O que resta para uma vida
I hear it in your silence, when you don't speak...
What was funny then, isn't funny anymore.
I can hear it in your voice, there's always a catch...
We're going nowhere, and we're going there fast.
Peter se trancou em seu gabinete de estudos após escoltar Susan até seus aposentos. Prisão, talvez este fosse o nome correto.
Sentou-se em sua poltrona e afundou o rosto entre as mãos. Não soube exatamente quando começou, mas logo o rosto estava coberto de lágrimas e seu peito pesava toneladas. Sempre esteve tão acostumado a não cometer erros, a agir com precisão, a ser um homem fadado ao sucesso, que agora tudo parecia sem sentido.
Não era perfeito, nem mesmo magnífico como gostava de pensar. Não sabia se este era o preço que tinha que pagar por ser um rei poderoso e um guerreiro de grande habilidade, mas estava certo de que era incapaz de trazer felicidade a uma mulher.
Começou com a falecida esposa, a quem nunca conseguiu amar como deveria. Ainda se culpava pela morte, se ela não tivesse dado a luz quando seu corpo ainda não estava totalmente preparado, talvez tivesse vivido uma vida longa e plena. Talvez acabassem se apaixonando um pelo outro.
Agora Susan... Um rei não era traído, nem rejeitado por mulher alguma. As punições para uma consorte real infiel eram severas e era esperado que ele fizesse algo a respeito, mas como? Ela insistiu em dizer tantas vezes que não estava interessada, foi um erro dele insistir a ponto de... Não queria admitir, mas sua honra e boa reputação haviam sido atiradas ao ralo quando tomou Lady Susan por amante.
E ela estava lá, perto dos estábulos, se encontrando com Caspian as escondidas. Pior que isso, ela parecia confiar nele, ao menos o bastante para desabafar a respeito de seus infortúnios e por fim beijá-lo. E ela fez isso de uma forma tão doce e terna, tão diferente das vezes que foi beijada pelo Grande Rei.
Ela o desafiava em público, recusava seus agrados, suas atenções, recusava-o por inteiro. Não sabia o que fazer, não sabia nem mesmo se devia olhar para ela outra vez e insistir em ferir ainda mais seu orgulho.
E ele cogitou a hipótese de torná-la sua rainha, foi presunçoso o bastante para crer que qualquer mulher desejaria isso, mas Susan jamais seria qualquer mulher. Ela insistia em provar isso todos os dias e mesmo assim ele ainda queria vê-la sentada em um trono ao seu lado, usando uma coroa.
Não sabia exatamente o que faria agora. As relações com Telmar estavam definitivamente abaladas e, a menos que Caspian se desculpasse e encontra-se uma mulher para si, Peter não se sentia capaz de continuar com o tratado. Não permitiria que Lucy se casasse com o filho do homem que lhe apunhalou pelas costas.
- Você procurou por isso, Peter. – uma voz sussurrou em algum lugar do gabinete e ele ergueu o rosto imediatamente para encara a dona da voz.
Ele esfregou os olhos incrédulos, tentando entender o que estava acontecendo. Swan White o encarava com uma expressão serena e desapontada. O rosto espledoroso carregava um semblante consternado, mas ela parecia ainda mais bonita do que ele se lembrava.
Agora era um fato. O Grande Rei estava louco.
- O que está fazendo aqui? – ele disse engasgado – Você está morta!
- Sim, eu estou morta. – ela concordou – Isso não significa que eu não possa conseguir uma ou outra permissão para aparecer quando é necessário. – aquilo soou como uma provocação.
- O que você quer? – ele disse tentando conter o medo que sentia na presença dela. O medo da reprovação e do desapontamento, a culpa por ter sido responsável pela infelicidade dela.
- O que eu queria era ajudar você, mas acho que não está interessado. – ela disse tristonha – Pobre garota. Ela poderia amar você, Peter. É para isso que ela está aqui, mas você não sabe controlar seu autoritarismo. Você foi feito rei e isso lhe basta para impor sua vontade sobre qualquer pessoa.
- Está aqui para arrastar correntes na minha cabeça? EU NÃO PRECISO DISSO! – ele gritou contra a imagem da falecida esposa – O que você quer que eu faça? O que eu ainda posso fazer?
- Deixe-a ir. Deixe que ela escolha o que ela quer. – ela respondeu encarando-o diretamente nos olhos.
- Isso não. – ele retrucou com lábios trêmulos – Eu não posso deixá-la ir, não posso permitir que ela fuja para Telmar ou qualquer outra parte!
- Por que acha que ela notou Caspian? – Swan White o encarou com um semblante de desafio – Ela não precisa de mais um rei para dar ordens e impor vontades sobre ela. Susan Pevensie só foi até ele porque, ao contrário de você, Caspian não tentou coagi-la, ou obter qualquer coisa por meio de força e autoridade.
- Está me dizendo que ela deve escolhe-lo? – Peter não estava raciocinando direito.
- Não. Estou dizendo que se você tivesse oferecido escolhas a ela, você poderia ter conseguido o que queria sem ter que impor sua autoridade. – ela retrucou – Quando você vai entender isso?
- Eu...Me perdoe. – ele ergueu a mão e tentou tocá-la, mas era como tentar segurar fumaça entre as mãos – Me perdoe por tudo.
- Deixe-a escolher, Peter. – aos poucos a imagem da rainha se dissipava.
E mais uma vez ele estava só. Nem confortado, nem compreendido. Ele estava apenas só.
Anything to watch while we are waiting for this
Apocalypse?
What else is there to do?
It's nice to be important, but so close to being
despised
It's more important to be nice, I guess, than being wise
Susan sentou-se perto da janela e ficou observando sem qualquer animo ou expectativa a paisagem fria do lado de fora. Talvez fosse a ultima vez que visse a luz do dia de qualquer maneira.
Ananda tentou persuadi-la a comer algo, mas ela recusava a tocar a comida. Ela não devia ter ido aquele encontro com o rei de Telmar. Era inútil sonhar com liberdade outra vez, principalmente quando quem lhe oferecia era outro rei. Caspian foi gentil com ela, mas quem poderia garantir que cedo ou tarde não teria o mesmo tipo de atitude adotada pelo Grande Rei?
Por mais que odiasse Peter por tudo o que ele havia feito, ela não pode deixar de notar a forma como ele a encarou naquele momento. Ela não entendia como ele poderia estar tão atado e dependente da figura dela quando mal se conheciam. Era como se ele tivesse construído uma fantasia de felicidade e companheirismo que havia sido criada em função dela, mesmo que Susan não conseguisse pensar da mesma maneira.
Ele parecia tão desesperado por algum carinho, por alguma compreensão, mas ela não o entendia, não entendia o mundo dele, não conseguia ignorar suas próprias opiniões para servir a ele como um tipo de consolo.
Agora ela compreendia que ele era um jovem infeliz, mas ainda não se via capaz de proporcionar a ele nada além de mais miséria e sofrimento.
Qual seria o futuro dela? Isso ainda era um mistério. Susan não duvidava que ele poderia acusá-la de alta traição e decapitá-la, mesmo que ela não fosse a rainha dele. Não seria difícil forjar um julgamento com acusações falsas. Ou talvez ele simplesmente a espancasse e mantivesse trancafiada. De qualquer modo, agora o tratado com Telmar estava abalado e talvez os dois países entrassem em guerra.
Mais uma guerra na qual ela se via presa, mas desta vez era culpa sua. Talvez apenas Lucy ficasse feliz com isso, já que a princesa não queria se casar com Edmund.
A porta do quarto foi aberta. Ela não se deu ao trabalho de se virar para receber quem quer que fosse. O silêncio permanece por algum tempo e ela entendeu que era o Grande Rei quem a encarava.
Peter ficou observando-a. Ela era uma figura peculiar que lhe causava sentimentos controversos. Ele não sabia o que deveria fazer. Jogar-se aos pés dela e implorar seu perdão, implorar para que ela o aceitasse, ou espancá-la por tudo o que ela havia feito. Se continuasse assim, ele acabaria dilapidando um país inteiro por causa daquela garota e por seu próprio orgulho.
Por mais que Swan White tivesse razão, ele não se via capaz de dar a ela uma chance de fugir e deixá-lo sozinho mais uma vez.
- Você o ama? – ele finalmente criou coragem para quebrar o silêncio. A voz estava rouca e exausta. Susan não quis encará-lo, não queria ver o quão infeliz ele estava.
- Como eu poderia amar alguém que mal conheço? – ela retribui com um questionamento que para ela parecia óbvio – Eu não sei quem ele é, mal troquei algumas palavras com esse homem que dizem ser o rei de Telmar. Tudo o que sinto por ele é empatia, uma vez que ele se mostrou preocupado com minha situação e me ofereceu algum conforto.
- Sou algo tão terrível assim, ao ponto de obrigá-la a recorrer à ajuda de um estranho? – a voz dele tinha um tom dolorido. Tudo o que ele havia feito era imperdoável, mas por um momento ela se questionou se não havia algo dentro dele que valia a pena.
- Você foi terrível. – ela finalmente se virou para encará-lo diretamente nos olhos. Susan mal reconheceu o rapaz que estava diante dela. Cabelos revoltos, roupa desalinhada, olhos vermelhos. – Céus, o que aconteceu com você?
- Nada que eu não merecesse. Como madame disse, eu fui terrível. É apenas justo que ao menos minha consciência me atormente. – ele respondeu num tom defensivo.
- Eu não esperava que tivesse uma consciência. – ela retrucou com lágrimas nos olhos.
- O que eu devo fazer com você? – ele perguntou por fim – Eu poderia executá-la por alta traição se você fosse minha rainha, mas como não é devo pensar em outra coisa. Cárcere privado, destituição de bens.
- Não que eu tenha qualquer coisa que me pertença, ou que não viva neste palácio contra a minha vontade. – ela retrucou – O que vai escolher a final?
- Eu não sei. – ele respondeu sincero – Eu não sei o que fazer quando o assunto é você, então me diga o que eu devo fazer.
- Eu também não sei o que dizer. – ela encolheu os ombros – E quanto ao tratado?
- Continua válido, mas eu ainda posso mudar de idéia. – ele respondeu – Eu não quero outra guerra, mas se Caspian é incapaz de me respeitar dentro dos meus domínios então me resta pouca chance de escolha.
- Não faça isso. – ela disse fechando os olhos.
- Está preocupada com seu amante? – ele rebateu com despeito.
- Não. Uma guerra não se trata apenas de reis, quem mais sofre é quem não sabe nem mesmo o motivo pelo qual soldados e gente inocente morre no meio dos conflitos. – ela o encarou firme – Eu não quero ser culpada por uma tragédia como esta.
- Você perdeu alguém durante a guerra? – ele perguntou sem saber o que mais deveria fazer.
- Acho que perdi tudo. – ela respondeu – Meu pai desapareceu, minha mãe foi obrigada a me mandar pro campo e eu não tive notícias dela. Eu não sei mais se há alguma coisa para mim no meu mundo.
- Também perdi meus pais na guerra. – ele disse fechando os olhos – Também não restava muita coisa para mim aqui.
- Por que você continuou aqui? – ela perguntou encarando-o.
- Porque era o certo e porque Aslam me deu coragem para isso. – ele respondeu sem jeito.
- Sempre Aslam. – ela resmungou.
- Ele sabe o que faz. Quem sou eu para discordar dos motivos Dele?
- Pensei que você fosse Grande Rei. – ela rebateu.
- Ele é o verdadeiro rei, eu sou apenas alguém que foi incumbido da tarefa de governar em nome Dele.
- O que acontecerá agora? – ela perguntou, sentindo-se terrivelmente cansada.
I'll take you shopping, I'll take you dancing too
I'll take you out, all the things you wanna do
I'll give you diamonds, and I'll give you space
So be with anyone you want, it's alright with me.
- Terei de mantê-la aqui por três meses. – ele respondeu sério – Se por ventura estiver carregando um filho meu, não posso permitir que suma carregando esta criança. Se este não for o caso, está livre para fazer o que bem entender. Eu não vou impedi-la.
- Mesmo que eu decida ir para Telmar? – ela o encarou surpresa.
- Se eu não posso fazê-la feliz ao meu lado, então que eu a faça feliz mantendo-a longe. – ela notou que ele estava segurando as lágrimas.
- Por que está fazendo isso? – ela tocou o rosto dele com uma das mãos. Peter fechou os olhos ao sentir o toque.
- Porque eu te amo, ainda que eu não saiba como amar algo que não me pertence. – ele sussurrou em resposta – Reze para que a noite passada não renda frutos.
- Por que?
- Por que ai eu serei obrigado a tomá-la como rainha, já que não tenho uma e preciso de filhos legítimos. – ele disse fechando os olhos mais uma vez – Mesmo que esse seja meu desejo mais desesperado, imagino que isso não seja do vosso agrado.
- Achei que Lucy era o suficiente. – ela se sentou mais uma vez.
- Para mim é, mas os conselheiros e as leis entendem que seria preferível que o Estado passasse para as mãos de um príncipe, que não poderia entregá-lo como dote a outro Estado. É o que acontecerá quando minha filha se casar, a menos que eu tenha um filho. – ele a encarou – Por isso eu seria obrigado a tomá-la por esposa se por ventura madame estiver carregando uma criança que tenha meu sangue.
- Se houvesse uma rainha, o que aconteceria? – Susan o encarou com medo.
- Eu não poderia me casar com você, mas a criança teria de ficar comigo. Não seria um herdeiro legitimo, mas seria criado com todo luxo e todas as honras de um nobre. – ele respondeu num tom calmo de voz – Adiantaria dizer que eu sinto muito?
- Provavelmente não, mas já seria um começo. – ela disse serena.
- Me acompanharia no jantar desta noite? – ele perguntou sem grandes esperanças.
- Só se eu não fosse obrigada a isso. – ela respondeu sincera e Peter sentiu uma pequena ponta de esperança dentro de si.
Ele não a perturbou mais, apenas deu as costas e saiu do quarto. Susan fechou os olhos por alguns segundos e tornou a pensar nos próximos passos que deveria dar. O que fazer quando suas opções não lhe parecem verdadeiramente boas.
Sentiu pena dele várias vezes, sentiu ódio de si por não ser capaz de fazer algo para diminuir todos os problemas que estava causando. E tudo isso era tão paradoxal...Ter pena de alguém que devia odiar por tudo o que havia acontecido, mesmo que seu coração falhasse quando Peter estava por perto.
Seria mais fácil se ele não demonstrasse que tinha um coração pronto para ser despedaçado. Ela seria insensível a forma como ele adorava a filha, ignoraria o cuidado que ele tinha com o reino, desprezaria tudo o que sabia a respeito das conquistas dele e então manteria na cabeça que nada daquilo era real e ele seria associado com a idéia de príncipes de romances tolos. Ela manteria na cabeça a idéia de um rei tirano, mesmo que essa imagem já estivesse embaçada em sua mente.
Caspian era uma figura enigmática ainda. Algo que ela não sabia classificar, mas estava ali, estendendo a mão para ajudá-la. Talvez devesse aceitar a cortesia e justificar toda rixa entre telmarinos e narnianos, ou apenas afirmar ao Grande Rei que ela escolheria qualquer coisa que não fosse ele. Puro orgulho.
Depois de ter lutado tanto por escolhas, agora que ela as tinha não sabia o que fazer.
Quando ela deixou seus aposentos para se juntar à corte no salão onde aconteceria o ultimo banquete para os telmarinos nenhum soldado a acompanhou até a presença do Grande Rei. Ela também não esperava encontrar Caspian justamente no corredor pelo qual ela tinha que passar.
Ele a encarou com seus olhos intensos por um instante. Parecia ansioso e preocupado. Caminhou até ela só para se assegurar de que nada havia acontecido com ela. Susan parecia bem. Suas roupas eram num tom de azul escuro, ela usava jóias como em todas as noites, o cabelo estava preso e o rosto sereno. O mundo parecia prestes a desabar sobre a cabeça deles, mas Lady Susan permanecia intacta.
Sentiu-se aliviado por saber que Peter não infringiu a ela qualquer punição. Ele teve medo que ela sofresse injúrias por uma ousadia cometida por ele num momento impensado. Mesmo sabendo dos riscos e da tolice que o acometia, Caspian ainda queria aquela mulher.
Our time is over
Don't you know that if a time-warp was open
I'd stay right in my place
That war is over
- Milady está bem. Fico feliz em saber. – ele disse aliviado – Tive medo de que Peter a punisse de alguma maneira.
- Isso ainda pode acontecer. – ela respondeu – Ele parece indeciso quanto a isso.
- Lorde Sopespian está otimista quanto à manutenção do tratado, mas eu não sei o que dizer a respeito. – Caspian parecia afoito – Por favor, venha comigo para Telmar. Por favor, madame, eu imploro.
- Senhor, entenda. Não é um assunto para ser tratado de forma impensada. Existem dois reinos em jogo, até mesmo o futuro de seu filho deve pesar nesta decisão. – ela sussurrou olhando por cima dos ombros, apenas para se assegurar de que ninguém os ouvia.
- Não posso deixá-la aqui, sujeita a autoridade de Peter. – Caspian retrucou – Nossas nações viveram em guerra por séculos, seria apenas mais uma.
- E quantos morreriam por causa da minha resposta? E o que aconteceria se eu o seguisse? Me tornaria sua amante e possivelmente a mulher mais odiada de Telmar e Nárnia. – ela respondeu – Eu não posso arriscar tanto.
- Case comigo então. – ele sussurrou – Em segredo, esta noite. Se fizermos isso, sendo ou não o Grande Rei, Peter não poderá fazer nada. Não terá direito legitimo a uma guerra e eu garanto que farei de milady uma mulher feliz.
- Eu devo ir agora. – ela desviou o assunto o mais rápido que pode.
- Milady o ama? – Caspian perguntou enquanto a segurava pela mão.
- Que tipo de pergunta é esta? – ela o encarou espantada.
- Uma bem simples e importante. – ele respondeu – Apenas responda.
- Eu não sei mais o que fazer ou o que pensar. Por favor, me deixe ir. – ela disse num tom frágil de voz.
- Tenha em mente a minha oferta. Se mudar de idéia, terei um lugar para você no navio. – ele disse – Pense nisso, senhora.
I hear it in your silence, when you don't speak...
There is a quiet crying rage, burning inside you so deep.
I'll give you anything, but I'll give you problems
So be with anyone you want, it's alright with me.
Ela adentrou o salão e tomou seu lugar ao lado de Peter. As palavras foram escassas durante todo tempo, o desconforto pairava em cada milímetro e o Grande Rei parecia fazer um esforço enorme para manter a civilidade com os convidados. Nada foi dito sem um propósito claro, apenas para manter o nível de educação bem definido.
Lucy estava tão confortável com a situação quanto qualquer outra pessoa no salão e os olhares que Edmund lançava a ela não facilitavam em nada a situação. Às vezes ela tinha certeza que ele faria qualquer coisa para constrangê-la, mas depois do ultimo encontro nos jardins ela já não tinha tanta convicção. Havia algo na forma como ele a olhava que parecia implorar pela confiança dela.
Talvez eles não se amassem, mas ao menos ela o considerava o mais próximo possível de um amigo.
Ele fez sinal para que ela o encontrasse do lado de fora do salão. Ela pediu permissão do pai para se retirar mais cedo e foi até o corredor esperar por ele.
Edmund não demorou mais do que cinco minutos. Parecia agitado e ansioso. Não era algo que combinava com o jeito debochado e com as provocações dele, isso a preocupava.
Ele, por sua vez, lançou a ela um sorriso intimo ao notar que ela estava usando fitinhas coloridas no cabelo. Ainda era uma criança, uma garotinha bonita e alegre. Ela estava sempre com roupas coloridas, como a mãe dele costumava usar. Nos últimos anos, ela parecia toda a cor que ainda restava pra se contemplar.
Um dia ela seria uma mulher e ele espera que as cores continuassem vivas e o sorriso contagiante dela não esmorecesse no rosto dela. A corte em Telmar era sóbria e muito austera para o gosto do jovem príncipe. Quando fosse rei, traria para aquele lugar todos os tons da alegria despreocupada. Talvez um tom único, que naquele momento ele preferia dar o nome de Lucy.
Ele enfiou a mão dentro da bolsa de moedas e segurou firme o pingente que havia guardado lá dentro. Sua mãe havia deixado aquela única lembrança com ele antes de morrer. Um pingente em forma de laço. Ele jamais usaria aquilo, tão pouco se desfaria de algo tão precioso. Achou que talvez a princesa pudesse fazer bom proveito da jóia.
- O que queria falar comigo? – ela perguntou em um tom desconfiado. O rosto redondo ainda corava sempre que ele estava próximo dela.
- Achei que deveria alertá-la. – ele disse respirando fundo – Amanhã, quando estivermos partindo para Telmar, acho que poderá acontecer uma cena. Se eu estiver certo, as chances do acordo se manter desaparecerão.
- O que está dizendo? – ela arregalou seus olhos doces.
- Meu pai está determinado a levar Lady Susan e nada que eu diga irá fazê-lo mudar de idéia. – ele disse com um semblante sério – Mesmo que ela recuse, será uma situação constrangedora para o seu pai.
- O que vamos fazer? – ela sussurrou num tom inocente e assustado. Ele quis abraçá-la, mas não achou que esta fosse uma atitude adequada, principalmente porque ela era sua noiva por acordo, ele não tinha que ter esse tipo de sentimentos por ela.
- Não importa o que aconteça amanhã. – ele respondeu convicto – Eu preciso que você saiba que entre nós o acordo continua válido. – ele tirou o pingente de dentro da bolsa e colocou na palma da mão dela – Isso é uma promessa.
Ela olhou com cuida a jóia que ele havia entregado. Era delicado, um trabalho exemplar de um ourives. Cravejado com pequenos diamantes, formando um perfeito laço. Um laço de fita.
- É lindo. – ela sussurrou pra ele.
- Cuide dele pra mim. – ele disse sorrindo – Era da minha mãe, mas acho que não ficaria bem em mim, não é? – ela o encarou surpresa – Vou deixar com você, para que use e cuide. Uma garantia do nosso acordo. Um dia eu vou querer o pingente de volta.
- Você dá um presente para depois tomar? Quanta sensibilidade! – ele riu do comentário.
- Não bobinha. – ele disse rindo – Mas um dia eu vou querer que uma de nossas filhas, se nós tivermos filhas, use. – ela ficou ainda mais sem jeito diante dele.
- E se só tivermos meninos? – ela perguntou sem graça.
- Um dia o mais velho poderá entregar à esposa. – ele respondeu – De qualquer modo, a jóia volta para a minha família.
- Vou cuidar do pingente, não importa o que aconteça. – ela disse sorrindo para ele.
- Boa noite, Lucy. – ele disse o nome dela pela primeira vez, sem usar qualquer título, ou sem qualquer zombaria. Roçou os lábios nos dela pela ultima vez e deixou-a sozinha no corredor, enquanto caminhava para seus aposentos.
I hear it in your voice, can see it in your lips
There's always a catch... I guess that's alright with me
No one's around, but the map says "you are here"
Now I can hear loneliness screaming in my ear.
Our time is over
Don't you know that if a time-warp was open
I'd stay right in my place
The war ain't over yet
This war ain't over yet...
Being nice is only hard when others aren't
Our time is over
Nota da Autora: Postei! Pois é, eu fiquei com dó do Peter, mas decidam vc's se amam ou odeiam o cara. Espero que gostem e comentem. Musica do capítulo é 4 CHORDS OF THE APOCALYPSE, do Julian Casablanca.
Bjux
Bee
