Saí com minha cabeça pesando toneladas. Não sei se estou zonzo pelos fluidos pregando no avental e escorrendo em minhas pernas e atingindo minhas meias ou se tento me concentrar em não pensar no quanto a Médica da vistoria é a mulher mais linda que eu já vi em minha vida curta. E olha que já vi muitas mulheres bonitas, ainda mais na maca do necrotério. Lá fora ainda está frio, o chuveiro de resíduos mal funciona e os jatos inconstantes atingem tudo menos o avental maldito e acabam me encharcando nas calças e nos tênis. O cachorro gane alguma coisa, deve ser uma palavra de conforto. Como é que eu vou voltar assim lá pra dentro? E putz! Como é que vamos explicar o porquê de eu estar lá dentro com o cara torto? Papai tá ferrado e foi minha culpa! E gaaaaah o pacote de presunto! Eu avisei ao palerma do meu irmão do meio a arranjar um lugar melhor que perto do freezer central! Estou perdido, estou perdido, estou...

– Tudo bem aí? – a voz é tão cristalina que faz meus ouvidos zunirem. Minha cabeça parece ter perdido o peso incomum e o frio nem mais me incomoda. Ela usa meia-calça escura e sapatos sociais. – Você está bem...? E-eu já passei por isso na Residência e pode ser um pouco traumático ser alvo de...

– Tudo bem, tou acostumado...

– Acostumado?

– Ah, oh, quer dizer... Acostumado a ver esse tipo de coisa... – eu me limpo como posso e saio com a alma encharcada no frio da manhã. Um espirro me aterroriza imediatamente, não tenho como limpar o conteúdo saído das narinas.

– Oh... Quer que eu pegue um...

– Não está tudo bem... – eu busco um canto onde o Sol possa me aquecer, mas parece que todos os raios de Sol conspiram para que eu sinta frio eterno pro resto desse dia. – Olha eu... Eu... quer dizer... Você vai multar meu pai por causa disso... Tipo, isso acontece sabe? E eu...

– É você que faz os relatórios e as fichas não? – a voz dela parece ser de confidência fingida, eu me viro para encará-la, mas isso parece me ser a pior decisão que fiz hoje. Olhar para ela é como se perder no Paraíso, se é que existe um... Ela é tão pequena e frágil e tão bem vestida e confiante e cabelos pretos tão brilhosos e uma beleza exótica que talvez tenha feito muitos homens implorarem por um minuto de atenção. Eu faria qualquer coisa para tê-la para sempre comigo! Eu abriria uma cratera no solo e a seqüestraria para sempre para ficara o meu lado em um canto só nosso. Mais que minutos de ilusão, estou ruminando de forma humilhante e caótica o que poderia ser e o que não é. O Universo conspira contra minha pessoa, só pode. – Eu percebi pela letra nos prontuários... E a descrição do trabalho feito pelo seu irmão mais novo...?

– Oh maldição...

– Não precisa ficar assim... Eu até entendo... Tudo pela família não é?

– Algo assim... – outro espirro me faz arrepender do dia em que nasci. Eu cubro o muco como posso e tento falar logo. – D-desculpa... Desculpa mesmo...

– Bem... Ahn... Vou voltar ao meu questionário... Seus parentes precisam me explicar porque não colocaram você na folha de pagamento...

– Não faz isso não, por favor! Meu pai...

– Ele pode ter agido assim para poupar despesas, mas aos meus olhos é negligência. Ele não pode ter um ajudante de embalsamento trabalhando de graça...

– Você não tá entendendo, ele é capaz de me comer vivo se você fizer isso... Dá um tempo pro velhinho porque ele não agüenta muita pressão...

– O seu irmão também não parece ser alguém muito prestativo... Pode ficar sossegado... – me dando um rolo de papel higiênico que havia ali perto. – Eu vou cuidar disso... – Oficialmente nesse exato momento eu estou perdidamente ferrado e apaixonado. Essa mulher vai arruinar a minha vida familiar e dar o bônus de acabar com o meu coração.

Muito obrigada Universo por ser tão gentil comigo!

O Supremo Deus da Morte, o Invisível, o Temido, Aquele que é apenas Cultuado a Noite acordou de um cochilo induzido pelo seu empregado Morfeu. A desculpa de Hades era que estava trabalhando demais, a desculpa de Pérsefone era que ele precisava dormir mais, a verdade era que desde que sua Herdeira, Bianca di Angelo passara pelo barco de Caronte, o Mundo Inferior havia sentido um estrondo enorme vindo do Tártaro.

Eram os Titãs proclamando sua Vingança.
- Por que acordas tão assustado, querido esposo? - perguntou Perséfone costurando uma de suas saias de modo lenta e atenta a qualquer movimento do Senhor dos Inferos. Desde que lançara aquele maldito raio nele, Hades a colocara em quarentena na Sala do Trono, sem poder sair ou entrar em qualquer lugar do Mundo Inferior e ainda mais lá Fora.
- Apenas... Apenas um sonho maluco...
- Estás tendo muitos destes esses dias... Algo em que eu possa ajudar?
- Fique quietinha e fazendo o que uma boa esposa faria... - ele murmurou para si mesmo, pressionando a perna atingida pelo raio de Zeus. Aquele calombo da semana passada virara uma bela mancha roxa e doía como nunca.