Capítulo IV – Procuras...

Seus olhos visualizaram rapidamente o céu acima de si e surpreendeu-se pela mudança brusca de tempo. Mas não havia porque se preocupar com aquilo.

Seu corpo retraiu-se dentro do longo casaco fino. Usava um simples cachecol felpudo e macio envolta ao pescoço e luvas lilás. Tremia ligeiramente e seus lábios soltavam pequenos círculos de fumaças; de repente, apenas o casaco não a estava ajudando.

Já permanecia andando por horas e intimamente se agradecia por desta vez ter escolhido um calçado sem saltos, não queria imaginar a situação que seus pés estariam naquele momento.

Estivera pesquisando por semanas... Meses... Perguntara a diversos desconhecidos que havia sido indicada, ouvira atentamente suas histórias e concordou com todas elas.

Todos a indicaram para este lugar, lhe deram garantias de que suas palavras seriam ouvidas e que justiça havia de ser realizada. Mas não seria exatamente justiça que ela havia ido procurar...

Levara-se muito tempo, mas ela finalmente encontrara e apesar de todas as barreiras e dos difíceis caminhos que tivera que percorrer, por fim... Sabia que valeria a pena.

Enquanto continuava a caminhar pela estreita estrada de barro e solo molhado, percebia a longa distancia que havia percorrido da semi-abandonada vila onde se hospedou até o destino que a haviam recomendado.

E ainda sem sinal da velha cabana que deveria estar a alguns metros dali. Parou de repente de caminhar e passou seus olhos castanhos em toda sua volta.

Nada.

Não havia nada naquele largo espaço de terra úmida e pedras escorregadias. Pelo que havia entendido, ali devia estar à cabana encanecida e coberta de entulhos! Mas não havia! Nada! Nada! Nada!

Será que se enganara? Será que distraída com os próprios pensamentos ou em se proteger melhor do frio, havia passado por ela sem se dar conta?

Apenas esta simples idéia já a deixara extremamente irritada. Não era possível que depois de tudo que passara para chegar até ali...

Ainda parada na estrada continuava a praguejar contra a própria sorte, amaldiçoando-se a si mesma e a todos que a haviam enganado! Mesmo não se conformando com tudo aquilo, contrariada, decide ser melhor voltar à vila e abrigar-se contra a tempestade que certamente se aproximava.

Virando o corpo para retornar o caminho de volta, pula para trás de susto, sentindo o próprio coração falhar uma batida e recomeçar a bater freneticamente dentro do peito. Por instinto, pousa uma das mãos sobre o peito na tentativa de acalmar-se.

Um homem. Jovem. Bem maior que si mesma a olhava travesso de cima. A uns dez centímetro de distancia e sem mexer-se; com ambas as mãos colocadas dentro do bolso da calça escura e cobertas de pregas e cintos e vestia por cima do torso uma simples blusa de seda também de mesma tonalidade. Parecia não se incomodar com as fortes pancadas de vento que debatiam-se violentamente contra suas roupas.

- Eu a assustei? Queira desculpar-me. Não era esta minha intenção.

A jovem ruiva se recompôs e endireitando-se melhor observou o homem misterioso sem lhe dirigir uma única palavra, mas aceitando suas desculpas – duvidosas? - com um leve manejar de cabeça.

Ele continuou a olhá-la por cima, ainda com as mesmas expressões travessas. Apesar de sustentar um brilho estranho dentro dos olhos. Ele sorriu e enfim resolveu começar a falar.

- Permita que eu me apresente. Sou Tom Riddle Sr. e ouvi seu chamado.

A ruiva manteve-se estática. De qual chamado ele se referia? Ela acabara de chegar até ali...! Seria este mesmo o homem que ela havia ido procurar?

- Você é Tom Riddle, o feiticeiro?! Nunca ouvi algo mais patético!

E ela o encarou de cima a baixo com um sorriso debochado. Aquele moleque jamais poderia ser o homem que ela estivera com tanta ansiedade contando os dias para poder deparar-se com a realização de seus planos.

Alguém estava querendo lhe pregar uma calúnia! Riu. Apesar de desgostosa com a caminhada e a viagem jogada aos céus, teve que confessar... Atravessara meio mundo para no fim, se deparar com aquilo!

- Este que está visualizando, não poderia ser uma miragem. Você estivera me procurando... Acaba de encontrar-me.

Virginia não se deu ao trabalho de responder. Agarrou-se melhor ao casaco e andou pelo lado do corpo parado ainda em sua frente, o contornando.

Já que não encontrara o que queria não perderia mais tempo prosando com aquele infeliz.

- Responda-me, Virginia. O que a fez se sentir pior? Ser abandonada por outro homem ou ter a certeza de que ele jamais te amou?

Ela estancou a alguns passos atrás dele. Sem se virar.

Seu peito contorceu-se intensamente diante daquelas palavras ditas com tamanha calma e serenidade. Seus olhos arregalaram-se e seus pulsos se fecharam ao lado de seu corpo.

- Tom Riddle.

E ele sorriu abertamente. Seus olhos diminuíram e o brilho estranho neles cintilou.

Aquilo seria divertido...


Potter arrastava-se sonolento pela enorme casa. Estava com muito sono, mas sem ânimo para tentar voltar a dormir. Andava tendo muitos pesadelos ultimamente e isso estava desgastando toda sua energia.

E eles se repetiam. Em todas as noites. As mesmas imagens. Os mesmos rostos. As mesmas vozes...

Estava começando acreditar em mau presságio, algum alerta para algo ruim que se aproximava.

Nunca fora de apegar-se a superstições, mas aquilo estava fazendo seus instintos e cuidados se aflorarem. Algo de muito ruim estava para acontecer e ele orava com todas as forças que se tivesse que acontecer que acontecesse com ele. Simplesmente não saberia o que fazer se Draco fosse molestado de alguma forma.

Não quisera pensar nisso.

No andar de baixo seguiu por alguns corredores expansivos pintados de verde e prata que seguiam em direção a quatro grandes portas que davam passagens ao jardim dos fundos, ao escritório e a biblioteca, a sala de jogos e a academia.

Calçado com pantufas de leãozinho e vestindo apenas a calça do pijama fino de lã, Potter se caminha ao escritório. O resultado de não conseguir ter uma boa noite de sono o faria adiantar grande parte de seu trabalho.

Em passos calmos abre a porta, dando passagem a si mesmo. Deixando-a encostada. Draco provavelmente continuaria dormindo e notaria somente sua ausência na cama quando acordasse de manhã.

Esfregando os olhos com ambas as mãos se senta na confortável cadeira de couro macio, com rodinhas, e se leva para mais perto da mesa, iniciando seu trabalho.

Aquele escritório, que servia tanto de biblioteca quanto de um espaço para relaxar, era usado constantemente por ele e por Draco; em função de seus negócios ou de seus "raros" momentos de estresse.

Era um dos cômodos da casa mais espaçosos. Havia dois andares, em ambos, grandes estantes dos mais diversos livros fixados a parede. No andar de baixo, encontrava-se a mesa do escritório ao centro pertencente à Potter e no andar de cima, uma mesma mesa – apenas mais organizada e limpa - pertencente à Draco. No começo ambas ficavam sob o mesmo andar, no entanto... Dificilmente eles conseguiam trabalhar sério sem maiores... Distrações. Então, Draco decidiu que seria melhor para a rendição de serviço se cada um ficasse em um andar.

Assim ele acabou mudando-se para cima e Harry continuaria com o andar de baixo... Mesmo que ainda visitasse o loiro de vez em quando...

Abrindo uma das gavetas ao seu lado, pega uma pequena caixinha onde havia deixado seus óculos; coloca-os no rosto e começa a digitar.

Alguns processos ainda necessitavam de afirmação e os projetos em andamento dos retoques finais. Não que aquela fosse sua função, mas de certa forma, sentia-se útil e confortante fazendo-se parte de um grupo dedicado de trabalhadores e futuros grandes sócios. Além do que, não havia melhor maneira de decidir o destino de cada um deles se não observasse a fundo como cada um se dedicava e se movia ao certo trabalho indicado.

Só obtivera incríveis resultados até ali. Continuaria firme com eles.

Duas horas e meio se passaram até Harry ouvir sons de passos ressoarem pela casa. Não precisou levantar os olhos verdes da tela, pois já sabia de quem se tratava. Ainda com sono, arquejou o corpo a fim de espantar a sonolência.

Malfoy apareceu neste instante e abrindo mais a porta apenas encostada foi caminhando passivamente e sonolento para dentro do cômodo, esfregando os olhos. Estava descalço e vestia apenas o pijama de seda preta.

- O que faz fora da cama á essa hora, Potty?

Potter afastou-se um pouco da mesa e chamou o loiro para perto, para sentar-se consigo. Draco não disse nada e atendeu o chamado, acomodando-se no colo oferecido do companheiro.

- Por que está descalço Draco? Vai acabar pegando um resfriado.

- Você não respondeu a minha pergunta. O que aconteceu? Teve outro pesadelo?

- Sim eu tive, mas não foi nada de mais.

- Não minta para mim, Potter. Por que não me acordou?!

- Não havia necessidade de te acordar... Eu estou bem, juro.

Draco suspirou entre o descanso interrompido e a teimosia do moreno. Passou um de seus braços envolto ao pescoço de Harry e beijou-lhe delicadamente os olhos cerrados enquanto que com a outra mão lhe acarinhava os cabelos macios e revoltos.

Seus lábios desceram amáveis até encontrarem-se tenro com os lábios do outro. Sussurrando doce de encontro a eles...

- Prometa me acordar se tiver outro pesadelo.

Não houve tom de pedido, apesar de parecer.

- Prometo, amor.

E Draco relaxou. Já estava ficando cansado de acordar todas as madrugadas buscando e tateando a procura de um corpo que deveria estar ali! Dormindo e acordando com ele todas as manhãs.

Por mais quente se o edredom fosse, sem Harry para abraçar e ser abraçado, seu corpo congelava e sua alma repreendia-lhe o vazio.

Guardava para si mesmo este segredo e a ele levaria para o túmulo!

Não conseguia dormir direito sem sentir consigo o corpo de Harry por perto.

Se remexia da cama... Se enrolava com algum travesseiro... Se encolhia... Mas acabava despertando para saber onde aquele encosto havia se metido!

Abraçou ao corpo sentado embaixo de si, recebendo alguns carinhos em suas costas.

- Quero café, Potty...

- Não quer voltar a dormir?

- Não...

- Então vamos pra cozinha. Eu preparo o seu café e o meu chocolate.

- Eu quero cookies também.

- Faça-os si próprio.

- Não ficaram muito bons da última vez, lembra?

Potter riu, chacoalhando o corpo do loiro levemente.

- Não se coloca molho de salada na massa de cookie, Draco. Lembre-se disso da próxima vez.

- Como eu poderia saber? Achei que os biscoitos fossem ficar mais saudáveis...

- Certo.

- Eu não vou ganhar meus cookies?

- Se você se comportar direitinho daqui até a cozinha...

- Você é mau Potter. Muito mau...

- E você é um anjinho, não?

- Sim eu sou.

Eles se beijaram novamente e ficaram assim durante um tempo até se levantarem e caminharem abraçados até a cozinha.

O dia começaria mais cedo para eles.

E algumas surpresas começariam a surgir...


Obrigada e até o próximo capitulo ;)

P-chan