Nota da autora: Não queria passar mais de um mês sem postar uma história SessRin, nem que fosse uma curtinha que nem essa. Estava escrevendo Um caminho para dois e essa historinha não saiu da cabeça.
Espero que gostem e que possam comentar :)
Num Lago Dourado
One-shot SessRin
O grande youkai Sesshoumaru olhava com atenção para dois humanos tão envolvidos nos braços um do outro que nem percebiam a presença dele ali, escondido entre as árvores de um bosque.
Dois jovens se beijavam há alguns minutos e pareciam não querer parar, principalmente o homem. A garota que estava com ele ficava na ponta dos pés para alcançar a outra boca. Eram dois camponeses de um vilarejo distante de onde morava uma humana que Sesshoumaru conhecia muito bem. Eram de um nível social bem inferior ao de Rin, claro. Era possível ver os pequenos rasgos no quimono na mulher, bem como notar que as roupas do homem tinham chegado às mãos dele depois de passar por várias outras gerações.
Era impossível imaginar Rin usando roupas daquela qualidade. Os vários quimonos que ela tinha eram finamente escolhidos por ele. Os amigos e outros conhecidos humanos do vilarejo também eram decentes e tinham uma boa qualidade de vida, principalmente depois que aquela sacerdotisa voltou para morar com o meio-irmão.
E o youkai estava ali porque...
A garota afastou-se de súbito do rapaz, encerrando aquela troca íntima, e murmurou um tímido (ou quase envergonhado) "não, por favor", e depois saiu correndo. O rapaz ficou para trás, atônito, sem correr atrás da jovem que estava beijando momentos antes. Era evidente que não havia entendido o que havia acontecido.
— Hunf. – murmurou Sesshoumaru antes de afastar-se.
... precisava entender como aqueles humanos se comportavam durante um beijo.
Tudo era questão de observação. Estar atento aos detalhes. Traçar uma estratégia. Era assim na guerra, nas lutas contra grandes adversários. Não seria diferente para o que estava planejando fazer.
Era a quarta cena que havia observado nos últimos dias. Quase sempre começava da mesma maneira – o homem falava alguma coisa que deixava a mulher comovida, aproximava o rosto e tocava os lábios dela. As reações femininas eram variadas: algumas suspiravam, outras ficavam surpresas e se afastavam. Essa última parecia não ter gostado muito para sair correndo daquele jeito.
Perguntou-se qual seria a reação de Rin. Ficaria tímida? Com medo? Fugiria dele?
Afinal de contas, Sesshoumaru não era um humano.
— Ah, Sesshoumaru-sama! – escutou a voz de Jaken atrás dele, mas não virou-se para falarem frente a frente – Já levei Ah-Un para comer de novo.
— Vá com ele a outro país comprar um quimono novo para Rin. – ele ordenou – Vamos vê-la depois.
— De novo? – Jaken piscou com evidente surpresa. Eles a haviam visitado dois dias antes.
O erro do servo foi expressar-se em voz alta porque, segundos depois, viu o grande youkai virar o rosto e lançar um olhar atravessado por cima do ombro direito. A mão também deixou as garras afiadas à vista do pequeno sapo.
Segundos antes de ouvir os dedos de Sesshoumaru estalando, Jaken já havia subido às costas do youkai de duas cabeças e escapado dali.
— Tem certeza que é por aqui, Jaken-sama? – Rin perguntou num tom que tentava esconder a ansiedade, andando com as mãos para a frente do corpo ao seguir Jaken por uma floresta – Acho que estamos já longe de casa.
— Claro que é. – o pequeno servo resmungou. Depois de procurar o quimono, recebeu a tarefa de buscar a humana na casa da velha sacerdotisa do vilarejo para levá-la até o ponto de encontro: um lago cujas águas se tornavam num misterioso tom dourado em determinados momentos do dia.
Depois de mais alguns minutos de caminhada, os dois saíram em uma clareira e avistaram rochas e um vislumbre de águas límpidas brilhando sob o sol. Em um canto, sentado elegantemente em cima de uma das pedras, estava Sesshoumaru.
— Ah... Sesshoumaru-samaaa! – Rin ergueu o braço e começou a acenar ao andar com um pouco mais de pressa para aproximar-se do youkai – Sesshoumaru-samaaa!
O youkai levantou-se e ficou em pé, aguardando sem mover-se até que estivesse na frente dele, sorridente como usualmente era.
— Boa tarde. – ela cumprimentou no tom educado de sempre – Jaken-sama disse que estava de passagem hoje.
Sesshoumaru ficou em silêncio apenas para observar alguns detalhes da figura dela: ela era menor que as outras jovens que havia observado, o que significava que ele precisaria colocá-la talvez em cima de uma das pedras para ela não machucar o pescoço na hora que tivesse que...
— Vai ficar muito tempo por aqui? – ela interrompeu o fio de pensamento dele.
— Sim. – ele respondeu no tom habitualmente monótono. A mão direita foi para dentro da longa manga esquerda e tirou um embrulho: um quimono dourado com bordados em forma de pétalas da mesma cor – Trouxe isso para você.
Os olhos dela brilharam e o rosto ficou com um leve tom rosado. Era uma reação recorrente, observou ele. Toda vez que trazia alguma coisa como presente das viagens, Rin ficava daquela maneira.
Era natural nela.
— Obrigada. – ela deu outro dos sorrisos sinceros, deslizando um dedo por cima dos detalhes bordados no tecido dourado – Vou usar hoje mesmo.
Sesshoumaru perguntou-se se aquela coloração no rosto ficaria mais forte se ele se aproximasse para...
— Ah, Rin, tem frutas pra você comer. – Jaken avisou, apontando naquele momento para a base de uma árvore com uma cesta cheia de maçãs, pêssegos, caquis, peras, ameixas...
— Tudo isso? – ela arregalou os olhos, piscando-os rapidamente.
— Sesshoumaru-sama pediu. – ele avisou.
— Ah... – ela olhou rapidamente para o rosto impassível do grande youkai, voltando a sorrir depois dos devidos esclarecimentos – Obrigada.
— Bem, acho que agora é a hora que devo sair... – Jaken murmurou tão baixinho que apenas Sesshoumaru ouviu, já que Rin não estava prestando atenção em mais nada além de Sesshoumaru e o presente recebido.
O youkai gesticulou na direção de uma das rochas, falando para ela:
— Vamos sentar?
— Oh... – ela murmurou. Talvez fosse a primeira vez que ele usava aquele tom. Da última vez tinha sido para conversar sobre a ida dela para o vilarejo de InuYasha para morar com a sacerdotisa Kaede.
Naturalmente que, no começo, Rin não havia aceitado bem na época. Mas eles conversaram daquela maneira: um sentado ao lado do outro, com ele explicando que não poderia arriscar a vida dela em outras viagens, mas que a visitaria com frequência sempre – o que ele estava cumprindo até o presente momento, depois de mais de cinco anos morando com Kaede.
— Sesshoumaru-sama quer conversar sobre alguma coisa? – ela perguntou num tom triste e tímido, como se quisesse preparar-se para uma conversa mais séria. Talvez ele tivesse cansado de parar no vilarejo para visitá-la ou...
— Não. – ele respondeu, olhando-a de soslaio. Ela estava sentada em uma pedra maior que a dele, diminuindo mais a diferença de altura de ambos.
Rin piscou duas vezes e sorriu mais tranquila. Ele então queria apenas estar com ela, não necessariamente conversando.
— Ah, esse é o Lago Dourado, né?
O silêncio do youkai foi uma confirmação.
— É muito bonito aqui. Parece ser bem agradável. – ela comentou com entusiasmo ao observar a água – Acho que vou falar para Kagome-sama para fazer outra tarde com comida e música. Ela gosta muito de fazer essas coisas com Sango-sama. InuYasha-sama não gosta muito de aparecer, mas ele...
Enquanto falava, Sesshoumaru começou a aproximar-se pouco a pouco.
— ... E também tem as gêmeas de Sango-sama e o menino Hisui que...
Mais um pouco.
— ... que nem daquela vez que fizemos uma fogueira pra preparar a comida ninja que Kagome-sama trouxe de outro país e...
— Rin. – ele a interrompeu.
A jovem parou de olhar para o lago e voltou o rosto para o youkai, apenas naquele momento notando que estavam extremamente próximos.
— S-Sim, Sesshoumaru-sama? – ela gaguejou, sentindo o rosto ficar quente e uma estranha coceira nos lábios.
— Fique parada. – ele ordenou, aproximando-se mais e mais.
Rígida, ela não tirou os olhos dele.
A mão de Sesshoumaru subiu ao rosto dela e tocou a mandíbula, com a ponta do polegar deslizando suavemente numa linha reta até tocar o lábio inferior.
Rin ofegou e fechou os olhos, oferecendo a boca para ele.
Segundos depois, nada aconteceu e ela abriu os olhos, vendo-o segurar uma aranha de porte médio por uma das patas.
— Estava no seu rosto. – ele explicou, observando cruelmente o invertebrado debater-se antes de pulverizá-lo com as garras venenosas.
A jovem arregalou os olhos.
— Vamos sair daqui. Elas estão por toda parte. – ele levantou-se tranquilamente – Pegue a cesta, Rin.
Foi só então que ela olhou para o chão e para as outras pedras e viu várias aranhas ali. Parecia que estavam dentro de um ninho.
Sesshoumaru saiu dali sem dizer mais outra palavra. Ela, sem perder mais um segundo, abraçou o quimono que ganhou e correu para pegar a cesta de frutas separada com tanto cuidado por Jaken, saindo depressa para alcançar o youkai.
Um pouco mais afastados, ouviu-o comentar:
— Foi uma péssima ideia de Jaken.
Quando ela ia retrucar, percebeu um brilho por trás que refletia às costas de Sesshoumaru
Virou o rosto e notou as águas douradas.
— Ah... – ela comentou – Acho que Jaken-sama queria que eu visse isso.
Sesshoumaru também olhou por cima do ombro: Rin parecia hipnotizada pelo reflexo do pôr do sol no lago, segurando tanto o quimono e a cesta de frutas.
Ao perceber que estava sendo observada e olhou para ele. A luz dourada e o lago estavam agora às costas dela, deixando-a no centro daquele cenário.
Rin finalmente deu um sorriso e voltou a observar o lago, falando:
— Vou pedir pra Jaken-sama expulsar todas essas aranhas antes de voltarmos aqui.
Novamente o silêncio dele foi uma confirmação. Sesshoumaru gostou da ideia.
O polegar que tocou o lábio dela por meros segundos deslizou no dele como se quisesse provar o gosto que havia ali.
O rosto ficou sombrio e os olhos estreitaram de leve.
Sim, havia traços de Rin na ponta do dedo.
Olhou de soslaio para Rin, completamente absorta naquele fenômeno da natureza.
Seria mesmo uma boa ideia voltar com ela depois ao Lago Dourado.
