Eu decidi que não ia esperar que o Ash voltasse e pus-me a caminho da minha casa. Ou mais correctamente, o que um dia fora a minha casa.
"Edward? Vou sair. Se o Ash voltar entretanto, diz-lhe que volto já."
Antes de bater com a porta ainda ouvi o Edward
"Mas Merit-" Não lhe dei qualquer chance de resposta possível. Eu estava numa jornada, que sei hoje, iria mudar tudo no que eu acreditava até então… Até mesmo abrir a última porta para o que desconhecia deste "novo" eu.
Eu precisava de contar ao David que estava viva e dizer-lhe para que não se procurasse, e também precisava explicar-lhe o que realmente aconteceu.
Porém o que encontrei quando cheguei à minha casa não foi o que esperava.
O carro do Ash estava estacionado do lado da casa dele. Mas não era o único. Também reconhecia o outro carro encostado do outro lado da estrada. Caso não olhasse, nunca tinha reparado que era o do pai do Ash. Isso significava problemas. O pai do Ash não podia saber da minha condição actual e muito menos saber sobre o David.
Assim, quando vi a porta de entrada aberta, já sabia que algo de muito mau tinha acontecido.
Entrei no hall de entrada e percorri o corredor devagar. Naquele momento era como se tudo estivesse a acontecer em câmara lenta. Quando entrei na sala, deparei-me com o cenário mais horrível que já tinha visto. Quem quer que tivesse entrado tinha esperado até chegar a esta divisão para fazer o que tinha a fazer.
A mesa de café da sala de estar estava partida e no chão havia restos de sangue. Eu continuei a andar seguindo o sangue que continuava até à porta da cozinha como uma pincelada numa lona.
Nesse momento eu preparava-me para o pior. A quantidade de sangue no chão assim o dava a entender. Mas ao mesmo tempo que eu inspeccionava a casa e continuava a perseguir o caminho ensanguentado, todo o meu ser se via em constante luta.
Uma fome como nunca antes tive apoderava-se de mim. Eu conseguia sentir o cheiro ferroso do sangue, e cuidadosamente, sem fazer qualquer ruído, verguei-me e passei o dedo neste, como se estivesse a tirar chantilly de um bolo, e conduzi este à minha boca. Era doce.
Um barulho vindo da cozinha me fez voltar a mim mesma. Rapidamente percorri o espaço que me faltava e quando entrei na cozinha um choro ameaçou escapar-se da minha garganta.
Esventrado no chão da cozinha, estava o corpo da minha mãe. Eu não consegui olhar mais que uns segundos, mas quando desviei o olhar vi a cabeça ensanguentada do David atrás da mesa da cozinha, porém quando cheguei à beira dele reparei que era apenas a sua cabeça. O corpo estava caído no canto da divisão. Deitado em direcção à minha mãe.
Aí um mar de lágrimas inundava a minha cara, sem que nenhum soluço saísse de mim. Reparei também que o David tinha os caninos afiados. Nesse momento percebi que o pai do Ash deveria ter percebido quem o David era… ou pior, que o Ash lhe o tinha contado.
Enquanto eu olhava sem qualquer vestígio de vida nos meus olhos para o cenário à minha frente, outro barulho fez-se ouvir no jardim das traseiras.
Sem esperar, dirigir-me à porta que levava a este, já levando comigo a promessa de quem quer que tenha feito aquilo iria pagar.
Assim empurrei a porta de rede. O pai do Ash olhou lentamente na minha direção. Tinha uma espada na mão. Já o Ash apenas olhava para mim como se soubesse que ia morrer. Naquele momento eu conseguia persentir que quer fosse pelas minhas mãos ou pelas do seu pai, ele não sairia dali vivo.
Era óbvio que eu não iria perguntar-lhe o que acontecera nem que lhe ia dar tempo para se justificar… se salvar. Mas também o era o facto de ninguém, nem mesmo o pai dele, saberem o que eu era agora.
O pai do Ash, que o segurava pelo colarinho largo-o. O Ash simplesmente andou na minha direção, parando a nada mais que um metro de mim. Aí o pai do Ash falou.
"Ah… Agora já percebo porque raio vieste tu falar com aquele bicho… Porque a tua preciosa Merith não está morta. Pelo menos não totalmente. Parece que querias deixar o teu amigo meio-o humano/meio-vampiro mais descansado… Ups…" Ele riu-se andando de um lado para o outro, como se saboreando o facto de ter chegado aquela dedução. "Acho que tanto tu como a tua amiga chegaram um pouco tarde.
Eu pergunto-me, Merith… Como é que te estás a aguentar depois de teres visto tanto sangue… Depois de teres visto a tua mãe naquele estado…? E o teu amigo anormal…?"
Nesse momento de impulso, ao tentar chegar à beira dele o Ash parou-me agarrando-me o braço. Apenas movendo os seus lábios ele disse 'Não vale apena. Ele é mais forte que tu… a não ser que…'
Aí ele inseriu um pensamento na minha mente. Os poderes que ele tinha ainda me deixavam zonza mas quando me apercebi do que ele queria que eu fizesse congelei.
O pai do Ash continuou.
"Estou a ver que te consegues controlar muito bem. Para um bebé vampiro nem és muito má… Pergunto-me se isso é mesmo de ti ou se alguém te terá contado uns certos truques." Finalizando a frase a olhar para as costas do Ash ele esperou pela minha resposta.
Nesse momento eu voltei a olhar para o Ash, que me largou o braço e disse'Faz o que te disse'.
Sem pensar duas vezes peguei no pescoço dele e bebi do seu sangue. Com a rapidez do meu novo ser o pai do Ash demorou a reagir, mas quando o fez já eu lhe tinha tirado a espada e preparava-me para lhe cortar a cabeça. Esta rolou no chão mostrando a expressão de surpresa imprimida momentos antes. O resto do corpo caiu de joelhos à minha frente.
Coberta de sangue que dele tinha jorrado e do sangue que tinha bebido, que ainda caí dos cantos da minha boca como saliva, eu admirei a minha obra de arte. A Merith que toda a gente tinha conhecido morrera aí. Já nem eu própria me reconhecia.
Depois de uns momentos de saborear a adrenalina que percorria o meu corpo, finalmente olhei para o Ash. Ele estava no chão a olhar para mim. Já não tinha muito tempo. Cheguei à beira dele e coloquei um joelho no chão, segurando o outro braço na espada.
"Eu cheguei tarde demais… Como sempre, eu não consegui salvar ninguém-"Naquele momento eu não consegui ter qualquer pena dele. Isto porque toda a raiva que eu tinha suprimido desde a noite em que morri havia esbordado… Eu não conseguia mais atirar coisas para trás das costas e esquecê-las. Já não podia mais fazê-lo…
"E eu já perdi muito tempo a tentar esquecer isso. A tentar perdoar-te. Eu não consigo fazer mais isto Ash… Não depois do que o que o teu pai fez…"
"Eu entendo. Faz o que tens a fazer… Mas lembra-te, agora todo o mundo vai andar atrás de ti. Nunca mais vais conseguir parar de olhar pelos ombros…"Olhando para o céu ele continuou. "Boa sorte, Merith."
Levantando a espada e olhando a cara dele, infligi o golpe que destruiria a última ligação existente com o meu antigo eu. A verdade é que ainda ninguém, para além do Edward, sabia da minha condição. Para o mundo eu estava morta. E era assim que eu tencionava ficar.
Haviam passados meses desde o que tinha acabado de relatar. Eu estava agora sentada no jardim da minha casa na Escócia. O Edward olhava para mim com uma expressão de fascínio.
"Então essa é a história do teu destino?"
"Sim. Agora só me resta tentar compreender o que sou, com a tua ajuda, e tentar viver confortavelmente sem que ninguém saiba que estou 'viva'…"
"Tens a minha palavra de que vou ajudar sempre. Depois de me teres contado isso tudo percebi que afinal não conhecia o Ash assim tão bem como havia pensado…"
"Nem tu, nem eu. Sinceramente ainda tenho as minhas dúvidas sobre o que aconteceu naquele dia na minha casa. Mas prefiro não saber. Se vou ter que passar uma eternidade viva, ao menos que seja na ignorância dos factos que muito provavelmente me destruiriam…"
"E agora… Achas que finalmente conheceste o teu fate (destino)? É assim que a tua história acaba?"
"Uma coisa é certa… O meu destino foi tornar-me numa vampira… Mas sobre a minha história? Bem… Ela só está a começar…"
FIM