Capítulo I
Enquanto a Agente Teresa Lisbon caminhava na direção daquele apartamento em um conglomerado em Hayward, observou as escadas que se desenvolviam de forma pejorativamente rústica. Farpas e placas de madeira se soltavam dos degraus em desalinho. O corrimão parecia impregnado de uma substância pegajosa cuja qual Lisbon preferiu não pensar.
Curiosamente, as paredes, de onde a pintura mal feita caíra em lascas, formavam uma espécie de obra de arte, a depender do ângulo em que fossem observadas. Haviam lâmpadas que certamente estavam queimadas a mais tempo do que seria possível considerar e os sinais de infiltração denotavam a precariedade de manutenção, se é que havia uma.
As portas, em sua maioria entreabertas após a evacuação promovida pela equipe tática da polícia de Sacramento, revelavam moradias de famílias humildes e modestas, exatamente como a dela, tempos atrás.
Por um segundo, sentiu saudade de um tempo que nunca ousou lhe pertencer. Sua infância parecia ter terminado tão logo houvesse começado. Nunca fora uma criança como as outras.
Já na adolescência, aquela garota cujo reflexo sempre revelava olhos cansados e opacos, estava constantemente ocupada demais tentando manter a si e seus irmãos a salvo dos acessos de fúria de seu pai, depois de mais uma noitada regada a bebida e autopiedade.
Ela se lembrava muito bem de como era ter de crescer rápido demais. Essa lembrança ou o mero lampejo dela foi o motivo pelo qual Lisbon decidiu ser uma agente da lei, em primeiro lugar.
Proteger e servir, mesmo que isso lhe custe a vida.
Assim, subiu as escadas, degrau por degrau.
Sem arma e sem defesa, carregava consigo somente o colete a prova de balas e suas algemas, conforme exigências de Tommy Volker. Em segredo, preso na parte de dentro do cós de sua calça, havia um único alfinete.
Volker mantinha Marvin Pettigrew em cárcere privado por cerca de vinte e oito horas. Ele chegou ao garoto minutos antes dela e de sua equipe, mas não conseguiu sair antes de se ver cercado por policiais. Desde então, a vida do garoto era a moeda de barganha que o magnata utilizava para negociar sua liberdade.
Por exigência dele, Lisbon foi a pessoa designada para conduzir as negociações.
Durante as conversas, o estalar da raiva do perpetrador soava quase como um chicote que meneia a pele sem perfurar. Mesmo assim ela se manteve firme e jogou duro. Concedeu a ele nada mais do que o minimamente necessário, ainda que seus advogados de mil dólares a hora estivessem tentando costurar sua liberdade e conforto pela tangente.
A verdade é que, por melhores e mais bem pagos que fossem, Volker nunca mais seria um homem livre. Não completamente.
Ela e sua equipe se certificariam disso.
Eles fizeram um excelente trabalho ao reunir provas e mais provas dos vários crimes do empresário. Guerrearam contra todos os tentáculos de poder que o favoreciam, inclusive juízes e juízas corruptos ou covardes demais, capangas e assassinos de aluguel, bons e inescrupulosos advogados especializados em travar todo e qualquer mandado solicitado dentro da investigação, vazamentos e ameaças.
Apesar de tudo, eles conseguiram. Mas não conseguiram rápido o bastante.
Agora, a vida do garoto do pequeno Corvette vermelho corria sérios riscos e ela não admitiria que seu sangue fosse derramado por mais um capricho do magnata.
Ela e a justiça haviam falhado com Amanda Shaw e tantos outros cuja morte chegou mais rápido do que sua investigação foi capaz de acompanhar. E ela e a justiça não falhariam de novo com Marvin Pettigrew.
Seus pensamentos foram interrompidos assim que a porta do apartamento 255B surgiu a sua frente.
Respiração profunda e ombros tensos antecederam três toques na porta. Lá dentro, uma arma calibre .45 apontada para a cabeça de um menino surpreendentemente calmo.
Volker vestia uma camisa branca simples e nitidamente cara que revelava todas as linhas que o suor deixava como rastro. Ele estava mais agitado e nervoso do que o esperado.
"Mau sinal" – pensou ela.
Mesmo assim, quando os seus olhos encontraram os dela, frieza foi tudo o que transbordou. Por um segundo, a experiente Agente Sênior, que já havia visto mais corpos em mau estado do que uma vida consideraria decente, teve vontade de fugir.
Um passo em falso e tudo estaria acabado.
Então, ela se ajustou e manteve os olhos colados aos dele, num recado claro de que ela não iria tornar as coisas fáceis para ele. Ela iria jogar segundo suas regras e faria aquilo que foi instruída a fazer, até que Marvin Pettigrew estivesse a salvo.
Por isso, antes que Volker exigisse, fechou a porta atrás de si e ajoelhou-se, mantendo as mãos para cima e os olhos no homem com a arma.
