Alemanha; trinta de novembro de 1940
Andando mais um pouco me encontrei com alguns pilotos e um dos oficiais que estava atrás de um caminhão. Seu olhar frio e rígido transpunha nossas almas. Olhei para ele, fiz a continência nazista e isso o deixou mais acomodado. Deu-me a ordem de saída, rabiscou um papel e me entregou. Segui com os outros homens que, após receberem a ordem, entraram na carroceria resguardada.
Descemos na estação que estava quase deserta e o silvo das locomotivas não era freqüente.
Embarcamos.
Eu poupando as energias porque não sabia o que aconteceria dali em diante. Meu coração ficara na enfermaria da base e de lá nunca sairia.
Para onde iria? Para a prisão, para a guerra ou para a morte? O meu destino já não fazia tanta diferença.
Viajamos a noite toda, mesmo estando agasalhado o frio alemão era cortante, não conseguia sentir minhas mãos e meus pés, ainda mais quando via a farda cobrindo meu corpo.
Finalmente, depois de dias naquela locomotiva angustiante, descemos na estação de Bonn. Entramos novamente em um caminhão, que agora eu definitivamente não tinha suspeitas para onde iria.
Eu lutava para pensar que estava preso em um pesadelo quando descemos em uma base e cada homem foi indicado para um avião. O meu era parecido com o inglês que já pilotei. Mas agora seria diferente.
A guerra prosseguia sem nenhuma esperança de paz. A Alemanha avançava vitoriosa, mas as coisas não melhoravam para nós.
A produção caía e os alimentos que chegavam da França, da Polônia e da Tchecoslováquia eram recrutados para as tropas.
A cada minuto que passava eu pensava em Lily. Como estaria nosso filho agora? Já se passaram quase seis meses. Será que ela estaria bem?
Tinha medo de uma possível desconfiança por alguma parte. Os outros pilotos recrutados tratavam-me como um deles, mas algo tirava minha paciência e meu sono.
Desde o dia que cheguei aqui o capitão Ludwig parecia desconfiar. Um homem frio. Seu olhar materializava tudo que desejava. Ele desejava a mim, parecia saber da minha história. Até o dia em que obtive a certeza daquilo.
- Poupe-nos de sua farsa, piloto inútil! – disse o capitão, soltando chispas pelos olhos.
Permaneci calado.
- Muito bem, senhor Miller; já sei muita coisa sobre a rede de espionagem inglesa. Sei muito mais do que você imagina. Sei tudo sobre sua vida, senhor, como mesmo? Ah, James Potter! Fale que daremos liberdade à sua namoradinha grávida.
- Liberdade? O que o senhor está querendo dizer? – interrompi aflito espantando minha atitude calma dos momentos anteriores. – Vocês prenderam Elisabeth Pankraz?
Já nessa altura misturava o inglês com o medíocre alemão que estava fingindo há tempos.
- Aquela outra enfermeira inútil? Ah, sim! E suponho que seu filho permaneça por lá mesmo. Ou você diz o nome dos culpados ou irá para um campo de prisioneiros com outros responsáveis.
- Já disse que não faço parte de nenhuma rede de espionagem inglesa, eu não sei de nada sobre isso. – respondi fixando os seus olhos cinza.
Tomado de fúria o capitão esbofeteou-me uma das faces violentamente. Foi como se o mundo sumisse sob meus pés. Naquele momento a dor física não superava a dor emocional e como nunca reconheci o poder da palavra ódio. Odiei-o tanto que turvou-me a vista.
Minutos depois fui tomado por um novo desespero. Perigo novo, sem suspeitas, pior que a prisão. Ao poucos fui adquirindo calma e perdendo os sentidos. Ela naquela enfermaria que confinavam os neuróticos, os viciados que se tinham reduzido a pobres farrapos por entre os terríveis pesadelos da guerra. Ninguém pode imaginar que um povo fabrique heróis à custa de estimulante. Muitos não sabem quanta coragem é conseguida artificialmente sob o efeito daquelas malditas drogas. Aqueles que se confinavam na enfermaria, eram em grande parte toxicômanos – não antes da guerra. Não o bastante que há tarefas para as quais muitos não estão e nunca estariam capazes de realizar em seus estados normais. Eu sabia que o exercito alemão usava esse tipo de estimulante. Via os soldados expondo-se de corpo e alma prazerosamente, um prazer apenas explicado pela ingestão daqueles narcóticos.
Não importasse quantas doses dariam para mim, o rosto de Lily nunca sairia da minha cabeça. Começava a imaginar como estaria ela e meu filho.
E o dia se passou naquele ritmo fantasmagórico que havia me acostumado. Eles davam-me forças para continuar ali, naquela aflição infinita que me parecia nunca ter um fim.
Consegui cochilar um pouco. Meus nervos não relaxavam voluntariamente, estava envenenado pelo pior veneno que poderia existir em algum lugar. O veneno da guerra.
Os enfermeiros apareceram para mais uma dose da tortura. A minha dose noturna. Uma injeção entorpecente. Vendo a intenção de amarrar-me na cama com correias que pendiam dos lados da cama, relaxei os músculos e procurei mostrar-me sedado para tentar livrar-me de mais uma dose. Quando um enfermeiro que nunca tinha visto antes colocou a mão em meu ombro:
- James Potter?
Meu coração saltou e no mais esperançoso e lindo inglês ele continuou sussurrando:
- Calma, companheiro. Vamos tirá-lo daqui.
Nunca poderei esquecer minha felicidade. Estava esperando uma dose da morte e me aparecem com o passaporte da vida. Pensava na agonia da prisão com aqueles estimulantes e agora me ofereciam a liberdade. Nunca aquela língua pareceu-me tão confortante e esplêndida.
- Continue fingindo dormir, – disse o outro – conheço Lily e conheço a sua história, senhor Potter.
A pequena janela fechada que tinha de esperança havia se tornado uma grande porta aberta de alegria. A felicidade cantava em meu peito. Nunca havia sentido Lily tão perto de mim desde que chegara naquele inferno.
Era madrugada.
- Não tenha medo, você está livre. – disse o enfermeiro do dia anterior – Venha conosco, Lily estará com nós.
- Onde estou? – perguntei aflito.
De fato achei que havia morrido e estava no paraíso onde a liberdade seria concedida, mas depois de alguns instantes comecei a sentir os resquícios de uma mortificação anterior.
- Deixe-nos apresentar, meu nome é Sirius, Sirius Black.
- E o meu é Remus Lupin, você está em um dos nossos esconderijos. Agora me diga, qual a sua senha e a sua zona de ação?
- Desculpe-me, mas só posso contar a verdade. Estou muito fraco, sou apena um piloto. Não faço parte da resistência e estou na Alemanha desde aquele pequeno ataque. Desculpe-me por dar trabalho, não sou nenhum agente secreto. Devo-lhes minha vida, não sei como retribuir.
Sirius continuou acreditando que não confiara nele.
- Pode confiar em nós, somos da equipe de resistência e estamos tentando retirar alguns ingleses que estão nessa parte, somos da resistência Blanchard. "Os coelhos como nós" – e disse a senha.
- Sinto que posso profundamente confiar em vocês, então contar-lhes-ei tudo.
E com calma fui recuperando minha sanidade e a agonia abria caminho para o alvedrio. Contei-lhes sobre a troca da farda, sobre meu amor por Lily, a respeito do meu futuro filho e tudo o que dizia parecia que eles sabiam mais do que eu.
- James, eu sei de tudo. Estamos aqui a pedido de Lily. A conhecemos desde quando era Lily Evans, trabalhava na botica de seu pai, era muito boa com fórmulas de poções para os remédios, alegre em certo ponto que até chegava a ser espevitada. Todos gostavam dela, mas depois tudo mudou e demorei a vê-la novamente – disse Sirius.
Remus, percebendo que o tempo corria, cortou o assunto dele.
- Agora são duas da manhã. Combinamos de ir à base às três e meia.
- Mas como vamos sair daqui sem suspeitas? – perguntei.
- Com a mesma desculpa que usaremos daqui para frente – começou Sirius.
- Você está morto, amigo – completou com um tom de brincadeira na voz.
- Ou melhor, você será um capitão alemão que de alguma forma está sob os efeitos de testes radioativos, e irá para um local especial.
- Mas irão ver que estou vivo caso nos parem – respondi triste ao achar uma falha naquele plano.
- Iriam se você estivesse vivo mesmo.
- Como assim? Vão me matar?
Remus suspirou longamente.
- Olha, se não fosse pela Lily acharia que todos londrinos são tão estranhos quanto você, sem querer ofender...
- Você irá tomar esse remédio. Isso irá causar uma catalepsia. Não se assuste, é a única forma de salvá-lo. O efeito dura o tempo suficiente para chegarmos à base e resgatar Lily – disse Sirius – também vou tomar isso ela ficará em meu lugar, já que não está em condições para tal medicação.
- Quando você acordar nós estaremos saindo de Frankfurt. Passaremos por Luxemburgo e nosso destino final será a França...
- Exatamente, Paris.
Depois dos ataques de 1939 a França estava aos cacos, e nesse mesmo ano havia contemporizado um acordo com a Alemanha, então a opção menos arriscada seria Paris.
Concordei. Naquelas situações estava concordando com tudo, e em menos de um minuto senti um baque no peito, apavorei-me diante da sensação de morte, ma logo ela foi se distanciando e transformando em esperança. Talvez fosse o último sofrimento rumo à vida. Meu último pensamento foi para ela.
Como se tivesse acordado de um sonho, abri os olhos e nada mais vi do que o meu último pensamento. Como pela primeira vez aquele sorriso que me cativara estava ao lado do meu colchão passando as mãos em meus cabelos. Mesmo sem os óculos consegui perceber como o nosso filho estava crescendo dentro dela.
Uma lágrima saiu dos nossos olhos. Agora lágrimas de felicidade. Como sonhei em vê-la novamente. Como sonhava em beijá-la e tê-la outra vez. Amava mais do que tudo. Amava mais do que a mim mesmo.
Olhei para o seu ventre.
- A madre da enfermaria disse que será menino.
E outra lágrima saiu dos nossos olhos.
Sorri para ela.
- Oito meses.
E ela retribuiu.
Depois descobri que estávamos em Luxemburgo. Havia se passado um dia e meio desde que estava sob o efeito do remédio da catalepsia. Mas agora não me importava com mais nada.
O velho casal que nos havia acolhido mostrou-se muito amável. Com a lareira acesa ofereceu-nos chá com biscoitos de mel, o que me fez lembrar daqueles que minha mãe preparava.
Por eles ficamos sabendo que a sede de espionagem do serviço secreto da resistência francesa na Europa mantinha-se na Hungria. Embora neutro no início, o governo Húngaro mostrava-se francamente simpatizante com o eixo, mas o fazia por uma questão de interesses. País pequeno e sacudido por revoluções socialistas, seriamente prejudicado em seus interesses pela política interna, enfraquecido e temendo a invasão as Ucrânia, uniu-se à Itália e aceitou a "proteção" da Alemanha sofrendo influência.
O que Mussolini fez na Itália e Hitler, na Alemanha, dava sérios motivos para acreditar que a guerra seria longa. As vitórias estavam ocupando os países vizinhos e sem ninguém para detê-los. Exceto a Inglaterra.
Camas macias e tenras, comida e uma vida e Lily ao meu lado; tudo isso aquecia meu coração de uma forma. Mas não tanto quando o que aconteceu naquela noite.
O parcial silêncio da madrugada foi interrompido por gemidos que ouvia ao meu lado. Por momentos pensei ser alguma tropa nas ruas, mas depois uma voz chamou meu nome.
- James, me ajude – disse Lily.
Rapidamente pulei da cama, acendi o lampião que estava perto de mim e chamei a senhora Mejarisky.
Meu filho estava nascendo.
Diante uma correria esperei ao lado de fora junto com Sirius, Remus e o senhor Mejarisky. Dentro de algum tempo ouvi um silêncio que me preocupou, mas que logo em seguida foi invadido por um choro. Um choro infantil.
Depois disso não vi mais nada.
Alemanha; trinta e um de julho de 1940
- Enquanto a Lily estava firme e forte a princesa desmaia. – foi a primeira coisa que ouvi depois que acordei. De fato a emoção era tanta que não agüentei. Sirius ao meu lado me dando parabéns, enquanto a senhora Mejarisky aparece com meu filho enrolado em uma toalha branca.
- É um menino. – Lily disse sorrindo e mais uma vez com lágrimas nos olhos.
Levei tempo até acreditar, aquela criança saudável, pequena e tão indefesa era um pedaço meu e da mulher que eu amo. Resolvemos dar a ele o nome de Harry, assim como o pai de Lily. Harry. Harry Potter, meu filho, nosso filho.
E os anos se passaram.
FIM
Lumus
N/A: Gostaria de agradecer a quatro pessoas, à Marília e à Sah pelas vezes que não sabia se continuar ou não com a fic elas liam a caca que eu tinha escrito e me apoiavam emocionalmente – obrigada D – também gostaria de agradecer à DarkAngel pela capa e pela betagem – merci – e principalmente a você que está lendo e que vai deixar uma review para mim.
Nox
