IV

O dia do casamento chegou tão rapidamente que Hilda sequer sentiu o tempo passar. Ela deveria disfarçar-se de "virgem", senão o "noivo" jamais a aceitaria. No entanto, quis evitar tanto o momento em que finalmente teria de se entregar a outro, que adiou essa providência o máximo que pôde. Tanto que na véspera do casamento ainda não a havia tomado.

Apenas um dos preparativos seria secreto: o quarto de Siegfried ficaria ao lado do seu.

- Temo que meu marido me force a alguma coisa que eu não queira. Você sabe... não confio em um homem que sequer conheço. Em você colocarei novamente minhas esperanças. De agora em diante, dormirá aqui, bem ao lado. Levante esta estatueta, e uma passagem na parede se abrirá diretamente ao meu quarto. Vê?

- Sim, Hilda. Mas... tem tanto receio de alguém que a partir de amanhã chamará de "marido"?

- Não é receio. É falta de confiança. É admitir que tudo isto na verdade é lidar com uma pessoa que pode me fazer mal, ou pode não fazer. Quero me precaver.

No dia do casamento, tudo estava muito bem decorado. A rainha estava belamente ornada, porém lhe faltava o brilho. Como Siegfried a levaria ao altar para dá-la simbolicamente ao noivo, também estava muito bem vestido. Era, no entanto, uma ocasião terrivelmente triste para ambos. O guerreiro, mesmo tendo o coração rígido e a alma fria e controlada, mal conseguia se conter para não desabar. Hilda era seu ponto fraco; não havia como não sucumbir ao que ele se dedicara em toda a sua vida.

Na cerimônia, o salão estava cheio de pessoas, muitas das quais Hilda ou o noivo não viam há muito tempo,ou sequer tinham contato. Siegfried a tomou pela mão e a levou pelo corredor que cortava a sala ao meio e que as pessoas podiam contemplar. Ela segurou muito forte em sua mão. Não havia outro pilar no qual se sustentar; naquela sala cheia, havia apenas um ao outro; de resto, estava vazia.

Ao chegar no altar, o moço teria de juntar a mão da rainha com a mão de Günter. Parou um instante, pedindo internamente forças para finalizar o ato. Enfim, de olhos quase fechados e semblante visivelmente abalado, uniu as mãos de um e de outro, não sem a leve hesitação da mão de Hilda ao deixar a sua.

Siegfried deixou-os e foi ao seu lugar de espectador. Não viu nem ouviu mais nada. Apenas a fisionomia triste de sua amada ali, talvez tentando criar coragem para a noite vindoura.

Assim que a festa se iniciou, o guardião foi diretamente às bebidas. Tentava conversar com as pessoas e distrair a cabeça, mas era tudo em vão. O fato de ter conhecido intimamente sua amada não o consolava. Pelo contrário: apenas lhe dava uma idéia do que o outro vivenciaria. "Não. Ele jamais terá tanto amor por ela quanto eu."

Quando Hilda se viu um pouco livre dos convidados, foi até ele:

- Não beba demais! Certamente precisarei de você hoje.

- Estará com seu marido! Não precisará de mais ninguém. Além disso, ele é um ser inofensivo. Veja! Nem deve saber lutar. Qualquer criança acaba com ele!

- Psssst, fale baixo! Os outros podem escutar. Ademais, nunca se chuta um cão morto.

Siegfried quase não se conteve para beber além da conta. Era uma noite difícil, e até para a rainha ele quis dar bebida, ao que ela recusou.

- Por mais que eu queira, não posso.

Pouco antes da rainha e seu marido se recolherem, ela disse ao guarda que já fosse até o próprio quarto. Ao lá entrar, ele sentiu um desespero que jamais sentira em face de qualquer coisa. Pensou nela quando criança, nela ainda menina, nela já rainha e logo após dominada pelo feitiço. Logo ela estava em seus braços, e naquele momento devia estar com o outro. Deitou-se na cama e, pela primeira vez na vida, sentiu seu espírito sucumbir. Desde criança não chorava. E agora aquele nó vinha lhe apertar a garganta. Tentava pensar que havia tido muito em ter sido seu "namorado" naqueles poucos dias, mas era inútil.

No meio de todo aquele vazio, o moço vê uma luz entrando repentinamente no quarto. Era Hilda, entrando pela passagem secreta. Estava ainda com o vestido de noiva.

- Minha senhora, o que deseja?

- Pode me chamar de Hilda. Estou sozinha.

- Sozinha? Mas, seu marido...

- Ele saiu.

- Mas...

- Não, não terei a noite de núpcias. Conversei com ele ontem, dizendo que quero tratar isto tudo apenas como negócio, e que preferia não consumar o casamento. Estou livre da pior parte!

O guerreiro sente um peso enorme sair de si. Sente-se tão leve, que não contém um enorme sorriso e um abraço carinhoso em sua amada.

- Minha fada, você acabou com todos os meus sofrimentos!

- Agora venha. A minha noite de núpcias também será sua.

- Tem certeza de que o tal não virá?

- Tenho. Venha, as moçoilas da corte distrairão bastante o nobre por ora.

Aquela noite foi melhor ainda do que a em que Hilda se entregou pela primeira vez. Não havia mais apreensões, nem expectativas. O pior já se havia ido!

E por várias noites foi aquele deleite. Hilda, de dia, resolvia seus assuntos, muitas vezes junto de seu marido. E de noite, quando ele a deixava fazendo alguma arte manual no quarto, com um singelo e amistoso aperto de mão, Siegfried entrava pela já conhecida passagem e a fazia mulher.

Um dia, ao amado lhe perguntar sobre o herdeiro, que era um dos principais motivos de seu casamento, ela disse que não se importaria em esperar um filho seu.

- Mas eles querem um herdeiro de sangue azul! Tem de ser um filho dele, Hilda!

- Não importa. Ninguém saberá que o filho é seu.

- Também não quero ter de esconder a paternidade perante todos! Seria horrível, até mesmo para a criança, ter um pai publicamente e outro na vida particular.

- Tem razão. Não poso pensar de forma tão simples e ingênua. Um filho de meu marido é que não terei. Talvez eu não engravide já, e possa resolver minha condição antes de isso acontecer.

E, para fazer o amado esquecer da amargura de tais hipóteses, finalizou o assunto com a doçura de um beijo.

Porém, o filho logo veio...

Continua...

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OFF: Pessoal, andei revisando essa fic e reparando que, nos capítulos anteriores, algumas palavras contêm erros de digitação e etc. Perdoem a minha "displicência", mas ando meio sem tempo, estudando, fazendo TCC, trabalhando... O.o Meu tempo na net tem se reduzido nos últimos dias. Mas prometo sempre estar atualizando as fics, na medida do possível!

Ah, e um detalhe: Günter é o nome do nobre que se casa com Brunhild (a versão mitológica da Hilda que conhecemos). Fiquei passada quando vi que na Mitologia ela não fica com o Sieg! O.O Mas nas fics a gente resolve isso!

E obrigada a todos que acompanham essa história:D