III

A partir de então, passou a pensar mais nela do que nunca, se é que isso pudesse ser possível. Naquele dia, a barreira que os cargos lhes impunha desaparecera. Eles realmente tinham intimidade, não apenas física, mas agora, sempre que se encontravam fora dos olhares alheios, tratavam-se como os velhos conhecidos que eram. Hilda até mesmo lhe detalhou como soubera que ele estava na verdade vivo, quando da ocasião em que havia tentado morrer levando o mensageiro maligno.

- Os supostos inimigos me livraram do feitiço. Fiquei muito triste ao saber que todos os Sete haviam morrido, pois conhecia a maioria deles desde cedo em minha vida. Todavia, a morte que mais havia pesado era a sua, Siegfried. Erigi uma bela lápide a cada um deles, aspergindo água sagrada e sacrifícios em cada uma. Mas na sua aspergi minhas próprias lágrimas e depus uma mecha de meu cabelo.

- Naquela noite escura, não pude dormir senão com a ajuda de minha irmã. E imediatamente tive um sonho, onde você aparecia ferido e em pé sobre um monte de neve de uma planície conhecida, dizendo: "É aqui que estou soterrado, e não sepultado, pois ainda sou do mundo dos vivos."Assim que acordei, me apeei em meu cavalo branco e fui sozinha ao local indicado.

- Alguns guardas, temendo algum embuste do maldito senhor que outrora me enfeitiçara e ainda estava em plenos poderes, me seguiram. Assim que cheguei à planície, reconheci o monte de neve tal qual o do meu sonho. Desci do cavalo imediatamente e passei a cavar com minhas próprias mãos. Os guardas, achando que eu estava louca, quiseram me demover novamente para o palácio, mas eu insisti dizendo que você estava ali embaixo. Eles me ajudariam com algumas pás simples que traziam consigo, e logo toquei em enregelada mão direita.

- Ajudaram-me a terminar de desenterrá-lo da neve, e o levaram imediatamente aos melhores médicos do palácio. Eu tive medo pois assim que o despiram de sua armadura e o colocaram sobre o leito, seu rosto estava tremendamente pálido, e seu corpo ainda muito frio. Eu pensava já estar morto e que não havia mais nada a ser feito senão lhe dar um funeral honroso. Mas o médico principal me disse que você mantinha algum pulso, mesmo que fraco. Ao pôr minha mão para senti-lo, e ao realmente constatar que você dava sinal de vida, senti-me muito feliz.

- Orei dia e noite, até que você recuperasse a consciência. Ficava ao seu lado, e não me separava de lá senão para cumprir com meus deveres. Logo, porém, você recobrou as faculdades e se levantou novamente. Aquela oferenda que fiz no templo foi pela sua salvação.

- Então – disse ele – aquilo tudo foi porque sobrevivi?

- Foi um milagre. Não vi jamais alguém sobreviver em tais condições, e sem seqüelas maiores. Quem diz que sofreu tanto, olhando para você hoje?

- Você já me amava naquele tempo...

- Sempre te amei. Desde criança eu o olhava com admiração.

- Comigo também foi assim. E agora... agora pudemos assumir isso para nós mesmos.

- Tudo que eu queria agora era poder escolhe-lo como marido, e não ter de servir como quase prostituta a um estranho apenas por alianças de poder.

- E se descobrirem que venho aqui vê-la todas as noites?

- Aí sim vão me tachar de prostituta. Desculpe-me se pareci uma daquelas mulheres mas fáceis ao ter me oferecido para você. Afinal, quem começou tudo isso fui eu...

- Quando uma pessoa se entrega por amor, ela jamais é promíscua. Você e eu já estamos casados, pois um matrimônio começa no coração, como você me disse naquela noite mesmo. A cerimônia é apenas para constatar isso aos outros.

A rainha riu com gosto:

- É verdade. Você me compreende. Onde encontrarei um homem que pense assim, e não apenas num contrato? Jamais conseguirei me entregar a outro. Não sou fria a esse ponto...

Ele toma a cabeça dela entre as mãos.

- Terá de ser, minha senhora. É triste, mas você nasceu princesa. E mulheres nobres têm esse destino.

Os olhos azuis dele diziam o contrário. Hilda era mulher acima de tudo. E ninguém, quanto mais alguém como ela, deveria ser submetido a tal coisa.

- Na hora, arranjarei coragem.

Todas as noites, Hilda dava um sinal e iam para aquele mesmo quarto. Eram noites muito belas, nas quais nem sempre havia sexo. Eles conversavam, decidiam tirar o atraso de todo o contato pessoal que4 não tiveram antes. E ele ficou conhecendo a mulher que havia por detrás da deusa. Ela era para ele ainda mais bela.

Com o tempo, porém, aquele semblante radiante foi descaindo. Ela ficava triste dia após dia, pois logo chegaria a época das audiências para os pretendentes a sua mão.

Hilda apenas observava-os pelo poder que ganharia, ou pela aliança de terras. Afinal, se era para ser calculista, que fosse de uma vez.

Acabou escolhendo o mais útil a si, um príncipe chamado Günter. Não analisou seu caráter, nem outras particularidades; apenas a vantagem que teria na "transação". Seu amado estranhara tal frieza; ela realmente casava apenas pela obrigação.

Quando ficaram juntos naquele dia, ele demonstrou sua estranheza perante o comportamento dela., ao que a rainha riu.

- Queria que eu amasse outro?

- Não, mas...

- Isto é apenas negócio. Não quero pensar que estou casando; apenas cumprindo um dever, então a cumprirei da melhor forma possível.

- Não consigo pensar dessa forma. Hilda, vai ser tão ruim quando você subir ao altar com outro...

A rainha silencia, dizendo mais com seu espírito cabisbaixo do que com qualquer outra coisa.

Acabou arranjando-se com aquele noivo mesmo. Os preparativos seriam lautos, e ambas as cortes estariam presentes naquela celebração, a qual ocorreria no palácio da rainha. Havia apenas um problema: não havia nenhum parente homem de Hilda para levá-la à cerimônia de entrega ao noivo.¹

- É necessário que isto se faça com um parente? – indagou ela a seu futuro marido.

- Bem... segundo os costumes, sim. Seria estranho se sua irmã o fizessem sendo que ela é até mais nova.

- E se fosse algum homem próximo da família real, sem no entanto possuir laços de sangue? Siegfried, por exemplo.

O guardião, que estava sempre presente nas audiências, com o pretexto de vigiar as portas e a pessoa da rainha, não escondeu um olhar de desgraça. Hilda só podia estar querendo brincar de maneira cruel com ele!

O noivo a olha com surpresa:

- Mas ele é só um...

- Não, ele não é só um guarda. Ele é um amigo de infância, que deu a vida por mim quando não havia mais solução no meu caso. A mãe dele era amiga íntima da minha, e ele tem o mais alto cargo que um guerreiro poderia ambicionar em meu reino. É como um irmão para mim.

O nobre olha para a bela e distinta fisionomia de Siegfried. "Nem mesmo parece não ter sangue azul", pensa. "É, dará um bom ar à cerimônia."

- Está bem, minha rainha. Num caso desses, é uma concessão a ser feita.

Assim que tudo se deu por arranjado e o futuro marido foi embora, Siegfried aproxima-se afoito.

- Como quer que eu a leve em plena cerimônia para... casar-se com outro! Será demais para mim!

- É exatamente isso que acontecerá. Você, meu verdadeiro dono, me dará... me dará ao falso!

Um rastro de lágrimas anuviava os olhos dela. Seiegfried não sabia como ela poderia suportar tamanha coação.