Nex Potter : Obrigada pelo interesse na história e por comentar ok? Continue lendo, tenho certeza de que vai gostar.

Dani Jane Granger : Prometo não demorar com os capítulos, e esse mistério eu acho que você vai realmente gostar. Obrigada por comentar!

Silvinha Potter : Você conseguiu definir a fic perfeitamente em três palavras, diferente, assustadora e definitivamente apaixonante. Obrigada por ler e comentar!


Ainda não tem muito o que comentar nesse capitulo, mas com certeza teve coisas interessantes ;)
Será que Hermione não vai chamar o xerife?
Pobre Harry, não? Hahahaha.
Obrigada pelas reviews e muito romance pra vocês.


Capítulo I - Somewhere In Time...

1897

Ao longe, ouviu-se um forte trovão, e Harry se levantou da cadeira em que estivera em constante vigília para acender o lampião. Ben sempre tivera medo de trovão. Quando Harry ajeitou o vidro do lampião, Ben se agitou, como o pai imaginou.

— Pai… Você ainda está aqui.

— Onde mais poderia estar?

— Trabalhando no aparelho, é claro. Você perde muito tempo aqui comigo.

— Gosto de ficar aqui. — Outro trovão, e Ben procurou a mão do pai, pegou-a e apertou com força.

— Pronto, filho. Não precisa ficar com medo. Você sabe que o trovão não pode lhe machucar.

— Mas isso não faz com que o barulho dele seja menos assustador — disse Ben sensatamente. — Quanto tempo ainda vai durar, pai? Está chovendo assim a noite toda.

Harry pegou o relógio de ouro no bolso, abriu e se virou para Ben.

— Ainda são nove horas, filho. Não está chovendo a noite toda, só há quase duas horas. Vai acabar a qualquer instante. Tenho…

Suas palavras foram cortadas pelo estrondo mais alto até agora, que fez até Harry se assustar. No mesmo instante, o céu foi cortado por um relâmpago de brilho intenso.

— Pai, o raio! Atingiu alguma coisa!

Harry foi até a beira da cama e pegou o filho nos braços.

— Calma… Não foi tão perto quanto pareceu. — Mas manteve o olhar fixo no local que o raio atingiu. Enquanto olhava, balançava o filho, sussurrava e afagava seu cabelo.

Em segundos, um clarão de luz surgiu no céu distante. E começou a crescer e se espalhar, até que Harry reconhecesse o que era. Um incêndio. E pelo que conseguia ver, era no velho estábulo de Thomas, a quase cinco quilômetros dali, e agora estava queimando. Nenhuma grande perda. Era uma construção antiga e decrépita que não era usada há anos. Pelo que sabia, ali só tinha feno velho.

Ben pegou no sono nos braços de Harry, que ficou ali a noite toda, com seu precioso filho nos braços, observando a chama aumentar à distância. Logo, iluminava todo o céu. O estábulo era velho e se queimara facilmente.

Harry deveria estar trabalhando. Sabia disso, já que tanta coisa dependia do sucesso desse experimento. E estava tão perto.

Agora, porém, Ben precisava dele. E não conseguia deixá-lo.

Quando o sol nasceu na manhã seguinte, e fumaça ainda saía das cinzas do velho estábulo, Harry tentou sair da cama sem incomodar Ben. E conseguiu. Muito facilmente. Ao levantar-se, percebeu que, doente como estava, Ben costumava ter o sono muito leve. Deveria pelo menos ter se agitado quando Harry levantou da cama.

Um arrepio frio subiu por sua espinha ao virar-se para o filho, que não se mexera muito a noite toda.

Então o coração de Harry congelou. Sacudiu suavemente os ombros frágeis de Ben, bateu de leve nas bochechas pálidas. Mas não houve resposta. Seu filho estava em coma. O estado terminal da doença. A morte seria daqui a vinte e quatro horas, talvez menos.

Não havia mais tempo. Mais nada. Tinha de agir agora, e se seu experimento tivesse efeitos colaterais, não faria diferença. Sofreria qualquer coisa para ter a vida do filho de volta.

Pegou o colete e tirou do bolso um aparelho. Não havia mais nenhum motivo para ficar aqui. Ben não acordaria de novo. A não ser… A não ser que isso funcionasse.

Inclinado sobre a cama, mexeu nos cachos ruivos do filho e beijou-lhe a testa.

— Vou sair um pouquinho, filho. Vou tentar providenciar para que seja apenas um minuto para você. Não quero deixá-lo, mas quero que fique saudável de novo. Entende?

Os cílios descansavam na face branca como vela, e um chiado saía do corpo frágil quando respirava.

Harry endireitou-se e passou a mão pelo cabelo. Estava péssimo. Sabia disso sem nem mesmo olhar no espelho. As roupas estavam amarrotadas, o colete, desabotoado e aberto. A gravata estava pendurada no colarinho Entretanto, ele planejara. Havia uma bolsa no armário de Benjamin, com uma muda de roupas e as coisas de que precisaria. Incluindo a prova, se fosse questionado. Levou um segundo para pegá-la. Não havia tempo para se trocar. Não agora. Ben podia morrer enquanto o pai preocupava-se com trivialidades. Mas uma vez que Harry saísse, o tempo pararia virtualmente para Ben. Seria o tempo de um banho. Se fosse desagradável com as pessoas que encontrasse, o problema seria deles. Não que achasse que encontraria alguém. Cada vez que abria o portal, via uma versão vazia e sem vida de sua própria casa. Não que se importasse agora com quem encontraria ou o que pensariam dele.

Não estava pensando em si mesmo. De jeito nenhum. Nem na sociedade ou na repercussão por estar se metendo com a natureza dessa maneira. Recusava-se terminantemente a considerar essas pessoas. Na cabeça de Harry só havia Ben. Agora só importava encontrar um jeito de salvar a frágil vida do filho, que estava tão perto da morte. E podia fazer isso. Podia viajar de volta no tempo, para a época antes de o filho ser exposto ao vírus mortal que tanto tentava levá-lo embora. E quando chegasse, tiraria Ben de lá e o levaria para um lugar seguro. Então quando o vírus atingisse Rockwell, Ben estaria longe. Não seria exposto. E quando o perigo tivesse passado, traria Ben para casa são e salvo. Não ficaria doente. Não morreria. Ficaria bem. Harry voltaria para o agora e encontraria o filho saudável de novo. Sem nenhuma recordação de ter ficado doente.

O coração de Harry acelerou quando apontou o aparelho para aquele ponto bem no meio do quarto do filho. Não fazia idéia do que era. Uma dobra no tecido do tempo. Uma fenda. O que quer que fosse só existia aqui, neste quarto, e suspeitava que estivera aqui, pairando no ar, mesmo antes de a casa ser construída. Tentara o experimento em diversos locais, mas só aqui obtivera sucesso.

Uma noite em que estivera trabalhando aqui para poder ficar com o filho doente, descobrira o portal por acidente.

Com o polegar, apertou o botão para ligar. E uma faísca de luz apareceu no ar, no meio do quarto. Segurando o aparelho firme, virou o disco e a luz aumentou e se intensificou até se transformar em uma esfera incandescente entre o chão e o teto. Uma esfera brilhante, cheia de névoa.

Mas de repente começou a mudar. A névoa clareou e tomou formas, e em segundos Harry estava olhando para o que parecia um espelho enorme. E o espelho refletia todo o quarto atrás dele. Só que em outro tempo. Ele podia ver perfeitamente que o papel de parede era diferente assim como as cortinas e os móveis. Tudo. Bem abaixo das cobertas estava o pequeno corpo. Ben? Antes de ficar doente, quando estava bem e forte e saudável? Isso funcionaria. Tinha de funcionar.

Só esperava que não o matasse. Todos os testes até agora indicaram que haveria efeitos colaterais. A xícara que Harry passou através do portal uns dias atrás espatifou-se. Fez ajustes no aparelho e tentou de novo. A maçã que passou murchou, então fez ainda outros ajustes. O rato… o rato morreu. E apesar de Harry ter recalculado e feito mais ajustes, não podia ter certeza de que tudo estaria certo desta vez. Sim, provavelmente haveria efeitos colaterais. Sérios. Só não sabia quais, ainda. Mas — deu um pequeno sorriso — estava prestes a descobrir.

— Você vai ficar bem, Ben. Juro que vai ficar bom de novo!

E Harry Potter entrou na luz e na hora sentiu uma pancada forte bem entre os olhos.

———————————————————————

Hermione não conseguia dormir. Sua cabeça estava cheia. Ah, não era a casa. Ela era perfeita, soubera disso no momento em que colocara os olhos nela. Uma construção vitoriana antiga, mas elegante, erguida como um guardião do mar. A areia do Maine abaixo. A canção das ondas que a ninariam.

Seu novo antiquário — Hermione sorriu com as palavras —agora era uma realidade. Pesquisara a área, fizera novos contatos e guardara descobertas locais. Já estava aberto há algumas semanas, e os negócios estavam indo bem. A casa de hóspedes — uma cópia em miniatura da casa principal — era perfeita. Até a cidade próxima, chamada de forma apropriada Rockwell, tinha uma aparência perfeita. O resumo da fantasia da Nova Inglaterra. Um lugar que o tempo e o progresso pareciam ter esquecido. Ao andar pelas calçadas de Rockwell, ela quase esperava virar a esquina e encontrar quatro homens usando chapéus de palha e bigodes, cantando enquanto passeavam pelo parque.

Mas como a avó Kate costumava dizer, quando as coisas parecem muito boas para ser verdade, preste atenção, porque elas provavelmente não são. E se a loja falisse? O que faria então? Correria de volta para Minneapolis com o rabo entre as pernas?

Não. Essa mudança já havia sido dura demais para James. Não faria isso de novo. Faria com que desse certo de alguma forma. Tinha de dar, pelo bem do filho.

Mas as preocupações financeiras não estavam sozinhas em sua mente. Estava mais preocupada com o filho do que com qualquer outra coisa. O desejo de James por um pai atormentara seu coração desde o momento em que ele o proferiu no carro. Ele era uma criança inteligente — os professores achavam que era superdotado. Ele sabia que já tivera um pai. Mas apesar de não gostar de mentir para o filho, não contara toda a história sobre Rony. Ele só sabia que o pai fora um músico talentoso que morreu quando ele ainda era um bebê. Nunca contou a James como fora seduzida pelo idealismo e pela sinceridade de Rony, e a beleza e o significado por trás das músicas que escrevia e tocava nos clubes em Minneapolis. Quando pensava na rapidez com que se apaixonara…

Fora uma tola. O idealismo de Rony sumiu no momento em que alguns figurões de Los Angeles o ouviram tocar e ofereceram para a banda um contrato para gravar. Uma jovem namorada grávida, que já deixara claro que não queria sua parte na riqueza da família, não se encaixava nos novos planos. Não teria desejado que um homem tão irresponsável e superficial criasse seu filho. Agora sabia disso. Mas também sabia que o filho sofria pela falta de um pai.

Ah, se ao menos…

Ela olhou melancolicamente para a pintura na parede perto da cama. Harry Potter. O cabelo negro e macio caía sobre atesta, os olhos verdes brilhavam. A gravata preta e estreita terminava em duas fitas finas, e o colete estava desabotoado. A ponta de um relógio de ouro aparecia no pequeno bolso.

A semelhança do menino com James a impressionou mais uma vez, e percebeu que deveria haver muitos motivos para gostar tanto daquela obra. Os dois estavam sentados muito próximos, em uma mesa de madeira com um lampião em cada extremidade. Cada um estava fazendo seu papel, mas, de alguma forma, ainda estava ciente do outro. Era quase possível sentir o amor entre eles. Pai e filho — saberia disso mesmo se Quigly não tivesse contado. Um pai cujo trabalho significava tudo, mas que nunca permitiu que viesse antes do filho.

Se ao menos James pudesse ter um pai como esse.

Hermione suspirou e relaxou afundando-se nos travesseiros. Não adiantava sonhar. Nunca encontraria um homem com os valores do século XIX. Nem nessa nostálgica cidade. E não aceitaria menos que isso. Não queria um outro homem para quem a carreira significasse mais do que o próprio filho. E também não queria alguém sem ambição, nem um meninão imaturo e irresponsável.

Ela queria…

Seu olhar se voltou mais uma vez para o homem no retrato. Os lábios carnudos estavam franzidos, o maxilar, contraído, e estava bem perto do menino. A paixão nos olhos era pelo trabalho. Mas era tão intensa, que a fazia pensar, se já fora por uma mulher. A esposa, a mãe do menino, talvez?

Ela sorriu e balançou a cabeça. Estava agraciando o inventor com qualidades que provavelmente nunca tivera. No dia seguinte à mudança, Hermione fora à Biblioteca Pública de Rockwell pegar alguns livros sobre a história da cidade. Os capítulos sobre Potter diziam o mesmo. Ele fora um notório mulherengo. O Don Juan do século XIX, como foi apelidado por um dos autores. Nenhum mencionou a esposa. Pobre mulher.

Mas ainda assim, aquela paixão nos olhos dele chamavam por ela.

Toda essa especulação não fazia sentido. O homem nem estava vivo. E provavelmente não era paixão nos olhos dele, mas talvez o começo da loucura. Sendo considerado um gênio e um homem à frente de seu tempo, Potter cruzou, os livros diziam, a tênue linha entre o brilhantismo e a insanidade. E pelo que lera, Hermione achava que a loucura começara a tomar conta dele bem antes da morte do filho. Dois relatos contavam que Potter anunciara que descobrira uma forma de viajar no tempo. Fora ridicularizado e logo depois se recusou a discutir o assunto. Alguns dizem que foi esse episódio que o levou para o isolamento tanto quanto a morte do filho. Seja qual for a razão, sumiu de vista na década de 1890, e nunca mais se ouviu falar dele.

Uma grande pena.

— Mãe! Depressa, mãe!

O alerta na voz de James penetrou cada pensamento até atingir sua alma. Algo estava errado. Hermione pulou da cama e correu pelo corredor, o coração já estava na garganta antes mesmo de entrar pela porta do quarto e congelar.

A luz da lua se derramava através da janela e banhava duas formas com seu brilho pálido. Um homem amarrotado e descabelado estava ajoelhado no chão e segurava o filho dela nos braços, tão apertado que parecia que James não conseguia nem respirar. O homem estava de costas para Hermione, e seus ombros tremiam e sacudiam como se estivesse soluçando. James olhou para a mãe através da escuridão, olhos arregalados, enquanto o homem o balançava.

— Meu filho… — sussurrava ele repetidamente. — Meu menino. Graças a Deus…

O coração de Hermione parecia que ia parar. Sem hesitar, entrou no quarto, pegou o taco de beisebol que estava em um canto, o ergueu e foi na direção deles.

— Mãe, não!

O grito de James fez com que o lunático parasse e congelasse, como se percebendo que mais alguém entrara no quarto. Hermione hesitou. Em vez de bater com o taco na cabeça dele, ficou apenas segurando-o, preparada. A garganta estava tão seca que suas palavras soaram ásperas quando disse:

— Solte-o agora ou juro que…

Ele se voltou lentamente, ainda segurando James com força, e a encarou. O movimento fez com saísse da luz, deixando o rosto na sombra. As sobrancelhas franzidas e juntas, lhe davam um ar confuso. Perplexo.

— Por favor — disse Hermione, e sua voz não estava mais tão exigente nem segura desta vez. Suas mãos tremiam, e já não segurava o taco com tanta determinação. — Por favor, leve o que quiser, só não machuque meu filho.

— Machucá-lo? — disse ele, a voz um pouco mais que um sussurro. Atormentado, cheio de dor e fraco. — Não, eu nunca… Eu o amo. Ele é meu filho, meu Ben, meu…

Piscando como que para limpar os olhos, virou-se para encarar o pequeno e amedrontado rosto de James.

Hermione abaixou o taco, estendeu a mão e alcançou o interruptor. Viu o homem paralisado em choque, viu o olhar cheio de medo que ele lançou para o lustre. Depois seu olhar voltou para o topo da cabeça de James, ele o apertava tanto que mal dava para ver mais do que isso.

— Ele é meu filho — afirmou Hermione, calmamente, e seus olhos estavam fixos nos de James. O homem estava obviamente fora de si. — O nome dele não é Ben, é James. Ele é meu filho. Por favor…

O homem balançou a cabeça. Com bastante delicadeza, apertou os ombros de James e o afastou de si apenas um pouco, o suficiente para que pudesse ver seu rosto.

— Você não é Ben… — sussurrou ele, e a dor explícita em sua voz trouxe lágrimas aos olhos de Hermione.

— Sou James, senhor. James Granger. Já tive um pai, mas ele morreu quando eu era um bebê. Esta é minha mãe. O nome dela é Hermione.

As sobrancelhas do homem se levantaram. Balançou a cabeça lentamente e lágrimas encheram seus olhos.

— Deus. Você não é… Mas eu pensei… — Piscando repetidamente e agarrando a cabeceira da cama, colocou-se de pé, mas continuou curvado, a mão livre encostada na testa. Finalmente, ficou ereto e virou o rosto para Hermione, bem embaixo da lâmpada.

Ela viu o rosto dele e seu queixo caiu. Prendeu a respiração e tentou esconder o choque. Depois percebeu as roupas que ele vestia, e seu coração disparou de novo.

Deus do céu, é a imagem do homem da pintura.

— Desculpe-me — disse ele, olhando para James. Depois olhando para Hermione, repetiu: — Sinto muito por tê-los assustado. Eu… — Ele deu um passo em direção a ela, mas vacilou um pouco, e agarrou a cabeceira da cama para se segurar.

— T…u…do bem — disse Hermione, acenando para o filho. James correu para ela que o abraçou forte, mas sem tirar os olhos do estranho. — Como o senhor entrou aqui?

Ele franziu a testa, olhou em volta do quarto como se fosse a primeira vez.

— Está diferente.

Hermione gentilmente empurrou James para trás de si e recuou um passo. Tentava ignorar a semelhança com o inventor, com quem estava sonhando poucos instantes antes, e se recusava a pensar em suas roupas.

— O senhor… Está doente ou alguma coisa, não está? — disse ela, quase como se quisesse se convencer disso. — O senhor está desorientado e entrou aqui por acidente. Eu entendo, viu? Não quero indenizações nem nada disso.

Os olhos do homem se arregalaram. Estavam um pouco embaçados, com uma nuvem de dor, mas mostravam inteligência, sanidade e total sinceridade. Era absolutamente sinistro como esses olhos pareciam tão familiares.

— Em que ano estamos, Hermione? Que ano…

Hermione engoliu seco, recusando-se a deixar que um pensamento invadisse sua cabeça.

— Estamos em 2008 — disse para ele, tão casualmente como se fosse uma questão que respondesse todos os dias. Cutucou o filho enquanto dava outro passo para trás em direção ao corredor.

O homem fez um movimento brusco com a cabeça e os olhos se arregalaram de novo.

— Dois mil e… — Depois olhou para cima, para o lustre, e quando abaixou a cabeça, o rosto mostrava toda a sua agonia. — Peguei o caminho errado. Avancei em vez de voltar. Não pode ser, eu… — Ainda tagarelando, ele avançou em direção à Hermione, mas não conseguiu. Caiu aos seus pés como uma sequóia gigante.

E foi quando ela percebeu o aro dourado no chão ao lado dele. A bolsa no meio da cama de James. A pequena caixa preta. Disse a si mesma que estava deixando a imaginação correr solta. Inclinou-se sobre ele, alcançou o bolso do colete e tirou o relógio — o mesmo que vira no retrato. E então olhou com mais atenção para a pequena caixa preta. Um controle remoto com aparência estranha que parecia a caixa que o inventor segurava no retrato.

— Ele perguntou em que ano estávamos. Disse que avançou — murmurou ela. E mentalmente lembrou-se do que o xerife e os livros contaram sobre o gênio cientista que morara aqui. Que ele anunciara ter inventado uma viagem no tempo… E então desapareceu.

— Mas não pode ser…

— Mãe?

Ela levantou e virou-se para o filho.

— Podemos ficar com ele?

Hermione firmou as mãos na cabeceira da cama enquanto tentava retomar a respiração. O homem certamente não era leve. Levá-lo para a cama não era uma tarefa fácil. E quem quer que fosse poderia tomar um banho, se barbear e vestir uma muda de roupas limpas.

Nada disso era da sua conta. Tudo que tinha a fazer era descer, ligar para o xerife para levar esse intruso para a cadeia.

Contudo, não fizera essa ligação ainda. E não tinha pressa para fazê-la por algum motivo.

— Mãe, ele está doente?

— Não sei… Provavelmente. É melhor ir lavar as mãos, James. Pode ser contagioso.

James não foi.

— Às vezes ele não está doente, mãe. Pode estar machucado.

— Você deve ter morrido de medo.

— Não. Primeiro achei que ele realmente fosse o meu pai. Que ele tinha voltado de alguma forma, mesmo sabendo que é impossível. O jeito com que estava me abraçando e tudo mais. Foi bom.

O coração de Hermione se apertou. Hora de mudar de assunto.

— Como ele chegou aqui, querido?

— Teve uma luz forte, bem no meio do quarto. Redonda. Como se fosse um túnel de trem, mas claro em vez de escuro. Muito claro. Meus olhos até doeram. Então a luz sumiu e ele ficou deitado no chão.

— Deitado no chão — disse ela automaticamente, os olhos grudados no homem.

— Foi isso que eu disse. Mãe, você acha que ele é um fantasma?

— Não acho que ele seja um fantasma. E não pensei que você acreditasse em algo tão não-científico como isso.

— Não acredito. Mas e…?

— Vamos lá — disse ela, sentindo-se desconfortável por um momento. — Vamos chamar o xerife.

— Mãe, não podemos! Ele precisa de ajuda! Está doente ou machucado ou alguma coisa assim! Não pode mandar prendê-lo!

— Querido, ele invadiu a nossa casa…

— Ele é meu amigo! — James cruzou os braços e o lábio inferior cobria o superior.

— Como pode ser seu amigo? Você nem o conhece!

— Ele me abraçou. E disse que me amava. E não vou deixar você colocá-lo na cadeia.

— James, não podemos simplesmente ficar com ele.

— Por que não? Ele poderia me ajudar a construir a casa na árvore no quintal. Quando estiver melhor, quero dizer. Seria genial. E poderíamos…

— Por tudo que sabemos, James, esse homem pode ser um criminoso perigoso. Não podemos deixá-lo ficar. Ele pode ser… — Olhou para os enormes olhos verdes do filho. — James…

— Por favor, mãe? Pelo menos temos de descobrir quem ele é, de onde veio. O que foi aquela luz. Acho que ele precisa de ajuda.

— Vou pensar.

James sorriu. Depois bocejou e cocou os olhos.

— Vamos lá, é melhor você dormir agora. Em meu quarto, ok?

— Ok. — Com um sorriso aberto, James correu pelo corredor e se jogou na cama da mãe.

Hermione olhou para o homem que dormia na cama do filho. E claro que não havia como deixá-lo ficar. Só teria de esperar James dormir para chamar o xerife. Arrumaria um jeito de explicar depois. Por enquanto, não tiraria os olhos desse sujeito. Se ele lançar um olhar em direção ao James…

Pegou o taco de beisebol e puxou uma cadeira. Daria quinze minutos para James dormir. Depois faria a ligação.

———————————————————————

Harry acordou no quarto escuro. O quarto do filho, é claro. Devia estar muito cansado do trabalho e pegou no sono enquanto lia para o menino, imaginava por que Ben não o sacudira para continuar a história, como sempre fazia.

Mas onde estava Ben?

Fechou os olhos, balançou a cabeça. Claro. Ben ainda estava visitando os avós em Boston. Como pôde esquecer?

Já que estava acordado, deveria voltar ao trabalho.

Harry colocou a mão no bolso à procura de seus óculos, mas não os achou. Esticou o braço na direção da mesa de cabeceira procurando o lampião, mas não devia ter deixado lá. Teria de se guiar pela luz da lua que atravessava a janela enquanto procurava o lampião. Mas o que era isso? Tinha uma mulher inacreditavelmente linda dormindo em uma cadeira de madeira do lado da cama. Ela vestia uma camisola clara, com mangas curtas. A cabeça estava caída para o lado, descansando nos ombros. E os cabelos caíam em ondas de cetim castanho, indo até o meio da cadeira. Nossa, era linda. Mas o que estava fazendo aqui? Como…

Lentamente, Harry lembrou dos colegas Wilheltn e Eli, e sua queda por brincadeiras práticas. Vinham implicando porque trabalhava muito, não tinha vida a não ser para o filho e o trabalho. Já fora um boêmio, envolvido em romances com algumas das moças mais impróprias da cidade. Mas ultimamente acalmara-se e dedicava todo seu tempo para o experimento atual. Aquele que mudaria o mundo, se conseguisse realizá-lo. Uma vez, aqueles dois palhaços sugeriram que ele estava há tanto tempo sem uma mulher que não saberia o que fazer se uma aparecesse em sua cama.

Então eles decidiram contratar alguém para provar seu ponto de vista, não é? Nossa, ela era linda. Infelizmente, não estava tão desesperado para provar sua masculinidade que se arriscaria a pegar uma doença. Preferia escolher suas próprias amantes. Uma pena, realmente.

Ele suspirou. Sem dúvida ela relataria para aqueles dois traquinas infantis que ele fracassara em mostrar algum interesse pelo charme dela.

Bem, poderia pelo menos evitar a zombaria que teria de aturar.

Saindo da cama, imaginou por que se sentia tão fraco e um pouco tonto, foi andando na ponta dos pés até a cadeira em que ela estava dormindo e quase tropeçou no taco de beisebol que o filho deve ter deixado jogado no chão. Tirou-o do caminho com o pé e chegou mais perto da mulher, tocou aquele longo cabelo e roçou entre os dedos. Suave como uma penugem. Inclinou-se ligeiramente, sentiu seu cheiro e sorriu. Ah, eles foram longe demais. Devem ter pago extra por uma moça limpa e bonita. Ela parecia tão doce quanto uma margarida, e tinha um cheiro ainda melhor.

Enquanto ainda estava inclinado sobre a mulher, ela suspirou e se mexeu. Os lábios se abriram quando a cabeça caiu para trás. E Harry percebeu há quanto tempo não beijava uma mulher. E tirando a gripe comum, talvez, não tinha medo de beijar essa mulher.

E foi isso que fez. Abaixou-se, levantou o queixo dela com a ponta do indicador e encaixou suas bocas. Os lábios dela eram quentes, úmidos e doces, e se ajustavam bem aos seus. Ainda melhor quando deixaram escapar um suspiro gentil, que ele inspirou. Afastou aqueles lábios suaves para sentir mais dela, e eles se abriram desejosos. Ela estava começando a acordar agora. Começando a responder, a beijá-lo também. Ele a pegou pela pequena cintura, a fez ficar de pé e a aproximou de seu peito enquanto intensificava o beijo. Sua resposta sonolenta despertou nele sensações que há muito esquecera. Sensações que achara que não teria mais. A paixão incendiava suas veias, o corpo dela mais perto do seu, a cabeça mais inclinada e os lábios abertos para sua língua. As mãos dela arrastavam pelas suas costas, apertando seus ombros, fazendo seu coração disparar no peito. Não, nenhuma de suas amantes provocara tal resposta nele.

Desde Gina…

E então um forte impulso fez com que se afastasse, surpreso demais para sequer pensar por que estava tão fraco que uma mulherzinha conseguia fazê-lo voar.

Ela ficou ali, ofegante, o encarando.

— Já chega — resmungou ela. — Eu estava pensando em pegar leve com o senhor, mas já foi longe demais.

— Leve ou pesado — disse ele. — Não importa. Não estou interessado em fazer sexo com a senhorita, então pode pegar seu caminho. — E claro que era uma mentira. Ele estava muito interessado. Se ao menos tivesse um daqueles preservativos à mão, talvez até a obrigasse.

— Não está… Interessado… Sexo? — Ela piscou em choque.

— Ah, não, querida. — Ele sorriu, levantou a mão para acariciar-lhe o cabelo sem que ela visse. Ela ficou lá, parada, muito chocada para se mover. — Na verdade, não fico tão tentado há muito tempo. A senhorita é linda. Mas não quero me expor a… Bem, você entende.

Ela balançou a cabeça.

— Não, não entendo e acho que não quero entender. Olha aqui, você é um louco de carteirinha. Vou levá-lo para baixo agora mesmo e chamar o xerife. Mas não precisa esperar ele chegar. Pode ir embora.

Ele franziu a testa:

— O que disse?

— Disse para ir embora. — Ela estava rangendo os dentes, e os punhos fechados tremiam. — Saia da minha casa. Agora.

— Minha vez —disse ele. — A senhorita realmente deveria pensar em seguir carreira no teatro. Não faço idéia do que está falando, querida, mas esta casa é minha, e é a senhorita quem deve sair.

Ela piscou. A raiva estava sumindo rapidamente. Era medo que ele via tomando conta dos olhos dela.

— Desculpe — disse ele, pensando que ela poderia apanhar se soubessem que fracassou. Quase reconsiderou sua posição de abster-se. Sexo com essa mulher impetuosa devia ser uma experiência e tanto. — E se eu deixar você ficar umas duas horas, hein? Será suficiente para convencê-los de que nos divertimos bastante?

A mão dela veio em direção ao seu rosto, e ele não teve tempo de esquivar-se. Ele ficou realmente assustado quando o tapa fez com que perdesse o equilíbrio. Caiu na cama, olhando para ela. Deus, por que estava tão fraco? Tão tonto? Estivera doente recentemente?

— Vá embora — ordenou ela.

— Chega — disse ele com calma, ainda frustrado por seu estado físico. — A senhorita está doida? Tenho de provar que esta casa é minha? Terei de chamar o xerife para tirá-la daqui? É o que deseja? — Ele balançou a cabeça, levantou a mão e apontou em direção à mesa perto da janela, sua forma visível na escuridão. — Ali tem uma escrivaninha. Não a principal, claro, mas deixo uma aqui no quarto de Ben. Alguns de meus experimentos estão lá. Minhas ferramentas. Minhas anotações. É claro que elas são secretas, mas uma mulher como você pode olhar que não vai entender mesmo. Pode olhar. Tem a lareira e no console tem dois lampiões e fósforos. Acenda um para que possa ver onde está, mulher. E depois, vá embora, sem criar problemas. Tenho de trabalhar.

A mulher apenas o encarava, completamente confusa. E então, lentamente, ela foi até a parede. Tocou em algo, e o quarto de repente se encheu de luz. Harry quase caiu para trás de susto.