NOTA DA AUTORA (N/A): Demorou mas cá está. Espero que estejam a gostar da história, tanto quanto eu estou a gostar escrevê-la. Crísticas e sugestões são sempre bem-vindas.

Capítulo V – "Desejos perigosos"

"O quê?" – Gritei. Ele não podia ter feito o que eu estava a pensar, era impossível.

Por isso, e em negação, eu disse:

"Como é que te atreves?! Tu fizeste o que fizeste comigo e ainda me dizes isso?! Tu não podes ter feito isto comigo… NÃO!" – Olhando-me com uma cara mais séria ele tentou tocar na minha cara, mas eu afastei a mão dele.

"O que está feito, está feito. Mas nós falamos melhor depois… Tens muito que fazer…"

Frustrada, eu continuei:

"Não, não tenho! Tu vais falar comigo! O que é que me fizeste?! DIZ-ME?!" Lágrimas escorriam, agora, pelo meu rosto. Esta situação estava a deixar-me frustrada e inquieta. Para além de me ter trazido para um sítio que não conheço e ter feito o que fez, ele ainda tem a lata de me deixar "no escuro" sobre o que se passa comigo.

"Calma… Isso acontece quando te transformas em vampira. As tuas emoções, boas ou más, são muito mais projectadas" – Fazendo uma pausa e deixando cair na cama as roupas, que só agora, reparei que trazia, ele continuou – "E o que fiz contigo é obvio… Dei-te a oportunidade de víveres para sempre comigo. Partilhando tudo como sempre fizemos. Só tu e eu como sempre quiseste"

Eu não respondi de volta. Ele estava a falar do que tinha escrito no meu diário e eu sabia perfeitamente que tinha escrito aquilo. O problema é que muito mudou desde a última vez que o utilizei. Eu e o David envolvemo-nos…

Só agora é que reparo o quanto mudou. Todos os sonhos são agora pesadelos e todos os impossíveis, possíveis. Mais do que nunca queria voltar atrás no tempo e mudar o que escrevi.

O Ash tinha razão nesse aspecto, eu já quis o que ele me está a oferecer, um a vida só com ele ao meu lado. Mas isso eram desejos de uma adolescente sonhadora, apaixonada pelo seu melhor amigo. Agora eu não passo de uma rapariga sem sonhos, sem luz, sem a inocência natural que tinha. Foi-me tudo roubado. A minha realidade tinha sido drasticamente mudada e eu estive sentada na fila da frente, sem nunca poder fazer nada para parar a peça de continuar.

"Eu espero por ti lá em baixo." Ele saiu do meu quarto e disse, com uma voz baixa e quase sem vontade.

Depois de tomar banho, vestir-me e acalmar-me, saí do quarto. Eu não conseguia parar de pensar em duas coisas: que eu provavelmente não tinha a mais pequena noção do quão a minha vida ia mudar e que eu própria tinha já mudado sem me aperceber.

Ainda com uma cara de pouco descanso e magoada, desci as escadas em direcção ao piso inferior.

A casa continuava o estilo do quarto, e, outra vez, senti o cheiro a maçã com canela. Muito sorrateiramente abri uma das portas francesas que davam para a sala de estar, e sem esperar que o Ash notasse a minha presença, perguntei:

"Porquê, Ash?"

Ele continuou a olhar para a lareira à frente dele. Ele estava sentado na ponta do cadeirão que estava no lado direito da mesma. Eu tomei o lugar no cadeirão oposto. Então, sem sinal de resposta, repeti:

"Porquê? Eu só quero saber porquê."

Levantando a cabeça ele mirou-me e depois de dar um suspiro, finalmente falou:

"Não tenho uma resposta que te vá reconfortar se é isso que esperas. Acho que nada poderia refortar-te…" – Fazendo outra pausa para olhar para a lareira, ele continuou – "Eu ouvi o teu pulso ficar lento sem mais nem menos… Eu… Eu não podia deixar a tua luz escapar dos meus braços…"

Eu ouvia atentamente, calada à espera que ele finalmente me disse-se o que se passou…

"Quando eu entrei na tua casa de banho, vi que te estavas a afogar na banheira. Eu dei-te o meu sangue numa tentativa de te salvar… Mas isso não ajudou…"

Agora ele estava quase a chorar. Aí percebi o que ele estava a tentar dizer. Eu morri.

"Queres dizer que eu… morri? Não foste tu que…"

"Claro que não!" – Agora ele olhava para mim num misto de raiva e desilusão – "Eu nunca… Nunca…" – Ele agora olhava para mim, tentando perceber se eu entendia sem que ele disse-se as palavras. " Mas visto que tinhas bebido o meu sangue, nem tudo estava perdido… Eu podia fazer-te continuar a viver."

Tentando assimilar tudo o que ele me disse eu perguntei:

"Mas como é que eu me afoguei? Eu não me lembro…"

"Tu não? Tu não te lembras?" – Fazendo uma pausa ele continuou – "Merith… Tu…"

"Eu o quê?"
Lá no fundo ele não precisava dizer o que se tinha passado, porque eu já suspeitava. Com tudo o que tinha acontecido, o que eu queria era desligar-me um 'pouco' do mundo… Mas parece que esse 'pouco', foi longo de mais.