Depois de um século, muito Prozac, estresse com escola pública e afins... voltei a essa fic! XD Eu tinha que terminar né... não gosto de deixar nada pela metade. :/
Espero que alguém por aí ainda se lembre dela:D
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Siegfried observou o parto escondido em seu próprio quarto. Abriu uma pequena e imperceptível fresta através da passagem e ali ficou. Não imaginava que fosse demorar tanto. A cada suposta contradição, as parteiras diziam a ela para fazer força. E a criança não vinha. Isso se repetiu por várias e várias vezes. O moço já estava com uma apreensão terrível. Até que, numa daquelas contrações, a criança começou a vir. E veio rapidamente após o primeiro arranque.
O choro da criancinha o comoveu. Era realmente seu filho, e ele podia sentir isso. Após terem dado a criança à mãe, as parteiras foram chamar o marido de Hilda para vê-la. Nesse intervalo de tempo, o pai da criança adentrou a sala.
- Vá embora! – dizia-lhe a moça – Elas logo voltarão com o outro! Se o virem aqui...
- É meu bebê também. Não pode nega-lo a mim.
- Não o estou negando. Pode vê-lo depois, o quanto quiser!
Ignorando os apelos da rainha, o guarda foi até a mulher e a beijou na testa, ajoelhando-se na borda da cama e acariciando seus cabelos. O serzinho ainda estava um pouco sujo pó parto, mas não lhe importava: beijou a criança, que procurava com a boca o seio da mãe. Sorriu e olhou para o ventre de Hilda:
- Obrigado por ter gerado este filho para mim. Neste mesmo leito foi concebido, e nele veio ao mundo. Amarei esta criança mais do que a mim mesmo.
A mãe sorriu:
- Somos uma família agora.
Uma aura de união, feita por eles mesmos, invisível, cercou os três. Porém, logo os rumores de passos despertaram-nos daquele sonho.
- Vá, Siegfried! São eles!
Desta vez o guerreiro acatou, e logo sumiu-se atrás da passagem.
Em seguida as aias e o marido entraram. As serviçais limparam o recém-nascido e o entregaram ao nobre. Ele olhou bem para o bebê, e reconheceu alguns traços de Siegfried nele, por mais vagos e não muito bem desenvolvidos que fossem. Olhou por um milésimo de segundo para a rainha, com um olhar de raiva. As aias saíram para dizer ao arauto anunciar a todos o nascimento do herdeiro do trono. Logo todo o reino teria seu filho como na verdade o filho do nobre.
Os dias foram-se passando; todos cumprimentavam o suposto feliz casal pela vinda do tão estimado e esperado rebento. E Siegfried, sempre que via uma daquelas manifestações, sentia-se desolado. Um dia, como quem não queria nada, foi falar com a rainha a esse respeito:
- Todos agora já pensam que o filho é dele. Ficarei no ostracismo para sempre, não podendo sequer brincar com meu filho perante terceiros?
- Ah, meu amor... não sabe como também sofro com essas coisas! Em breve vou conversar com meu marido a respeito disso. Como nunca dormi com ele, podemos pedir a anulação do casamento. E depois nos casaremos, eu e você. Já devia tr feito isso desde o início, embora sempre quisesse agradar a gregos e troianos. Você e Sigmund, nosso bebê, não podem pagar por uma imagem tola. Mesmo que meu casamento com um plebeu e o adultério tornem isso tudo um escândalo, eu...
- Por que, minha querida, o casamento com alguém que não é nobre torna as coisas dessa forma? Por que é um ato tão terrível perante a sociedade?
- É a maldita imobilidade social. A "pureza" de castas. Nenhuma rainha casou-se antes com um homem que fosse de sua própria escolha ou vontade; nenhum casamento de nobres teve, anteriormente, o amor como prerrogativa principal.
Uma lágrima caiu do rosto dela em cima da mão do amado. Ele se comoveu. Havia pensado que tal situação ocorria apenas porque a rainha estava deixando o barco correr de uma maneira muito cômoda para si. Mas via que não era desse jeito. Ela sofreria terríveis críticas caso assumisse o amor que tinha por ele.
- Não seria melhor deixar as coisas como estão? Eu não sei realmente de sua situação ao lhe cobrar uma atitude, Hilda.
- Não. Agora há uma criança nisso tudo, e temos de zelar pela felicidade dela.
E realmente, quando Sigmund tinha pouco mais de um mês de vida, ela foi tentar ajeitar as coisas com o marido.
- Günter.
- Sim, Hilda.
- Tenho um assunto particular a tratar com você. Quero que me acompanhe aos nossos aposentos, por favor.
Assim que fechou a porta, o outro já disparou:
- Trouxe-me até aqui para finalmente dar o que me é devido? Talvez menos, pois sua virgindade já foi de outro, não é mesmo?
- E quanto a você? Daria-me a sua virgindade? Duvido muito que ela ainda estivesse aí quando nos casamos.
- Mas eu sou homem!
- Posso tornar-me um com facilidade! Até coloco uma barba se quiser!
- Ora vamos! Chamou-me aqui para uma audiência em particular para ficar com estes chistes?!
- Quem começou com eles não fui eu. Mas o assunto principal não difere muito deste que começamos. Não quero mais ser sua esposa.
- Ah, então é isso! Casa-se comigo, tira proveito de minhas transações comerciais, me bota um belo par de chifres e depois me descarta!
- Não quero nada que possa ser seu! Vá embora com todos os seus bens. Arrependi-me de ter casado, pois não somos nada além de interesseiros, um nos atributos comerciais do outro. Só que agora tenho um filho, e ele...
- É filho de outro! E na hora você não pensou que poderia gerar uma criança, não é?
- Agora quero remediar o que antes não tinha conserto! Anulemos o casamento.
- Não! Eu vou passar por marido traído para todos quando tudo for revelado.
- E eu? Por acaso não passarei por adúltera, a rainha mais baixa que este reino já teve, ou ainda coisas piores?
- Problema seu. Mas a minha imagem é que você não vai sujar!
- O que pretende, então? Ser marido de uma esposa a quem trata por irmã, durante toda a vida?
- Não, Hilda. Eu quero o que já está mais do que na hora de ser meu: você!
- Eu não o quero!!
- É como eu disse, querida: problema seu.
Günter, sem cerimônias, agarrou Hilda e jogou-a no leito, tentando despi-la a força. Ela gritou e esperneou, querendo livrar-se a todo custo dele. Quase imediatamente, Siegfried salta pela passagem entre os dois cômodos e baqueia o nobre, agarrando-o em seguida e encostando ameaçadoramente uma adaga em seu pescoço. Hilda, quando programara a audiência, não confiava em seu marido a ponto de se fechar num quarto com ele. Apenas por precaução deixou o guardião no outro aposento, para acudir-lhe numa emergência.
A rainha levanta-se afoita, levantando as mangas do vestido que já se afrouxavam.
- Desta vez não vai ter a sorte de escapar de minha fúria! – disse o guardião a Gûnter, fazendo menção de cortar a garganta dele.
- Não! Não o mate, por favor!
- Mas, senhora, ele tentou violenta-la!
- Não devemos reagir dessa maneira. Sei que é duro ver o que ele tentou fazer comigo, mas...
- Diga logo, Siegfried – interpelou o nobre – Sigmund é seu filho, não? O azul dos olhinhos dele é igual ao dos seus.
O moço fica sem resposta.
- Largue-o, por favor. – interpela a rainha – Depois resolveremos tudo isso.
Aos poucos Siegfried libera-o, ao que o nobre se esquiva rapidamente para o lado oposto da sala.
- Agora digam. Vamos, digam! Há quanto tempo existe essa passagem pela qual um pode encontrar o outro facilmente?
Após alguns segundos de silêncio, Hilda resolve responder:
- Antes mesmo de eu sequer conhecê-lo. Precisamente, há dois anos.
- E por que, então, ludibriou minha pessoa, unindo-me a um matrimônio onde eu sequer poderia deitar-me com minha mulher?!
- Eu não o enganei. Avisei-lhe, na véspera, da condição de não consumarmos o casamento. E dei-lhe a escolha de poder desistir do contrato caso não quisesse ver-me apenas como uma irmã. Você aceitou, portanto eu jamais escondi algo, ou menti.
- Mas eu pensava que fazia isso por ser tímida demais! No fundo, nutria esperanças de um dia ter sua primeira vez!
- Enquanto isso, treinava com as moças não tão tímidas assim. – interpelou Siegfried – Todas aquelas mulheres as quais rejeitei viviam falando de você. Não há uma com quem não tenha dormido!
- Fala assim porque tinha o leito e os braços da rainha em torno de si todas as noites! Como eu, sem o amor de uma esposa, poderia ficar sem mulher alguma? Se Hilda houvesse entregado-se a mim, eu não teria outras!
- E eu, meu senhor? E eu, que sempre amei Hilda desde a infância, que sempre anulei tudo em minha vida para servi-la melhor, e que rejeitei todas as moças que vinham me interpelar? E eu, que não tinha a mínima expectativa de um dia sequer dar-lhe um singelo beijo, e no entanto não tinha coragem de dormir com outra? Hilda foi minha primeira e única mulher, Günter.
Até mesmo a monarca ficou surpresa com aquela declaração. Não sabia que sua primeira noite havia sido também a primeira dele.
Günter, apesar do espírito prático e quase sem considerações amorosas, viu que o que sustentava o relacionamento de ambos não era a simples canalhice de um adultério ou de um caso aventureiro. Hilda e Siegfried apenas viam-se clandestinamente porque não havia realmente outra escolha.
