Três Caminhos Possíveis

Susan abriu os olhos assim que o dia amanheceu. Não que tivesse dormido ou descansado durante a noite. A incerteza quanto ao próprio futuro trouxe pesadelos e mais pesadelos. Navios perdidos em meio às tempestades, leões rugindo e ameaçando, Peter sentenciando-a a morte.

Estava com medo. Mesmo que tivesse a possibilidade de escolher seu próprio destino, ainda não sabia qual escolheria. O rei de Telmar, um estranho sedutor que lhe oferecia incontáveis promessas de uma vida feliz, ou o Grande Rei de Nárnia?

Ela ainda não estava livre de Peter. A possibilidade de que ela estivesse carregando uma criança com o sangue dele ainda não estava descartada e se fosse este o caso ele teria o direito de tomá-la por esposa.

Não conseguiu esquecer a forma como ele a encarou quando disse que a faria feliz, mesmo que para isso não pudesse tê-la. Ele parecia tão sozinho e perdido que Susan quis abraçá-lo e dizer alguma coisa para oferecer algum consolo a ele. Como fazer isso quando se sabe que é você a causa de toda tristeza de uma pessoa?

E ainda tinha Lucy, que estava tão confiante de que Peter havia encontrado uma nova companheira. Susan gostava da princesa e decepcioná-la parecia algo tão errado naquele contesto.

Sentia-se atada à Nárnia de uma forma tão intensa que não sabia mais o que pensar ou fazer. Todos insistiam em dizer que o destino dela havia sido traçado por Aslam e como uma filha de Eva era seu dever trazer prosperidade ao país. Ela não conhecia Aslam, não sabia se poderia ou não confiar naquela figura mítica tão adorada, mas diante de suas opções, talvez ela devesse confiar no Grande Leão.

Ela se levantou da cama e caminhou inquieta pelo quarto. Era o final do inverno, mas aquela seria uma manhã fria. Com uma pitada de nostalgia ela pensou em sua família e em como Londres parecia desolada e cinzenta durante aquela época do ano. Em Nárnia, mesmo o inverno tinha cores bonitas.

O que ela deveria fazer?

- Talvez eu possa aliviar o peso do seu jovem coração, minha filha. – uma voz poderosa e acolhedora soou atrás dela. Era como sentir o sol da primavera sobre a pele pela primeira vez. Ela olhou para o lado e junto a ela estava o maior leão que já havia visto.

- Por tudo o que ouvi, achei que teria medo. – ela disse sincera enquanto o leão enfiava o focinho de baixo da mão dela para que Susan lhe fizesse carinho. Ela não teve duvidas quanto aquilo. Estava diante de Aslam. – É uma honra conhecê-lo, senhor Aslam.

- A honra é minha, criança. – ele respondeu – Em primeiro lugar acho que devo responder as suas perguntas. – ele disse solicitamente e ela sentiu uma paz inexplicável em seu coração. – Acredito que tenha algumas para mim, não é mesmo?

- O que eu estou fazendo aqui, Aslam? – ela perguntou por fim – Todos dizem que estou aqui por sua vontade e tenho uma missão a cumprir, mas eu não sei como ou por que. – Aslam virou-se para a janela aberta e contemplou a paisagem fria.

- Houve um tempo em que toda Nárnia estava coberta pelo inverno eterno de Jadis, A Feiticeira Branca. – o leão disse com voz solene – O rei e a rainha foram assassinados e por sorte o pequeno príncipe de Nárnia escapou para mais tarde cumprir sua missão. O pequeno príncipe se tornou o Grande Rei no momento em que trespassou a Feiticeira com sua espada. Naquela época Peter era pouco mais do que uma criança e provavelmente não estava preparado para assumir o comando do reino.

Susan olhou na mesma direção que Aslam e, para sua surpresa, tudo aquilo que o leão dizia parecia ser reproduzido no reflexo do vidro, como no cinema. Ela viu com nitidez o momento em que Peter, apenas um garoto, recebendo a coroa dourada sobre a cabeça, enquanto era ovacionado como O Magnífico.

- Não se engane quanto a idade. Ele se saiu muito melhor do que poderia ser esperado, mesmo de uma pessoa com mais experiência. – Aslam disse com autoridade – Já não poderia dizer o mesmo de Swan White. – a imagem no vidro mudou e Susan se viu frente a frente com uma garota tão jovem quanto ela, de uma beleza indescritível. Os olhos eram de um azul limpo, as ondas douradas caiam livremente sobre os ombros, mas algo em seu rosto demonstrava infantilidade e inocência. – Ela não estava preparada para ser rainha.

- Achei que pudesse interferir nisso. – Susan disse de uma forma opaca a medida que a cena do rosto de Swan White mudava para a imagem de uma grande celebração. Um casamento real.

- Ela teve escolhas, criança. Ela amava outra pessoa e teve a chance de deixar Nárnia antes de Peter se tornar rei, mas ela teve medo e escolheu obedecer à família. – Aslam disse de uma forma solene – Sempre há uma escolha, criança. Elas nem sempre parecem justas, ou interessantes. Não parecem ser vantajosas e são sempre difíceis. Num primeiro momento ela culpou Peter pelo que estava acontecendo, depois ela entendeu que ele também não queria estar naquela situação. Depois algum tempo eles passaram a se respeitar e então Swan White descobriu que estava grávida. Infelizmente o parto a enfraqueceu muito.

- Não entendi aonde eu me encaixo nesta história. – Susan observava com piedade o rosto de Swan White contorcido em dor.

- Eu já estava chegando nesta parte. – ele pareceu sorrir diante da impaciência dela – Ela estava desesperada. Sabia que estava prestes a morrer e em suas ultimas orações ela implorou para que alguém tomasse conta de sua única filha. Uma mulher para amar e cuidar de Lucy, alguém que pudesse oferecer a Peter o que ela nunca conseguiu e que pudesse ser uma boa rainha para Nárnia. Foi esse pedido que trouxe você para cá. Isso e alguns outros fatores.

Susan concordou com um aceno de cabeça. Aquilo ainda não parecia uma explicação bem elaborada, mas ainda era melhor do que nada.

- Eu não sou capaz de amar Peter como ela esperava, nem sei se seria capaz de ser uma mãe e definitivamente não nasci para ser uma rainha. – ela disse encolhendo os ombros – Ainda não vejo uma razão.

- Eu não posso dizer como teria sido se Peter não tivesse usado de tanta autoridade, mas eu posso afirmar que você tem todas as qualidades para cumprir o ultimo desejo da rainha, só depende as sua vontade. – Aslam disse em um tom consolador – Outro fator foi o fato de que a guerra em seu mundo lhe deixaria pouca ou nenhuma expectativa de um futuro.

- O que aconteceu durante o tempo que eu estou aqui? – ela fechou os olhos, sentindo que não importavam as palavras que o leão diria. Algo estava muito errado em seu mundo.

- A guerra é uma coisa terrível. – o leão disse solene – Acho que você já desconfiava que seu pai havia morrido, não é?

- Sim. – ela respondeu com a voz engasgada.

- Sua mãe tentou fugir para as linhas subterrâneas durante um bombardeio. O cano estourou e o túnel foi inundado. – ele disse sério. Susan tremia – E você, minha jovem, estaria sozinha no mundo.

- Então eu fui escolhida. – ela sussurrou – Dentre tantas outras em situação igual ou pior que a minha, eu fui escolhida para cumprir o ultimo desejo da rainha.

- Você não se curvaria diante de Peter e seria capaz de ajudá-lo na condição de uma igual. – Aslam disse sereno – Você saberia cuidar de Lucy e cuidar dela como ninguém e seu coração leal e destemido guiaria o povo de Nárnia. Eu não posso dizer que você foi escolhida, criança. Você nasceu com estas qualidades, talhada para isso.

- Então eu nunca tive escolha. – ela sussurrou. As lágrimas ainda caiam.

- Você tem, Susan. Sempre existem escolhas a serem feitas e nenhuma delas é fácil. – Aslam retrucou compreensivo – Você pode ser a rainha de Nárnia se quiser, mas também pode ser a rainha de Telmar, ou então voltar a ser apenas Susan Pevensie.

- O que aconteceria se eu escolhesse voltar pra casa? – ela perguntou engasgada.

- Teria de seguir em frente, sozinha. – ele respondeu.

- O que aconteceria se eu escolhesse Telmar?

- Seguir em frente, com Caspian.

- E se eu escolhesse Nárnia. – ela perguntou, sentia-se exausta.

- Você já sabe a resposta. A escolha ainda é sua. – o Leão disse simpático – Seja ela qual for, tem a minha promessa de que você será feliz.

- Eu não estou grávida, não é mesmo? – ela fez sua ultima pergunta, apenas para ter certeza de que a escolha não havia sido tirada de suas mãos outra vez.

- Ainda não. – Aslam sorriu e sem que ela percebesse estava sozinha em seus aposentos novamente.

Ela se deitou outra vez na cama. Seu rosto mais pálido do que o normal e todo seu corpo tremia. Ela estava certa, não havia restado nada para ela na Inglaterra.

As damas de companhia entraram no quarto para vesti-la, mas ao se depararem com a figura desolada de Susan atirada a cama, saíram para buscar ajuda. Pensavam que ela estava doente e isso não era algo desejável uma vez que tinham a esperança de que ela se tornasse a próxima rainha.

Um médico foi mandado para examiná-la, mas não chegou a qualquer conclusão além da óbvia. Susan estava infeliz.

Quando recebeu as notícias, Peter deixou de lado seus afazeres e correu para encontrá-la. As damas o saudaram com uma reverência rápida e logo deixaram os dois a sós. Tinham medo de que ele as culpasse pelo estado de Lady Susan e isso seria algo terrível.

Levou um susto ao vê-la sobre a cama. O rosto manchado pelas lágrimas que caíram por um longo tempo e agora haviam secado. Ela parecia não ter mais qualquer esperança na vida e sem forças para lutar. Lembrou-se da falecida esposa e de como a havia visto em situação similar apenas alguns instantes antes dela deixá-lo.

Ajoelhou-se ao lado dela e acariciou os cabelos negros. A testa parecia febril. Uma onda de pânico começava a tomar conta dele. Talvez ela estivesse mesmo doente.

- Por tudo o que é mais sagrado, o que aconteceu? – ele perguntou angustiado – Susan, por favor, diga o que está errado.

- Ele esteve aqui. – ela sussurrou – Eu não tive medo como pensei que teria, mas eu vi tanta coisa. – a voz era quase inaudível – Tantas coisas tristes.

- Quem esteve aqui? Caspian? Se ele ousou tocar em você juro que declaro guerra a ele! – ela negou com a cabeça, mas ele estava muito nervoso.

- Não foi Caspian. – ela respondeu – Eu vi Aslam.

- Aslam? Louvado seja. – Peter murmurou – Susan, o que aconteceu?

- Tanta coisa. – ela fechou os olhos – Eu vi, não sei como. Ele me disse o que me trouxe até Nárnia. O ultimo desejo da antiga rainha. – Susan tremia – Ela se preocupava com você, não é mesmo? E com Lucy também. Ela quis que alguém cuidasse de vocês, alguém para amar os dois.

- Não tem que fazer isso, eu dei minha palavra de que pode escolher o caminho que quiser, Susan. – ele segurou a mão dela com força.

- Meus pais estão mortos. – a ultima frase saiu num tom ainda mais fraco – A guerra continua... O que eu faço agora? Eu não sei mais o que fazer.

- Por agora pode chorar sua perda. – ele beijou a mão dela – Leve o tempo que precisar. Carregue o luto, se assim desejar. Quando achar que é a hora, siga em frente.

- Como?

- Como quiser. – ele beijou a testa dela – Apenas faça. Se desejar, eu estarei ao seu lado.

- Aslam disse que eu não estou grávida. – ela disse e esperou por uma reação ruim da parte dele.

- Não posso negar que gostaria que estivesse. Isso me deixaria muito mais confiante, mas a vida é sua. Se escolher Nárnia, então quem sabe ainda haja uma possibilidade de termos filhos. Mas será madame quem decidirá isso. – ele acariciou o rosto dela – Descanse por hoje. Terei que comparecer a cerimônia de despedida da delegação telmarina, mas voltarei ao anoitecer para ver como está.

Ele a deixou sozinha para que lamentasse a perda dos pais. Não tinha qualquer esperança de que Susan comparecesse ao porto, quando a comitiva telmarina estivesse partindo. Isso deu a ele uma falsa idéia de segurança, ao menos assim Caspian não tentaria levá-la. Entretanto, Peter não era otimista quanto ao futuro imediato. Não acreditava que depois de tudo ela pudesse aceitar a proposta dele.

Teria de mantê-la em Nárnia por três meses, mesmo sabendo que ela não estava carregando uma criança real. Depois deste período ela seria livre para fazer o que bem entendesse. Ela estaria livre para correr para os braços de Caspian. Livre para fugir do Grande Rei.

Era isso o que Swan White havia dito para ele fazer...Algo que ele jamais fez por ela, mesmo sabendo que a falecida rainha amava outra pessoa.

Não adiantava sofrer por isso agora. No fim das contas, ele ficaria sozinho novamente. Ele continuava incapaz de fazer uma mulher feliz.

Caspian ficou temeroso ao ouvir boatos sobre o estado de saúde de Lady Susan. Seu maior receio é que todos os rumores não passassem de um engodo para esconder uma ordem do Grande Rei. O telmarino tinha todos os motivos do mundo para acreditar que Peter a mantinha sobre prisão domiciliar e a estava mantendo trancafiada em seus aposentos, apenas para não correr o risco de ver sua amante fugindo com outro homem.

Lorde Sopespian insistiu que os boatos pareciam verdadeiros e até mesmo Peter estava preocupado com a saúde de Lady Susan, mas ele se recusava a acreditar. Não fazia diferença de qualquer maneira. Ela não o procurou na noite passada para que ele pudesse dizer a ela os detalhes do plano de fuga, nem mesmo quando ele sugeriu um casamento secreto.

Talvez ela já tivesse decidido. Talvez ela estivesse realmente destinada a se sentar no trono de Nárnia.

Ela ainda não sabia o que fazer. Pensou que Aslam tivesse as respostas para seus problemas, mas no fim das contas a escolha ainda estava nas mãos dela. Escolhas não eram uma benção. Eram maldições disfarçadas.

Sabia que seus pais estavam mortos e não havia mais nada esperando por ela em seu mundo. Não haviam parentes que a quisessem bem, nem amigos que a ajudassem, todos já tinham muitos problemas por causa da guerra.

Se ela voltasse havia uma boa chance de que eventualmente acabasse morrendo num bombardeio, ou passasse fome por não ter condições de se sustentar, ou até mesmo poderia ser mandada para um orfanato. Nada disso tornava a opção atraente, mesmo que seu mundo fosse em tese o lugar que ela mais amava.

Havia Caspian e suas promessas de liberdade. Ele havia dado sua palavra de que não a forçaria a um relacionamento, se ela não quisesse, e ainda assim a protegeria. De algum modo ela duvidava de tamanha generosidade e ainda que se casasse com ele, ou se tornassem amantes, ela ainda teria dificuldades em acreditar naquele homem charmoso.

Não sabia nada a respeito de Caspian além do fato dele ser viúvo e ter um filho apenas dois anos mais jovem que ela. Isso não parecia correto e ela não acreditava que o príncipe Edmund nutria por ela qualquer simpatia. Levando em consideração que ao escolher o telmarino ela poderia estar levando a guerra consigo, Susan estava certa de que Caspian seria o único apoio do qual ela disporia e isso era muito pouco para garantir sua segurança numa corte estranha.

E ainda havia Lucy... Susan havia se afeiçoado a ela. Gostava da princesa e não queria deixá-la em Nárnia, sem saber que Peter tiraria da cabeça aquela idéia absurda de casar a filha com qualquer príncipe que lhe oferecesse uma vantagem política, principalmente quando Lucy ainda era tão jovem.

Além de tudo isso, havia Peter e suas expectativas arruinadas. No momento ele parecia disposto a se redimir por seu autoritarismo, mas ela tinha receio de que a guerra se tornasse inevitável por causa do incidente. Ele parecia perdido no meio de tantos acontecimentos, quase tão perdido quanto ela.

Ela o detestou por sua arrogância em achar que tinha qualquer poder sobre a vida dela. Ela o repudiou por tentar comprar seus favores com jóias e roupas caras. Ela o afastou porque não queria admitir que ele a faria ceder. Agora ela já não sabia mais se estava segura de que todas essas primeiras opiniões estavam certas.

Tanto ela, quanto ele, eram pessoas solitárias, tentando fazer a coisa certa.

Ela se levantou da cama e lavou o rosto. Tocou o sino para que alguém viesse atendê-la e logo Ananda apareceu seguida de outras duas damas. Susan respirou fundo. Era hora de decidir o que fazer da própria vida e independente da escolha, como Convidada Real, ela precisava estar apresentável diante da corte naquele dia.

Ajudaram-na a trocar de roupa. Prenderam o cabelo. Disfarçaram os olhos inchados e realçaram sua palidez. Pintaram seus lábios. Colocaram-lhe jóias. Agasalharam-na com um casaco de pele de lobo cinza, luvas, estola e um chapéu emplumado.

Foi desta maneira que ela deixou seus aposentos em direção ao pequeno cabriolé puxado por dois cavalos, em direção ao porto, onde a família real de Nárnia se despediria da família real de Telmar.

Seria desta maneira que ela comunicaria sua decisão.

Peter ajudou sua filha a descer da carruagem e encarou Caspian, que estava próximo a rampa que dava acesso ao Peregrino da Alvorada. O navio estava sendo carregado com o que restava da bagagem, enquanto a maior parte da tripulação se preparava para zarpar.

Os ânimos de ambos os reis ainda não haviam se acalmado e pairava o desconforto entre toda corte. Edmund ainda fazia um esforço para ser simpático com o Grande Rei e Peter desconfiava que o príncipe estivesse muito mais interessado na manutenção do acordo do que o próprio rei. Talvez o rapaz estivesse de fato interessado em sua filha e ele não tinha muita certeza se gostava da idéia de ter um genro telmarino, pelo menos não naquele momento.

Lucy havia perguntado por Susan ao longo do caminho e ele não soube o que responder. Diante da filha ele encolheu os ombros e admitiu que talvez a querida Lady Susan não gostasse dele, ao ponto de aceitar ser sua esposa. A princesa pareceu decepcionada com a resposta, mas logo sugeriu que talvez sua amiga Susan só precisasse de um pouco de tempo para se acostumar com a idéia. Peter sorriu sem grande animo diante do otimismo da filha.

Ele e Caspian não trocaram palavras naquele meio tempo, nem pretendiam dizer um ao outro mais do que o exigido pela etiqueta. Enquanto não houvesse uma decisão de Susan, permaneceriam daquela maneira, inimigos jurados.

O sol estava quase se pondo no horizonte e o Peregrino da Alvorada já estava carregado e com toda tripulação a bordo. Peter contava os minutos para que o navio partisse quando o som do trote de cavalos soou em seus ouvidos. Ele se virou para ver do que se tratava e teve a inesperada surpresa de encontrar Susan descendo de um pequeno cabriolé, devidamente vestida para um entardecer frio como aquele.

Peter correu até ela para ajudá-la a descer do veículo. Os olhos de Caspian observaram tudo com extrema curiosidade e uma pitada de esperança de que ela se juntasse a ele na viagem.

Com a ajuda do Grande Rei ela caminhou até a rampa do navio onde Caspian aguardava com uma expressão solene no rosto. Peter não disse nada, nem mesmo fez qualquer movimento para tentar impedi-la de falar com o outro rei.

Caspian segurou a mão enluvada de Susan e a levou aos lábios num sinal de educação. Ela o encarou nos olhos e sorriu tentando parecer simpática.

- Fico feliz em ver que madame está bem. – ele disse de forma educada. Peter mantinha os olhos atentos.

- Apenas um contratempo. – ela disse séria – Notícias ruins.

- Espero que no futuro receba apenas notícias alegres. – ele disse solicito.

- Assim espero. – ela respondeu educada.

- Talvez devesse fazer uma viagem por mar, é uma boa forma de espairecer. – ele disse de forma sugestiva. Peter cerrou os punhos, mas manteve-se calado, apenas esperando a reação de Susan.

- Em breve, creio eu. – ela disse – O Grande Rei tem planos de visitar Telmar ao final da primavera e me convidou para acompanhá-lo, mas como ainda existe a possibilidade do casamento acontecer antes disso, eu o acompanharia de qualquer maneira.

Caspian entendeu a mensagem. Ela havia feito sua escolha. Ela era Susan de Nárnia.

O rei telmarino não demonstrou qualquer sinal de decepção ou desapontamento. Foi educado diante de sua derrota e a agradeceu por sua amabilidade e hospitalidade. Dirigiu-se a Peter com palavras de otimismo e boa vontade.

Peter levou um tempo para entender o que Susan disse. Não que a frase não tenha sido perfeitamente clara, a questão é que ele estava de tal modo descrente que demorou a acreditar no que ouvia. Na verdade, ele estava tentando controlar a euforia que sentiu ao ouvir a decisão dela.

Edmund pareceu realmente aliviado. Nem tinha mais motivos para antipatizar com Lady Susan, uma vez que ela havia agido de forma tão diplomática para manter o acordo. Era uma mulher inteligente e que tinha alguma utilidade. Ele lançou um olhar satisfeito para Lucy, fazendo-a corar mais uma vez. Edmund se perguntava se algum dia deixaria de gostar de algo tão simples.

Caspian e Edmund embarcaram rumo a Telmar, deixando para trás Nárnia e sua futura rainha.

Peter ofereceu mais uma vez o braço para Lady Susan, que aceitou prontamente, enquanto Lucy segurava a mão da futura madrasta. Juntos eles voltaram para Cair Paravel, num entardecer frio que anunciava a chegada da primavera.

Quando chegaram novamente ao palácio, Susan seguiu para seus aposentos e ignorou completamente o fato de Peter segui-la como uma sombra. Ao entra no apartamento ele deu ordens aos guardas para que não fossem perturbados.

Ela retirou o chapéu emplumado que usava e o colocou sobre uma cadeira. Desabotoou o casaco e o deixou de lado. Respirou fundo, sentia-se exausta.

Peter apenas a observou e eventualmente a ajudou com as roupas de frio. Estava ansioso por uma palavra, um gesto de afeição, uma satisfação pela escolha. Queria qualquer coisa dela, qualquer justificativa, qualquer explicação, mas já estava tão satisfeito por ter uma chance que nem mesmo ousou quebrar o silêncio.

Ela se sentou na cama e o encarou nos olhos. Ele parecia tão bonito agora quanto pareceu na primeira vez que o viu na casa do Senhor Tumnus. Na ocasião ele pareceu um homem colossal, agora estava muito mais próximo de um rapaz que mal havia deixado de ser uma criança. Tinha vinte e cinco anos, mas em seus olhos havia algo, uma doçura que não condizia com tudo o que viu e ouviu a respeito dele.

- Estava falando sério quando dispensou Caspian daquela maneira? – ele finalmente teve coragem para perguntar – Sabe que poderia ir ao encontro dele em três meses.

- E dar a Nárnia um motivo para ir à guerra? Não sou tão leviana a este ponto. – ela disse séria – Peter se ajoelhou diante dela e segurou-lhe as mãos com um toque de angustia.

- Mas não é o que você quer, é? Ficar aqui não é o que a faria feliz. – ele a encarou nos olhos.

- Diante de todas as opções que me restaram, ficar aqui não parece algo ruim. – ela disse simpática – Hoje meu coração lamenta a perda dos meus pais, hoje eu lamento porque Susan Pevensie também morreu numa guerra que abalou o mundo dela. Hoje eu não sou ninguém, amanhã eu serei Susan e por sua promessa eu serei rainha de Nárnia.

- Só se isso te fizer feliz. – ele beijou as mãos dela – Por favor, madame. Me diga como fazê-la feliz.

- Eu não quero ficar sozinha essa noite. – ela murmurou.

Peter se levantou do chão para sentar-se ao lado dela na cama. Ele a abraçou forte e permitiu que Susan escondesse o rosto na curva do pescoço dele. Ela retribuiu o abraço, seus olhos voltaram a permitir que as lágrimas corressem.

Dormiram juntos naquela noite, apenas abraçados até que Susan se rendesse ao sono exausto regado a lágrimas. Ela se sentiu segura e tão feliz quanto a situação lhe permitia. Ele se sentiu completo pela primeira vez.

Nota da Autora: Isso foi um parto natural de quadrigêmeos, na roça, sem luz elétrica e sem anestesia, pra no final eu olhar pro trabalho e falar "Vc jura que eu fiz uma droga dessas?" Não, eu não gostei. Eu to contrariada com o capitulo pq não importava como eu escrevesse, simplesmente não ficaria bom. Se vocês discordarem de mim, eu vou ficar feliz de saber que, se concordarem comigo, eu tmbm ficarei feliz. Então clica no botão verde ali em baixo e dá a sua opinião.

Bjux

Bee