Capítulo 2: O Acordo


O diabo ao seu lado

Te vendo morrer por não achar uma cura

Prazer em conhecê-lo

Espero nunca mais vê-lo de novo*


Sakura estava atônita. Na sua cabeça ela tivera tanta certeza que iria encontrar Sasuke no quarto, e por isso foi completamente pega de surpresa por outra possibilidade. Uma possibilidade cem vezes pior.

Segundos tensos e carregados se passaram enquanto ela o encarava. Uchiha Itachi parecia muito o fantasma que deveria ser, mas isso não a impedia de lembrar tudo o que ele era e não era. Enquanto o choque gradualmente desaparecia, seu torpor foi substituído por medo… e raiva.

Ali estava o monstro responsável por tantos erros, tantas coisas ruins. Um inimigo da nação… que ela também odiava por motivos pessoais. Ele era membro da Akatsuki: a organização criminosa que queria arrancar a alma de seu melhor amigo. Ali estava o agente encarregado de capturar Naruto. Ali estava o impiedoso algoz de Sasuke, a pessoa cujas ações levaram seu companheiro de time a virar as costas para tudo de bom em sua vida. Uchiha Itachi: traidor, terrorista e assassino em massa.

O homem frágil e acamado a sua frente parecia em nada com o nukenin mais procurado de Konoha, agora apagado e quase irreconhecível como o infame vilão que seu time encontrou um ano atrás no país do Vento. Ele nem estivera fisicamente presente - era apenas um clone de alto nível - e ainda assim, ela lembrava com clareza a sensação de estar tão próxima a um inimigo tão poderoso e letal. A energia intensa e malévola tinha desaparecido, esmagada e substituída pela inconfundível aura de um homem moribundo.

Ele dificilmente era uma ameaça a ela nesse estado, embora saber disso não tenha apagado por completo seu medo enraizado.

Esse medo foi amplificado pela preocupação crescente a respeito do que, possivelmente, sua sobrevivência implicava. Itachi fora o vencedor da batalha que destruiu a antiga fortaleza? Isso significava que Sasuke estava morto? O estranho membro da Akatsuki de máscara laranja e o mais estranho ainda que parecia uma apanha-moscas disseram que Sasuke tinha matado seu irmão; o homem planta falara como uma testemunha ocular. Obviamente, ele tinha se equivocado sobre a morte de Itachi… teria ele se enganado sobre Sasuke também?

Subitamente, ela sentiu uma vontade esmagadora de sacudir o bastardo assassino até seus ossos chocalharem e exigir respostas para todas as suas perguntas. Mas ela já sabia que ele não falaria nada que não fosse para tecer um de seus famosos jogos mentais.

— Quem é você.

Não foi o tom neutro e desinteressado ou a rouquidão áspera de sua voz inutilizada por muito tempo que a surpreendeu, mas a questão em si.

Ele não a reconhecia? Eles só haviam se encontrado uma vez, tecnicamente, mas Uchiha Itachi era um shinobi excepcional, e por mais insignificante que ele a tenha achado na época, ele não subestimaria um oponente ou esqueceria seu rosto.

Ela levou um segundo para perceber que ainda estava usando seu gorro e que seu vibrante cabelo rosa-coral estava escondido. Simultaneamente, ela percebeu que o olhar dele estava levemente desfocado, como se ele não conseguisse enxergá-la direito. Ela estava sob uma meia penumbra, mas tinha a sensação que não era esse o problema. Kakashi tinha dito algo sobre sua visão estar deteriorando quando lutaram pela última vez, provocando a única reação emocional discernível que ela viu nele aquela ocasião, como se um terrível segredo tivesse sido revelado. Aparentemente sua perda de visão não era o único segredo médico que Itachi esteve escondendo.

Ele aguardava sua resposta, então ela rapidamente pensou numa que se aproveitava de sua incapacidade de reconhecê-la. — Sou uma médica - uma especialista. Junko-san me pediu para ver o que posso fazer por você. — ela mentiu calmamente, usando seu tom mais gentil. Ela tinha de manter a guarda dele baixa pelo máximo possível de tempo.

Itachi continuou a encará-la, mostrando nenhum sinal aparente de acreditar nela ou não. Enfim, ele desviou o olhar e se virou parcialmente para a parede, dispensando-a abruptamente. — Não há nada que você possa fazer.

Sakura não gostava de ser dita que não podia fazer uma coisa, não importava quem dissesse, então franziu o cenho para a nuca dele. — Você pode se surpreender.

Seus passos eram cautelosos, calmos e não ameaçadores. Ela não podia deixar seus nervos aparentes, tinha de manter seu chakra firmemente sob controle e indetectável. Esse era Uchiha Itachi, e por mais que estivesse fraco e desarmado, seria incrivelmente tolo de sua parte assumir que ele estava indefeso. Se ele descobrisse sua mentira, a situação ficaria feia muito rápido.

Nos poucos passos de distância entre a porta e a cama, sua mente trabalhou para formular um plano. O que ela faria? O que era esperado que ela fizesse? Será que ela deveria arranjar uma desculpa para sair do quarto e mandar uma mensagem para Konoha? Ela deveria tentar subjugar, capturar e levá-lo de volta com ela? No estado em que ele estava, isso não seria tão difícil. Será que ela deveria tentar sutilmente arrancar informações dele? Ela deveria apenas matá-lo ali mesmo? Nenhuma dessas respostas parecia a correta. A verdade é que ela não tinha ideia, e por mais que fosse potencialmente perigoso, ela decidiu só continuar o que estava fazendo.

Só quando ela chegou ao seu lado que Itachi se virou, embora ela soubesse que ele estivera ciente de todos os seus movimentos. Era a primeira vez que ela via seus olhos sem o Sharingan, e eles a perfuravam intensamente do mesmo jeito. Sakura experienciou outro ataque de nervos. E agora? Ela dissera estar ali para tratá-lo… esse era um bom ponto de partida.

Mesmo relutante em se aproximar dele ou tocá-lo, ela estava genuinamente curiosa sobre que tipo de condição podia deixar o grande Uchiha Itachi a beira da morte.

— Sei que você tem recusado tratamento por pensar ser perda de tempo, — ela começou devagar, com calma. Normalmente, ela preferia a mesma abordagem direta que sua mentora, mas essa situação requeria mais delicadeza que o típico chuunin com um osso fraturado no treino. — mas eu sou mais habilidosa que as enfermeiras anteriores e talvez possa te ajudar. Vai me deixar te examinar?

Itachi a ignorou, olhando para frente como se ela nem estivesse ali. Apenas o leve cerrar de seu maxilar mostrava que ele tinha escutado - e não aprovava - sua proposta.

Aparentemente, a abordagem gentil não funcionaria com ele.

Sakura suspirou com impaciência e cruzou os braços. — Por que não? — ela perguntou friamente. — A menos que você queira morrer…

Os olhos dele avançaram para ela de forma desagradável. Ela se forçou a sustentar seu olhar com o que ela esperava ser a mesma intensidade. Finalmente, seu maxilar relaxou e ele soltou o ar lentamente pelo nariz.

— Ok.

Sakura deu um pequeno sorriso pela breve e vazia vitória antes de uma persona profissional tomar conta de suas feições e ela levar o estetoscópio aos ouvidos. Quando suas mãos tocaram nele, ele ficou tenso. Não era nenhuma surpresa que ele ficasse desconfortável ao ser tocado. — Vai estar gelado. — ela avisou em voz baixa e deslizou o disco de metal sob a barra frouxa de sua camisa, parando nas costas. — Respire fundo, por favor. — Ele o fez, e o som de sua respiração estava abafado por fluidos. Parecia pneumonia, embora não fosse muco enchendo seus pulmões, mas sim sangue.

Sakura queria poder usar jutsu medicinal para examinar de forma mais extensiva, mas não se isso resultasse em um pescoço quebrado. Ela sentia os olhos dele observando milimetricamente seus movimentos, como uma ave de rapina, esperando. Ela retirou o disco debaixo de sua blusa, se posicionou na frente dele e disse: — Levante sua blusa.

O que antes fora um físico impressionante, agora tinha se deteriorado com a doença, deixando apenas rastros de sua antiga perfeição. Os olhos dela escanearam rapidamente seu torso pálido, notando nada de interesse médico além de sua má forma: costelas ligeiramente salientes, o esterno pontudo antes definido por músculo. Ela pressionou o estetoscópio sobre seu coração e o fez repetir os exercícios respiratórios. As batidas fortes e estáveis de seu coração contrastavam rispidamente com o débil chiar de seus pulmões. Ele estivera no pico da boa forma quando a doença o abateu, e o vigor o ajudou a sobreviver por tanto tempo. Mas essa reserva de força tinha quase se esgotado.

Sakura tirou o estetoscópio dos ouvidos e o repousou no pescoço. Gentil, mas fortemente, ela começou a pressionar diferentes partes do seu abdômen, procurando algum inchaço ou rigidez. Tudo era tão mais fácil com chakra! Sem ele, ela seria obrigada a fazer uma série de perguntas desconfortáveis para ambos, tipo se ele conseguia manter comida no estômago, se tinha sangue em sua urina ou fezes… Depois disso, ela teria que fazer um exame de sangue-

Num piscar de olhos, Sakura foi jogada de costas na cama, imobilizada pelo choque e o aperto doloroso de Itachi em seus pulsos, ajoelhado sobre ela. Ela se recuperou em um segundo, mas não sabia o que tinha o alarmado, então se forçou a continuar parada e fingir ser a civil assustada e aturdida.

— Kunoichi! — ele sibilou perigosamente. Seus olhos ficaram vermelhos com o Sharingan.

Merda! Sakura não fazia ideia de como, mas tinha sido descoberta. Abandonando seu disfarce, ela canalizou chakra para as mãos e remexeu os pulsos contra os dedos dele, quebrando seu aperto na força. Ela ajoelhou seu quadril, se contorceu freneticamente debaixo dele e agachou ao pé da cama.

Eles se encararam intensamente de lados opostos da pequena cama, tensos como cobras esperando para atacar ao menor sinal de movimento ameaçador. Eles estavam a meros passos de distância; se ambos esticasses as mãos, se tocariam. Sakura estava armada sob o casaco e Itachi não, e ela podia ver quão fraco ele de fato estava pela facilidade com que escapara dele, embora ele ainda fosse incrivelmente rápido. Ela poderia enfrentá-lo se precisasse. Mas o que ela mais queria não era um Uchiha morto, e sim respostas.

A respiração de Itachi estava pesada; o breve confronto o havia afetado. Ela evitou seus olhos - regra número um ao enfrentar um Uchiha - e observou seus lábios partirem enquanto sua respiração ficava mais e mais difícil. Ele tentou impedir, mas foi tomado por um acesso violento de tosse e se inclinou, tremendo e convulsionando, apertando o peito com uma mão, a outra segurando o lençol com força. Um espesso filete de sangue escuro e pegajoso escapou de seus lábios e manchou o lençol branco.

Essa era a chance dela de escapar ou matá-lo. Embora, ao vê-lo passar por esse tormento tão vexante, Sakura não pôde deixar de sentir pena dele. Se ele não tivesse a atacado momentos antes, ela teria ficado tentada em ajudá-lo. Itachi percebeu, viu no rosto dela, quando ele levantou os olhos para ver porque ela não tinha se movido. Ele a encarou, olhos marejados e cheios de veneno, ressentido por sua pena, e limpou o sangue dos lábios com o dorso das mãos.

A expressão dela se tornou calma, mas exasperada. — Relaxa. Não estou aqui para te matar. — Ainda. Lentamente, ela levantou uma mão e retirou seu gorro, correndo os dedos pelo liso cabelo rosa.

Itachi piscou em visível surpresa, olhos estreitando ligeiramente ao estudar os detalhes do rosto dela. Um longo momento se passou, silencioso e tenso, até que ele a reconhecesse. — Sakura… — ele murmurou. — Haruno Sakura. Por que está aqui.

Como se ela fosse contar. — Por que você está aqui? — a resposta dele foi um olhar neutro. Sakura suspirou. — Só estava de passagem. Sou médica. Estamos numa clínica. Eu não fazia ideia que você ainda estava vivo, Itachi. Me disseram o oposto, na verdade. — Ela pausou, dando um sorriso sarcástico. — Foi só uma feliz coincidência.

Um silêncio pesado recaiu sobre eles enquanto se analisavam. E agora, ela se perguntou. O que eles fariam agora? Ele não a matara quando teve a chance, muito menos ela o fez quando pôde. Ele também não parecia querer matá-la agora. Então o que ela faria sobre ele? Ela confessava ser difícil vê-lo daquele jeito, doentiamente pálido, sujo de seu próprio sangue. A médica dentro dela queria fazer algo por ele, mas sua identidade a impedia.

— Por que você fingiu me ajudar, se não para abaixar minha guarda? — ele perguntou, ainda a olhando como um animal encurralado olharia. A voz que ela se lembrava ser rica e suave agora era áspera e fraca, rouca pela secura de sua garganta e pelo fato de que ele não falava há semanas.

— Não fingi, — ela disse. — eu queria saber o que tinha de errado com você. Junko me contou tudo sobre você - o pouco que ela sabe. Vim porque achei… — ela se interrompeu, incerta se queria revelar tanto assim.

O silêncio se espalhou novamente. Sakura relaxou sobre os joelhos e encarou as mãos, dividida sobre o que fazer. Talvez Konoha não precisasse saber, se ele estivesse morrendo, afinal. Talvez ela devesse apenas ir embora e deixá-lo viver seus últimos dias em paz. Ele não merecia, mas… Enfim ela levantou o olhar, encontrando seus letais olhos vermelhos. — Eu… eu sinto muito que seu fim seja assim.

Itachi piscou lentamente, perplexo. — Por que.

Sakura respirou fundo. — Porque não combina.

O menor traço de um sorriso irônico apareceu em seu rosto. — Esse não é o fim que eu esperava também.

Dessa vez o silêncio é mais desconfortável que tenso. Era difícil de acreditar que ela estava sentada ali com um dos homens mais perigosos das cinco nações. O momento era surreal, descolado da realidade e do mundo. Ela sentia que talvez devesse continuar assim.

Finalmente, Sakura se levantou. Ela contorceu o gorro nas mãos e encarou uma pequena mancha de sangue seco no linóleo. — Eu não vou reportar esse encontro, então, é… você pode continuar aqui até… — Ela novamente respirou fundo, perturbada por coisas que não conseguia identificar. — Adeus. — ela exalou em um sopro.

Ela se virou para a porta, mas Itachi segurou seu pulso. Doeu um pouco, e ela com atraso percebeu que ele tinha machucado-a durante o confronto. Ainda é tão forte. Surpresa, ela se virou rapidamente. Os olhos dele estavam pretos de novo, mas ainda a perfuravam de uma maneira que a deixava se sentindo muito exposta.

— Você está procurando meu irmão. — Não era uma pergunta.

Sakura não respondeu, mas sua guarda subiu cautelosamente, e ela tentou livrar o braço das mãos dele. Seu aperto aumentou. Tinha sangue em suas mãos; estava sujando a pele dela.

— Você veio até aqui porque achou que eu fosse ele. — ele pressionou.

Relutantemente, ela assentiu. — Sim. O paradeiro dele é desconhecido desde que vocês se enfrentaram.

— Desconhecido para você. Para Konoha.

— O que…?

— Termine sua avaliação. Me dê um diagnóstico. É tudo o que eu peço. — Seu olhar se tornou ainda mais penetrante. — Se fizer isso, digo onde ele está.

Os olhos dela se estreitaram perigosamente. — O que você fez com ele? — ela sibilou.

Nenhuma resposta, só aquele olhar pesado e revelador. Após um momento, ele soltou seu pulso e se sentou. — A decisão é sua.

Não havia nenhuma decisão a tomar. Se tudo o que ele queria era um diagnóstico em troca de uma informação tão crucial…

— Tá bom. — ela deixou seu gorro na mesa de cabeceira e desabotoou o casaco. Os olhos dele imediatamente se voltaram para a bolsa de kunai amarrada ao seu quadril. Ela pressionou os lábios. — Você não vai me atacar de novo, vai? — após esperar por um tempo, ela sabia que não receberia uma resposta. Sakura suspirou e se sentou na beira da cama. Ele se moveu para dar-lhe espaço, voltando a posição que ocupava quando ela entrou no quarto.

Itachi permaneceu quieto e passivo enquanto ela continuava o exame, dessa vez com chakra. Colocando uma mão em seu peito e outra nas cotas, ela gentilmente enviou pulsos da própria energia para seu corpo. Ele não observava todos os seus movimentos dessa vez, mas a tensão em seu corpo esguio avisava que ele não tinha abaixado a guarda. Assim como ela.

Era mais rápido com jutsu medicinal. Não havia necessidade de fazer exames de sangue, raio-x ou perguntas extensivas; ela coletava tudo o que precisava saber por contato direto com seus sistemas internos. Em alguns minutos, seu fluxo de chakra cessou, o brilho verde-claro sumindo de suas mãos enquanto ela se endireitava.

Itachi percebeu sua carranca, mas sua própria expressão permaneceu impassível. Diferente do que a maioria dos pacientes teria feito, ele não a pressionou por respostas, apenas esperou calmamente - até demais - pela confirmação se viveria ou morreria.

Sinceramente, Sakura ainda não tinha uma resposta. Era como Junko dissera: hemorragia interna nos pulmões, e com menos gravidade, no estômago e intestino. Só que a causa era algo que ela nunca tinha visto antes: uma quantidade imensa de pequenas lesões vasculares que expelia sangue para seus órgãos. As lesões se espalharam e multiplicaram com o tempo, deteriorando eventualmente tecidos e ocasionando em falha de órgãos. Sakura era uma médica de combate e especialista em venenos. Doenças não eram sua especialidade, especialmente as raras e complicadas como essa. Mas algo sobre ela lhe parecia familiar. Ela estava quase certa de já ter lido algo sobre uma vez.

— Já volto. — ela murmurou distraidamente, se levantando. Itachi não disse nada, seus olhos seguindo-a ao sair do quarto. Ela foi rapidamente até sua bolsa, que ela deixara no assento da recepção, e a revirou até achar o pergaminho que estava procurando.

Junko deve tê-la ouvido. Espiando por uma fresta da porta dos funcionários, ela perguntou: — Está tudo bem?

— Está tudo certo. — Sakura assegurou, dando um sorriso distraído ao correr de volta para o quarto de Itachi.

Atravessando o quarto, ela pegou a cadeira próxima à janela e pôs ao lado da cama. O sol já havia se posto, então ela teve que acender o abajur da mesa de cabeceira para ver melhor. A suave fluorescência iluminava a área ao redor da cama, mas não se estendia muito, deixando o resto do quarto na escuridão.

Sakura desenrolou o pergaminho sobre as pernas, fez alguns selos e após um fraco poof e ondas de fumaça, um enorme tomo medicinal de quase vinte centímetros de grossura apareceu em seus joelhos.

Naruto gostava de zoá-la por carregar, para todo lado, "a pia de banheiro", como ele preferia chamar, e pelo fato de que ela gostava de lê-la em seu tempo vago. Aparentemente, Itachi achava isso igualmente peculiar. Ele olhou do enorme livro para o rosto dela, e muito sutilmente arqueou uma sobrancelha.

— O que? Ele é bem útil. Um fato que vou provar agora mesmo. — ela disse em sua defesa.

A extensa enciclopédia era tão pesada que ela a precisava segurar com as duas mãos para impedir que caísse de suas pernas enquanto vasculhava o índice e folheava até a seção de doenças raras. Sakura passou os seguintes minutos lendo, o quarto silencioso com a exceção do farfalhar das folhas ao virar páginas e a ocasional respiração pesada de Itachi, que a observava intensamente o tempo todo. Sua expressão clareou quando ela encontrou o que procurava, e ela distraidamente mordiscou o lábio inferior ao passar os olhos pelo artigo, uma leve ruga aparecendo em seu cenho toda vez que ela lia algo preocupante.

Quando terminou, ela fechou o livro cuidadosamente e lhe deu um sorriso fraco. — Descobri o que é. — Ela informou o nome, cientificamente complicado, e o que exatamente estava acontecendo dentro de seu corpo. — É extremamente rara. — ela disse, sacudindo a cabeça levemente. — Não há evidências que seja hereditária, nem contagiosa. Atualmente é desconhecido como se desenvolve, e não há cura medicinal. — Sua expressão endureceu, e ela levantou uma sobrancelha em expectativa. — Agora me diga onde Sasuke está.

Itachi a observou em silêncio por um longo momento. Finalmente: — Meu irmão está com Uchiha Madara.

Sakura encarou, olhos arregalando, e teve de segurar o livro com mais força para impedir que caísse. Tsunade tinha mencionado a possibilidade de o fundador do clã Uchiha ainda estar vivo, rumores sombrios espalhados ao vento. — Uchiha Madara… então ele está vivo. — ela murmurou para si mesma. Ela encontrou os olhos escuros de Itachi. — E Sasuke, ele é… um prisioneiro?

Ironia lampejou em seu rosto. — Não do jeito que você pensa. Ele é um cúmplice.

— Como assim? — ela perguntou.

Itachi exalou lentamente, o que em outros poderia ter sido um suspiro. — Ele ouviu muitas mentiras e meias-verdades, manipulado pela história de Madara. Acredito que Madara planeja virar meu irmão contra Konoha e usá-lo para destruí-la.

— Isso não é possível. — Sakura argumentou. — Sasuke só é um nukenin por sua causa. Ele não viraria contra Konoha e seus amigos-

É possível, dado o que Madara lhe contou. — ele interrompeu. Seus lábios pálidos se curvaram em um fraco sorriso debochado. — E vocês não são amigos há anos.

Sakura ficou irritada. — Eu sou amiga dele, quer ele reconheça isso ou não! Naruto também-

— Mas ele não é amigo de vocês.

A boca dela se abriu para retorquir, então se fechou, e ela o direcionou um olhar rancoroso. Ela queria gritar para ele: "Você não sabe nada sobre ele! Você o arruinou!". Mas, no fundo, ela sabia que ele falava a verdade. As palavras dela eram vazias, defesas automáticas que não eram mais totalmente sinceras. Mas ela não iria admitir isso para alguém que não tinha o direito de discutir esse tópico com ela.

Após um par de selos o livro voltou para o pergaminho, e Sakura levantou abruptamente, pegando o casaco. — Obrigada pela informação. — ela disse com rigidez.

— Obrigado pelo seu diagnóstico. — ele devolveu, ligeiramente confuso.

— Adeus. — ela virou para a porta.

— Sakura.

Sakura parou, mas não se virou, esperando que ele continuasse. Quando ele o fez, suas palavras eram baixas, quase relutantes.

— Você disse não haver cura medicinal…

— Sim. — Ela o amaldiçoou por ser um gênio.

— Mas você consegue curar com mais do que medicina. É… possível?

Em meio ao silêncio opressivo, o peso de sua frágil esperança era palpável. Parecia que um buraco tinha se aberto aos pés dela.

Segundos ou horas se passaram até que ela conseguisse responder: — Sim. Há uma chance. — ela esperou, atenta para um sinal de alívio, qualquer coisa. Mas não houve nada. — Não sei se consigo me livrar da causa, mas poderia curar o dano existente e ganhar tempo. Mas…

— Mas por que você deveria. — ele completou.

Ela se virou finalmente, cruzando os braços sob o peito. — Sim. Por que eu deveria.

— Posso te ajudar a salvá-lo.

Sakura soltou um som de escárnio. — Acho que a última coisa que Sasuke quer é a sua ajuda.

Os lábios dele se curvaram naquele mesmo quase sorriso irônico. — Muitas coisas mudaram desde que meu irmão e eu nos vimos pela última vez.

Os olhos dela se estreitaram. — Explique.

— Eventualmente. — ele a observou cuidadosamente, revelando nada de seus próprios sentimentos. — Madara é um mestre da manipulação. Ele vai distorcer todos os pensamentos do meu irmão até ele acreditar que preto é branco e em cima é embaixo. Ele sabe exatamente o que dizer para fazê-lo perder a cabeça.

— Assim como você? — Sakura desafiou.

— Sim. — ele admitiu simplesmente. — Só que pior. Sasuke está além da sua ajuda. Eu posso convencê-lo, mas só posso fazer isso se nos encontrarmos cara a cara de novo.

— Por que você ao menos se importa? — ela perguntou, incrédula. — Você passou os últimos dez anos fazendo seu irmão enlouquecer, e agora quer ajudar? E por que você dá uma foda para o que Madara planeja fazer com Konoha? Você é um traidor que matou seu clã inteiro!

O quarto ficou muito silencioso ao fim de sua explosão. Itachi pareceu se retrair em si, voltando a ficar impassivo e neutro. Um longo momento se passou antes que ele respondesse: — As coisas nem sempre são o que aparentam.

Sakura o encarou em fúria e perplexidade silenciosas, calada apenas porque tinha uma dúzia de perguntas e não sabia qual proferir primeiro. Antes que pudesse fazer qualquer uma delas, Itachi voltou a falar, embora suas palavras parecessem mais difíceis de sair.

— Você precisa da minha ajuda, Sakura… e eu preciso da sua.

— Está me pedindo para trair minha vila! — ela sibilou.

Ele a olhou como se isso não fizesse nenhum sentido. — Não é incomum que Konoha colabore com criminosos de menor importância para derrotar uma ameaça maior.

— Você dificilmente é um criminoso de menor importância, Itachi. E só é legal se for sancionado pela Hokage.

— Então conte a ela. — ele disse simplesmente.

— Mesmo que ela concorde, no fim… você não vai ganhar imunidade.

— Não tenho expectativa disso.

— Você vai ser executado. — Como ele conseguia ficar tão calmo diante disso?

— Uma morte rápida é preferível a isso. — ele gesticulou, indicando sua condição atual.

— Que motivo eu tenho para confiar em alguma palavra que você diz? — ela exigiu, procurando uma saída. Essa era a última coisa que ela esperava que acontecesse quando decidiu entrar nesse quarto. — Você provavelmente planeja me matar e correr de volta para os seus amigos esquisitos quando estiver curado.

Itachi franziu o cenho para ela. Ele estava frustrado por não ter uma resposta, ela percebeu. Bom, ela também estava. Eventualmente a ruga entre as sobrancelhas dele desapareceu, deixando suas feições imaculadas mais uma vez, embora cansadas. — Se você concordar, — ele disse devagar. — não só vou te ajudar a salvar meu irmão, como contar tudo o que eu sei. Sobre Madara, a Akatsuki… e sobre mim. É mais do que uma troca justa.

Sakura suspirou com cansaço, levando uma mão à testa. Ela balançou a cabeça, sem saber o que dizer, o que deveria fazer.

— Sakura…

Havia uma pitada de súplica em seu tom suave que a forçou a encontrar seu olhar. Seus olhos escuros pareciam penetrar bem no seu interior.

Por favor.

Sakura apenas o encarou por um longo momento. — Eu… eu preciso pensar. — ela disse por fim, odiando quão insegura sua voz soava. Ela rapidamente saiu do quarto. Sabendo que Junko a questionaria se voltasse para a recepção, ela silenciosamente adentrou no quarto vazio mais próximo. Não acendeu a luz, apenas se sentou na beira da cama e pôs a cabeça entre as mãos.

Ela estava mais do que um pouco abalada pelo visível desespero de Itachi, pelo fato de que ele estava implorando a ela. Era inimaginável. Mesmo que ela o salvasse agora só para ele ser executado depois, o que poderia ser tão importante para ele que estava disposto a implorar por sua ajuda quando não tinha nada a ganhar? Não podia ser por Sasuke… não quando na última década, o único propósito de Itachi pareceu ser conduzir Sasuke a uma morte prematura.

Ela ouviu Itachi começar a tossir no outro quarto, um som doentio e doloroso. Ele deve ter segurado até que ela saísse do quarto. Ela fechou os olhos com força e massageou as têmporas, imaginando o sangue manchando os dedos dele ao tentar abafar o som.

Nada disso fazia sentido!

Além disso, ela desprezava esse homem! Ela não queria ajudá-lo. Ele não merecia ajuda. Então, por que ela sequer estava pensando a respeito? Por que uma parte dela sentia pena dele? Pior ainda, uma parte dela queria acreditar nele. Tanto do que ela vira nas últimas horas contradiziam a imagem de Uchiha Itachi que ela sempre tivera na cabeça.

Agora, a vida dele estava em suas mãos como se ela tivesse uma faca apontada para sua garganta. Ele tinha aceitado a morte, tinha até recusado tratamento médico. Mas agora, por causa dela, porque ela conseguia fazer o que nenhum médico normal no mundo conseguia, ele tinha esperanças. Era um fardo pesado a se carregar.

Mas isso não era sobre ela. Sakura estava sendo intimada a fazer parte de um jogo muito maior, um que ela não entendia completamente. Itachi prometera explicar o jogo e dar respostas - informações que a Hokage pagaria seu peso em ouro para obter. Como ela poderia recusar uma oportunidade dessas?

Ela não podia, na verdade. Sua honra como médica e seu dever como shinobi sobrepujavam seus sentimentos pessoais sobre o assunto.

Com um pesado suspiro resignado, Sakura se pôs de pé e retornou para o quarto de Itachi. Ela fechou a porta em silêncio e parou ao lado de sua cama. Cruzando os braços, ela disse em uma voz controlada: — Ok. Vou ajudar.

Itachi mostrou nenhum sinal de alívio ou felicidade, apenas respondeu solenemente: — Obrigado.

Sakura não estava interessada em sua gratidão. — Não posso prometer nada, — ela continuou friamente, — mas darei o meu melhor. Você vai ao menos viver o suficiente para cumprir sua parte do acordo.

Ele assentiu uma vez. — Isso é tudo o que eu peço.

— Vai demorar um pouco. — ela explicou, se sentando na cadeira, mantendo os braços cruzados. — Semanas. Até mesmo meses. Eu não sou uma máquina, e se eu me esgotar com frequência posso terminar de cama que nem você. É um processo perigoso para nós dois, e as chances de sucesso vão ser maiores num hospital, então vou contatar a Hokage e providenciar seu transporte para Konoha-

— Não, — ele interrompeu, uma pontada de aço em seu tom. — a Akatsuki tem olhos em Konoha. Não podemos arriscar que eles descubram que estou vivo. Também tem o risco de que eu não sobreviva a viagem.

Ele provavelmente estava certo sobre a última parte; Konoha estava longe, e o clima piorava com o passar dos dias. Também era alarmante ouvir sobre um espião da Akatsuki em sua vila, embora não fosse a maior de suas preocupações no momento. — Bem, nós não podemos ficar aqui, — ela argumentou. — essa clínica não tem muitos recursos e, além disso, depois do jeito como você tratou as enfermeiras, eu duvido que deixem você ficar mais um ou dois meses. O que devo fazer, então?

— Dê um jeito. — ele disse calmamente, como se fosse simples igual escolher um restaurante para jantar.

Sakura ergueu as mãos com um resmungo exasperado e se levantou. Ela andou pelo quarto algumas vezes, ocasionalmente lhe lançando um olhar feio. Ela sabia o que ele estava pedindo dela, e ela sabia dos riscos envolvidos. Naruto diria que em hipótese alguma ela deveria ficar sozinha com esse cara, mesmo que significasse derrotar a Akatsuki e salvar Sasuke. Tsunade diria para ela ser cuidadosa, mas aguentar e cumprir com seu dever. Sua própria consciência a estava chamando de insana só por considerar.

Sakura sentia como se estivesse a beira de um precipício. O vento batia contra suas costas, a pressionando, mas ela sabia o que a aguardava se desse mais um passo. Poderia ser a coisa mais idiota que faria na vida. Mas a necessidade era óbvia, a escolha já feita. Ela respirou fundo e, sem olhar, pulou.

— Tá bom. Vou ver o que posso fazer.

Com um último olhar furioso na direção dele, ela virou no calcanhar e deixou o quarto para procurar Junko.


*Devil Beside You - The Used