Olhar Distante
Ela ouviu claramente quando a chave foi girada na fechadura, denunciando que já era dia e que finalmente ela estava livre. Era uma forma de entender a situação, a liberdade dela estava condicionada as vontades dele.
O braço dele estava ao redor da cintura dela. Susan fechou os olhos e sentiu-se nauseada. Não havia chance de escapar, não havia como afastá-lo ou persuadi-lo a desistir, porque era evidente que ele não faria isso. Então sua mente dizia que ela não deveria gostar, deveria resistir aquilo e manter o pouco que restava do próprio orgulho, mas foi inútil.
Ele conseguiu o que queria. O Grande Rei conseguiu levá-la para cama e não bastava reafirmar sua posse sobre ela, fazia questão de provar que era capaz de lhe dar prazer. Susan sentia-se envergonhada e enojada com a própria reação, por ter entendido exatamente o que ele queria dizer quando prometeu que seria bom.
O que seus pais diriam se soubessem? O que todos diriam quando fosse um fato público e notório? Não sabia nem mesmo se conseguiria se olhar no espelho e aceitar que era algo concreto e consumado. Não esperava que ele lhe restaura-se a honra e cumprisse as promessas de casamento, tão pouco tinha qualquer expectativa de que seria conhecida por sua dignidade. Ela foi uma diversão, uma que perderia a graça em pouco tempo.
Ele acordou e beijou o pescoço dela, murmurando um "bom dia" rouco. Levantou-se da cama e começou a vestir suas roupas. Ela observou ele caminhar até a porta, abri-la e comunicar algo aos guardas, então ele fechou a porta outra vez e olhou diretamente para ela.
Susan se encolheu quando notou que ele estava caminhando em sua direção outra vez. Ele se sentou ao lado dela na cama e acariciou seu cabelo. Seu semblante era compreensivo e gentil. Não havia arrependimento pelos atos praticados, apenas um toque de entendimento e compaixão pelo momento dela.
- Quer que eu diga aos convidados que não se sente bem? – ele perguntou num tom solicito.
- Não precisa dizer mentiras em meu nome. – ela respondeu ríspida.
- Está bem. – ele concordou – Talvez deva dormir um pouco mais.
- Tanto faz. – ela rebateu.
- Susan, não seja tão severa com tudo isso, está bem? – ele finalmente abordou o assunto.
- Eu quero ficar sozinha. – ela murmurou. Ele acariciou o rosto dela enquanto a olhava diretamente nos olhos.
- O que eu preciso fazer para que se sinta a vontade na minha presença? – ele perguntou num tom gentil.
- Nada. Nada que faça vai mudar isso. – ela respondeu com teimosia.
- Minha falecida esposa disse a mesma coisa depois da noite de núpcias. – ele disse por fim com um tom levemente nostálgico.
- Você a forçou também? – Susan perguntou de forma impertinente.
- Nós dois fomos forçados a isso na época. Eu tinha que me casar com ela porque Nárnia precisava de uma rainha e eu precisava de herdeiros. – ele respondeu sem dar importância ao tom que ela usou – O dia seguinte foi bem desconfortável pra ambos. Nós mal nos conhecíamos e eu tinha certeza de que Swan White me odiava.
- Eu a entendo perfeitamente. – Susan murmurou.
- Não, não entende. – ele respondeu – Ela sabia que eu não era apaixonado por ela, mas tinha em mente que era seu dever manter o acordo. Ela era linda e amável, se esforçou o máximo que pode pra fazer tudo dar certo e quando soube que estava grávida ela estava radiante. Ela estava muito fraca após o parto, mas segurou Lucy no colo e disse que nunca foi tão feliz. Meia hora depois ela não respirava mais. – Peter respirou fundo – Não quis me casar outra vez, não queria ter outra mulher estranha por aqui e ter que obrigá-la a passar por tudo isso quando eu não era capaz de amar a fazer essa pessoa feliz. Por isso me esforcei tanto para cuidar da minha filha e garantir que ao menos ela fosse a garota mais amada do mundo, o que eu não pude fazer pela mãe.
- E por que eu estou aqui? – Susan perguntou tentando conter as lágrimas. Sentiu pena dele. – Por que me escolheu pra viver o inferno que a rainha viveu?
- Porque quero fazê-la feliz. – a voz dele vacilou - Lembra quando eu lhe disse que não existem escolhas no amor? – ele a encarou intensamente – Eu não escolhi você, madame. Eu a encontrei na floresta, usando roupas estranhas, com idéias opostas as minhas e com coragem o bastante para me desafiar. O que havia na sua pessoa que pudesse me levar a escolhê-la por minha vontade? Se isso fosse realmente possível, o lógico seria optar por alguém que pensasse como eu, que entendesse este mundo. Mas eu não tive escolha. Eu me apaixonei.
- Bela maneira de demonstrar isso. – ela respondeu enquanto secava uma lágrima insistente – Eu não entendo seu modo de pensar, acho que nunca vou entender. Por que simplesmente não pode me respeitar? Eu não sou um objeto, ou um dos seus cães, que você pode dar ordens, bater e eles ainda voltarão pra você abanando o rabo.
- Madame não se parece com nada que eu conheça. – ele tocou o rosto dela e acariciou com cuidado – Susan, eu nasci com todas as facilidades que o título de príncipe pudesse me oferecer. Foi quando tive de retomar meu país que aprendi a lutar por aquilo que é importante pra mim, mas amores, mulheres...Madame, eu nunca tive essa ilusão e ainda que tivesse, quem me recusaria? Qualquer narniana respeitaria a minha vontade, mas milady age de forma oposta, sem uma gota de consideração pela minha posição ou pelo papel que estou fazendo diante de todos.
- Pare de falar nesse seu maldito orgulho! Eu não me importo se isso fere seu ego real ou não, o que me importa agora é que a minha reputação está arruinada. – ela se levantou de uma vez e agora se tratava de uma discussão declarada – Você afirma que eu não vou voltar ao meu mundo, mas não tem como saber, tem? Se eu voltar e descobrirem o que aconteceu eu serei rechaçada! Eu tenho pai e mãe, não sei nem ao menos se eles estão vivos enquanto conversamos. Talvez esteja tudo acabado por causa da guerra, mas você se importa? NÃO! – a esta altura ela não conseguia mais conter o choro. Peter a abraçou com força para que ela se controlasse e afagou-lhe os cabelos.
- Susan, acalme-se. – ele disse com ternura – Por favor, me perdoe. – ele suplicou e aquilo a desarmou por um momento – Eu não sei o que estou fazendo. Realmente não sei se um dia você poderá voltar ao seu mundo, eu não gostaria que isso acontecesse. Não posso afirmar que seus pais estão vivos, ou se a guerra acabou, mas uma coisa eu posso e quero fazer por você.
- O que? – ela estava mais calma, ainda abraçada a ele e parecia errado sentir-se confortável com aquele abraço cuidadoso.
- Sua reputação não será atingida. – ele beijou a testa dela – Eu não sou leviano a este ponto e não estava mentindo. Ninguém questionará sua honra ou sua dignidade quando for rainha.
Ela não disse mais nada. Dizer o que? Não havia como se livrar dele, nem dos planos que estavam traçados. Talvez ele tivesse alguma razão em dizer que ela nunca mais veria seus pais e não voltaria pra casa. Ela já estava perdendo as esperanças e diante de tudo o que estava acontecendo, o que mais ela poderia fazer?
Sendo racional, ela não tinha amigos, ou qualquer outra pessoa que pudesse lhe ajudar enquanto estivesse em Nárnia. Todas as pessoas que conhecia eram fieis a ele. Não tinha como deixar a corte de Cair Paravel sem que houvesse dezenas de guardas atrás dela no segundo seguinte.
Talvez o rei Caspian fosse uma alternativa, um sinal de ajuda, mas o que sabia a respeito dele? Era um homem educado e que foi gentil com ela quando Susan estava se sentindo péssima. E ela havia prometido que o encontraria para um passeio naquela manhã. Como teria coragem de encará-lo nos olhos e fingir que estava bem?
Ela não teve muito mais tempo para pensar e por em perspectiva as suas opções. Peter cobriu a boca dela com a sua e a envolveu num beijo totalmente diferente. Era como o mar calmo, ao menor deslize ela seria arrastada pelas ondas, acabaria se afogando nele.
Ser amada por um rei...Era algo perigoso e que deixava poucas escolhas para serem feitas. Peter parecia um especialista em deixá-la sem reação e fazer dela o que bem entendesse.
A porta da câmara foi aberta e havia um grupo de damas de companhia esperando pelo fim da cena. Susan ficou constrangida ao ver a audiência e parou o beijo. Peter não deu importância, estava acostumado a ser observado por todos os cortesãos e queria que soubessem o espaço que Susan ocupava na vida dele.
Beijou a testa dela antes de se dirigir a chefe das damas.
- Cuidem de Lady Susan. – ele ordenou – Esquentem água para um banho e atentam-na em todos os pedidos como se estivessem atendendo um pedido meu. Fui claro? – todas concordaram com um aceno de cabeça. Susan ficou constrangia com a forma como a encaravam. Algumas tentavam parecer sérias e não julgar as atitudes do Grande Rei, outras tentavam segurar o riso, e havia um grupo que não conseguia disfarçar a expressão de desagrado.
Ele se levantou da beirada da cama e a beijou de leve mais uma vez.
- Eu a verei mais tarde. – sussurrou para ela – Se possível, quero vê-la esta noite também.
Depois disso ele deixou o quarto e ela ficou deitada na cama, contemplando os lençóis sujos de sangue e suor, impregnados com o cheiro deles. As damas se apressaram em tirá-la do leito e trocar a roupa de cama.
Trouxeram uma banheira e água quente para que ela pudesse se limpar. Uma caixa com óleos aromáticos e sabão foi trazida também. Ananda a colocou dentro da banheira e uma outra dama se encarregou de esfregar-lhe as costas. Sentia-se uma criança, talvez esta fosse a ultima vez que se sentiria assim.
O cheiro das essências ficaria impregnado na pele e no cabelo dela por um bom tempo. Provavelmente aquilo estava sendo feito para que o perfume agradasse ao rei. Sentia um desconforto incriminador entre as pernas, mas não teve coragem de tocar a região. Sentia-se desgostosa com o próprio corpo.
Ananda parecia compreendê-la, ou pelo menos era solidária.
Peter foi para seus próprios aposentos e se limpou. Trocou de roupa e foi até os aposentos da filha. Informou aos criados que tomaria café com a princesa. Não era algo incomum, faziam isso quase todos os dias e Lucy costumava esperar pela presença de com ansiedade.
Ela sorriu quando ele entrou, logo após ser anunciado. Havia um lugar preparado para ele na pequena mesa circular. Ele beijou a filha e sentou-se, servindo-se de chá forte e torradas com mel.
Havia um motivo para ver a filha naquela manhã. Depois do que aconteceu entre ele e Susan, havia o risco de que sua nova amante acabasse concebendo. Normalmente ele evitava esse tipo de preocupação, ordenando às criadas que ministrassem doses de poções específicas para prevenir uma gravidez indesejada. Desta vez Ananda tinha ordens claras para não seguir com este procedimento padrão.
Se por ventura Lady Susan concebesse um filho dele, então não poderia pairar sobre a criança qualquer suspeita de ilegitimidade, o que só seria possível se o casamento fosse celebrado o quanto antes. Ele era um pai preocupado e antes de agir ele queria ter certeza de que Lucy estaria de acordo com ele.
Pensou em dar a ela uma nova mãe tantas vezes, mas sempre acabou deixando a idéia de lado por qualquer motivo. Ela e Susan se davam bem, gostavam uma da outra e talvez aquela fosse a melhor escolha no fim das contas.
- Responda-me uma coisa, querida. – ele disse sorrindo para ela. Lucy notou que era algo sério e lançou a ele um sorriso de encorajamento.
- Pergunte, papai. – ela disse.
- O que pensa de Lady Susan? – ele perguntou cuidadoso – Gosta dela?
- Eu a adoro. – Lucy respondeu com uma risada – Ela é estranha às vezes, mas é tão gentil comigo. Gosto quando ela me conta histórias sobre seu mundo fantástico.
- Querida, acho que sabe que os conselheiros vêm tentando me convencer a escolher uma outra esposa, não sabe? – Lucy confirmou com a cabeça – Eu estive pensando que talvez Lady Susan pudesse ser uma boa escolha. – ele disse por fim, cautelosamente – Não quero tomar uma decisão assim sem que você tenha a chance de dizer o que pensa a respeito. O que acha disso? Gostaria de tê-la como mãe?
Lucy o encarou por um momento, analisando a expressão tensa dele. Considerava seu pai o homem mais forte e corajoso do mundo, mas não naquele instante. Ele parecia nervoso e com medo.
- O senhor gosta dela, não gosta? – Lucy perguntou, sem saber exatamente que palavras usar – O príncipe Edmund disse que o senhor estava interessado, que talvez a tivesse como amante.
- Seu noivo devia aprender a ficar calado de vez em quando. – Peter reclamou a contra gosto.
- Oh, ele estava querendo me chatear, como sempre. – ela disse dando de ombros – Não importa a imaturidade dele. Eu sabia que o senhor não deixaria que ela se tornasse uma amante. – Peter corou diante do comentário inocente da filha – O senhor gosta dela, eu gosto dela e acho que ela pode gostar de nós, como uma família. Pobrezinha, não tem ninguém aqui.
- Então, me apoiaria na escolha? – ele aguardou cheio de expectativa a resposta de Lucy, que surgiu em forma de sorriso.
- Claro que sim. – ela respondeu. Enquanto Peter se sentia mais confiante e satisfeito, agora que tinha o apoio da filha.
Enquanto um rei aproveitava sua manhã com a filha, o outro rei caminhou ansioso até os estábulos, onde esperava por Lady Susan.
Seria impossível não ouvir toda agitação no palácio, nem precisou pensar muito para entender o que estava acontecendo. Lorde Sopespian o informou logo cedo o que havia acontecido entre Susan e o Grande Rei. Agora era algo oficial. Eram amantes.
O embaixador aconselhou-o a não se aproximar dela novamente, mas isso estava além do que sua própria honra permitiria. Até onde Caspian entendia a situação, Lady Susan não queria os favores de Peter e tão pouco estava disposta a se entregar tão facilmente, o que deixava margem para apenas uma conclusão. Ela não teve escolha e se isso era verdade, Caspian considerava seu dever ajudar a garota.
Sempre considerou Peter um homem digno, honrado, mas se era capaz de fazer algo tão vil contra uma jovem indefesa, então não era merecedor de confiança. Não queria por o acordo a perder, mas também não se via capaz de compactuar com tudo aquilo. Além do mais, seu interesse por Lady Susan não havia sido esquecido e talvez ela o aceitasse como uma boa alternativa a autoridade do Grande Rei.
Achava que ela não apareceria depois de esperar um longo tempo por ela em frente ao estábulo, mas por fim ela surgiu, caminhando com alguma dificuldade pelo chão gelado. Usava roupas com punhos de pele, chapéu e seu cabelo estava solto, seu rosto parecia melancólico. Caspian quis abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem.
- Por tudo o que é mais sagrado, o que aconteceu com milady? – ele perguntou indo até ela e segurando-lhe as mãos.
- Me surpreende que não saiba. – ela respondeu num tom envergonhado – Achei que todo palácio já teria ouvido a esta hora.
- Eu soube, mas preferi não acreditar no que estava ouvindo. – ele respondeu solidário – Sempre acreditei que Peter era um homem incapaz de atentar contra a própria honra ao tomar uma atitude tão degradante.
- Honra não foi o bastante para detê-lo. – Susan abaixou o rosto.
- Ele a machucou? – ela negou com a cabeça. Aquilo o deixou confuso, talvez Susan tivesse desistido de resistir por saber que não tinha chance de afastar Peter, mas ainda assim, ele esperava que ela tivesse lutado, tivesse se negado, algo que justificasse, sem sombra de dúvida, a expressão de infelicidade no rosto dela – Então me diga o que aconteceu e quem sabe eu possa ajudá-la.
- Ele estava me esperando no quarto. Eu não sabia que ele estava lá e quando entrei os guardas traçaram a porta pelo lado de fora. – ela disse quase num sussurro – Eu não consegui impedi-lo.
- O Grande Rei ao menos se deu ao trabalho de lhe dirigir a palavra pela manhã? – Caspian parecia horrorizado e de fato estava. Por mais que fosse um homem frio, achava que havia um limite para falta de escrúpulos.
- Eu queria que ele fosse embora, mas ele ficou por um tempo. – ela disse. Suas mãos tremiam e ela parecia fazer um grande esforço para manter a compostura – Pareceu arrependido. Eu não soube o que pensar ou como agir. Por um momento, eu tive pena dele, eu vacilei. – Caspian não soube o que dizer diante disso. Se ela conseguia sentir pena de Peter, depois de tudo, talvez não houvesse uma chance real de conquistá-la.
- O que madame fará agora? – Caspian perguntou.
- O que posso fazer? – ela respondeu – Todos me encaram como se tentassem encontrar alguma diferença, alguma mudança. Há uma grande expectativa por parte de toda corte e dele também. Eu não tenho amigos, não tenho para onde ir e nem tenho qualquer poder para impedi-lo de fazer o que quiser.
- Madame, gostaria de lembrá-la que sou seu amigo. – ele se atreveu a acariciar o rosto dela – Não sei como levá-la de volta ao seu mundo, mas não precisa ficar aqui e tolerar tudo isso. Venha comigo para Telmar.
- E quanto tempo levaria para que todos presumissem que sou sua amante? – ela o encarou diretamente nos olhos – As expectativas, as cobranças, tudo continuaria da mesma forma, apenas o rei mudaria.
- Eu não faria nada contra sua vontade, madame. – ele disse imediatamente.
- Ele disse que o senhor é uma pessoa calculista. Eu não sei em quem confiar ou a quem ouvir. – ela retrucou.
- Se deseja auxílio, se precisa de proteção, em Telmar eu posso assegurar tudo isso. – ele segurou o rosto dela entre as mãos – Madame, eu não lhe desejo mal algum e estou correndo risco de criar uma grande inimizade por querer ajudá-la, mas não me importa. Eu fui tolo o bastante por me interessar pela senhora, serei ainda mais tolo por ajudá-la.
- Isso seria o fim do acordo, o fim da promessa de paz. – Susan sussurrou.
- Se ele foi capaz de tal barbaridade, ele não merece minha confiança. E não posso ignorar o fato de que sou um homem e sinto ciúmes ao vê-la atada a ele.
- No fim das contas, os dois querem a mesma coisa. – ela disse infeliz.
- Só temos meios diferentes de demonstrar isso. – ele aproximou o rosto do dela. Susan estremeceu com a proximidade – Posso beijá-la, madame?
Susan ficou em silêncio, mas não fez nenhum movimento para afastá-lo. Caspian entendeu aquilo como uma permissão. Seus lábios roçaram contra os dela e então ele a beijou. Muito diferente da forma autoritária de Peter, que demandava passagem para aprofundar o beijo. Caspian parecia mais interessado em fazê-la ceder com provocações sutis. No fim das contas, eram dois reis que queriam a mesma coisa. Não fazia diferença.
Caspian separou o beijo. Ela parecia tão miserável quanto antes, tão vulnerável e abatida que parecia uma criança indefesa. Ele queria protegê-la, queria cuidar dela e fazê-la brilhar como parecia ser sua vocação natural.
Estavam distraídos de mais naquela sinfonia de decepções, medos e sonhos partidos, para notar que Peter avançava com passos largos e uma expressão furiosa. O Grande Rei levou a mão ao punho da espada, pronto para desafiar Caspian, que por sua vez impôs uma distância segura de Lady Susan.
Peter rangia os dentes e quanto os alcançou, agarrou o braço de Susan com força e a puxou para longe de Caspian, se colocando entre os dois.
- Pensei que era meu amigo, senhor. – Peter disse furioso.
- E sou, majestade. – Caspian respondeu calmo.
- Então como ousa afirmar isso e ter a audácia de tocar nela? – Peter vociferou. Susan não dizia nada, nem poderia, sem correr o risco de ser agredida no meio do ataque de fúria – Não tem nenhum respeito?
- Ao contrário. Respeito a dama acima de tudo. Já não posso dizer o mesmo do senhor. – Caspian encarou Peter com uma pose de desafio.
- Não encha a boca para falar a respeito como se soubesse de alguma coisa! O senhor me desrespeitou em meu próprio lar, quando lhe ofereço a hospitalidade e o carinho de um irmão! – o rosto de Peter estava vermelho e ele já não fazia questão de controlar o volume de sua voz.
- A dama é livre para escolher, senhor. – Caspian retrucou de forma contida – Deixe que ela decida quem cometeu o maior ato de desrespeito.
- Susan é MINHA! – Peter empurrou o telmarino com força – Que fique bem claro para que nunca mais ouse por os olhos sobre ela, que dirá tocá-la como se tivesse qualquer direito! Ela será minha rainha e isso me bastaria para lançar uma guerra contra Telmar!
- Peter, eu não vim até aqui para acabar com um acordo que levei tanto tempo sedimentando, mas o que fez foi inadmissível! – Caspian retrucou ao recuperar o equilíbrio – Eu não gostaria de ver esse acordo de paz se perder, mas minha consciência não me permite ficar calado diante do tratamento que dispensa a Lady Susan.
- O senhor a estava seduzindo, sabendo que a dama não está disponível e ainda tem coragem de me falar em consciência? – Peter retrucou – A única coisa que deseja é aproveitar-se dela!
- Estou apaixonado por ela, Peter. – Caspian encarou ao rival diretamente nos olhos com toda sua convicção – Exatamente como você. – Peter vacilou por um momento.
- Parem de discutir. – Susan suplicou por fim – Parem com isso!
- Quero que saia daqui. – Peter disse por fim – Você e sua comitiva devem deixar Nárnia ao pôr-do-sol de amanhã e nem um dia a mais. Quanto ao acordo, por hora não me valerei do direito de desfazer o noivado, mas isso ainda pode ocorrer.
- Muito bem. – ele respondeu – Vou preparar minha comitiva. Passar bem, majestade. – ele fez uma reverencia e se dirigiu a Susan – Passar bem, milady. – então ele se foi, deixando Peter e Susan sozinhos.
O silêncio pairou, denso como chumbo entre eles. Peter respirou fundo, tentando manter a calma, tentando não piorar ainda mais a situação. A verdade é que nunca se sentiu tão humilhado, ou tão desiludido. O pior era saber que ela não a penas o rejeitava, como ainda preferia Caspian e depois do que havia acontecido na noite anterior ele tinha pouca esperança de que as coisas melhorassem.
Não disseram nada. Ele apenas ofereceu o braço a ela e a escoltou de volta ao palácio. Susan não se surpreendeu quando ele a conduziu até os aposentos dela e pediu aos guardas que a vigiassem até que ele voltasse para escoltá-la aos salões para o jantar de despedida. Nenhuma palavra seria dita a respeito da repentina partida de Caspian. A justificativa seria simples, assuntos de Estado.
Susan compreendeu naquele momento que teria sorte se um dia ele permitisse que ela deixasse o quarto sem uma escolta. Teria sorte se ele não colocasse grades nas janelas.
Caspian foi diretamente ao filho informar o que havia acontecido e para sua surpresa, Edmund pareceu tremendamente contrariado com a ameaça de ter o noivado desfeito. Pior ainda foi ouvir do próprio filho que sua atitude era vergonhosa. O rapaz tinha razão, ele estava pondo tudo a perder por uma mulher que mal conhecia, praticamente jogando dois países em guerra por uma garota que era apenas um ano mais velha que o príncipe de Telmar.
Edmund tinha razão, mas Caspian estava certo de que havia algo em Susan que levava os homens ao abismo. Ela tinha o dom de tornar sábios em homens tolos e seria preciso mais do que Peter para fazê-lo desistir de conquistar a garota.
Depois de uma discussão breve, Edmund deixou o pai sozinho e se dirigiu até os jardins do palácio. Sua cabeça estava a mil e ele precisava de ar para pensar direito. Logo agora que estava se acostumando com a idéia de se casar com Lucy as coisas mudavam daquela maneira e tudo por causa de Lady Susan, uma ninguém!
Precisava pensar em uma maneira de reverter o quadro, quem sabe convencer o pai de que tudo aquilo era loucura e não valia a pena.
Quando chegou aos jardins teve uma surpresa que poderia ser até mesmo considerada providencial. Lucy olhava as flores que começavam a dar os primeiros sinais de vida a medida que a primavera se aproximava. Ela se virou para encará-lo. O rosto corou imediatamente. Era algo que ele havia gostado nela, a forma como ela reagia às provocações.
Edmund achava as bochechas coradas algo adorável. Gostava de constrangê-la para ver a forma como elas ganhavam novos tons róseos. Ele ficou observando-a por um momento.
- Acho que seu pai é quem não tem decência no fim das contas. – ela disse séria. Aquilo o irritou. Lucy não só já sabia como ainda tinha a coragem de revidar as provocações.
- Foi seu pai quem ameaçou desfazer o contrato por causa de uma amante. – ele revidou.
- Não teria acontecido se o seu pai respeitasse o fato de que meu pai está comprometido com Lady Susan. – Lucy insistiu com um semblante sério.
- Que eu saiba, ela ainda é apenas uma amante real, não é noiva dele, nem é a rainha de Nárnia. – Edmund insistiu, era orgulhoso de mais pra admitir que ela insultasse seu pai daquela maneira.
- Você não sabe de nada. – ela rebateu – Devia ficar feliz, agora que o contrato está abalado há uma boa chance de que não tenhamos que nos casar. – os dentes dele rangeram ao ouvir o desdém na voz dela.
- Talvez você deva ficar feliz, já que está tão louca pra se ver livre de mim, mas isso não é exatamente uma idéia que me agrada. – ele disse sério.
- Como? – ela pareceu surpresa.
- Acho que me acostumei com a idéia. Entenda como quiser, mas eu não quero que o acordo seja desfeito. – ele disse sério – A paz seria benéfica pros dois reinos e Nárnia sempre foi nossa maior preocupação. Além disso, se não me casar com você vão me arrumar outra noiva e não tenho como saber como a pretendente será.
- Tão gentil. – ela revirou os olhos.
- Eu vou me casar com você. Dei minha palavra. – ele respondeu num tom calmo – Tentarão me arranjar outras opções, mas não estou interessado.
- Por que? – ela perguntou confusa.
- Você é bonitinha. – ele sorriu – E gosto de como você reage quando te provoco.
- Você é impossível. – ela resmungou. Edmund riu.
- Vão tentar te arrumar outros pretendentes também e só Aslam pode dizer como serão. – Edmund disse por fim – Se achar que sou uma opção melhor, já que sua alteza ao menos me conhece e tem noção do que esperar de mim, então insista em não aceitar nenhum. Eu honrarei minha promessa e terei você como rainha.
- Vou poder governar Nárnia com autonomia? – ela o encarou com olhar de desafio.
- Você até que é bem esperta. – ele riu – Eu não tenho interesse em governar Nárnia, contanto que a paz com Telmar seja respeitada. Faça o que bem entender com o seu povo.
- Acho que posso conviver com a idéia de casar com você então. – Lucy admitiu por fim – Não vai ser fácil se nossos pais brigarem de verdade.
- Que diferença faz? – ele deu de ombros – Um dia nós seremos governantes e então vai estar em nossas mãos corrigir essa idiotice.
- Faremos isso juntos então. – ela segurou a mão dele num ato espontâneo. Pela primeira vez em muito tempo, Edmund se sentiu genuinamente feliz com algo simples.
Nota da autora: Pois é gente. Voltei. Meio virada no fuso, meio exausta, meio moída, mas voltei. Eis que terminei o novo capítulo e pra quem queria ceninhas Ed/Lu, cá está. Espero que gostem e comentem.
Bjux
Bee
