Capítulo 5 - Gimme Shelter¹
"Oh, a storm is threatning
My very life today
If I don't get some shelter
Oh yeah, I'm gonna fade away.
(...)I tell you love, sister, it's just a kiss away
It's just a kiss away"
Tonks não estava preparada para o que aconteceu em seguida. Na verdade, nem ela própria sabia definir o que realmente estava acontecendo naquele momento. Sentia-se incapaz de raciocinar, ainda mais levando-se em conta a rapidez com que tudo estava ocorrendo. Num momento estava rindo com Sirius sobre uma bobagem qualquer, ela o atormentando com gracejos sobre o cabelo dele e então... ele a beijou. Sem mais nem menos. Como se a idéia tivesse acabado de lhe ocorrer e ele simplesmente se decidira por fazê-lo.
E com tal intensidade!
A metamorfomaga apenas se lembrava de, antes de tudo, ter sido engolfada pelo olhar de tempestade, quando ele se curvou para ela, sorrindo aquele sorriso misterioso que ela nunca conseguira decifrar. Os olhos cinzentos pareciam clarear-se, tornando-se quase azuis, enquanto ele se aproximava dela. Tão confiante e tão impetuoso! Assim como a forma como ele capturou os seus lábios. Primeiro o lábio inferior, como se quisesse prová-la primeiro, bebê-la. Tonks até tentou esboçar algum gesto – embora não soubesse exatamente qual, quando as mãos grandes dele abraçaram sua cintura com firmeza, como se ele não quisesse deixá-la fugir.
Como se Tonks fosse capaz disso no momento, ora!
Estava tão catatônica, que não sabia como agir – o que era algo inédito para ela. Não houve nenhum ímpeto, nada que lhe impulsionasse a fazer algo, a não ser permanecer onde estava. Talvez fosse curiosidade em saber até que ponto as coisas iriam. Não sabia. Sinceramente, Tonks não era capaz de definir o que quer que fosse naquele momento. E talvez não estivesse tão preocupada com isso.
Sentiu Sirius suspirando contra seus lábios, uma das mãos ainda segurando sua cintura firmemente, enquanto a outra alcançava o seu rosto. Sentiu os dedos dele tocando sua boca com uma estranha gentileza, enquanto os olhos dele capturavam os dela, como se todo o corpo dele quisesse beijá-la, envolvê-la... senti-la. Aquela intensidade toda correndo por seu corpo como se fosse uma corrente elétrica.
-Sirius... – ela ainda murmurou, antes que ele voltasse a se aproximar perigosamente. Então lábios e dentes tentaram forçar caminho por entre sua boca. Havia uma mão firme que segurava sua nuca com segurança, mas ao mesmo tempo tão cuidadosamente, deleitando-se com o contato com a pele pálida e macia, sentindo-a arrepiar-se ao seu toque, com as mechas de um vermelho-sangue despontando para todos os lados.
Tonks então fechou os olhos, permitindo aquele beijo. Sentiu a língua áspera dele invadir sua boca, insinuante. Os lábios movendo-se com uma certa sensualidade, que era impossível não se deixar levar. A mão dele tocando o seu rosto ocasionalmente, assim como o braço dele ao redor de sua cintura a trazia para mais perto. Dentes que prendiam levemente seu lábio inferior, antes de voltar a beijá-la com o mesmo desejo de antes.
Era essa a questão para Tonks: havia desejo na maneira como Sirius a beijava, como se estivesse pouco se importando com o que estava acontecendo lá fora. Como se ela fosse tão importante e única.
Sentia-se tão mulher daquela forma!
Era bem verdade que Remus costumava beijá-la assim no princípio, mas sempre havia um pouco de... culpa, ou outra bobagem qualquer que o deixava desconfiado e receoso. Era tão difícil Remus se entregar por completo, ela se esforçava tanto para conseguir isto e parecia que nunca era o bastante para que as coisas dessem certo.
Remus.
Por Merlin, havia Remus!
Imediatamente Tonks se afastou de Sirius, dando alguns passos pra trás. Seria mais seguro assim. Passou a mão pelos cabelos arrepiados, que instantaneamente se tornaram de um azul elétrico. Tal como ela se sentia no momento. Engoliu em seco algumas vezes, ainda surpresa e confusa, encarando Sirius. Esperava algum olhar desafiador ou insolente por parte dele, alguma resposta rabugenta, arrogante ou mordaz. Tonks esperava que ele dissesse alguma coisa, fizesse alguma coisa – qualquer coisa -, porque ela própria havia perdido o poder da fala.
Se Sirius tivesse feito o que fez apenas por tesão, ela saberia lidar com isso. Podia imaginar o quão difícil seria para ele lidar com tudo aquilo, ter estado por mais de dez anos preso e tudo o mais. Porque preferia acreditar que era apenas uma "necessidade física" do que por algum outro motivo. Eles eram primos e, embora essa não fosse uma justificativa muito coerente (era até bem comum no mundo bruxo o fato de primos se relacionarem, ainda mais no caso deles, que o parentesco já não era tão próximo), Tonks não conseguiu deixar de pensar na confusão que aquilo poderia ocasionar.
Sentia-se tão estúpida e sem ação!
Mas então ouviram passos arrastados no corredor, e lá estava Kreacher adentrando o antigo quarto de sua amada senhora. Olhou com desgosto para a desordem que reinava no aposento, e começou a sibilar impropérios freneticamente quando avistou as mechas de cabelo que Sirius havia acabado de cortar no canto ao lado do enorme espelho de bronze.
-Ah, imundície e infâmia, minha senhora. O que a mestra de Kreacher diria se visse seu aposento dessa forma? Oh desastre! – E dando-se conta da presença de Tonks, resmungou mais alto, alternando seu olhar mortiço entre a metamorfomaga e Sirius. - E a pequena aberração ainda fica encarando Kreacher, como se fosse ele a anomalia!
-O que você quer aqui, coisa imunda! – Sirius sibilou, descarregando toda a sua frustração no elfo-doméstico. – E eu o proíbo - está me ouvindo bem?! – eu o proíbo de falar assim outra vez com Tonks!
Kreacher apertou os olhos remelentos, resmungando baixinho, lamentando o infortúnio que se abatera sobre a família Black, mas não despejando nenhuma de suas ofensas contra Tonks ou Sirius, obrigado pela magia que o amarrava àquele mestre indigno.
-Vai dizer o que quer logo? – Sirius também estreitou os olhos para o elfo, e Tonks desejou nunca ser alvo daquele olhar. Era como se trovoadas soassem ao longe, escurecendo as íris que até pouco tempo pareciam tão límpidas.
-O mestre de poções está aí. Quer falar com o mestre de Kreacher. – o elfo deu um risinho malvado ao ver Sirius arquear as sobrancelhas, confuso. Então fez uma reverência e saiu.
xxx
Harry em perigo. Harry fora de Hogwarts, com a intenção de "salvá-lo" de Voldemort. Harry sendo estúpido e nobre por sua causa, sendo impulsivo ao não pensar que era praticamente impossível Voldemort pôr as mãos nele naquele momento, estando em segurança em Grimmauld Place.
Sirius não conseguia pensar em mais nada que não fosse Harry. Sabia que vez ou outra Tonks olhava-o de esguelha, mas não sabia ao certo o que fazer. E o pior de tudo era que não se arrependia minimamente do que fizera. A única coisa que o incomodava era que uma vozinha no fundo de sua mente (Sirius costumava brincar que a voz da sua consciência falava como o amigo Aluado - e aquilo o perturbou profundamente naquele instante) dizendo que ele fora imprudente e idiota, deixando-se levar pelo momento.
-Eu acho melhor nós irmos direto procurar pelos garotos na Sala das Profecias. – A voz grave e cheia de Kingsley ecoou no átrio do Ministério da Magia, enquanto ele, Sirius, Tonks, Lupin e Moody praticamente corriam para o elevador. – Pelo o que Snape disse e pelo o que sabemos ser plano dos Comensais da Morte, a intenção seria atrair Potter para o Departamento de Mistérios.
Silenciosamente todos concordaram, entrando no elevador.
-Vai dar tudo certo, Sirius. – O elevador abriu com um som metálico e rascante, enquanto os membros da Ordem da Fênix saiam para o corredor que levava para o Departamento de Mistérios. Remus tocou o braço do amigo, tentando transmitir alguma confiança para ele. – O Harry é um garoto forte, já conseguiu se safar de muita coisa. Acho que herdou isso de você. – O licantropo sorriu, tentando, inutilmente, serenar o espírito inquieto do amigo. – Vai ficar tudo bem.
Sirius não conseguiu encarar o amigo de volta.
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Tudo evaporara-se de sua mente. Sirius sentia-se vivo e lúcido como nunca. Como se estivesse sendo ele próprio outra vez, ao empunhar a sua varinha e duelar com um maldito comensal como fizera tantos anos antes.
Vira Harry, falara com ele. Tivera a certeza de que precisava para saber que estava tudo bem, sentindo-se, de certa forma, mais tranqüilo.
Derrubar Dolohov foi fácil. O comensal tinha movimentos tão lentos, era tão patético! Harry surgiu e petrificou o comensal com facilidade, quando Sirius quase fora atingido por um feitiço desconhecido.
-Muito bom! - gritou Sirius, empurrando a cabeça de Harry para baixo, no mesmo momento que um par de feitiços voaram na direção deles. - Agora eu quero que você saia.
Sirius, ao erguer o rosto, jogando os cabelos mais curtos para trás, viu que Bellatrix – Ah, a adorada prima Bellatrix! – estava duelando com Tonks.
Sirius nunca vira Tonks parecer tão enraivecida. Toda aquela aura juvenil e despreocupada havia desaparecido de seu rosto. Sirius compreendia bem demais o quanto a Lestrange era capaz de inspirar ódio, convivera o suficiente com ela para saber isso. As varinhas das duas moviam-se velozmente, parecendo espadas de luz: Tonks era ágil e duelava com passionalidade, mas Bellatrix não era uma das Comensais da Morte mais competentes à toa. A mulher, apesar de mais velha e ter passado tantos anos em Azkaban, lutava com uma ferocidade doentia e não se deixava atingir por nenhum dos feitiços de Tonks.
Bellatrix moveu o braço em um movimento preciso, atingindo a sobrinha. Tonks desabou, rolando pelos degraus de cimento da sala de aspecto sombrio.
Sirius não precisou raciocinar antes de assumir o duelo com Bellatrix. Não podia precisar o tamanho de sua agonia ao ver Tonks ser ferida daquela forma. Teve ímpetos de socorrer a garota, mas certamente alguém faria isso. Lestrange não podia escapar, e ele tinha algumas coisas pra acertar com ela.
-Reunião de família, priminho? – Bellatrix ofegou, passando a língua obscenamente pelos lábios finos. - É uma boa hora pra ensinar "bons modos" para as ovelhas desgarradas da família, não é? A aberraçãozinha que Andrômeda pôs no mundo já deve ter aprendido uma coisinha ou outra com a titia Bella. – A Comensal riu-se, afetando uma voz infantil, lançando outro feitiço em Sirius.
-Vá se ferrar, Lestrange! - Sirius sentiu o sangue latejar nas têmporas, arregalando os olhos em fúria. Defendeu-se do ataque da Comensal, investindo novamente contra ela.
O bruxo já não se dava conta do que ocorria à sua volta, tudo o que desejava, naquele momento, era acabar com Bellatrix da forma mais dolorosa possível. Um Avada Kedavra não seria o bastante, queria exterminar aquela mulher do mundo de forma que não restasse um único resquício que desse mostras que algum dia uma criatura como ela havia existido.
Sirius e Bellatrix trocavam ofensas e azarações, mas ambos pareciam imunes às investidas um do outro. Fachos coloridos chispando para todos os lados.
Não notaram que os outros duelos haviam praticamente encerrado, quando Dumbledore em pessoa aparecera e rendera os demais Comensais da Morte. Lucius Malfoy bem que tentou se safar de alguma forma, não obtendo sucesso algum e disparando desafios para todos os lados, mesmo estando desarmado e rendido.
Somente mais uma dupla estava lutando, aparentemente inconsciente da nova chegada. Sirius desviou do jato de luz vermelha de Bellatrix: ele estava rindo dela.
-Vamos lá! Você pode fazer melhor que isso! - ele gritou, sua voz ecoando na sala cavernosa.
O segundo jato de luz o acertou diretamente no peito. O riso não saiu completamente de seu rosto, mas seus olhos arregalaram-se em choque.
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A primeira coisa que sua mente registrou foi a dor intensa na cabeça, como se tivesse sido atropelado por uma manada de hipogrifos selvagens. Permaneceu de olhos fechados, ouvindo os pequenos sons que emergiam conforme sua consciência também retornava. Sussurros, murmúrios e passos leves que ecoavam ao longe.
Sua têmpora latejava como se ele tivesse tomado várias garrafas de Firewhisky e estivesse encarando naquele dia uma ressaca que seria capaz de derrubar um trasgo montanhês adulto. Ergueu a mão lentamente com a intenção de apalpar o tamanho do estrago, mas desistiu no meio do caminho, pois parecia que seu braço pesava toneladas.
-Oh, finalmente acordou... – Alguém murmurou acima de sua cabeça, e Sirius se esforçou para abrir os olhos. Tudo parecia muito claro, ou talvez fosse ele que tivesse ficado desacordado por tempo demais, por isso o esforço de mover as pálpebras parecia ainda mais desgastante.
Um rosto emoldurado por cabelos longos e escuros surgiu diante de seus olhos, quando Sirius finalmente se sentiu forte o bastante para mover as pálpebras. Um par de olhos escuros perscrutou seu rosto com atenção, em busca de qualquer sinal de dor ou desconforto.
-Lestrange...! – O bruxo murmurou, a voz carregada de desprezo, tentando se erguer, o que ocasionou uma leve tontura para ele, que acabou arfando com uma súbita pontada na cabeça.
-Irmã errada, querido. – A Sra. Tonks sempre se horrorizava quando alguém a confundia com Bellatrix Lestrange e já disparara respostas no mínimo desconcertantes para quem ousasse brindá-la com tais comentários. Andrômeda crispou os lábios, mas acabou sorrindo de lado. Só porque se tratava de Sirius e ela sabia o quão atordoado ele deveria estar no momento a ponto de confundi-la com Bellatrix. – Sou eu, Andrômeda.
-Oh, desculpe-me, Andie. – Sirius murmurou, piscando várias vezes, até que o rosto da prima querida entrasse em foco e ele reconhecesse as feições que lhe eram tão caras. – Harry, cadê ele? O que houve? E... onde é que eu vim parar...? Alguém socorreu a Tonks? Merda, eu devia ter cuidado melhor da Nym, Andie, fui tão inútil! – Concluiu, praguejando, e sentindo a culpa comprimir o seu peito, somado ao mesmo desespero que o dominou quando viu a auror ser ferida pela Comensal da Morte.
-Calma, mocinho: uma pergunta de cada vez. Estamos em Grimmauld Place, mais precisamente no seu antigo quarto. Francamente, como você foi capaz de conceber a idéia de dormir no quarto daquele espírito agourento que te botou no mundo? Achei que você ficaria melhor no seu quarto, com todas essas fotos de garotas seminuas e motos trouxas, mas que parece muito mais decente do que os outros aposentos. – Andrômeda forçou o primo a se deitar novamente, ajeitando os seus travesseiros como só uma boa mãe é capaz de fazer. Arrastou uma cadeira para ficar mais perto da cama de Sirius, tomando uma das mãos dele e o acariciando ternamente. – O seu afilhado está bem e está seguro em Hogwarts, e eu fui praticamente obrigada a jurar para ele que o chamaria ou mandaria notícias assim que você acordasse. Rapazinho teimoso, esse garoto!
Sirius esboçou um sorriso, boa parte daquele cansaço o abandonando como se a preocupação com Harry fosse um dos maiores motivos para que ele ficasse naquele estado de exaustão.
–Você esteve desacordado por uma semana, depois de ter sido azarado por aquela louca psicótica. Foi muita sorte da sua parte, por muito pouco você não caiu naquele véu quando a Lestrange te atingiu. – Andrômeda sentiu um arrepio gelado percorrer suas costas, embora o tempo estivesse quente e fosse uma tarde sem vento. – Nymphadora também foi ferida, ficou internada no St. Mungus por dois dias. Mas o estado dela não foi tão grave quanto o seu, e ela já está por aí, de volta ao trabalho, pouco ligando em se recuperar devidamente. Assim que eu soube da história completa sobre o ataque ao Ministério – e somente Kingsley teve a gentileza de me procurar e contar o que houve com a minha filha e com o meu primo cabeça-dura - mandei uma coruja pra Dumbledore e ele permitiu que eu soubesse a localização da Sede da Ordem da Fênix, para poder cuidar melhor de você. Ah, Merlin, como fiquei preocupada com vocês dois! Achei que não fosse suportar a agonia de não poder fazer nada para ajudá-los. - Andrômeda concluiu com um suspiro longo, apalpando a têmpora e parecendo exaurida – agora que Sirius reparara melhor em seu estado.
-Ela veio me ver? – Sirius indagou, tentando camuflar aquela estranha ansiedade. Ansioso por não saber o que Tonks poderia achar dele por tê-la beijado de forma tão inesperada e tampouco ter pensado em lhe dar alguma justificativa. Desde que soubera que Harry estava em perigo no Departamento de Mistérios, o animago não conseguiu pensar em mais nada, exceto em salvar o garoto.
-Quem? Nymphadora? – Andrômeda perguntou, ao que Sirius confirmou. – Veio aqui várias vezes, depois de ter saído do St. Mungus – mas você ainda estava desacordado e agora ela tem tido pouco tempo, com todo o trabalho que o Ministério está tendo agora.
Alguns segundos de silêncio em que Sirius se permitiu pensar na metamorfomaga e na complicação que, possivelmente, ele acabara de arranjar.
-O que aquela vadia da Lestrange fez comigo? – Sirius fez uma careta, quando tentou outra vez se erguer e fora novamente contido por Andrômeda. - Por que eu me sinto tão esgotado, como se tivesse sido atacado por um balaço errante sob o efeito de alguma azaração pra confundir, se fiquei desacordado esse tempo todo?
Andrômeda remexeu-se na cadeira, desconfortável, torcendo os lábios.
-Andrômeda...?
-Ah, certo, certo. – Andrômeda acomodou uma mecha de cabelo atrás da orelha. - Eu falo, mas você vai ter que me prometer que não vai se exaltar... muito. Eu sei que não adianta tentar esconder as coisas de você. E é melhor que você saiba logo.
Sirius arqueou as sobrancelhas, incitando Andrômeda a falar. Naquele momento ele notou o quanto ela e a filha eram parecidas, falando as coisas sem muitos receios e segredos. Do quanto as duas eram impetuosas de formas tão diferentes.
-Magia Negra do pior tipo, Sirius. Uma maldição pra definhar. Bellatrix lançou uma azaração em você que tiraria a sua força vital em até 24 horas, provocando dores horríveis; provavelmente ela acharia muito interessante ver você morrer aos pouquinhos, fraco e sem defesas, ao invés de uma maldição da morte ou da cruciatus que ela tanto adora. – Andrômeda suspirou, cerrando as pálpebras por longos segundos. – Acho que a intenção era criar um elo entre vocês, assim ela se fortaleceria com a sua força; já ouvi falar sobre maldições assim, mas normalmente o elo é feito através do ato sexual, algo semelhante ao que os súcubos² fazem. Provavelmente ela não conseguiu amaldiçoá-lo como se deve para esse efeito. O que me deixa muito mais tranqüila, pra ser bem sincera. – Concluiu, torcendo o nariz.
-E era por isso que você ficou com medo de me contar? Acredite, Andie, ficar fraco assim - embora a idéia de fazer qualquer coisa do tipo com a Lestrange me faz acreditar que ser eunuco é bem mais aceitável - é quase uma benção comparado a ser trancafiado em Azkaban. Ao menos eu não precisaria reviver as piores coisas na minha vida por causa dos dementadores.
-Agora está tudo bem, meu querido, você está a salvo e fora de perigo. – Andrômeda assegurou, pressionando levemente a mão do primo. – Bem, seria perigoso levar você para o St. Mungus, já que para todos no nosso mundo você ainda era um Comensal da Morte foragido e sua cabeça valia montes de galeões. Então trouxeram você pra cá, para ser tratado aqui mesmo. Você é muito sortudo em ter um amigo como o Sr. Lupin. Ele identificou na hora a sua maldição e aparatou com você para cá assim que possível.
-Você conheceu o Aluado, então. – Sirius abriu um pequeno sorriso, mas Andrômeda não notou o quanto este sorriso era melancólico, achando que fosse apenas o cansaço diante de tantas informações. – Ele entende bastante de Defesa Contra as Artes das Trevas, lecionou a matéria em Hogwarts, inclusive. Então foi ele que cuidou de mim, certo? Foi ele que conseguiu neutralizar a maldição, não foi?
-Hm, mais ou menos.
-Como assim "mais ou menos"? Andrômeda?
-Você deveria estar descansando, e não fazendo esse interrogatório todo, ora! – A Sra. Tonks cruzou os braços, ficando muito séria. – Eu deveria manter você sob o efeito de poções relaxantes, e falo sério quando digo que por muito pouco você conseguiu escapar.
-Andie, por favor...
-Sirius, por favor, não perturbe a Sra. Tonks. – Remus apareceu no quarto, encostando-se no umbral da porta, trazendo em suas mãos uma taça contendo algo que fumegava.
-Ah, por favor, não me chame assim, já disse que pode me chamar pelo primeiro nome. – Andrômeda sorriu para Lupin. – Eu me sinto uma matrona velhíssima e enfadonha desse jeito.
-Tudo bem, então, Andrômeda. – Lupin sorriu cordialmente, mas com um certo incômodo que não permitia que ele encarasse a mulher diretamente. –Como você está se sentindo, Almofadinhas?
-Eu estou bem, mas ficaria melhor se vocês parassem de ficar desviando do assunto e me escondendo as coisas. – Sirius fechou a cara, erguendo-se com cuidado para se apoiar nos travesseiros. – O que está havendo?
-Eu só quis evitar aborrecimentos enquanto você ainda está se recuperando, Almofadinhas. – Remus se aproximou da cama, parando ao lado da cadeira em que a Sra. Tonks estava acomodada.
Era bastante constrangedor para Lupin estar convivendo com a mãe de Nymphadora durante aqueles dias, embora a Sra. Tonks fosse observadora e sensível o bastante para não fazer algum comentário sobre ele, a filha e o provável-mas-não-assumido-relacionamento entre os dois. O momento não era propício para o assunto e Remus ficou grato por não ter que enfrentar alguma possível cobrança naquele momento.
–Encontrar um feitiço que pudesse reverter o seu quadro demoraria muito tempo e nós não podíamos nos arriscar a perder você. – Andrômeda comentou, parecendo preocupada.
-E...?
-E você sabe que eu nunca fui muito habilidoso com poções, sendo praticamente impossível que eu conseguisse preparar alguma coisa que fosse capaz de conter a maldição que te atingiu... – Remus tentou explicar.
-Não...!
-Então nós tivemos que pedir ajuda para o Snape. Desculpe, Sirius, isso é incômodo para mim também, mas não tínhamos outra alternativa. Snape conhece coisas que nós nem somos capazes de imaginar. E por mais que ele não goste de nós, ele trabalhou bem, mesmo que tenha sido persuadido a isso por Dumbledore.
-Você também conhece coisas demais, coisas úteis, mas nem por isso precisou se enfiar em Artes das Trevas. – Sirius esbravejou. - E quem garante que essa fraqueza que estou sentindo não é culpa do Ranhoso? Aposto que ele está deliciado em saber que estou morrendo aqui, dependendo da preciosa ajuda dele pra viver.
-Você não está morrendo, Sirius! – Andrômeda afirmou energicamente, erguendo-se de súbito. Remus afastou-se para o lado, surpreso com a postura da mulher. Talvez fosse algo que estivesse nos genes dos Black, mas ainda era espantosa a forma como eles sempre pareciam imponentes, mesmo que sem a intenção. – E eu espero sinceramente que você poupe as suas energias para ficar bom logo, ao invés de ficar reclamando como aquela velha encalhada da Tia Cassiopéia.
Lupin voltou a se aproximar da cama do amigo, estendendo o cálice fumegante para Sirius:
-Beba, isso vai te fazer bem.
-Não vou tomar porcaria nenhuma... – Sirius retrucou, crispando os lábios.
-Deixe de ser infantil, Sirius! – Andrômeda suspirou, parecendo um pouco impaciente com as queixas de Sirius. – Pensei que você quisesse se recuperar logo.
-E se isso for um veneno? – O animago parecia desgostoso. – Como você quer que eu confie em algo feito pelo Seboso?
-Isso é uma simples e inofensiva poção tranqüilizante, para que você não fique agitado enquanto se recupera. Não se preocupe, a poção não foi feita por Snape, mas feita por mim; eu costumava preparar essa poção quando Nymphadora era pequena e ficava doente.
Remus aproximou o cálice dos lábios de Sirius, e murmurou de modo que a mulher não o ouvisse: – E acho melhor que você beba logo, pois alguém aqui vai acabar perdendo o resto da paciência com você e eu não gostaria de estar por perto para presenciar.
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Ele observava a movimentação na plataforma de trem, e era impossível não se recordar do quão agradável era aquele clima. A despreocupação juvenil que parecia estampada nos rostos alegres e animados para o início das férias escolares, mesmo que soubessem que as coisas não estavam tão boas assim fora dos muros protetores de Hogwarts. Como se o fato de serem jovens e o verão estar tão próximo fosse o bastante para insuflá-los de coragem. Remus não os culpava. Anos antes, ele também se sentira daquela forma, quando era apenas um Maroto, cercado pelos amigos, e achando que nada seria capaz de atingi-los.
Com o canto dos olhos, viu Nymphadora se equilibrar na ponta dos pés, tentando enxergar alguma coisa no meio da multidão de estudantes.
-Ali, Remus, eu já estou vendo ele, junto com Ron e Hermione! – A auror exclamou, apoiando a mão no ombro do licantropo, evitando uma provável queda. – Arthur e Molly já os encontraram do lado de lá da plataforma.
-Gárgulas vorazes! Tente chamar menos a atenção, Tonks! – Moody reclamou, ajeitando o chapéu que escondia seu olho mágico. Ele, Lupin e Tonks aguardavam por Harry no lado trouxa da estação, para assegurar a segurança do garoto. – A intenção é que passemos por trouxas e você não tem colaborado muito com esse cabelo aí.
Tonks apenas sorriu, divertida e insolente, fazendo questão de arrepiar ainda mais os cabelos rosa-chiclete.
Lupin observou com divertida curiosidade as expressões de espanto que os parentes trouxas de Harry fizeram quando ele, Tonks e Moody cumprimentaram Harry efusivamente, assim como Hermione e os demais Weasleys.
-Beleza, Harry? – Tonks perguntou, bagunçando carinhosamente os já rebeldes cabelos de Harry e depois acenando para os demais.
-Bem, eu acho. – Harry respondeu, encolhendo os ombros. – E o Snuffles?
-Reclamando, como sempre. – Lupin suspirou, enfiando as mãos nos bolsos da calça. – Ele está particularmente insuportável por esses dias, por não poder sair de casa e ficar zanzando por aí. Ameaçou assumir a forma animaga e ficar de prontidão na casa da sua família trouxa, pra cuidar de você e garantir que nenhum comensal fizesse algo, já que você ainda não pode sair da casa dos seus tios.
-Ele me mandou uma carta enorme, me chamou de irresponsável e tudo o mais. – Harry fez uma careta, recebendo um tapinha consolador de Ron. – Fiquei até com medo de receber um berrador na hora do café-da-manhã.
-E ele realmente pensou na idéia quando soube que você tinha procurado pela Lestrange pra tirar satisfações com ela. – Apesar da voz tranqüila, Harry sabia reconhecer o tom severo na voz do ex-professor. – Só não fez isso quando soube que o próprio Voldemort (Ron chiou horrivelmente nessa hora) foi atrás de você e que as coisas ficaram ainda mais graves do que ele podia imaginar. Somente isso o fez ficar preocupado o bastante para não te dar um sermão realmente grande, porque eu consegui fazê-lo entender que a culpa em grande parte não foi sua, que Voldemort o manipulou.
-Eu achei que ela tivesse realmente matado o Sirius! – Harry esbravejou, cerrando os punhos. – Eu mal consegui raciocinar na hora. Quando vi o Sirius caído, e ela gritando que o tinha matado, eu achei mesmo que isso tivesse acontecido.
-Mas você sabe que o Sirius tinha motivos pra ficar preocupado e te mandar todas aquelas recomendações por carta. – Hermione observou, acariciando distraidamente as orelhas de Bichento. – A Lestrange é realmente perigosa, e foi graças a Dumbledore que nós todos conseguimos escapar sem maiores problemas.
Alguns poucos segundos de silêncio, antes que Remus limpasse a garganta e voltasse a falar:
-Imagino que você esteja acompanhando as notícias d'O Profeta Diário, Harry.
-Hermione não deixa a gente em paz por causa daquele jornal. – Ron revirou os olhos, recebendo um olhar indignado da garota.
-É verdade mesmo que o Sirius vai ser julgado novamente? – Harry parecia preocupado, ignorando os resmungos dos amigos e voltando a sua atenção para Lupin.
-Bom, a situação dele mudou pra bem melhor, se você quer saber a minha opinião. – Remus sorriu. – Mesmo se ele fosse um Comensal da Morte, o fato dele ter lutado pra salvar você dos outros comensais, na frente de testemunhas, conta pontos a favor dele. Sem contar que a aparição de Voldemort no Ministério confirma tudo o que você disse no ano anterior. A credibilidade de Dumbledore está em alta outra vez, e ele próprio se comprometeu a depor em favor de Sirius.
-Disso eu não sabia. – Tonks encarou Remus, franzindo o cenho. – Quando...?
-Dumbledore me afirmou isso ontem. – Lupin comentou vagamente. – Quando Sirius foi condenado, Dumbledore achava mesmo que ele tivesse traído os seus pais e fosse um Comensal da Morte, por isso se recusou a depor, fosse para acusá-lo ou inocentá-lo.
-Mas o Sirius não vai ter que voltar... bem, você sabe... pra Azkaban, vai? – Harry perguntou. – Eu imagino que ele teria que ficar preso novamente até que o julgamento fosse feito, não é?
-Os dementadores se rebelaram contra o Ministério, Potter. – Moody disse. – Fudge, depois de ter feito todas aquelas trapalhadas no último ano, se demitiu do cargo de Ministro da Magia. Quem eles julgavam ser o pior criminoso depois de Voldemort lutou contra os Comensais da Morte. Tudo está em mudanças, mas não acredito que Black vá ser preso novamente.
Hermione franziu as sobrancelhas, em clara dúvida.
-Fudge certamente faria toda uma cerimônia pra prender o Sirius em Azkaban e depois fazer um outro julgamento pra ele. – Tonks ponderou. – Scrimgeour é bem mais prático, não vai ficar com esse lenga-lenga todo. Ele foi o meu chefe na seção dos aurores, e eu sei bem o quanto ele é diferente do Fudge.
-No mundo trouxa isso acontece de forma tão diferente... – Hermione falou e Harry acenou a cabeça, concordando.
-Sirius se comprometeu a ser julgado novamente, e a palavra de um bruxo sempre vale alguma coisa. – Lupin explicou. – Acredite, Harry, as chances de Sirius ser inocentado agora são realmente grandes. Estamos muito confiantes.
Parecendo mais aliviado, Harry relaxou a postura.
-É melhor você ir andando, Harry. – Tonks comentou gentilmente. – Os trouxas não parecem nada felizes em ver você aqui.
Harry fez uma careta de desânimo, agarrando a alça do malão.
-Não se preocupe, vai ficar tudo bem. – Lupin garantiu, tocando o ombro do garoto. – Em breve você poderá sair de lá. Nos mantenha informado de qualquer coisa que aconteça; se houver algum problema você deve procurar a Sra. Figg, que saberá como entrar em contato conosco. Sempre terá um membro da Ordem por perto pra te auxiliar, Harry.
Todos se despediram, e Remus permaneceu olhando Harry se encontrar com os tios e seguir em direção ao estacionamento da estação de trem. Os Weasleys também já estavam partindo, tentando (e falhando miseravelmente) não chamar a atenção, enquanto Moody mancava por outra direção, lançando olhares desconfiados aos transeuntes.
-Hm, hoje é meu dia de folga. – Tonks encarou Lupin, ansiosa. – Tenho trabalhado sem folgas há mais de uma semana, mas hoje estou livre de qualquer compromisso. Você podia me acompanhar até em casa, sabe... A gente tem se visto tão pouco ultimamente...
Lupin sorriu e concordou. Parte dele parecia se desmanchar por dentro quando era alvo daquele olhar, sabendo e sentindo que era querido de forma única por ela. A outra parte estava distante e pensativa, ponderando tudo o que vinha acontecendo nas últimas semanas, e na conversa que tivera com Dumbledore na noite anterior. Era de conhecimento geral que a guerra estava mais próxima, agora que todos sabiam Lorde Voldemort estava de volta e que tivera a audácia de invadir o Ministério da Magia. Mesmo que alguns Comensais tivessem sido presos no ataque (entre eles Lucius Malfoy) o Lorde das Trevas tinha muitos aliados, e era justamente pensando nisso que Dumbledore solicitara a ajuda de Remus para ser um espião no meio dos lobisomens, assim como Hagrid e Madame Maxime se infiltraram no meio dos gigantes no ano anterior.
Para muitos aquilo era uma missão suicida, mas se Dumbledore precisava que alguém fizesse aquele trabalho, Remus não podia se negar a ajudar. Devia demais ao velho mestre, pela constante confiança que lhe era depositada, e ele sabia que estava comprometido com a Ordem da Fênix para sempre.
Tonks parecia não notar isso, não parecia se dar conta das marcas de preocupação velada que envelheciam o rosto dele, parecendo feliz em apenas tê-lo por perto.
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A visão do corpo esguio e bonito da jovem que estava adormecida ao seu lado lhe dava uma sensação poderosa de que ele ainda podia se sentir realizado, de que ele ainda poderia ser feliz. Mas no fundo, bem lá no fundo de seu ser, ele sabia, mesmo que tivesse receio de admitir, que ele cometera o maior de todos os pecados: traíra o seu próprio coração. Porque era uma covardia sem tamanho ficar Tonks, fazer amor com ela como haviam feito naquela noite, e fingir que estava tudo bem. Não estava, nem nunca estaria.
Remus sabia que a sua missão era perigosa, que não podia levantar suspeitas sobre sua vida pessoal; e eles já haviam levado muito longe aquele relacionamento. Era imprudente se arriscarem tanto, até porque Remus achava que aquilo não teria futuro algum.
Era tão fraco por estar dependente daqueles momentos com a metamorfomaga, tão covarde em não fazer o que era "certo".
Faltava pouco para amanhecer. Remus se desvencilhou do abraço de uma Tonks adormecida, procurando por suas roupas que estavam largadas no chão do diminuto quarto dela. Vestiu-se e, silenciosamente, ficou sentado na única poltrona que havia no quarto, apenas tentando acabar com o vazio que sentia. Queria poder não ser tão ele mesmo, não se preocupar tanto. Queria apenas voltar a deitar naquela cama, se embrenhar no abraço daquela garota e esquecer o resto.
Mas não podia. E durante aquela madrugada, em que ponderou, insone, sobre o que estava por vir, ele já havia tomado a sua decisão.
-Hmmm... – Tonks resmungou mais alguma coisa durante o sono, então abriu os olhos, tateando a cama. Divisou Remus sentado perto da janela, o quarto parecendo escuro e abafado por causa da janela fechada, sabendo que o tempo já deveria estar quente e luminoso lá fora. – Remus?
-Estou aqui.
A metamorfomaga coçou os olhos, vestindo uma camiseta comprida que estava largada aos pés da cama.
-Aconteceu alguma coisa, Remus? – Tonks perguntou distraidamente, espreguiçando-se, e dando uma olhada desinteressada no relógio sobre a mesa-de-cabeceira, mesmo sabendo que acabaria se atrasando (novamente!) para o trabalho.
-Estou indo embora. – Ele disse, sério e tenso, encarando os próprios sapatos gastos.
-Quer comer alguma coisa antes? Eu acho que devo ter restos de bolo de caldeirão que a minha mãe mandou pra cá, ou alguma tortinha de abóbora...
-Tonks, você não me entendeu. – A garota pareceu se dar conta do tom de voz mais sério, registrando também o uso de seu sobrenome, ao invés do apelido Dora que ela sempre o ouvia sussurrar quando estavam em momentos mais íntimos. – Eu estou indo embora... Dumbledore... nós conversamos ontem, e ele precisa de alguém...
"Uma missão"... "lobisomens"... "não é seguro"... "diferentes demais, você bem sabe disso" e "não acho que nós temos futuro juntos"
Tonks ouvia aquele discurso pragmático, com Remus parecendo não demonstrar nenhuma emoção na voz, como se ele não sentisse absolutamente nada. Ela também não conseguia sentir, estava entorpecida, vazia, as palavras chegando aos seus ouvidos como se viessem de algum lugar distante. Sentiu as lágrimas subindo aos seus olhos, tentando contê-las de qualquer jeito, mas falhando estupidamente.
Lupin sempre dissera que estavam indo longe demais, e Tonks sempre argumentara que eles estavam "vivendo o momento", apenas "curtindo". E naquela hora ela desejou que nunca tivesse dito aquilo, pois ouvir Remus jogar aquelas palavras contra ela doía horrivelmente.
-Mas eu amo você... – Tonks soluçou, mas também sentindo a raiva queimar tão profundamente, que ela seria capaz de fazer qualquer coisa naquele momento. – Eu amo, seu idiota! Por que, Remus? Eu pensei que nós estivéssemos dando certo... e...
O sorriso veio calmo e sereno, como sempre acontecia; mas a voz soara tão triste e baixa, que dava a impressão dele estar sofrendo uma dor indizível.
-Porque só amar, às vezes, não é o bastante. – Lupin procurou pela capa, evitando encarar Tonks nos olhos. Sabia que ela seria capaz de ver, sob a superfície, sua resolução falhar e o quanto lhe doía vê-la daquela forma. – Entenda, Tonks, eu sinto muito que você tenha se iludido comigo, mas eu sempre deixei bem claro a nossa situação. É melhor que as coisas fiquem assim mesmo, você estará melhor sem mim.
Antes que a máscara caísse e ele revelasse o quão difícil era manter aquele papel idiota, Lupin sorriu fracamente mais uma vez e desaparatou, deixando uma Tonks chorosa para trás.
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¹ Gimme Shelter – The Rolling Stones
Essa é uma daquelas músicas que ficam esquecidas na memória por muito tempo, quando, do nada, você volta a ouvir e vicia. Uma vez vi uma montagem Remus/Tonks no youtube com essa música, e era tão bem feita (usando os atores de HP, mesmo), como se fosse o Remus contando a história da primeira guerra pra Tonks e tal. Daí eu achei que ia encaixar muito bem no capítulo, que já é mais romance/drama que os anteriores - aliás, esse é o tom da fic no geral. Pena que o vídeo já não esteja mais no youtube. Era muito bom mesmo.
²Súcubos são demônios femininos que assumem a forma que mais atrai sua vítima (masculina) para que, através do ato sexual durante o sono, possa sugar a sua energia vital. Mas não, não foi isso o que a adorável Bellatrix fez com o Sirius. XD
Pra quem notou, nesse capítulo, assim como em alguns dos anteriores, têm cenas ou falas dos livros mesmo (Canon, minha gente!); mas daqui pra frente já não vou seguir tão fielmente os acontecimentos dos livros (como também está óbvio), já que a proposta é uma realidade alternativa em que o Sirius não morre naquele véu fedorento: sério, o Sirius (haha, sem trocadilhos) morrer daquela forma não fez o menor sentido e eu sempre fiquei com uma vontadezinha de escrever uma realidade alternativa em que ele estivesse vivo.
Ain, e triângulos amorosos são ton legais e sécsys. E cheios de angst e "quero mas não devo" e tals. Hahaha. Sorry se o capítulo ficou muito longo (o maior desta fic até agora!), mas tinha pontas soltas que eu precisava amarrar para que não ficasse muito nonsense a sobrevivência do Sirius e sua possível liberdade, assim como as coisas entre Lupin e Tonks. De forma alguma quero que o Remus pareça um motherfucker (embora, às vezes, eu tenha vontade de dar um "pedala" nele), porque os motivos dele são super justificáveis, mas acredito que independente da morte do Sirius no livro 5, o Remus iria ser espião no meio dos lobisomens e terminaria com a Tonks.
E juro que não vou desistir da fic. Mesmo que o capítulo passado não tenha recebido nenhum review, não vou desanimar e ficar dando uma de dramaqueen (mas comentários são um incentivo a mais), a menos que eu fique muito sem tempo pra não postar nada. ^.^. Ok, parei com essa N/A gigante.
Enfim, até o próximo – que ainda não sei quando sai. E obrigada a quem persiste na leitura, mesmo que fique mudinho.
See ya
