Capítulo 4 – I want you (She's so heavy)¹
"I want you
I want you so bad, babe
I want you
I want you so bad
It's driving me mad
It's driving me mad She's so heavy
heavy, heavy, heavy, heavy"¹
Tudo estava bem.
Harry chegara em segurança a Grimmauld Place, mesmo que o Ministério tentasse, de todas as formas, arranjar meios para dificultar a vida do garoto. Até mesmo uma estapafúrdia audiência disciplinar almejou barrar o acesso de Harry ao mundo mágico, mas nem isso obtivera sucesso: tudo estava bem.
Embora tudo parecesse sombrio demais - e realmente estava, não havia dúvidas quanto a isso -, confuso demais, estranho demais, havia alguma esperança. Ao menos era isso o que os mais otimistas tentavam mostrar. Sirius realmente tentou enxergar isso, tentou parecer animado, tentou acreditar que as coisas poderiam melhorar. Não havia nada que ele quisesse mais do que estar perto de Harry, ter a certeza de sua segurança.
Mas, inevitavelmente, aquela mansão assombrada tinha o poder – ah! o arrasador poder! – de torná-lo tão insuportável quanto o lugar. De mãos e pés atados. Tão inútil quanto um aborto – ele quase podia ler as afrontas veladas que se insinuavam nos olhos argutos de Severus Snape, o Ranhoso.
Ultrajante, definitivamente revoltante.
Por vezes Sirius sentia uma vontade doentia de assumir sua forma animaga, como quando esteve em Azkaban e queria privar-se da influência maligna dos dementadores, mas dessa vez de forma definitiva, para sempre. Mas não podia fazer isso: era covardia, uma parte em seu ser esbravejava, indignada, dentro de sua cabeça. Além de que Harry estava tão aborrecido quanto ele, com relação à claustrofóbica situação atual.
Uma prisão, novamente.
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Tonks não sabia dizer ao certo como ou quando aquilo tudo começou. Achava que era uma atraçãozinha boba, porque nunca pensara que fosse se interessar por alguém como Remus – eles pareciam tão diferentes, ele próprio vivia confirmando isso.
Mas acontecera: estava apaixonada.
A auror sabia que não havia nada demais em se apaixonar por ele, que, de fato, era realmente difícil não se deixar cativar pelas maneiras gentis, os doces sorrisos enviesados, o modo como ele parecia tão tranqüilo e agradável, mas que, ao mesmo tempo, fazia ela se sentir meio alheia à realidade – como se flutuasse constantemente.
Ela poderia enumerar as razões para que estivesse apaixonada, mas tudo se provaria insuficiente. Sentia-se quase como uma garotinha boba, estupefata com aquele primeiro amor que duraria eternamente até o final do verão.
Todavia ela precisava saber, realmente saber o que andava acontecendo com ela.
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Sirius tinha a estranha certeza de que sua percepção humana ficava mais refinada ao longo dos anos. Gestos, movimentos, respirações... seu "eu-animago" (como ele e James costumavam brincar) captava nuances na atmosfera, sutilezas que normalmente se deixaria passar como acontecimentos corriqueiros.
Mas com Tonks não havia sutilezas.
E Sirius não ficou realmente surpreso por surpreender, sem ser notado, claro (era inato a um Black mesclar-se às sombras que rastejavam naquelas paredes cavernosas), o beijo que ela dera em Remus, naquela mesma cozinha onde eles costumavam discutir a futura guerra que estava prestes a eclodir, achando que estavam a sós. Não havia nada de sutil na maneira impetuosa como ela forçara os seus lábios contra os de Lupin, provocando-o, murmurando palavras atrevidas por entre suspiros.
Nunca seria assim com Tonks.
Mas a surpresa foi evidente, chocantemente óbvia, quando notou que Remus retribuía o beijo com a mesma paixão com que a garota o surpreendera. Como se aquilo já fosse um ato comum para eles, como se Remus já conhecesse aquele caminho, agindo como se fosse proprietário daqueles lábios e sorrisos arteiros. Era óbvio pela maneira como Remus passou um braço pela cintura da garota, como tocava o rosto dela e sorria de forma tão gentil e apaixonada.
Era estranho, mas Sirius se sentiu meio... traído, era essa a verdade. Como se já não fizesse parte da vida de Remus como antes.
Ora, eles haviam compartilhado medos, inseguranças, travessuras e tudo o mais que acontecesse com qualquer um dos marotos. Passaram tantos anos juntos, conheciam-se tão bem que eram capazes de saber o que acontecia ao outro só de olhar.
Mas agora tudo havia mudado. E Sirius não sabia exatamente qual era o seu papel naquilo tudo.
Conhecia aquela velha sensação: foi o mesmo quando finalmente Lily e James começaram a namorar e uma espécie de ciúmes o afetara. Aquela sensação de estar perdendo algo, de estar sendo roubado ou sendo deixado de lado – algo inadmissível para um Black, tão acostumados a terem tudo.
Foi então que Sirius notou o quanto estava sendo ridículo e infantil ao pensar daquela forma: tratava-se de Remus, o companheiro Aluado de tantas aventuras, e era justo que ele fosse feliz.
As coisas deveriam ser assim, não deveriam?
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-Ahh, você não acha que eu estou certa, Tonks, querida? – Molly perguntou, buscando apoio na garota que acabava de entrar na cozinha de Grimmauld Place.
-Sobre...? – Tonks arqueou as sobrancelhas, servindo-se de uma das garrafas de cerveja amanteigada que estavam sobre a mesa.
-Sobre o cabelo do Sirius.
-Molly, nem vem! – Sirius espalmou as mãos na frente do corpo, como se isso fosse o bastante para se proteger da Sra. Weasley. – Você-não-vai-cortar-o-meu-cabelo! – Completou enfaticamente, pronunciando cada sílaba com determinação.
-Tonks, eu estou dizendo a esse "mocinho" – A Sra. Weasley começou a falar no mesmo tom que usava quando queria persuadir o Sr. Weasley de algo. – que ele precisa ter uma aparência melhor. Querendo ou não ele é uma referência para o Harry, não pode ficar por aí com essa aparência desleixada...
-Molly, eu não estou "por aí". – Havia um tom perigoso na voz do bruxo, que estreitara os olhos cinzentos para a mulher mais velha. – Aliás, eu não sei o que é estar "por aí" há meses.
Tonks soltou uma risadinha, apenas observando a cena.
-O que foi? – Sirius resmungou, vendo a risada da garota. – Está rindo da minha desgraça? A Molly deu pra falar comigo como se eu fosse um dos filhos dela, e isso não é nada engraçado.
-Eu sei que você é bem grandinho pra ser meu filho, Sirius, mas eu só quero ver você bem. – Molly admitiu, amarrando a cara. Rony costumava fazer essa mesma expressão quando admitia algo que não queria para Hermione, sabendo que ela estava certa. – E não vou mudar de idéia com relação à sua aparência.
-Eu preferia quando você não gostava de mim, Molly, achando que eu era um louco psicótico que não merecia confiança. – Sirius apoiou os pés sobre a mesa, indolente, como se quisesse provar que era muito senhor de si, obrigado, e não precisava que alguém ficasse dando palpites na sua aparência. – Ao menos não implicava com o meu cabelo. O Dumbledore tem cabelo comprido, não deve ver uma tesoura há séculos. Por que eu deveria me submeter aos caprichos estéticos de vocês?
-Eu acho que a Molly tá certa, sabe... – Tonks analisou Sirius, aproximando-se dele, ainda rindo e procurando analisá-lo de vários ângulos. – Acho que dar uma ajeitada no visual não vai te fazer mal. Se quiser eu posso fazer isso pra você, huh? – E então sorriu, matreira e perigosamente, erguendo-se do banco onde estava sentada e apoiando as mãos na mesa comprida da cozinha, para encarar Sirius melhor.
-Nym... até você? – Sirius forçou uma expressão dramática, como se tivesse sido apunhalado pelas costas, mas sabendo ser o foco daquele olhar brilhante e vivo e gostando desta sensação, sensação de estar igualmente vivo. – Eu não vou servir de cobaia pra vocês brincarem de boneca com o meu cabelo.
As duas mulheres não conseguiram segurar a risada; e Molly ainda fizera um comentário qualquer sobre o quanto Bill também era teimoso e que isso era "birra de garotos", antes de sair, sob o pretexto de visitar o marido no St. Mungus.
Era notável a mudança que se operara em Sirius desde a chegada de Harry para o Natal. A atual situação no mundo bruxo não podia ser definida como excelente: o ataque ao Sr. Weasley no Departamento de Mistérios somado ao sonho que Harry tivera sobre ele era um fator gravíssimo; mas ter Harry ali, mesmo assim, mudava tudo. Somente a presença do afilhado era capaz de minar aquela amargura de Sirius, e ele realmente se dispusera a tornar o Natal uma data agradável para todos.
E havia um motivo secreto para se manter ocupado, para fugir dos olhares risonhos e vivos, do ar apaixonado desses mesmos olhares que só não era visível para quem não queria notar.
Mas, por outro lado, ele gostava de ouvir aquela risada calorosa, petulante e despreocupada. De saber que era alvo da curiosidade dela, que adorava atormentá-lo por dizer que ele era tão misterioso quanto um desses "bad guys" de filmes trouxas, por causa do olhar soturno e ao mesmo tempo arguto que brilhava nas íris cinzentas. Sirius não entendeu muito bem a colocação, mas gostou da idéia de ter esse tipo de atrativo – adquirido a duras penas, é bem verdade – para Tonks.
-Nenhuma chance de eu poder dar um trato no seu cabelo? –Tonks mordeu o lábio inferior, uma sobrancelha erguida em desafio, com ares de que a recusa de sua oferta seria um grande erro.
-Nenhuma!
-Então você prefere que a Molly faça isso? – A expressão determinada vacilou por instantes, quando um ar de riso atravessou suas feições.
-Nem sob tortura! – Sirius sibilou, tentando parecer ameaçador, mas também acabou sorrindo; e o sorriso se transformou numa risada despreocupada, ao se largar na cadeira de forma relaxada.
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Não era comum que saíssem juntos em missões como aquela, mas Moody insistira com Lupin que seria útil ter alguém com os talentos de Nymphadora ao seu lado. O movimento na Travessa do Tranco mudara considerável e sutilmente nos últimos tempos, e qualquer suspeita deveria ser averiguada.
-O que houve?
A sobrancelha erguida em desafio, mesmo que os olhos escuros denunciassem uma sombra de sorriso. O olhar insistente de Tonks sobre Remus poderia ser tudo, menos intimidante. Ela apenas olhava-o interrogativa, esperando que ele dissesse alguma coisa, sendo que a única reação dele fora desviar o olhar, concentrando a atenção na rua silenciosa.
Ela estreitou os olhos, tencionando ser autoritária. Remus forçou um sorriso, que não obteve lá muito sucesso: Tonks parecia ainda mais desconfiada.
-Vai me dizer o porquê de você estar tão calado, ou eu vou ter que pedir uma dose de Veritaserum pro "morcegão"?
Ele simplesmente achava graça do modo como ela demonstrava preocupação. Mas também não estava muito disposto a falar sobre aquilo, o assunto proibido. Acabou murmurando alguma coisa sobre a preocupação com a guerra, Harry ou algo relacionado à Ordem. Apenas desculpas, ele sabia.
Tonks arqueou as sobrancelhas, cética.
-Eu notei que você costuma ficar assim com uma certa freqüência, sabe. – Tonks cobriu a cabeça com o capuz da capa, tentando proteger-se da garoa fria daquela noite. – O que anda te preocupando de verdade?
Talvez, se Remus não tivesse desviado o rosto, Tonks teria notado que ele trazia uma expressão amarga, como se, em pouquíssimos segundos tivesse envelhecido mil anos.
-Você não entenderia... – Ele mais suspirou do que disse, os ombros curvando-se ligeiramente como se carregasse o peso do mundo.
-Por que você não fala o que pensa?
-Por que você fala tudo o que pensa? – Ele replicou, finalmente encarando a garota. E algo em seu peito parecia contrair-se dolorosamente quando era alvo daquele olhar, como se ela fosse capaz de ler em suas respostas genéricas o que verdadeiramente o incomodava.
Tonks sorriu.
-Não sei... – Ela fez-se de pensativa, segurando o queixo com uma das mãos. – Mas até parece que a gente se completa assim, você não acha?
O Remus de costume teria rido do comentário pretensioso de sua companheira, achando que era mais uma das brincadeiras de Nymphadora – ela era sempre tão viva e alegre e petulante, que não era de se espantar que o seu humor peculiar o brindasse com tais comentários.
Todavia, naquela noite em que o vento trazia suspiros suspeitos e o seu coração parecia estar em frangalhos e as sombras projetavam nuances curiosas sobre ambos, numa brincadeira de esconder com os raios de prata líquida que os alcançavam fugazmente, ele não soube como reagir, limitando-se apenas a lembrá-la de que estavam em missão e que o lugar não era adequado para brincadeiras.
Mas Remus deveria saber que as suas reprimendas pouco efeito teriam sobre Nymphadora Tonks, porque ela ignorou, como sempre iria ignorar, as advertências dele.
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FUGA EM MASSA DE AZKABAN
MINISTÉRIO TEME QUE BLACK SEJA "PONTO DE ENCONTRO" PARA OS
ANTIGOS COMENSAIS DA MORTE
O ministério da magia anunciou na noite passada que houve uma fuga em massa de Azkaban.Conversando com os repórteres em seu escritório privado, Cornélio Fudge, Ministro da Magia, confirmou que dez prisioneiros de segurança máxima escaparam nas primeiras horas da noite de ontem e que já informou ao primeiro ministro trouxa sobre a natureza perigosa destes indivíduos."Nós nos encontramos, infelizmente, na mesma situação de dois anos e meio atrás, quando o assassino Sirius Black escapou" disse Fudge na noite passada. "Acreditamos que as duas fugas são relacionadas. Uma fuga desta magnitude sugere ajuda de fora, e nós devemos nos lembrar que Black, como a primeira pessoa a escapar de Azkaban, seria ideal para ajudar os outros a seguir seus passos. Nós acreditamos que é provável que estes indivíduos, entre eles a prima de Black, Bellatrix Lestrange, tenham escolhido Black como seu líder. Nós estamos, contudo, fazendo tudo o que podemos para encontrar estes criminosos, e pedimos a comunidade mágica que permaneça alerta e cautelosa. De maneira alguma se deve abordar estes indivíduos".
-Mãe, fala alguma coisa!
Andrômeda estava silenciosa há vários minutos. Tonks olhava a mãe apreensivamente, apenas esperando o momento em que seria coberta de comentários super-protetores sobre o perigo de sua profissão como Auror.
Mas a Sra. Tonks não havia falado absolutamente nada até aquele momento.
-Olha, mãe, não precisa se preocupar, sabe...
-Você é adulta, uma Auror formada que sabe se cuidar. – Andrômeda completou metodicamente, largando o jornal encima da mesa com um certo asco. – Mas eu convivi boa parte da minha vida com essa psicopata pra saber o quanto ela é perigosa!
-Eu sei. Todo mundo sabe. Mas...
-Mas é seu dever, faz parte do seu trabalho e eu tenho noção do quanto deve ser aborrecido pra você ouvir esse papo chato de mãe. Um dia você vai me entender, ainda tenho esperanças que isso aconteça. – Andrômeda afastou uma mecha de cabelo do rosto, suspirando pesadamente. – Como o Sirius está? Já que eu não posso vê-lo sabe-se lá Merlin onde ele esteja escondido, eu ao menos gostaria de saber se ele está bem. Imagino o estado dele lendo essa notícia, se contorcendo de agonia pra "fazer alguma coisa". Sirius sempre foi o típico Grifinório: impulso demais, sensatez de menos.
-É, ele deve tá todo ansioso pra sair e resolver as coisas. Enfiou na cabeça que tá fazendo papel de idiota por não sair, que não é inútil algum e blablabla. – Tonks apoiou os cotovelos na mesa, encarando a mãe – Ele é sempre assim tão...
-Obstinado, teimoso e cabeça-dura? Ah, com certeza é. E até fico surpresa em saber que ele anda tão quieto, Nymphadora. Você não faz idéia das coisas que ele aprontava em Grimmauld Place pra aborrecer a velha Walburga.
Andrômeda acabou sorrindo, um sorriso meio enviesado e quase saudosista por causa das lembranças: somente as memórias das traquinagens de um Sirius revoltado eram motivo para que ela sorrisse ao relembrar antigas histórias de família.
-Incrível como vocês dois são parecidos. – Andrômeda ponderou, analisando a filha. – Não é à toa que vocês se deram tão bem, quando ele esteve aqui. Todas aquelas horas conversando com ele e as risadas e tudo o mais... Ao menos você se parece com o Sirius que eu conheci antes, apenas um garoto que queria fazer tudo o que o mundo pudesse lhe oferecer...
-Uhum... - Tonks tamborilou os dedos na mesa da cozinha, parecendo concentrada em algo que estava a quilômetros de distância dali.
-... e você não está prestando atenção em absolutamente nada do que estou falando. – Andrômeda concluiu, cruzando os braços. – Vai me dizer o que anda te deixando "encucada" ou vou ter que usar meus próprios meios?
-Maldições imperdoáveis continuam imperdoáveis, Sra. Tonks. – Tonks tentou dar um tom mais animado à sua voz, mas que soou terrivelmente artificial. – Assim como poções envenenadas ou atacar um funcionário do Ministério da Magia com qualquer tipo de feitiço não autorizado.
-Ok, vamos por eliminação: não se trata da possibilidade da sua "tia" vim nos fazer uma visitinha a qualquer momento. Tampouco você está preocupada com o Sirius por ele querer dar um jeito nisso – você, decididamente, não é o tipo de pessoa que sai dando conselhos por aí, e tenho certeza que você não ficaria podando ele.
-Mãe... – Tonks gemeu, tapando o rosto com as mãos. – A senhora quer realmente discutir o fracasso na minha vida amorosa?
Andrômeda arqueou as sobrancelhas escuras, incitando a filha a falar. O bom de se ter uma filha como Tonks era que não havia segredos: o que ela fazia não era pra ser escondido, porque Tonks não sabia guardar segredos e muito menos era uma pessoa discreta.
-Ok, digamos que ele é um cara meio problemático. E meio traumatizado com umas coisas aí na vida dele. Daí que a gente meio que se envolveu demais – E Andrômeda até podia imaginar o quão demais Tonks se deixava envolver por qualquer paixãozinha. – mas ele é tão... tão teimoso, com medo de sabe-se lá o que, como se eu fosse deixá-lo ou ele me ferir de alguma forma. É um medo bobo e idiota, e ele fica todo paranóico...
-Como assim "medo", Nymphadora?
-... e eu achei que tava tudo bem entre a gente, mas então ele ficou todo estranho depois do Natal, dizendo que a gente tava indo longe demais. Quer dizer, não é como se eu estivesse forçando ele a casar comigo, não é? A gente só tava curtindo, poxa!
-Nymphadora, explique isso direito, hm.
-Ai, mãe, nem sei como explicar... – Tonks suspirou, bagunçando os cabelos que mudavam para um tom cereja. – Eu queria não me importar tanto, sabe. Não ter que forçar nada, ser uma mala insistente. Mas eu gosto dele, entende?
-E esse "ele" tem nome? – Andrômeda sorriu, erguendo-se de onde estava sentada, para preparar um bule de chá.
-Remus. Remus Lupin. Um amigo do Sirius – Tonks completou, vendo o olhar da mãe. – Mas não precisa se preocupar, não é nada tão grave assim.
-Nymphadora...!
-Eu tô falando sério. – Tonks tentou assegurar, vendo o olhar de preocupação da mãe agravando-se. Exceto o fato de Remus ser um lobisomem, não havia mais nada de tão grave, além dela realmente não saber como as coisas iriam terminar.
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Sentia-se meio estúpido em fazer aquilo, mas as palavras ditas, naquela tarde de dezembro que já lhe parecia tão distante, ainda pareciam preencher os seus ouvidos. A voz dela cheia de riso e provocação, os olhos escuros dardejando tantas coisas que ele já não era capaz de definir. O Sirius que ele fora anos antes teria zombado do quanto ele estava frouxo e fora de forma, que a idade estava chegando e o tornando tão lerdo quanto ele costumava dizer que Remus era; porque o Sirius de antes certamente teria tomado uma atitude, pouco ligando para as possíveis conseqüências.
Bobagens de um moleque arrogante, que cometera coisas estúpidas demais e que o Sirius de hoje tentava remediar.
Voltou a se concentrar no que estava fazendo, apanhando a tesoura que estava sobre a mesinha de cabeceira. O grande espelho que ficava no antigo quarto da Sra. Black, agora ocupado por seu filho indigno, era o mais adequado para o que pretendia, devido à boa iluminação que o quarto proporcionava em comparação aos demais cômodos de Grimmauld Place. Por mais estranho que parecesse, Sirius não conseguiu retornar ao seu antigo quarto: aquilo estava tão impregnado de boas lembranças de tempos mais felizes – obviamente eram as lembranças dos marotos, não havia nada mais além disso que valesse a pena em seu passado – que ele preferiu manter o quarto como um memorial.
Começou a cuidadosamente separar as mechas de cabelo, que permaneciam imaculadamente negras, mesmo depois de todos aqueles anos em Azkaban – Sirius havia observado, notando o quanto parecia envelhecido e quase maléfico com aquele cabelo longo em mechas desiguais e seu olhar mais sombrio, tornando seus olhos quase negros.
-Você está irreconhecível, meu caro! – O Sirius do espelho desdenhou, sorrindo cinicamente.
-Nós estamos, então. – O Sirius real respondeu no mesmo tom, voltando a se concentrar nas tesouradas que resultavam em longas mechas negras que iam se acumulando no tapete puído que já fora o orgulho da Sra. Black.
-Você gosta dela, não gosta?
-Do quê você está falando? – O Sirius do lado de cá do espelho perguntou despreocupadamente, aparando a franja.
-Não "do quê", mas "de quem". – O Sirius do reflexo ergueu uma das sobrancelhas, mirando as unhas como se elas fossem muito interessantes. – E você sabe de quem eu estou falando.
-Ora, mas que...!
-Você pode tentar se enganar, mas não a mim! – O Sirius do reflexo soltou um risinho de escárnio. Ou seria algo semelhante à piedade? – E nós sabemos exatamente o que está acontecendo.
-Cale a boca! – Sirius sibilou, respirando fundo.
-Falando sozinho, primo? – Tonks riu, encostando-se no batente da porta, as mãos enfiadas nos bolsos traseiros do jeans surrado.
-Você devia saber, Nym, que sanidade é uma dádiva pra qualquer um que passe muito tempo embaixo desse teto. – Sirius observou a garota atrás de si, através do reflexo do espelho envelhecido.
-Ahhh, eu não acredito! – Tonks arregalou os olhos, risonha e feliz, batendo palmas de empolgação, ao reparar melhor em Sirius. – A Molly vai ficar louca quando vir isso. Deixa eu ver como ficou? – E nisso já estava rodeando Sirius, tagarelando como nunca e mexendo, sem cerimônias, no cabelo de Sirius, vendo como ele ficava com o corte novo. – Eu sabia que você ia acabar fazendo isso. O meu poder de persuasão...
-Eu chamaria isso de insistência! – Sirius interrompeu, fazendo-se de pensativo.
-O meu poder de persuasão sempre foi muito competente. – Tonks ergueu o queixo, imponente como só alguém que carregasse um resquício do sangue dos Black sabia fazer, forçando uma expressão metódica. – Eu sempre sei o que é melhor!
-Então, você realmente sabe tudo, posso supor? – Ele jogou a cabeça para trás, rindo aquela risada rouca que lembrava o latido de um cão.
-Pode ser. – Tonks riu também, e então o desafiou: - Experimenta dizer algo que eu não sei, que tal?
Ela sorria divertida, despreocupada. Não notou que o semblante de Sirius havia mudado ligeiramente, do quanto os olhos cinzentos faiscavam para ela, cheios de algo que ela não sabia o que era.
Ainda sorrindo, embora houvesse algo de novo que forçasse os seus lábios ainda curvados, ele se inclinou para frente, como se fosse segredar algo – o que não deixava de ser verdade.
Agora Sirius compreendia perfeitamente o que fizera Remus agir daquela forma, o quanto Tonks era especial, diferente e única. Palpitava nele algo que ele achava estar adormecido em seu peito e qualquer pensamento racional que existisse evaporara-se ao encarar aqueles brilhantes olhos negros que pareciam tragá-lo para um outro universo.
E antes que pudesse se controlar, ele a beijara.
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¹ I want you (she's so heavy) – the beatles
A letra não é lá original, mas a escolha foi totalmente influenciada pelo filme "across the universe" (assistam!) e o quanto a melodia é intensa e tals. E acho que é meio a ver com o sirius e a tonks, e ao mesmo tempo com o remus... eh! XD Por isso eu recomendo a leitura do capítulo ao som dessa música. ;D
Capítulo dedicado à melhor beta do mundo. Que, além de me incentivar à voltar a essa fic, fez um tutorial "MARA" que me ajudou a compor a última cena. Adoro-te, coisinha!
