Capitulo 6 – "A verdadeira escolha"

Mesmo ainda com a raiva que sentia sobre o que se passou na noite passada, eu conseguia agora começar a entender o que ele tinha feito, o quão desesperado ele estava. Eu tinha magoado uma das pessoas mais importantes na minha vida, e ele estava furioso comigo. Ele não queria perder tempo, mas ao fazer o que fez, adicionou mais uma camada de gelo que me está a impedir de vir à superfície para respirar, para conseguir seguir em frente.

O Ash olhava para mim, ainda a chorar, sem me conseguir responder. Ele tentou começar a falar, mas parava sempre. Como se tivesse medo de começar a chorar compulsivamente se dissese uma única palavra.

Então ele colocou a mão dele no lado esquerdo da minha cabeça e projectou o que ele viu. Mal eu senti a ligação com ele, senti uma enorme tristesa entrar em mim. Ao ínicio eu estava espantada pelo que ele podia fazer com um simples toque, o quão mágico era puder estar na mente de alguém. Mas não era ele que estava na minha mente, mas eu na dele. Aí encontrei-me num sítio escuro com "janelas" de memórias - era incrivel o que se podia fazer quando se era um vampiro - toda a vida dele estava ali para eu ver. Depois de um bocado a vaguear desorientada, ele abriu uma porta pela qual entrei, e foi aí que vi tudo o que ele viu, como um filme, numa sala escura e fria – a mente dele.

Ele ainda estava no quarto dele deitado na cama, quando me sentiu começar a "desaparecer"... Ele levantou-se muito rápido e entrou pela janela da minha casa de banho com a agilidade de um gato. Aí, ele viu o meu corpo completamente de baixo de água. Uma sensação de pánico percorreu todo o meu corpo, eu senti o que ele sentiu. Ele dirigiu-se à banheira, puxou-me para a superfície e tentou reanimar-me, mas eu não respondia. Aí, ele mordeu o próprio pulso e fez com que eu bebesse o seu sangue.

Ele esperou, com a minha cabeça no colo dele e repetido vezes sem conta "Por favor, Merith não me faças isto! Por favor! Eu peço-te!".

Eu conseguia sentir a tristesa e as lágrimas que caíam da cara dele. Era como se o mundo dele tivesse acabado. Aí senti o Ash dizer na mente dele "E és. Tu és o meu mundo e eu estava quase a perder-te para sempre". Eu ouvi-me soluçar entre lágrimas, eu não conseguia parar de chorar ao velo assim. Ao ver como ele se sentiu.

Passaram alguns minutos e nada. Foi então que ele decidiu tornar-me.

"Era a única maneira de não te perder Merith. Eu não te podia perder. Percebes?" Eu ouvi ele dizer na mente dele. E sim, eu percebia.

Já pouco antes de chegar à parte onde ele saiu comigo pela janela, ganhei consciência, e aí ouvi eu própria a dizer:

"Deixa-me ir... Eu não quero isto... Eu não consigo."

Aí, ainda a chorar, caí de joelhos no chão, aos pés do Ash. Ele continuava a chorar com a mão no sítio onde antes estava a minha cabeça.

"Tu- Tu querias mesmo morrer?" – perguntou, limpando as lágrimas que lhe corriam no rosto. – "Querias? Reponde-me Merith! Porque se era isso que querias, eu não-"

Ele não acabou o que ia dizer e virando-me as costas ele esperou que eu respondesse, e apenas uma palavra saiu da minha boca:

"S-Sim..."

Era verdade. Toda a minha vida tinha acabado de dar uma volta de cento e oitenta graus. Primeiro as coisas com o David, depois ele com o meu diário e a dizer que me amava... Eu não queria nada daquilo. Eu só queria continuar com a vida patética que tinha. Mas o mais irónico é que eu nem me lembrava disso. Desse desejo de morte... Do desespero que senti.

Quando eu vi o Ash com o meu diário, todo o meu mundo acabou. Era como se tivessem descoberto a única maneira de me matar. E depois o que eu nunca pensei... Ele era algo que nunca antes pensara que existisse. Tudo aquilo tirou a minha sede de viver. Tudo aquilo fez-me questionar o que acreditava e o que valia a pena. Eu não queria viver num mundo em que não tivesse o Ash ao meu lado. Mesmo tendo o David, isso não mudava. Ele nunca o conseguiria substituir. Nunca me ia fazer esquecer-lo.
Agora que olho para o que fiz, eu mal consigo acreditar o quão cega eu estava.

Mas agora tudo mudou defenitivamente. Neste momento eu vi que o que tinha escrito no diário ainda estava presente. "Amor é não ser capaz de viver sem a outra pessoa."

Eu ainda estava a chorar, não pelo que fiz, mas pela dor que eu causei ao Ash. Por mais indecente e imural que tenham sido as acções dele, eu amava-o. E foi aí que eu me voltei a sentar-me e tentei explicar o que sentia.

"Todo o meu mundo tinha acabado, sabes? Tu sabes perfeitamente que nunca fui forte, que sempre fui uma cobarde. O David ama-me de uma maneira que, pelo que parece, eu nunca conseguirei amar-lo. E eu ainda lhe dei esperanças com toda a minha confusão. E tu és um... vampiro e disseste que me amavas também, sem falar do facto de que leste o que escrevi naquele diário! Eu não queria escolher entre nenhum de vocês. Eu não queria viver num mundo em que não tivesse um de vocês..."

"Lá por achares que não conseguias aguentar o que tinha acontecido, não significa que tenhas de pensar em acabar com a tua vida!" – O grito dele ecoou pelas paredes de toda a casa. Ele agora olhava-me nos olhos, apenas com uma parte da cara iluminada pela lareira.

"Eu sei..." – Eu sentia-me mal por ser ele que me estava a dizer isto.

Ele agora estava à minha frente e de joelhos.

Olhando-me nos olhos ele disse:

"Mas eu também não conseguiria viver num mundo sem ti"!

Naquele momento eu queria beijar-lo, mesmo depois do que ele me tinha feito. Eu já nem sabia o que sentir. Ele beijou a minha testa, como se compreendesse a luta interior que estava a sentir, e disse:

"Tempo. Ele cura tudo. Mas agora vais ter de pensar no que vais fazer. Tu és uma vampira agora, estás em trancisão. Não vais puder voltar à tua vida normal. Não vais puder voltar a ver o David, ou a tua mãe ou mesmo a Tryvie. Pensa no que queres fazer. Tens mesmo de fazer uma escolha."

Dizendo isto ele saiu, deixando-me sozinha com os meus pensamentos. O problema é que com tudo isto eu acabei por perder um deles. Acabei por perder o David. Mas como é que eu ia contar-lhe isto? Ele iria ficar ainda mais furioso com o Ash do que já está. Para além de o pai dele ter tirado a vida aos pais dele, o Ash tornou-me no que ele mais odeia.

Essa era a minha escolha. O que lhe ia dizer? O que ia fazer para que ninguém suspeitasse do que sou?

Eu só tinha uma solução em mente; mas antes de puder realizar essa solução, eu tinha de ter uma última conversa com cada uma das pessoas que mais signtificavam para mim: a minha mãe, o Daivd e a Tryvie.