Sentidos Opostos
por Ann Cashew
TRACK 1:
Compondo
Centro de Ensino Hogwarts, três anos atrás.
- Sirius Black, o que você pensa que está fazendo?
- Shh... – Sirius, ignorando completamente o fato de seu sobrenome aparecer na última frase, apenas repreendeu o amigo com o dedo indicador sobre os lábios, continuando a levá-lo pelo pulso. Se algum professor os visse, com certeza teriam que voltar para a sala de aula. – Eu quero te mostrar uma coisa. – disse ele, tentando incitar a curiosidade do amigo.
O outono havia chegado, trazendo de brinde muito sol e calor. Black não fazia a mínima questão de ficar trancado em uma sala de aula, falando sobre algum assunto massante, enquanto a liberdade o chamava e sua mente viajava por imagens cheias d'água.
Eles tiveram que praticamente correr quando alguns passos suspeitos ecoaram pelo corredor que haviam acabado de passar. Logo estavam dentro de uma sala tentando abafar as risadas.
Remus só notou que aquela era a sala de música quando Sirius abriu uma cortina, iluminando parcialmente o local. A sala estava sendo pouco usada – por isso ainda não estava tudo aberto e arejado – desde que o professor de música pedira licença do trabalho, deixando os alunos sem aula até um substituto chegar. Só os alunos mais experientes continuavam indo ali e não era como se Sirius fosse um deles.
- Argh, que calor. – o moreno não parava de resmungar enquanto ia abrindo todas as janelas, a fim de refrescar o lugar.
- E agora eu posso saber por que me trouxe aqui? Você nos fez cabular uma aula importante de Geografia, Pad... – Remus murmurou distante, seus dedos passeando pelas cordas de um violino. Nem ele próprio acreditava que aquela teria sido uma aula realmente importante. Seus olhos desgrudaram do instrumento, viajando até Sirius, que estava encostado de costas para o parapeito de uma janela. Seus lábios formavam um sorriso maroto, como quem sabia exatamente o que o castanho havia pensado sobre a aula – um sorriso maroto demais, na opinião de Lupin.
- Você não vai acreditar! – o mais alto declarou, desencostando da janela em um pulo e se direcionando para um piano preto, de calda, no centro da sala. Logo a tampa já não cobria as teclas marfim e Sirius se encontrava sentado em um banquinho à frente do instrumento. De um instante para outro ele pareceu ficar ansioso.
- Vem, puxa um banco e senta aqui. – Remus, percebendo a mudança no amigo, não demorou muito para atender o pedido. Eles se encararam e um longo silêncio tomou o lugar, até que o castanho levantou uma sobrancelha e soltou:
- Então...?
Black engoliu em seco.
- Bem... – ele começou incerto. – Eu nunca fiz isso antes, então... Você não pode me zoar, entendeu? É que... – Remus incentivou-o a prosseguir com um aceno de cabeça. – Eucompusumamúsica.
O moreno havia falado tão rápido e baixo que Lupin demorou alguns segundos para assimilar direito a informação, agora sendo sua vez de ter os lábios tomados por um sorriso maroto.
- Mas isso é ótimo, não? – ele perguntou divertido, se deliciando com a idéia de que Sirius Black estava com vergonha!
- Mas eu compus a música, Remus! – ele soltou esganiçado. Lupin riu.
- E o que há de tão ruim nisso?
- Eu não tenho talento para isso, você sabe...
- Ah, me faça o favor, Sirius! O único que não tem talento aqui sou eu... – Remus apontou emburrado.
- Isso é verdade, meu caro. – e Sirius soltou uma risada meio rouca, meio latida. Lupin até teria ficado mais carrancudo se não tivesse conseguido quebrar o clima tenso com aquele comentário.
- Eu não sei se está bom, ok? – o castanho acenou com a cabeça outra vez. – E você prometeu não zoar, tá ouvindo?
- Tá, tá. – Remus sorriu, concordando.
Black se endireitou no banco, tragando uma grande quantidade de ar. Ele voltou algumas folhas da partitura e Remus notou que aquilo era realmente sério. Se Sirius se dedicara a ponto de fazer uma partitura, com certeza era algo importante. O moreno vivia falando que aquela era, sem dúvida, a parte mais inútil, entediante e complicada do piano. Isso e outras coisas, como por exemplo: que piano não era para ele; que só aprendera mesmo a tocar porque sua mãe o obrigara; que só era tão bom assim porque a 'bruxa velha' o forçara a praticar desde os seis anos de idade.
Lógico que nem tudo aquilo era bem verdade, já que os amigos de Sirius diversas vezes puderam ouvi-lo tocar com o coração. James sempre o obrigava a tocar músicas que ele conhecesse a letra, nada de clássicos, para assim poder demonstrar seus dotes vocais. Black naturalmente tirava uma com a cara do amigo, mas acabava concordando.
Ele suspirou. - Lá vai.
Um sorriso se desenhou nos lábios de Remus quando as primeiras notas surgiram. Mas o sorriso doce não combinaria com a expressão de surpresa que apareceu, por isso logo tratou de se desfazer.
isn't it weird? isn't it strange?
(não é esquisito? Não é estranho?)
even though we're just two strangers on this runaway train
(mesmo sabendo que somos apenas dois estranhos nesse trem fugitivo)
Sirius estava cantando! Cantando! Remus escorregou para a beirada da cadeira, quase instintivamente. O moreno havia começado muito baixo e como aquilo não era nem um pouco comum, ele tinha que aproveitar cada palavra que o moreno pronunciasse.
we're both trying to find a place in the sun
(nós dois estamos tentando encontrar um lugar ao sol)
we've lived in the shadows
(temos vivido entre as sombras)
but doesn't everyone?
(mas todos não o tem?)
isn't it strange how we all feel a little bit weird sometimes?
(não é estranho como todos nós nos sentimos um pouco esquisitos às vezes?)
O moreno desviou os olhos da partitura e das teclas, direcionando um olhar apreensivo na direção do castanho. Tudo o que encontrou foi um sorridente Remus e seu olhar de apoio, como (quase) sempre. E Sirius não precisou de mais nada para se entregar a canção.
isn't it hard standing in the rain?
(não é difícil permanecer na chuva?)
yeah, you're on the verge of going crazy and your heart's in pain
(yeah, você está à ponto de ficar louco e seu coração dói)
no one can hear… but you're screaming so loud
(ninguém consegue te ouvir… mas você está gritando tão alto)
you feel like you're all alone… in a faceless crowd
(você sente como se estivesse sozinho… no meio de uma multidão sem rosto)
isn't it strange how we all get a little bit weird sometimes?
(não é estranho como todos nós nos sentimos um pouco esquisitos às vezes?)
Ele conseguiu continuar tocando com perfeição mesmo depois de fechar os olhos.
Quando Sirius compôs a música, as notas e palavras simplesmente surgiram do nada, invadindo sua mente sem permissão e guiando sua mão sobre as folhas. A melodia podia ser recente, mas parecia estar tão pregada nas pontas de seus dedos que não fazia diferença olhar para as teclas ou não. E aquela não era de todo uma sensação estranha.
Depois de toda a surpresa e empolgação, Remus parecia bastante comovido com a letra.
O sentimento que ficava era de que Sirius falava, em primeiro lugar, dos Black. E para os que estavam cientes de boa parte da situação, como Remus, era fácil sentir a melancolia que ele sofria, mas nunca, nunca diria, tampouco ninguém comentaria.
sitting on the side, waiting for a sign, hoping that my luck will change
(sentado de lado, esperando por um sinal, desejando que minha sorte mude)
reaching for a hand that can understand, someone who feels the same
(tentando alcançar uma mão que entenda, alguém que sinta o mesmo)
when you live in a cookie cutter world if you're different you can't win
(quando você vive em um mundo de iguais, se você é diferente, você não consegue vencer)
so you don't stand out but you don't fit in... weird
(então, você não se destaca, mas também não se encaixa... esquisito)
Lupin sorriu. Ele com certeza sabia o que era querer alguém para entender seus problemas. James e Peter também sabiam e Sirius precisava mostrar aquilo para eles. Porque aquela música falava de coisas que nem todos percebiam. Como se Sirius juntasse a amizade deles e os problemas que os quatro tinham, colocasse entre os arranjos palavras que eles jamais teriam coragem de expressar claramente. Coisas deles, coisas dele.
Sirius repetiu com mais vontade aquela última parte da música, e Remus apreciou uma sensação gostosa dançando na ponta do seu estomago. A música era tão de Sirius quando sua.
O moreno repetiu mais algumas palavras que já haviam aparecido e finalizou prolongando a melodia, seus dedos cavalgando entre as teclas enquanto a franja caia-lhe sobre os olhos, escondendo o fato de que eles novamente estavam fechados.
- Sirius... Eu... Isso é... – o castanho suspirou. – Você desafinou umas três vezes, mas... – o moreno estreitou os olhos e Lupin apenas riu. – É linda. – ele confessou com sinceridade. - Muito linda.
A melodia que ecoara na sala por alguns breves minutos tinha acabado, mas a mágica sensação de aquilo era apenas o começo ainda perdurava ali.
o0oo0oo0o
A música desse capítulo, Weird, pode ser encontrada no seguinte link: http : / / www . 4shared . com / file / 50974547 / ff9404d2 / Weird - Hanson . html (sem os espaços.)
N/A: Hoho, here we go! /o/
Primeiro capítulo voltando ao passado... Os próximos também seguiram essa linha de tempo, porque é aqui onde tudo começa. Que tal? Sirius envergonhadinho não é tudo de bom? xD
Um beijos para minhas seguidoras fiéis (quê?!) hauheauie! Vocês ownam!
E no próximo capítulo:
- Imagine o tanto de garotas que vão babar por nós...
- Como se eu precisasse disso... – o moreno recebeu um tapa na nuca pelo comentário arrogante. - Ai! – ele fingiu ter doído. - Moooony, olha o Prongs me batendo outra vez... – ele repetiu o tom manhoso de outrora.
- Ninguém mandou ser a mulher da relação... – Remus resmungou, seguindo seu caminho como se não se importasse.
