A Acompanhante do Rei

Hold on
Hold on
Don't be scared
You'll never change what's been and gone

Susan não deixou seus aposentos até que uma serva bateu a porta do quarto anunciando que as criadas estavam ali para vesti-la. Dentro de algumas horas uma comitiva real aportaria em Nárnia e era esperado que ela estivesse presente como acompanhante do Grande Rei.

Ela não teve a chance de ver as roupas que haviam preparado para ela, não tinha real interesse nisso. As damas cuidariam de tudo. Remover o vestido simples que ela usava, vesti-la com anáguas, apertar um corpete ao redor de seu tronco até que não houvesse ar nenhum dentro dos pulmões e por fim colocá-la num vestido azul claro e estonteante.

Ajeitaram-lhe o cabelo e aplicaram um pouco de maquiagem, só o necessário para dar uma cor ao rosto pálido. Quando ela se olhou no espelho mal pode se reconhecer na imagem refletida. Sem dúvida aquela era uma visão que agradaria a um rei, mas o que ela devia fazer com tudo aquilo?

- Madame, em sinal de agradecimento por ter aceitado o convite, Sua Majestade lhe envia este singelo presente. – a serva mais velha, que Susan suspeitava ser a chefe das demais, estendeu a ela uma caixa forrada de veludo azul marinho. Com dedos trêmulos ela abriu a caixa e encontrou lá dentro um colar de safiras e um par de brincos.

Susan não disse nada por um tempo e as damas começaram a olhar umas para as outras com medo de que o presente não a tivesse agradado, ou pior, que Lady Susan recusasse um regalo real.

- Não é do vosso agrado, madame? – a criada perguntou. Susan sorriu sem graça para ela.

- É lindo. – ela respondeu por fim. – Mas não posso aceitar isso.

- O Grande Rei insiste que use, madame. – a dríade chefe retrucou séria – Como uma convidada real ao camarote, deve estar usando jóias adequadas. Por favor, não recuse, madame.

- O que se pensa de uma mulher que vive na corte e recebe presentes do Grande Rei? – Susan perguntou por fim – No meu mundo pensariam que estou me vendendo por jóias e outros presentes, pensariam que eu não passo de uma qualquer que proporciona ao rei alguma diversão. E aqui, o que pensam disso?

- Que madame é um presente de Aslam para nós e o Grande Rei está mais do que satisfeito com um presságio tão auspicioso. – a dríade chefe retrucou – E ainda que estivesse aqui unicamente para entreter Sua Majestade, o povo a respeitaria por isso. Por trazer alegria a um rei nobre que está solitário há tanto tempo.

- Tudo o que eu espero é que o Grande Rei não pense em mim como qualquer outra coisa além de convidada real. – Susan abaixou a cabeça sentindo o peso do mundo sobre seus ombros – Eu quero tanto ir embora. Quero minha casa.

- Esta é sua casa agora, madame. – a dríade chefe falou num tom mais simpático e compreensivo – E Sua Majestade é um cavalheiro e um homem honrado acima de tudo. Ainda que possa existir algum interesse da parte dele, nosso estimado soberano procederá com o maior respeito por sua pessoa e nenhum narniano questionaria uma relação como esta.

- O que eu devo fazer com tudo isso? – Susan começava a ficar histérica – Roupas, jóias, etiqueta! Esta não sou eu! Eu não tenho nem mesmo a opção de dizer que não quero um cálice de vinho quando ele me oferece!

- Não fique assim, madame. – a dríade sorriu amistosa e compreensiva para ela – Ele pode ser o Grande Rei, mas ainda é um rapaz jovem que não teve de fazer esforço para ter as atenções de uma dama há algum tempo. – sem pedir permissão, a camareira chefe pegou as jóias de dentro do estojo e providenciou para que estivessem no lugar. No pescoço de Susan um escandaloso colar de safiras, em suas orelhas um exuberante par de brincos – Combinam com seus olhos.

- Preferia não ter que sair deste quarto. – Susan comentou e a dríade riu.

- Ouvi algo parecido da princesa Lucy pela manhã. – a mulher disse – Mas nós não queremos que Sua Majestade se zangue.

May your smile (may your smile)
Shine on (shine on)
Don't be scared (don't be scared)
Your destiny may keep you warm

Aquela foi a derradeira confirmação de que Susan devia seguir tudo aquilo que lhe fosse dito. Ela não sabia o que, ou quem era Aslam. O próprio nome trazia a sensação de algo excepcionalmente bom e verdadeiro. Todos acreditavam que ela era um sinal de Aslam, e mesmo sem saber o que o destino reservava para ela, Susan preferia acreditar que não estava totalmente desamparada.

Se ela era ou não um sinal, não saberia dizer. Tudo o que Susan poderia fazer era esperar que Aslam não a desamparasse naquele mundo também. Quando as servas terminaram de aprontá-la, ela ficou sentada diante do espelho observando o reflexo por um longo tempo.

Queria ir embora. Queria sua casa e sua família outra vez, ainda que houvesse uma guerra esperando por ela. Soldados feridos, muitos conhecidos, outros anônimos...Um mundo em pedaços, mas ainda era o mundo ao qual ela pertencia.

Bateram à porta para avisá-la que devia descer até o hall. Ela obedeceu e ao chegar no andar inferior, onde o banquete de recepção aconteceria, o pequeno cortejo da princesa Lucy já estava lá, esperando para ser anunciado. Com uma expressão suplicante, a princesinha pediu para que ela a acompanhasse. Susan não conseguiu recusar um pedido tão aflito.

- A princesa Lucy e Lady Susan Pevensie! – o arauto anunciou e ambas entraram no salão sob os olhares atentos de toda corte.

Ao fim do caminho, o Grande Rei esperava por ambas, numa postura digna e com um sorriso seguro e afetuoso. Ele caminhou até elas, sem vacilar, encontrando-as no centro do corredor formado pelos súditos. Inclinou-se com um sorriso satisfeito e beijou a testa da filha como qualquer pai orgulhoso faria.

Os olhos azuis dele encontraram os dela por um breve momento e Susan estremeceu. Peter segurou a mão trêmula dela e com uma mesura educada depositou um beijo sobre ela. A garota sentiu o peso de todos os olhares sobre si, mas nenhum era tão intimidador quanto o dele.

Como um homem conseguia ser tão autoritário e no minuto seguinte mostrar uma face tão galante e sedutora? Ela não gostava de romances açucarados, como suas colegas de escola, mas sabia que estavam recheados de figuras como ele. Bonito, educado e inquestionavelmente poderoso.

Ele ofereceu o braço a ela, e a guiou pelo salão até o fim, onde havia uma pequena cadeira dourada com almofadas vermelhas preparada para ela. Lucy sentou-se ao lado esquerdo do pai, no lugar comumente destinado a rainha. Lady Susan Pevensie sentou-se ao lado direito do rei e ainda que não possuísse uma gota de sangue nobre nas veias, nenhum narniano ousaria pensar o contrário. Ela era a graciosa favorita do Grande Rei.

- As jóias lhe agradam? – ele perguntou sem olhar para ela diretamente, num tom baixo, para que apenas ela ouvisse. Susan abaixou os olhos e rezou para que seu rosto não estivesse corado.

- São lindas. – ela disse tímida – Muito obrigada.

- Espero que não pense em recusar meus presentes outra vez. – ele disse, fazendo questão de que ela soubesse que nada passava despercebido por ele – Ainda tenho intenção de lhe dar outros.

- Agradeço a atenção, majestade. – ela disse séria – Mas penso que tudo isso é desnecessário.

- Deixe que eu decida o que é ou não necessário, milady. – ele respondeu sorrindo – Presentear pessoas, em especial aquelas que merecem minha atenção, é um dos meus grandes prazeres.

- Imagino que me constranger em público também seja um de seus passatempos. – ela acrescentou numa provocação que arrancou dele um sorriso.

- Longe disso. Gosto que a vejam e admirem. – ele respondeu – Milady comporta-se de forma reclusa e muito anti-social. Deveria freqüentar mais os salões da corte a partilhar das diversões que Nárnia pode oferecer.

- A princesa Lucy parece necessitar mais de minha atenção do que a corte. – não deixava de ser uma verdade.

- Talvez madame pudesse aprender a dividir suas atenções. – ele disse finalmente virando-se para encará-la nos olhos – Eu gostaria de ter um pouco desta atenção.

'Cause all of the stars
Have faded away
Just try not to worry
You'll see them some day
Take what you need
And be on your way
And stop crying your heart out

Ele esperava que ela respondesse a provocação. Gostava da forma arisca como ela recusava suas gentilezas quando todas as damas, não só de Nárnia, como dos países visinhos, ficariam extasiadas por gozarem das boas graças do rei. Mas não a pequena Lady Susan, não uma garota tão cheia de opiniões e brios. Ela o instigava ao próximo passo, ainda que sua beleza oferecesse toda persuasão necessária a ele.

Peter não teve a chance de ouvir o que ela estava prestes a dizer. O arauto por fim declarou a chegada dos convidados e Caspian X adentrou o salão, seguido por seu filho, o jovem e impetuoso príncipe Edmund, e pelo embaixador de Telmar, Lord Sopespian.

Susan, assim como todos na corte, levantou-se para receber os convidados reais. Do outro lado do rei, ela observou a princesa Lucy endireitar-se de forma tensa. Olhou imediatamente para o jovem príncipe e concluiu que ele tinha uma aparência muito melhor do que a do retrato e parecia um rapaz de boa educação. Em seguida seus olhos caíram sobre o homem de cabelos negros e longos, a barba por fazer dava um ar de maturidade, a pesar de aparentar a mesma idade que o Grande Rei.

Olhos escuros e profundos, um sorriso bonito e caloroso, pele morena. Em uma palavra, Susan definiria aquele homem como atraente. Não era obviamente bonito, como o Grande Rei, mas definitivamente atraente a qualquer mulher que pudesse ver.

Caspian, o príncipe e o embaixador curvaram-se para saudar o Grande Rei, como era o protocolo. Ao erguer o corpo, seus olhos foram instantaneamente capturados pela dama que ocupava o lado direito do rei. Pele alva, olhos azuis, cabelo negro, uma boca atrativa. Precisaria estar cego para não notá-la e precisaria estar louco para não querer saber quem era aquela mulher.

Conteve sua urgência em prol das obrigações reais. O Grande Rei Peter estava diante dele, encarando-o com uma expressão interessada enquanto esperava uma mesura do convidado. Caspian voltou-se para o anfitrião e fez uma reverencia.

- Agradeço ao Grande Rei Peter pelo gentil convite. – Caspian disse de forma educada – Meu embaixador não poupou elogios à corte de Nárnia e agora estou certo de que não há palavras para descrever algo tão esplendoroso.

- É um prazer recebê-lo, irmão. – Peter saudou o outro rei com um beijo na face – Uma satisfação ter sua presença em nosso amado lar.

- Permita-me apresentar o príncipe herdeiro. – Caspian fez sinal para que Edmund desse um passo a frente. O rapaz demonstrava uma expressão séria. – Edmund de Telmar, meu amado filho.

- Um rapaz formidável. – Peter cumprimentou – Bem vindo à corte, Alteza.

- Eu agradeço o convite e a hospitalidade, Majestade. – Edmund respondeu com educação e sem floreios. Peter fez sinal para que Lucy se aproximasse. A princesa levantou-se e foi até o pai, com passos incertos e as mãos tremulas.

- Permita-me apresentar-lhes a princesa Lucy. – Lucy fez uma perfeita reverencia aos convidados enquanto Edmund tentava conter o riso ao ver que ela realmente usava fitinhas no cabelo. Caspian lançou ao filho um discreto olhar de alerta. – Minha jóia mais preciosa.

- É um prazer recebê-los. – Lucy disse graciosa.

- És a princesa de Nárnia? – Edmund perguntou com um sorriso galante.

- Sim. – ela disse tímida. O príncipe deu um passo adiante.

- Então acho que quero beijá-la. – e sem que a garota tivesse tempo de pensar ou agir, Edmund beijou-lhe a boca de leve. Nada além de um roçar de lábios que deixou toda corte perplexa.

Get up (get up)
Come on (come on)
Why you scared? (I'm not scared)
You'll never change
What's been and gone

Numa resposta rápida, Lucy empurrou o príncipe para longe e desferiu um tapa no rosto do jovem pela ousadia. Caspian olhou para o filho indignado pelo comportamento, sentindo-se ultrajado diante dos anfitriões pela atitude do jovem. Peter tentou esconder o sorriso orgulhoso ao ver que a filha sabia se defender muito bem.

- Devo lembrar ao jovem príncipe que tais liberdades só poderão acontecer quando o casamento se concretizar. – Peter disse sério.

- Perdoe a impetuosidade do príncipe. – Caspian disse de forma diplomática – Edmund estava ansioso por conhecer a noiva.

- É impossível não se apaixonar por algo tão... – Edmund fez uma pausa enquanto olhava para uma princesa corada – Meigo.

Deixando o ocorrido de lado, Peter fez sinal para que os convidados tomassem seus lugares para dar início ao banquete. Os sátiros começaram a tocar seus instrumentos musicais e o salão foi tomado pelas melodias tradicionais narnianas, enquanto os convidados saboreavam o jantar.

Susan notou que o tão falado rei Caspian lançou alguns olhares discretos a ela, mas sem saber o que o rei poderia querer, manteve-se em silêncio. Além dos olhares do convidado, ela tentou manter a calma quando sentiu a mão de Peter pousar sobre sua perna, alisando-a por cima da saia pesada do vestido.

Discretamente ela retirou a mão dele e tentou não parecer constrangida ou dar qualquer demonstração do que estava acontecendo.

Ao terminara de comer, Caspian fez sinal para que o embaixador de Telmar, Lorde Sopespian se aproximasse.

- Diga-me, Lorde Sopespian. – Caspian disse em voz sussurrada – Quem é a dama ao lado do Grande Rei?

- Esta seria Lady Susan, majestade. – Sopespian respondeu imediatamente – Apareceu em Nárnia há dois dias, dizem que veio de outro mundo. Uma Filha de Eva enviada por Aslam, como dizem as lendas. O Grande Rei, como manda a lei, a mantém na corte como Convidada Real.

- Muito peculiar alguém que está em Nárnia há apenas alguns dias assumir uma posição no séquito real. – Caspian comentou – O que dizem a respeito?

- Ela é companhia constante da princesa, majestade. – Sopespian respondeu, mas Caspian não parecia inteiramente satisfeito com a resposta – Há quem diga, entretanto, que o Grande Rei tem demonstrado um interesse especial pela dama.

- E eu nem imagino por que. – Caspian comentou irônico – Ele seria um louco se não demonstrasse interesse por algo tão extraordinário. Diga de uma vez. São amantes?

- Lady Susan tem o cuidado de nunca permanecer por muito tempo na presença do Grande Rei e sempre que acontece há pelo menos mais uma pessoa no ambiente. – o lorde respondeu de imediato – As damas comentam que ela tranca seus aposentos ao se recolher.

- E as jóias que ela usa?

- Presentes do Grande Rei. Uma forma de persuadi-la, eu suponho. – Sopespian era um homem bem informado – Posso saber por que a curiosidade, meu senhor?

- Peter não é o único a notar que se trata de uma mulher excepcional. – Caspian disse de forma óbvia. – Se não são amantes, então eu gostaria de ser apresentado à ela. Providencie alguma coisa.

- Como quiser, meu senhor. – e o lorde deixou seu posto ao lado do rei.

Edmund respirou fundo após sentir-se satisfeito com a refeição. Era hora de desempenhar seu papel, ou morrer tentando. Ao seu lado a princesinha parecia tremendamente concentrada nas fivelas do próprio sapato. Ela era engraçadinha, o tipo de garota que o pai gostaria para filha, mas definitivamente não o que ele gostaria para uma noiva. Não cabia ao príncipe decidir, apenas obedecer.

Ele se levantou e estendeu a mão para ela sorrindo. O Grande Rei encarou o rapaz desconfiado, enquanto Lucy ficava pálida como giz.

Cause all of the stars
Have faded away
Just try not to worry
You'll see them some day
Take what you need
And be on your way
And stop crying your heart out

- Me daria a honra desta dança, alteza? – o príncipe convidou-a. Lucy olhou para o pai incerta sobre o que deveria responder.

- Se o Grande Rei permitir. – ela disse com as bochechas vermelhas.

- Permissão concedida. – Peter respondeu. Lucy aceitou a mão oferecida pelo príncipe e ambos se dirigiram ao centro do salão.

Peter observou o casal se afastar e então virou-se para sua acompanhante. Susan estava silenciosa e mal havia tocado na comida. As mãos dela estavam pousadas sobre o colo e ele decidiu ousar.

Deslizou a própria mão para debaixo da mesa e pousou-a sobre a mão dela. Notou que Susan deu um sobressalto e suas bochechas ficaram coradas. Desfrutou do prazer de sentir a pele dela e entrelaçou seus dedos nos dela. Sabia que se permitisse ela sairia correndo, esgueirando-se para dentro de sua câmara privada e o evitaria tanto quanto possível.

Já fazia tempo que ele não se prestava aquele tipo de papel. Não era dado a demonstrações de interesse em público, ainda mais quando mal conhecia a dama em questão. Peter se orgulhava de sua reputação honrada, mas já fazia tanto tempo que ele evitava a companhia feminina. A maioria não durava mais do que algumas semanas, apenas para aplacar as necessidades do próprio corpo, mas ela tinha algo...Um encanto próprio que ele não sabia descrever ou classificar. Sabia apenas que a queria.

Ela estava tensa ao seu lado. Não gostava da atenção que estava recebendo, rejeitava presentes, recusava gentilezas. O que ela diria quando ele tentasse avançar? Agradeceria, com toda certeza, e então diria não estar interessada em um rei viúvo. Talvez tivesse um outro pretendente em seu próprio mundo, mas ela não voltaria para lá então o Grande Rei teria tempo de sobra para convencê-la de que cair nas boas graças do monarca era algo mais do que desejável.

- Estou inclinado a seguir o exemplo dos mais jovens. – ele disse de forma que apenas ela ouvisse – Me concede a honra desta dança, madame?

- Eu não conheço a dança, majestade. – ela disse tímida – Não existe nada parecido no meu mundo.

- Permita-me guiá-la, então. Acho que pode aprender facilmente. – ele insistiu – Por favor, madame. Não sou homem de implorar a uma dama.

- Também não conhece limites. – ela respondeu ferina.

- Há muito pouco que possa parar um rei. – ele disse – E eu gostaria de saber o que posso ter feito para que madame me trate de forma tão áspera.

- Acho que meu senhor tem uma idéia errada a meu respeito. – ela disse de forma educada.

- E que idéia é esta? – ele insistiu.

- Eu não tenho a intenção de entretê-lo, senhor. Não sou o tipo de garota que se vende por jóias ou presentes caros. – ela respondeu indignada.

- Madame, que graça teria comprá-la com mimos? – ele sorriu galante – Estou tentando mostrar-lhe que a vida na corte de Nárnia pode ser muito prazerosa e milady não teria mais motivos para ficar tão tristonha. Esta é sua casa agora.

- Estou um pouco indisposta, majestade. Se me permite, vou me retirar. – ela não esperou que Peter concedesse. Susan levantou-se de uma vez, causando espanto entre os convidados, fez uma breve reverência e se retirou do salão, esgueirando-se pelas pilastras.

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You'll see them some day
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And be on your way
And stop crying your heart out

Peter observou enquanto ela se afastava. Ela era ousada ao dispensá-lo daquela maneira, mas aquela era uma batalha que estava apenas começando e ele ainda não havia desistido de conseguir os favores de Lady Susan.

Ele levantou-se e após uma breve saudação aos convidados deixou o salão, com um pouco mais de pressa do que seria adequado ao Grande Rei. Uma vez longe dos olhos da corte, Peter avistou ao final do corredor a figura apressada da dama que perseguia. Susan notou que ele estava ali por ela e apressou o passo para alcançar uma distância segura e mantê-la até que estivesse em seus aposentos.

A adrenalina queimou nas veias do rei. A sensação que o inundava ao início de uma caçada e seu prêmio seria aquela gazela fujona. Ele apressou o passo e suas pernas longas, bem como seus trajes, lhe conferiam vantagem sobre os passos curtos e a quantidade de saias que Susan usava.

Não havia guardas no corredor. Salas e mais salas vazias serviam como um labirinto engenhoso do qual ela não tinha muito conhecimento. Peter aproximava-se cada vez mais, encarando-a com um semblante determinado.

Ela parecia um espírito travesso se escondendo entre pilastras e rodopiando por salas vazias. Uma fada que debochava dele, brincava com seu juízo e tripudiava de tudo o que ele representava. E ele a queria, não importava como. Ele precisava daquela mulher.

Por um breve segundo ela achou que estava longe o bastante, só até sentir a mão do rei se fechando ao redor de seu pulso com força.

- Não é de bom tom uma dama fugir desta maneira. – a voz dele soou terrivelmente rouca e próxima ao ouvido dela.

Sem que ela tivesse uma chance real de escapar, Peter a prensou contra uma das pilastras do salão vazio. Estavam colados um ao outro, a respiração dele batia contra a pele do rosto dela e Susan notou o quanto ele era alto. Os olhos dele mapeavam sua face e ela estremeceu quando a mão dele acariciou sua bochecha.

- Tão bela... – ele sussurrou.

- Não... – ela suplicou.

- Não se recusa um rei, madame. – e os lábios dele fizeram questão de deixar aquela lição bem clara. Um beijo que parecia fruto do mais ardente inferno estava prestes a consumir ambos e Susan teve certeza de que estava perdida.

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Stop crying your heart out
Stop crying your heart out
stop crying your heart out

Nota da autora: ALELUIA! Terminei o capítulo. É, estamos assanhados, não é mesmo Grande Rei? Susan, tadinha, vai penar um pouco agora. E o Caspian vai ter sua chance no próximo capítulo. Música do Oasis, Stop Crying Your Heart Out.

Comentém!

Bjux

Bee