Desejos Reais

Lucy tentava manter a concentração para não pisar nos pés do príncipe Edmund. A primeira impressão estava muito longe de ser a melhor possível por causa do descaramento do garoto. Ela não queria ter que dançar, conversar, ou sequer queria ter qualquer convivência com ele, mas este assunto não estava aberto à discussão.

Ele dançava bem, pelo menos não havia pisado no pé dela ou a feito tropeçar. Os cortesãos não desviavam suas atenções do jovem casal e tudo aquilo estava dando ao país uma impressão de que os tempos de guerra estavam com seus dias contados. Ou assim se pensava até o Grande Rei deixar o salão às pressas para procurar por Lady Susan.

A atitude brusca do pai fez com que Lucy perdesse a concentração e pisasse no pé de Edmund sem querer, no meio de uma volta rápida da dança.

- AI! Olhe onde pisa, garota estúpida! – o príncipe disse mal educado. Caspian lançou a ele um olhar de reprovação de onde estava e Edmund teve de se calar mais uma vez.

- Perdoe-me, eu não tive a intenção. – Lucy disse, mas não estava tão arrependida assim. O príncipe bem que mereceu.

- Parece que o Grande Rei não tem o menor senso de dignidade. – Edmund comentou baixo, para que apenas a princesa Lucy ouvisse – Correr daquela forma atrás de uma dama, é no mínimo muito inapropriado.

- Oh, cale a boca! – Lucy respondeu prontamente, fazendo o príncipe arregalar os olhos. Ele não esperava que uma princesa tão paparicada pudesse dizer algo do gênero - Meu pai não deve estar se sentindo bem e você fica zombando de tudo como se estivesse num circo.

- Acho que está cega então. Seu pai saiu do salão porque a dama que o acompanha também saiu. – Edmund disse no meio de um passo lento, encarando Lucy diretamente – Ela não me parecia muito feliz.

- Lady Susan ainda não se acostumou com a corte, deve ter se sentido desconfortável aqui e meu pai se preocupou, nada de mais. – ela disse crédula e Edmund riu.

- Você é tão ingênua que chega a ser bonitinha. – ele disse debochado – O Grande Rei está interessado nela. Essa Lady Susan está claramente tentando evitar a presença do seu pai.

- Meu pai é um cavalheiro. Ele não desonraria nem a si, muito menos a ela, com um comportamento desses. – Lucy insistiu – Ao contrário de você e seus comentários.

- Acho que ela será amante dele. – Edmund deu de ombros – Compreensível. Se ela acabar tendo um filho dele, pode até se tornar rainha.

- Oh, seu garoto insuportável. Nem todas as pessoas do mundo são tão depravadas quanto você. – Lucy resmungou – Mas eu não me importaria se Lady Susan acabasse casando com meu pai. Gosto dela.

- Eu não sou um depravado, ao contrário do que você pensa. – Edmund defendeu-se – Eu não correria atrás de uma mulher dessa maneira, numa tentativa desesperada de conseguir uma amante.

- Será a primeira coisa que vai fazer depois que nos casarmos. Arrumar uma amante. – a música ficava mais lenta a este ponto. Edmund a encarou com uma expressão séria no rosto.

- Eu dei minha palavra de que me casaria com você e cumpriria o acordo. Eu não pretendo envergonhar minha esposa diante de dois países por causa de uma amante, ainda que a esposa seja você. – ele disse determinado – Se espera que eu a traia, que fique bem claro que eu não farei isso. – a música parava e Edmund lançou a ela um ultimo olhar ofendido antes de se inclinar numa reverência final – Vou provar que sou melhor do que pensa, Alteza.

Lucy corou com a resposta de Edmund e por um instante sentiu-se mal por ele demonstrar uma atitude tão ofendida. Não gostava de julgar ou fazer pouco caso de quem quer que fosse, mas estava tão ultrajada com aquele maldito acordo que acabou descontado no príncipe suas próprias inseguranças.

Ela não queria gostar dele, justamente por saber o tipo de futuro que costumava perseguir as garotas que tinham seus casamentos arranjados. Ou eram negligenciadas e se tornavam infelizes, ou eram humilhadas diante de todo público toda vez que seus maridos arranjavam uma nova amante. De qualquer forma, não pareciam perspectivas agradáveis e tão pouco ela pensava que sua vida com Edmund seria diferente.

O único homem que Lucy conseguia deixar de fora desta conta era o próprio pai, mas o que ela realmente sabia a respeito disso? Seus pais foram casados por um ano, ou um pouco menos, e então o Grande Rei ficou viúvo. Quem sabe ele não tivesse acabado arrumando uma amante quando se cansasse da rainha, se esta tivesse vivido mais?

Ela não sabia o que pensar naquele momento. Sabia que Edmund havia terminado a dança e a deixado sozinha para trás. Ela havia ofendido o jovem orgulho do rapaz e também sua honra. Como a vida dos dois poderia dar certo se ela não conseguia confiar nele?

Lucy voltou para seu posto na mesa designada à família real e aos convidados. Do outro lado da mesa, Edmund permanecia sério e calado, com a expressão de profundo desagrado estampada em seu rosto.

Caspian conhecia bem o gênio do filho, sabia que o rapaz dificilmente se deixava ofender por pouco, mas preferiu acreditar que toda cena havia sido fruto do estresse do momento. Com uma ponta de esperança, ele tentava encarar a pequena discussão do casal como uma possibilidade, ainda que distante, de um afeto genuíno ainda em desenvolvimento.

Edmund não gostaria de qualquer noiva que lhe fosse oferecida, mas o rei considerava a princesa Lucy a melhor opção disponível para o filho. Talvez, quando o casamento acontecesse, as coisas pudessem se acalmar entre eles e o príncipe notasse que a situação não era nem de longe tão ruim quanto ele pensava.

Caspian estava certo de que acabariam se entendendo. Naquele momento a única coisa que perturbava seus pensamentos era a súbita retirada do Grande Rei e de Lady Susan. Sopespian havia afirmado que ela não era a amante real, mas diante da situação no banquete, o rei telmarino estava certo de que Lady Susan muito em breve assumiria o título.

Não havia trocado nem meia palavra com a moça, mas a figura distinta dela havia capturado sua atenção e agora ele desejava conhecê-la. Se possível, desejava mais do que apenas isso.

Peter não demorou a voltar, mas a dama não retornou ao salão. O Grande Rei pediu desculpas aos convidados por sua ausência repentina e justificou-a alegando que sua acompanhante havia se sentido mal e foi escoltá-la até seus aposentos. Caspian notou a mentira. Peter estava ofegante e seu rosto estava vermelho, além da expressão de descontentamento.

O Grande Rei recostou-se em sua cadeira e relembrou o acontecido a minutos atrás. Teve que se conter para não socar a mesa e atrair ainda mais atenção para si. O que ela pensava que estava fazendo? Recusar um rei era no mínimo uma atitude estúpida, mas ela havia feito.

Quando a beijou na sala vazia acreditava que ela acabaria cedendo, ou pelo menos diminuiria a resistência e se portaria como uma boa dama. Poderia conduzi-la de volta ao salão do banquete e terminar a solenidade sem mais contra tempos e então ele a convidaria para seus aposentos.

Ela estava tremendo quando se separaram do beijo. Peter teve esperanças de que ela o aceitasse. Ele acariciou o rosto afogueado dela outra vez e se perdeu naqueles olhos azuis.

- Pare de fugir, madame. – ele sussurrou para ela – Não pretendo lhe fazer mal algum. – segurou o rosto dela entre as mãos – Gostaria que viesse aos meus aposentos esta noite.

- Me solte! – ela disse em tom de ordem. Como era atrevida aquela garota. – Eu não sou uma de suas prostitutas então pare de me assediar dessa maneira!

- Madame, acredito que saiba que não se dirige ao Grande Rei desta maneira. – ele disse em alerta, mas ela se recusava a ser minimante racional – E eu não a vejo como uma prostituta, ou qualquer coisa do gênero.

- Então que tipo de proposta é essa? Me largue ante que eu grite até que toda corte esteja aqui! – ela retrucou – Pode ser o Grande Rei e fazer o que quiser, mas a imagem de homem honrado estaria arruinada pra sempre.

E ele a largou. Não que não pudesse tê-la silenciado sem qualquer problema, ou não desejasse fazê-lo, mas sua honra em primeiro lugar. Ele era o Grande Rei, ele não mancharia seu nome e sua consciência tomando a força uma mulher.

- Isso não é uma desistência. – ele disse ao se afastar dela e permitir que Susan respirasse mais aliviada. Ele fez uma reverência elegante. – Tenha uma boa noite, madame.

Ele não ficou ali para vê-la correr outra vez. Não se humilharia a este ponto. Agora ele estava novamente no salão do banquete, tentando manter a calma e fingir que estava bem, quando na verdade não estava. Em três dias ela havia conseguido tentá-lo de uma forma que mulher nenhuma conseguiu em dez anos.

Por sorte aquela noite acabou e enquanto Susan se encolhia em sua cama dava graças por ter conseguido escapar com alguma dignidade. O que aconteceria em seu futuro imediato era um mistério, mas a menos que um milagre acontecesse, ela não se via capaz de resistir muito mais tempo.

Ela foi informada pela manhã que o dia seria ocupado por jogos e diversões ao ar livre. Haviam organizado uma justa e todos os homens da nobreza participariam. A presença dela era requisitada no camarote real, como dama de companhia da princesa Lucy. Aquilo ela ao menos um bom sinal. O Grande Rei iria participar dos jogos também, o que o manteria ocupado pelo dia todo, deixando pouco tempo para perseguições.

Ela foi vestida apropriadamente e após o café da manhã foi guiada até o local onde a justa aconteceria. Um camarote foi montado para acomodar as damas da nobreza e Lucy já esperava por ela.

Susan foi colocada em um assento muito melhor do que aquele designado às outras damas, ao lado da princesa e com visão privilegiada da pista onde os jogos aconteceriam. Ela se sentou e tentou parecer relaxada quando Lucy a cumprimentou.

- Hoje será bem divertido. – a princesa comentou sorrindo – Papai vai competir também e os jogos são sempre emocionantes.

- Eu não conheço os jogos. Poderia me explicar? – Susan pediu simpática. Lucy sorriu.

- Existem várias modalidades. O ponto alto do torneio é a justa, claro. Meu pai competirá contra o rei Caspian, ambos montados a cavalo, portando lanças. Correrão um de encontro ao outro e o objetivo é derrubar o oponente de seu cavalo, ou atingir partes do corpo que valem mais pontos. – Lucy explicou rapidamente – Mas meu pai também competirá nas provas de espada. O rei Caspian preferiu não participar desta. O príncipe Edmund vai competir também, mas em outra categoria.

- E nós vamos só assistir? – Susan perguntou curiosa.

- Sim, é o que as damas fazem. Isso e desejar sorte aos cavaleiros. – Lucy respondeu tirando uma fita larga que estava amarrada em seu pulso – Amarramos a fita na ponta da lança do nosso favorito. Espera-se que uma mulher comprometida amarre a fita na lança do pretendente ou marido.

- Então a princesa terá de entregar a fita ao príncipe Edmund. – Susan constatou.

- Terei de amarrar no punho dele. O príncipe só participará da luta com espadas. – Lucy disse – Haverá a competição de corrida, mas só o rei Caspian vai competir. Ele vai correr a cavalo, junto com outros cavaleiros, portando uma lança. A lança tem que trespassar uma pequena argola com a lança. É bem difícil. – Lucy disse desanimada – Vai ver muitas coisas novas hoje, Lady Susan.

- Espero que seja tão divertido quanto parece. – Susan respondeu sincera. A princesa Lucy pegou outra fita vermelha e entregou a ela.

- Pode amarrar na lança de quem quiser. – a princesa sorriu e piscou para ela.

Susan não teve tempo de dizer nada, as trombetas soaram anunciando que logo as competições começariam. O príncipe Edmund foi o primeiro a aparecer. Ele lutaria contra um sátiro que possuía quase a mesma altura. O garoto estava totalmente equipado com armadura, escudo, elmo e uma espada de duplo corte. Ele parecia mais forte e mais velho do que Susan se lembrava. O rosto estava sério e ele encarava Lucy diretamente nos olhos.

Os arautos anunciaram os competidores. Edmund deu um passo a frente, fez uma breve reverência ao camarote real e subitamente correu. Ele escalou a proteção do camarote com a destreza e agilidade de um felino até que estivesse cara a cara com Lucy.

- Milady. – ele se dirigiu a ela com um breve aceno de cabeça enquanto esticava o punho para ela. Lucy levantou-se da cadeira timidamente e caminhou até o príncipe. Amarrou a fita vermelha no punho dele e considerou sua obrigação cumprida.

Quando ela pensou em se afastar ele a puxou pelo braço de uma vez e roubou-lhe um beijo rápido. A corte aplaudiu e quando Lucy se afastou seu rosto estava vermelho de raiva e vergonha.

- Agora posso ir. Tenho a benção de minha senhora. – ele disse com um sorriso zombeteiro nos lábios. Susan entendeu que não era uma questão de afeto. Entre eles era tudo uma provocação e Edmund sabia jogar aquele jogo como ninguém.

A luta começou e Susan teve que admitir que o príncipe tinha talento. Rápido e de golpes precisos, ele se movimentava com objetividade e elegância, mas era sua astúcia em batalha que realmente fazia a diferença.

Foi uma faze relativamente rápida. Em uma hora e meia o príncipe havia ganhado o torneio de espadas em sua categoria, tendo derrotado todos os competidores desafiados. Ele encarava Lucy com um semblante de confiança e presunção, para mostrar a ela o bom pretendente que era. Uma pequena retribuição pela ofensa do dia anterior.

Os jogos tomaram todo dia, sem nenhuma competição que realmente saltasse aos olhos. O Grande Rei chegou a combater com espadas, mas não lançou a Susan nem mesmo um olhar quando foi apresentado. Como Edmund, ele pediu a benção da princesa Lucy e sem grande esforço fez seus oponentes beijarem a lona.

Em seguida a competição de corrida. O rei Caspian foi anunciado e competiria contra o general Oreius, um centauro de aparência fenomenal. O objetivo do jogo era que um dos cavaleiros chegasse primeiro a linha de chegada após capturar com a ponta da lança um pequeno aro de metal amarrado em uma trave com uma fita azul.

Exigia habilidade e velocidade. Foi dada a largada e Caspian disparou, montando seu fiel cavalo Destrier. Era uma disputa acirrada. Oreius era muito rápido e Susan se viu torcendo silenciosamente para o rei de Telmar.

Ela não sabia dizer quem venceria. Um escudeiro sacudiu a bandeira na linha de chegada e quando abriu os olhos, Susan viu Caspian desfilar pela pista ostentando o aro na ponta da lança como o grande vitorioso da prova. Todos aplaudiram e então o jovem rei parou diante do camarote.

Com a lança em riste, o rei de Telmar fez uma pequena saudação às damas da nobreza e então encarou Susan diretamente nos olhos.

- Permita-me oferecer-lhe minha vitória, madame. – ele disse com um timbre de voz educado e confiante – Por favor, aceite minha prenda. – então ele estendeu a lança a ela.

- Ele está te dando a vitória. – Lucy sussurrou para ela – Vá pegar o aro! – Susan então se levantou, sem saber exatamente como reagir àquilo.

Ela fez uma pequena reverência e pegou o aro que estava na ponta da lança, ainda com a fita azul amarrada. Quando sentiu o objeto em suas mãos ela finalmente notou que se tratava de um aro de ouro maciço, do tamanho exato de um bracelete.

Constrangida ela voltou para o seu lugar, enquanto todos sussurravam a sua volta todo tipo de fofoca.

- Acho que meu futuro sogro gostou de você. – Lucy disse séria – Oferecer a vitória a uma dama é uma forma bem clara de declarar interesse.

- Estou certa de que ele apenas quis ser gentil. – Susan desconversou, sem ter idéia do que acontecia a alguns metros de distância do camarote.

Peter estava bebendo uma caneca de cerveja forte quando viu a cena. Caspian entregava à Lady Susan sua prenda, com um sorriso cativante estampado no rosto e uma postura impecável.

O Grande Rei atirou longe a caneca sem pensar duas vezes. Aquele homem, aquele telmarino maldito estava flertando com ela. Declarando seu interesse publicamente por Lady Susan, a convidada real! O que era aquilo? Alguma tentativa de tirar dos narnianos uma vantagem conferida pelo próprio Aslam, ou ele não passava de um idiota se oferecendo como pretendente a ela?

Sua paciência e boa vontade para com os telmarinos tinha limite. E ela, a pequena e indomável Lady Susan, aceitou a prenda sem questionar! Sem nem mesmo tentar recusar a oferta! O que era aquilo? Ela tinha alguma noção de que aquele gesto era uma forma de aceitar educadamente a corte de um pretendente? Ela tinha idéia de que estava desmoralizando o Grande Rei ao preteri-lo em favor do rei de Telmar?

Caspian teria sorte se saísse vivo da justa. Peter estava cansado daquele falatório de paz e acordos. Cortejar lady Susan era uma declaração de guerra e em cima de um cavalo, ninguém era pálio para o Grande Rei de Nárnia.

Quando anunciaram o nome dos reis para que se apresentassem para a justa, Peter estava determinado a deixar claro para todos os presentes que Susan não estava a disposição para pretendentes. Lucy havia entregado a ela a fita vermelha e aquela mesma fita iria para a ponta da lança dele.

Ao terminar a saudação ao oponente, Peter trotou até o camarote e estendeu a lança, encarando-a diretamente nos olhos. Queria que ela soubesse que não era um homem de sentimentos levianos, não era dado a mera luxuria, se estava demonstrando seu interesse por ela tinha razões muito mais elevadas do que a mera atração física. Ele queria que ela entendesse que ele estava gostando dela...

- Minha Senhora. – ele chamou por ela em termos claros, para que todos entendessem que ela era a senhora dele e por tanto só ele a teria – Peço sua benção.

Susan enrijeceu em seu assento. Suas bochechas ficaram imediatamente coradas e todos a encaravam com expressões ansiosas. Lucy a cutucou para que tomasse coragem e fosse até ele. Peter não desviava seu olhar, dividido entre obstinação, ódio e uma devoção que ela não sabia compreender.

Com passos vacilantes ela se levantou e foi até ele. Retirou a fita vermelha do pulso e com cuidado amarrou-a na ponta da lança sob os olhares atentos de toda corte. Ela não humilharia um rei publicamente, ela sabia que se o fizesse daria motivos para uma retaliação e a verdade é que ele não merecia isso.

Satisfeito, ele se posicionou na arena. Colocou o elmo e fechou a proteção com uma obstinação óbvia. Caspian se preparava do outro lado. Foi dado o sinal e os cavalos dispararam um contra o outro. Lanças a postos. Respirações ritmadas. Determinação nos olhos. Raiva latente. Desejo. Paixão. Luxuria. Fúria. Susan!

Peter atingiu o ombro de Caspian com a ponta da lança, fazendo-o cair do cavalo com um baque surdo no chão. Logo os escudeiros vieram ajudar o rei de Telmar e levá-lo para o cirurgião, apenas para ter certeza de que não se tratava de nada além de um ombro deslocado.

Enquanto o oponente era levado para a tenda médica, Peter desfilava pela arena triunfalmente. Ele desmontou do cavalo e caminhou com passos firmes até o camarote, onde todas as damas o saudaram. Lucy correu até o pai e o abraçou forte.

Ele beijou a testa da filha e agradeceu por sua benção especial, para então se virar e encarar Lady Susan. O rosto dela estava pálido e ela parecia prestes a desmaiar ou sair correndo dali, exatamente como na noite anterior. Era o fim do torneio e ele estendeu o braço a ela para que o acompanhasse. Ela aceitou em silêncio.

Caminharam para fora do camarote e a medida que os cortesãos se afastavam ele a retardou um pouco.

- Por que aceitou a prenda? – ele perguntou sério.

- Me pareceu o gesto mais educado naquele momento. – ela disse simplesmente. Ele respirou aliviado. Ela não sabia do que se tratava.

- Não repita isso. – ele disse sério – O que Caspian estava fazendo era declarar publicamente que está interessado em milady.

- E por que meu senhor parece se importar tanto com isso? – ela o encarou com ousadia – Se o rei de Telmar está interessado, cabe a mim aceitar ou recusar seus galanteios se assim me convier.

- Não enquanto estiver sob minha custódia, muito menos quando eu a estou cortejando! – ele disse convicto, fazendo Susan encará-lo com olhos espantados. Talvez seu tom tivesse sido equivocado. Não queria assustá-la, não quando estava determinado a seduzi-la.

- Sinto muito se causo tamanho inconveniente. Talvez seja melhor que eu deixe a corte. – ela sugeriu.

- Isso não vai acontecer, madame. – Peter se certificou de que não havia ninguém por perto antes de acariciar o rosto dela – Perdoe-me a falta de tato, mas já faz tempo que não tenho que agradar a uma dama.

- Por favor, não insista nessa loucura. – ela suplicou.

- Ganhei a justa por você. – ele sussurrou de forma intensa – Eu nunca quis tanto ver um home beijar a lona como hoje. Madame, tem alguma idéia do papel que estou fazendo diante dos meus súditos?

- Não me culpe! – ela exclamou veemente – Eu não o obriguei a nada! Eu nem mesmo sei o que fiz para que tenha demonstrado esse interesse repentino!

- Deixe-me esclarecer então, senhora. – ele disse segurando-a pelos ombros – Não sou homem de me abalar por mulher alguma tão facilmente, mas madame me...Cativou de algum modo. – a voz era grave e os olhos estavam fixos nos olhos dela – A princípio pensei ser culpa de sua beleza, se fosse apenas este o motivo eu a tomaria como amante real sem pensar duas vezes a respeito, mas não é esse o caso. Eu não preciso de uma amante, preciso de uma rainha. Uma que possa me dar filhos, uma que represente esperança para o povo de Nárnia, uma que Lucy possa enxergar como mãe! Uma rainha a quem eu possa entregar meu coração e eu fiz isso. Coloquei meu coração em suas mãos no momento em que me desafiou pela primeira vez.

- Eu não sei o que dizer... – ela disse sem fôlego diante da confissão do rapaz.

- Então não diga nada. – ele sussurrou – Quero fazer de você minha rainha, antes disso eu a quero em minha cama. Preciso de você, Susan. – era a primeira vez que ele falava o nome dela sem nenhum título. – e ele a beijou como na noite anterior. Com toda determinação de conquistá-la, ignorando seus deveres, seu orgulho, sua honra, tudo por ela.

E então ele se afastou mais uma vez, voltando para a companhia dos cortesãos. Logo haveria um baile e era esperado que ela fosse acompanhante do Grande Rei, mas naquele momento ela precisava ficar sozinha.

Escorou-se no tronco de uma arvore e permitiu que suas lágrimas corressem livremente. A esta altura ela já duvidava se um dia voltaria pra casa, se veria seus pais novamente, se um dia saberia que aquela guerra acabou. Seu peito estava pesado e ela tremia inteira...

Rainha...Ele queria torná-la uma rainha! Casar-se com ele, ter filhos, ser a mãe de uma menina que era apenas cinco anos mais nova do que ela! Aos quinze anos! Não! Ela não queria isso! Ela não se considerava madura o bastante nem para compreender suas aulas de química na escola! Oh céus! Oh Aslam! O que ela deveria fazer?

- Um rosto bonito não devia ser manchado por lágrimas. – uma voz gentil soou ao lado dela e ao se virar ela se deparou com o rei Caspian, encarando-a com um semblante sereno enquanto lhe estendia um lenço de linho branco. – Permita-me. – então ele secou as lágrimas que manchavam o rosto dela e sorriu.

- Obrigada. – ela sussurrou – O ombro está melhor? – ela apontou para o lugar que Peter havia atingido.

- Dói um pouco, mas nada que acabe me matando. – ele respondeu gentil – Peter tem uma força assombrosa. Não gostaria de encontrá-lo em um campo de batalha pra valer, seria muita dor de cabeça.

- Ele é um descontrolado. – ela disse e Caspian riu.

- Eu o conheço a um bom tempo. Posso dizer que ele é brilhante em batalha, dedicado a tudo o que faz. Ele luta por sua família, seu povo e seu reino com o coração na ponta da espada. Muitas vezes isso pode acabar se tornando um problema quando um raciocínio claro e frio é requerido. – o rei falava de forma simpática – Acho que milady entrou para o rol de itens que ele se preocupa em defender. Eu sinto muito.

- Sente pelo que? – ela olhou para ele confusa.

- Por ter lhe causado problemas ao oferecer a prenda. – ele parecia sincero – Não foi minha intenção. Apenas quis agraciá-la e deixar claro meu respeito pela convidada real.

- Ele disse que estava declarando seu interesse por mim publicamente. – ela murmurou.

- Não posso dizer que ele estava errado. Deve saber que sua presença tende a levar homens sábios a agirem como tolos. – ele sorriu de uma forma deslumbrante – Eu gostaria de conhecê-la, de saber mais sobre milady e se possível entender o que leva o Grande Rei a tomar atitudes tão impensadas.

- Ótimo. Não me basta um, agora tenho dois reis. – ela resmungou e ele riu.

- Oh madame, não tenho intenção de constrangê-la. – ele disse num tom muito mais jovial do que ela poderia imaginar – Só gostaria de dizer que estou deslumbrado por sua beleza e agora estou ainda mais deslumbrado por sua personalidade cativante. Gostaria de ser seu amigo e, se assim desejar, talvez considere a possibilidade de aceitar minha corte.

- É sempre tão sedutor assim? – ela perguntou rindo – Negociadores devem ter dificuldade de se defender de tanta simpatia.

- Oh madame, de forma alguma. – ele se inclinou e beijou a mão dela – Estes são talentos que reservo apenas para damas que realmente merecem minha atenção.

- E quando teve de usar seus talentos pela ultima vez? – ela perguntou corando diante da gentileza.

- Quando meu filho tinha oito anos e minha esposa estava morrendo. – e Susan se viu diante de outro rei, sem qualquer defesa para manter seu coração intacto.

Nota da autora: Esse saiu em velocidade 5 do creu. FINALMENTE Caspian resolveu agir e olhem só o tanto que ele está fofo! XD Preciso dizer que o Peter tá puto com a situação? Acho que não. E o Edmund...Bem, o garoto puxou ao pai, tem vocação pra Don Juan e a questão Lucy virou uma questão de honra.

Vou tentar postar mais um ainda essa semana e será o baile. Espero que gostem e comentem!

Bjux

Bee