e que Naruto ou o traria para casa a força, ou que Sasuke - Deus que o proíba, Naruto também - seria morto.

Portanto, essa conclusão parecia muito… insignificante… para a história deles. Naruto nem ao menos estava presente. Se ela conseguisse entrar em contato com ele, será que conseguiria chegar a tempo? Ele nunca se perdoaria se perdesse a chance…

Bem, então ela teria de achar um jeito de salvar Sasuke.

Sua mão estava tremendo quando ela segurou a maçaneta da porta. Sakura esperou, respirou fundo para acalmar os nervos e se preparou para o que encontraria ali, só então calmamente abriu a porta e entrou.

A cama ficava na parede mais distante, longe da janela - por um bom motivo, dado a óbvia vontade do paciente de estar em qualquer outro lugar. Isso o deixava quase totalmente banhado pelas sombras de fim de tarde, mas Sakura conseguia ver que ele estava apoiado com as costas contra a cabeceira da cama, e embora seu rosto estivesse virado para o outro lado, uma onda de reconhecimento e familiaridade a varreu. Sua linguagem corporal, o jeito como ele se sentava levemente curvado em meditação. Sua pele alva. Seu cabelo preto, ainda que mais longo. E ela podia ver, mesmo a distância, que ele estava tão magro e frágil quanto Junko dissera.

O coração dela batia forte no peito, silenciando quaisquer palavras que ela pudesse ter dito, mesmo que ela soubesse o que dizer. Ele sabia que alguém tinha entrado no quarto, e o silêncio ficou carregado pelo peso de sua irritação. Os segundos se passaram, e quando ela permaneceu parada e incapaz de proferir uma palavra, ele virou a cabeça e a encarou.

O coração de Sakura errou uma batida. Ela piscou uma, duas vezes, tentando ver melhor em meio ao quarto escuro. Ela poderia ter acendido as luzes, mas estava paralisada no lugar, seu corpo se enchendo de uma sensação fria e pesada. Seu coração estava batendo tão rápido que martelava em seus ouvidos.

Tinham se passado várias semanas desde que ela o vira pela última vez durante alguns minutos breves, intensos e cheios de adrenalina. E, claro, uma doença debilitante definitivamente teria drásticos efeitos em sua aparência. Mas nenhuma passagem de tempo ou avanço de doença a convenceriam que esse homem era Sasuke.

Com uma certeza devastadora, Sakura percebeu que o homem a sua frente era Uchiha Itachi.


*Light With A Sharpened Edge - The Used

Notas da Tradutora: Como Loophole e Persephone foram excluídas desse site e eu perdi os arquivos originais (assim, estou impossibilitada de continuar as traduções) resolvi traduzir Vespertine agora que tenho um tempo livre porque não só é minha fanfic preferida de todos os tempos, como também uma das poucas que tenho o download e não corro o risco de ficar sem o material original. :)

P.S: sim, eu vou continuar House of Crows. Eventualmente.