Capitulo III – "Dormir ao luar"
Eu só queria ir para o meu quarto, mas quando entrei vi o David sentado na minha cama. Ele estava à minha espera e a cara dele estava neutra, impossível de ser lida. Quando se levantou eu não tinha ideia do que ele iria fazer, mas podia-se sentir a tensão no ar. Eu tinha a sensação de que a minha noite ainda não tinha acabado no que tocava a revelações…
David – Eu preciso de falar contigo. Acho que chegou a altura… precisas de saber, mesmo que a tua mãe acabe por ficar zangada comigo, ou mesmo… tu.
Parece que eu estava certa…
Merith – Depois do que ouvi há pouco, acho que nada me surpreende por isso, sê breve…
Ajustando a sua postura ele olhou para a foto de nós os três, que estava na minha cómoda ao pé da caixa de jóias.
David – Eu calculei que ele te fosse contar, por isso é que decidi que também não te iria esconder a verdade.
Merith – Verdade? Isto ainda não acabou?
Eu falava como se fosse uma morta viva. O nível da minha voz era o equivalente a um sussurro, e eu não sabia se podia aguentar mais alguma revelação catastrófica.
David – A tua mãe provavelmente nunca te contou sobre o que se passou com os meus pais… Bem, mas tu precisas de saber. Quando eu tinha 3 anos os meus pais começaram a discutir, e tudo o que eu me lembro é de ser porque eles não podiam estar juntos. A razão para isso eu apenas descobri anos mais tarde. A minha mãe era humana, tal como tu. Ela e o meu pai apaixonaram-se mas tiveram de fugir da sua terra natal. Tudo isso porque o meu pai era um lâmia.
Eu fiquei a olhar para ele surpresa. Com essa última frase ele ganhou toda a minha atenção.
David – Então como deves calcular, reproduzir seria algo impossível. Bem, pelo menos foi o que eles pensaram. O que é verdade é que eu nasci, após nove meses, e saudável. Não aparentava ter características que indicassem que fosse um lâmia; Era um ser humano completamente normal. Claro que isso era suspeito, por isso ao longo dos anos os meus pais começaram a reparar que, quando caía e me magoava, a ferida curava em menos tempo do que numa pessoa normal; que suportava a dor como um lâmia e tinha as mesmas habilidades - tirando o controlo da mente e ter uma velocidade fora do normal.
Então como te disse, quando tinha 3 anos tudo mudou. Alguém de quem eles haviam fugido todos aqueles anos tinha-os encontrado. Eles não sabiam da minha existência, mas queriam matar o meu pai por ter desrespeitado o código de honra dos lâmias, mais precisamente o de "os humanos são presas e não devemos criar laços com eles".
No meio de tudo isto a minha mãe acabou por me entregar à tua, assim eles fugiram, mas foram mortos dias depois. O facto de eu nunca ter gostado do Ash, tem a ver com o facto de o pai dele ter sido um dos anciões que mataram os meus.
Depois de eu ter ouvido aquilo tudo, eu percebi o facto de o David nunca ter gostado do Ash. Mesmo assim eu não tinha a certeza de nada. Não sabia que lado tomar, o do David ou o do Ash. Se é que havia escolha possível…
Merith – Agora percebo... Mas David, posso falar contigo sobre isto amanhã? É que estou muito cansada…
Olhando uma última vez para mim ele disse:
David – Claro.
Ele saiu do meu quarto, desejou-me boa noite e fechou a porta atrás dele.
Eu tirei a minha roupa toda e atirei-a para o cesto, no quarto de banho, enchi a banheira e mergulhei na água. A última coisa de que me lembro é de estar muito cansada e fechar os olhos.
Quando acordei tinha o pulso do Ash na minha boca, podia sentir o gosto metálico a sangue a escorrer pela minha garganta, e a água estava coberto dele. O meu pescoço doía-me. Aí tentei libertar-me do Ash, mas era como se uma força brutal estivesse a ser exercida sobre mim e não me conseguia libertar. A próxima coisa de que me lembro é ele a envolver-me num robe e o vento da minha janela a bater no meu corpo molhado enquanto vi a distancia entre mim e a janela ficar cada vez mais pequena...
