V
Logo ao se ver grávida, Hilda foi festejar junto de Siegfried. Após o primeiro momento de alegria, ambos se preocuparam com a condição da criança.
- Também tem o seu marido. Ele nunca se deitou com você. Tem certeza de que ele aceitará um filho de outro homem?
A rainha faz um gesto de descaso.
- Ele se deita com todas as prostitutas da redondeza. Que moral tem para exigir o que quer que seja de mim?
- Nenhuma. Mas as pessoas não são justas, nem trabalham com lógica.
- Não me preocupo com isso. O que me deixa apreensiva é a maldita imagem. Jamais poderemos assumir a paternidade como sendo sua.
- E então, o que faremos?
- Temos de mentir.
- Não! – e dessa vez o guardião se impôs de tal maneira que a monarca, mesmo em toda a sua autoridade, não ousou contestá-lo.
- Este ser é uma vida, não apenas um boneco. – continuou ele – E é uma vida que vai crescer e se desenvolver. Não permitirei que meu filho tenha um pai público e outro na vida pessoal!
A rainha no inicio mostra-se constrangida, e logo depois déia a cabeça no ombro do amigo.
- Desculpe-me. Durante todo esse tempo apenas fiz minha própria vontade imperar. Eu o amo, Siegfried, e amo também esta criança que trago em meu ventre. Tenho de conseguir um modo de reconhecê-la como sua, pagando o preço por ter seu amor de maneira tão incondicional.
- Não quero que pague pelo meu amor. Quero que faça nosso filho feliz.
- Eu o farei!
No entanto, a governante foi deixando o tempo passar e a barriga crescer, sem modificar em nada a situação. Se fizesse algo para mudá-la, estaria mexendo em algo perigoso. Mesmo que se separasse, qualquer um faria o cálculo e veria que o filho havia sido concebido ainda em sua época de casada. E se não fizesse nada, Siegfried sofreria, além da criança.
Ainda antes da gestação, o Primeiro Ministro já olhava estranho para aquele homem que não saía nunca do pé de sua esposa. E ainda por cima um homem jovem e de boa figura, que a própria Hilda escolhera para levá-la ao altar. Muitas mulheres pareciam cobiçá-lo, mesmo que apenas para uma noite, mas ele as negava todas. Isso fez Günter sossegar, pensando que o guarda talvez não gostasse de mulheres. Mas assim que viu aquela barriga, pensou nele. Afinal de contas, Hilda não tinha contato maior com qualquer outro homem!
Um dia, quando a rainha não estava presente no momento, o nobre pegou Siegfried de surpresa:
- Ei, guardião!
- Sim, meu senhor.
- Por um acaso sabe de quem é o filho de Hilda?
Ele se fez de desentendido:
- Pensava que era seu, senhor!
Günter o toma pelo braço, leva-o a um canto e cochicha em seu ouvido:
- Jamais passei uma única noite com ela! Você, com tamanha proximidade dela que tem, deve saber muito bem disso, não? Vamos, deve saber de algo que não sei! Diga-me!
- Não tenho a mínima idéia sobre o que está falando.
O outro o olha sério:
- Como não? Até dorme no quarto vizinho ao dela.
- Mas não sob o mesmo teto, para saber dessas particularidades!
- Tem certeza? Estou começando a cogitar que sim.
- Está insinuando alguma coisa, senhor!
O nobre olha-o com um semblante sinistro e ameaçador.
- É uma sorte muito grande a de você ser um guerreiro tão forte.
- Está me ameaçando sem sequer ter provas? É realmente uma sorte para você eu ser uma pessoa controlada!
O azul dos olhos do guardião fulgurou. O marido de Hilda foi embora, não sem antes lançar-lhe um gesto de desdém.
Algumas horas depois, Siegfried se apresenta abatido a sua senhora.
- Hilda, o que fazemos não é certo.
- Vou resolver esse impasse da paternidade logo, meu amor.
- Não falo da criança. Bem, é que... seu marido. Você é uma adúltera.
- Ora vamos! Não sou nada dele além de sócia. Meu verdadeiro marido é você.
- Hoje ele veio reclamar seus direitos. Está desconfiado de que seu filho é meu.
A moça o fita, surpresa.
- Como assim?
- É isso mesmo. E eu me vi indignado diante de suas observações mordazes, como se ele estivesse ousando.
- É claro que ele está! Ele próprio deve ter bastardos espalhados por todo o país, e já os devia ter antes de se casar comigo!
- Ele não a encara apenas como sócia. Deixou isto bem claro. E eu, Hilda, que sempre prezei a justiça, fui o amante que considerou infame o marido reclamar do adultério da esposa.
- Jamais contestei a ele, nem a suas saidelas! Ele que me tolere e me veja da mesma forma que eu o vejo! Foi o que combinamos!
Günter não dizia nada a Hildaa respeito de suas desconfianças. Mas já não a tratava como amiga. O ressentimento era claro em seus gestos.
Contudo, a monarca foi deixando a gravidez prosseguir. Seu amado não lhe dizia nada, porém queria que ela tomasse uma decisão logo. Continuou com sua passividade até sentir as dores de parto. Quando isto ocorreu, percebeu que era tarde demais.
