Às vezes eu tenho ódio mortal pelo meu irmão mais novo. Ele é petulante, mesquinho, todo cheio de si e acha que a gente não sabe que trai a mulher. Ele faz isso diversas vezes e sempre é perdoado. Ainda não entendi a lógica do amor desses dois. Tem 3 filhos e sabe lá quantos fora do casamento e ele ainda não se mancou de respeitar a esposa. Se eu tivesse uma esposa, eu a respeitaria e a faria ser feliz de qualquer maneira até o meu ultimo suspiro.
– Vai baixar essa barulheira não...?
– Eu trabalho bem assim...
– Com gente gritando que nem bode velho nos teus ouvidos...
– É isso ou ficar na recepção...
– Você deveria largar isso aqui...
– E fazer o quê? Ir para farra que nem você?
– Seria bom... Já tá na hora...
– Você é um hipócrita sabia?
– Eu?!
– Se você fizesse a sua parte aqui, não teria tanta coisa pra mim! Papai não agüenta mais carregar essas coisas, nem tem tanta força nos braços. Eu que empacoto o povo aqui em tempo recorde só pra você vir a hora que bem entende para autografar as fichas de óbito...
– Caramba, tá na TPM é maricas vestido de preto?
– E você tá no cio?
– Não começa...
– Você que começou com essa de faculdade... Idiota egocêntrico...
– Eu faço o que faço porque eu devo... Essas são as regras...
– Regras de quem? As suas?
– Escuta aqui! Você não vai me dar sermão p**** nenhuma, tá ouvindo? Posso ser teu irmão mais novo, mas não sou obrigado a ouvir bobagem vinda de você...
– Que gritaria é essa aí dentro?
– Nada não papai!
– Viu? O velhote ainda tem a audição boa... Sem showzinho...
– Vocês dois, se arrumem. Elas chegaram...
– Oh maravilha... Enrola aí que eu tou terminando de encher o camarada aqui nos tubos...
– Deixa ele no suporte que eu tomo conta.
– Você vai fazer m**** nisso...
– Eu faço isso desde que me entendo por gente, seu babaca...
– Olha, você me respei...
– E vai logo porque é você que assina os óbitos e faz a burocracia... Ou finge que faz. Eles dão mais valor pra quem tem crachá de médico.
– Vai sacaneando, sua bestinha... Depois vou ter uma conversa com você...
– Vai!
– É bem organizado aqui... – disse a fiscal da Vigilância.
– Damos conforto pra nossos clientes... – disse o pai.
– Vamos ao básico primeiro? Quantos clientes por mês?
– Bem, depende... Há alguns meses que ficamos parados, mas outros... – disse o pai.
– Final de ano é sempre pior... – disse o do meio.
– Depois de feriado é uma tristeza... – disse o mais novo.
– Conforme o formulário enviado por vocês no começo do ano, vocês tem a capacidade máxima de 12 gavetas...
– Sim, correto... – disse o mais velho.
– E na geladeira?
– Bem, é... Nós mantemos a geladeira reservada para qualquer outro tipo de... material pertinente... – disse o mais novo sem saber.
– Não é aconselhável manter algum cliente lá dentro com as coisas sabe? Fazemos o trabalho rápido e eficaz para poder manter a rotatividade nos padrões... – disse o mais velho com segurança;
– É você que assina os óbitos...?
– Oh não senhora... É meu irmão ali... – indicando o mais novo que estufava o peito e mostrava sua carteirinha de licença para esse tipo de assunto.
– E eu suponho que faça os relatórios e as fichas...
– Ah sim, claro! Sou eu sim... Muito trabalho... – mentiu o mais novo.
– Mas está bem organizado...
– Que barulho é esse? – perguntou o outro fiscal assustado com o rosnar do lado de fora.
– Ah, é o cachorro do vigia... Fica lá fora o tempo todo... Vigiando a funerária durante a noite sabe? – disse o do meio.
– Ele é uma graça, deixa qualquer um entrar na boa, mas não deixa sair nem que a vaca tussa... – disse o zelador com poucos dentes.
– Hahahahaha...
– Hahahaha boa essa Char... – descontraiu o mais novo.
– Bem, vamos a lista de funcionários... O senhor é o proprietário...
– Sim, sim, sou eu... – disse o pai.
– O senhor é o Médico Legal Auxiliar...? – indicando o Advogado filho mais novo.
– Oh não... Esse era o meu tio... Ele meio que está ahn... de licença... – disse o mais novo.
– Licença médica?
– Ele meio que teve problemas com a ex-esposa... Tá resolvendo isso lá na Justiça sabe? – disse o do meio.
– Partilha de bens deu um AVC nele quando ela mencionou a estimativa da pensão que queria receber... – explicou o mais velho.
– Como a Legislação prediz, um Advogado pode tomar conta dos Óbitos da Funerária, caso tiver Direito Forense ou Criminologia em sua experiência.
– É esse aí, eu mesmo... – disse o mais novo todo feliz.
– Bom, quando o Médico Legal voltar, teremos uma audiência separada para tratarmos de assuntos técnicos.
– Nada que eu não possa responder! – apressou-se o mais novo.
– Mas insisto que seja com o Médico Legal contratado.
– Eu prefiro que seja o tio Epimeteu... Ele é que tem mais conhecimento nessa área... – disse o mais velho, sentiu uma cotovelada nas costelas do pai.
– Tudo bem, tudo bem... E não vamos esquecer: A Senhorita é que manda... – brincou o mais novo. Ela pouco se importou.
– O que temos mais? O vigilante ali... – indicando Charon.
– Ele mesmo...
– Ajudante de Embalsamento... Preparação do corpo...? – o mais velho iria responder, mas a cotovelada foi mais forte.
– Oh, tínhamos até um tempinho atrás... Mas bem, tivemos que fazer uma redução de custos... – o mais novo explicou.
– Reformas na sala do necrotério... – disse o mais novo.
– Implantar a geladeira secundária... – disse o zelador.
– Pagar algumas despesas com a Secretaria de Saúde... – disse o pai.
– Então quem faz o trabalho todo? – silêncio entre todos. O mais velho levantou a mão timidamente. E não recebeu cotovelada alguma por isso.
– Ah, sou eu, senhora...? – ele disse, ela o olhou diretamente nos olhos.
– Maria.
– É um lindo nome... Lindo... – ele balbuciou entre um elogio ou exprimir a verdadeira essência da Verdade.
– O senhor é que faz o processo todo?
– Oh sim... Meu filho aqui agüenta mais o trabalho que eu... – o pai não acotovelou, mas o pegou em um abraço esmagador de lado.
– Poderia me dizer os passos que você segue...?
– A Legislação de 2008, senhora Maria... e estamos adaptando para as emendas feitas no último Congresso de Tanatologia Ética, assim a gente pode ter mais embasamento pra administrar alguns cursos de preparação para a família de nossos clientes e... – o pai o apertou novamente e com mais força para que parasse de tagarelar.
– O que meu filho quis dizer foi: Quando recebemos uma ligação de algum cliente em potencial, fazemos a busca, a remoção... Isso aí é com meu irmão ali...
– Eu aqui... Tou aí como motorista... – disse o do meio.
– Sim, sim, está...
– Aí há uma vistoria básica no local, definimos como se procedeu a morte, é muito importante saber em que condições ambientais em que ocorreu o incidente, se as causas foram perfeitamente naturais ou devido algum tipo de ameaça exterior... – voltou a gaguejar o mais velho.
– O meu irmão enrola muito né? Entrevistamos alguns parentes ou presentes no infortúnio e imobilizamos o cliente para colocá-lo no carro... – disse o do meio.
– Um belo carro, se quer minha opinião... – disse o outro fiscal com sua prancheta.
– Oh sim, um belo carro... Mas os senhores não acham que o preto chama muita atenção...? – disse a fiscal olhando diretamente para o mais velho.
– Mas sempre foi preto carros assim, não? – disse o mais novo.
– É, mas alguns parentes podem ficar alarmados... Branco com as letras pretas seria mais discreto... – afirmou a fiscal. O irmão mais velho sentiu-se ser atingido por uma flechinha invisível bem no meio do peito.
– É uma ótima sugestão, não papai? – apressou-se o mais novo.
– Claro que sim, meu filho! Anotado! – disse o pai mentindo.
– Após a remoção...?
– Faço um pequeno exame rotineiro, nada parecido com a necropsia realizada nos Institutos Médico Legal, mas algo parecido. Tive um curso de aperfeiçoamento com Professor Themis sobre remoção rápida e segura e acho que encaixa bem em nossos serviços, já que a maioria de nossos clientes estão encaixados na categoria A, B e C dos prontuários de Regulamentação do...
– Encurtando a história: Ele olha lá dentro pra ver se não falta nada, se já não houver autópsia anterior e ficha do cliente... Se não houver, a gente dá um jeito... – disse o mais novo tentando roubar a atenção dos olhos tão claros da fiscal.
– Jeito...?
– Oh não, isso não! Temos autorização do Hospital local a ceder o lugar para algum Médico Legal fazer autópsia em qualquer cliente que seja necessário...
– E já que o seu não está em exercício...
– Às vezes o meu filho aqui faz isso ele mesmo... – o pai assinalou confiante.
– É... Faço sim... – disse o mais velho com timidez acentuada. Não gostava de ser o centro da conversa. Ee muito menos de ser encarado por uma mulher tão linda.
– Isso é bom... Agilidade e rapidez... Depois do exame?
– Começamos o processo de embalsamar. Dependendo do corpo, fazemos bem rapidinho sabe? E-eu preciso descrever exatamente o que faço...? – ele perguntou de forma preocupada. Não queria descrever como fazia tudo lá embaixo, era desagradável para uma garota ouvir isso.
– Oh não, não precisa...
– Porque é um pouco nojento sabe, Maria... Posso te chamar só de Mary? – intrometeu-se o mais novo.
– Oh sim, sem problemas...
– Bem, Mary... Depois do embalsamento, vestimos o cliente com roupas indicadas pelos parentes, fazemos alguns ajustes para que o caixão escolhido esteja em ordem e depois... depois...
– Acho que devemos dar uma descrição mais detalhada, não? – interrompeu o mais velho ofendido pela pobreza de explicação de seu irmão que mal sabia o que ele fazia lá embaixo. O mais novo abanou a mão para ele ficar calado.
– E tem a Maquiagem... e... – completou o mais do meio.
– E...? – a fiscal anotava em sua prancheta atentamente. Os quatro homens ali estavam ficando nervosos com tanta escrivinhação.
– Contato com a família... para ver se está tudo bem... – palpitou o do meio.
– Tudo bem?
– Tudo em ordem, sabe? Se o cliente está com cara de vivo e tudo mais... – disse o mais novo.
– É, isso aí... – disse o pai aliviado quando ela parou de escrever.
– E a marcação de Igreja, cerimonial...? Vocês não cuidam disso também? – o outro fiscal questionou.
– Oh sim claro... – o pai disse animado. Disso ele entendia.
– E o embalsamento? Como é feito? Que tipo de fluido balsâmico é usado? Vocês ainda utilizam a técnica do jornal e papelão...?
– Oh isso não, nunca jamais senhora! – o mais velho sentiu seu Ego ser chutado para o cósmico sem chance de voltar. Era como chamá-lo de charlatão, ladrão de defuntos ou coisa pior. Preparou sua explicação orquestrada para o procedimento milenar e respeitável de se embalsamar um cadáver, mas o mais novo o interrompeu imediatamente.
– Um ultraje! Fazer isso com o pobre coitado que já sofreu tanto? – disse ele fingindo indignação.
– Que barulho é esse? – todos ouviram um estrondo vindo da porta da sala de preparação.
– Oh porcaria! – balbuciou o mais velho já prevendo o que ocorrera.
– Ah não... – o pai espiou pela porta.
– Aiai... – disse o do meio.
– Caramba... – o mais novo estapeou o rosto já sabendo o que ouviria dos fiscais.
Que ótimo! Que maravilha! O maldito tinha que voltar ao lugar quando eu ia introduzir o último tubo?! Tinha que expelir tudo em cima de mim?! Seu filho de uma boa p...
– Não seria uma boa hora para entrar no necrotério, Mary... – avisou o mais novo.
– Estamos com um cliente lá dentro e... – disse o pai.
– Não é bom entrar quando o cliente está... – disse o mais novo.
– Ah, olá... – ela disse fracamente observando a bagunça no chão e na roupa do mais velho que estava ali parado na frente do cadáver sem roupa, tentando fechar um furo aberto pela linha mal costurada na pressa.
– Ahn... Oi? – o mais velho estava tão imundo que se sinto fraco. Havia alguma coisa pingando no avental para seu pé e ele suspeitou que tenha sido os pulmões do cara na maca.
– E você...? Está tudo bem?
– Ele está... Ele é... ahn... – o pai tentou desconversar. O outro fiscal já entrava e verificava a geladeira e as gavetas.
– Está aprendendo o ofício ainda, o novato...
– Isso... Rapaz,vamos, tire esse avental e vá se limpar...? Eu cuido daqui a partir de...
– Você estava fazendo a introdução retal sem supervisão do Médico responsável?
– Ahn... Esse cara aqui já estava... bem, ele estava... sabe...? Passando da validade... – disse o do meio.
– O senhor deixa um novato no necrotério sem a assistência possível e negligenciando uma das mais importantes regras de higiene profissional...? – ela aponta para um canto que todos ignoravam. Um pacote de presunto estava ali em cima da mesinha de instrumentos. Todos olharam para o irmão do meio
– Isso foi... foi...
– Oh maninho! Deixar o lanche aqui? Poxa vida... Hehehe... Esses novatos... – o mais novo jogou a culpa no mais velho.
– Mas não fui...
– Vai logo se limpar! – ditou o pai no modo tenebroso.
– S-sim senhor...
