O Desfecho de um acordo
Ele olhou para o horizonte através da janela de sua sala de estudos pelo que deveria ser a milésima vez em apenas meia hora. Morreria negando, mas estava ansioso além da imaginação. Não bastava ter sido nomeado regente durante uma das infinitas expedições marítimas do pai, ele agora teria que lidar com toda pressão de manter o Estado em ordem e dar seguimento aos preparativos para o...
Estava evitando pensar na palavra só para se poupar de ataque de pânico, mas era o que aconteceria cedo ou tarde.
Depois de cinco anos finalmente aconteceria, mesmo depois de todo estresse durante as negociações. O Grande Rei Peter havia imposto todo tipo de dificuldade. Edmund tinha esperanças que depois de Nárnia ganhar, não um, mas dois príncipes, Peter acabaria deixando de lado suas reticências em relação à união com Telmar, mas isso nunca aconteceria.
De qualquer forma, eles deviam à rainha Susan o sucesso do tratado. Foi ela quem interveio, mantendo em mente que uma guerra não era algo desejável para nenhum dos lados. Aparentemente, a rainha se decidiu pelo acordo ao constatar que Lucy não se incomodava com a idéia do casamento e até mesmo preferia Telmar à Calormânia.
Agora ele conseguia ver as velas do navio narniano, responsável por levar a Telmar a princesa Lucy e sua comitiva real. Dali em diante seria apenas uma semana até que o casamento se realizasse e Edmund estava ansioso com a proximidade.
Haviam se passado quatro anos sem que ele a visse. A última vez foi quando ela visitou Telmar junto com o pai e a nova rainha, no mesmo ano em que ocorreu o incidente com Lady Susan, depois disso ele teve de se contentar com umas poucas cartas.
Lucy não era mais a herdeira imediata ao trono de Nárnia, já que agora havia dois príncipes narnianos para assumirem a obrigação. Isso a tornava uma noiva bem menos valiosa do que se fosse a única herdeira, mas o tratado ainda mantinha suas vantagens. Peter não declararia guerra a um país onde sua única filha e eterna favorita residiria.
Os planos e instruções para a cerimônia foram elaborados há três anos, quando o acordo se solidificou, o que deixava pouca coisa para ele se preocupar. Caspian esperava que seu filho inspecionasse tudo nos mínimos detalhes e cuidasse para que a princesa se sentisse em casa. O que não significava que a ausência do rei fosse menos ofensiva a noiva.
O pai havia adotado este hábito estranho de patrulhar o território marítimo, o que causava grande estresse aos conselheiros. O fato do casamento estar para acontecer trazia alguma esperança de paz de espírito, já que Edmund teria uma esposa e com um pouco de sorte logo teria seus próprios herdeiros.
Decidiu que os papeis sobre a mesa poderiam esperar. O navio estaria aportando dentro de meia hora e ao final da noite ele tinha esperanças de estar na companhia dela. Seu único desejo era que Lucy continuasse sendo a garota simpática e sorridente, que usava fitinhas coloridas no cabelo e corava quando provocada. Ele estava especialmente interessado na ultima parte.
Foi algo que o marcou na adolescência. A forma como as bochechas dela ganhavam um tom peculiar de rosa e lembravam-no de um pêssego maduro numa tarde de primavera. Ela era uma garotinha cheia de vida e risos na época, incentivada em suas demonstrações de carinho e amabilidade por uma corte brilhante no ensolarado país de Nárnia.
A corte de Telmar era muito mais austera e severa, em especial com as noivas que ingressavam para a família real. Sua mãe havia sido uma mulher de rosto severo e moral elevada, com uma postura digna e exemplar, mas estava sempre disposta a sorrir de um jeito encantador e caloroso para ele. A antiga rainha gostava de diversões amenas como poesia e musica, mas Edmund duvidava que sua futura esposa se contentaria com tão pouco.
Por isso ele havia cuidado de preparar uma série de banquetes e bailes de todos os tipos para recebê-la. Queria que ela desfrutasse de prazeres menos severos e mais condizentes com sua pouca idade. Ele não era um rei ainda, por tanto ela não precisava seguir a rotina rígida de uma rainha telmarina.
Contanto que ela fosse fiel a ele e soubesse se comportar com dignidade, ele estava disposto a ser indulgente com suas vontades. Não queria admitir, mas estava feliz por reencontrá-la.
Ele deixou a sala de estudos e foi para seus aposentos se trocar para a solenidade de recepção. Havia escolhido como presente de boas vindas uma bela égua puro sangue, que chamou de La Rose. Ele não se lembrava de ver a princesa cavalgando, mas esperava que ela gostasse do presente.
Barbeou-se sozinho, como gostava de fazer. Tomou banho, vestiu suas roupas meticulosamente escolhidas em tons de azul, dourado e preto, cores de um príncipe telmarino. Olhou-se uma ultima vez no espelho e decidiu que estava satisfeito com sua própria imagem de um jovem nobre de dezoito anos.
Enquanto isso Lucy desembarcava no porto de Telmar. Os súditos que se aglomeravam ao longo do porto, na esperança de conseguir um relance da jovem princesa, ficaram surpresos ao constatar que seu rosto parecia muito mais pálida do que o aconselhável. As mãos estavam tremulas e ela precisava do apoio de uma das damas de companhia para descer a rampa até terra firme.
Com um grande alívio Lucy colocou os pés no chão pela primeira vez em duas semanas dentro daquele barco maldito. Odiava viagens por mar, odiava o balanço da embarcação e o cheiro da maresia lhe provocava náuseas. De todos os países, ela escolheu Telmar por causa de uma promessa vã de um príncipe que ela mal conhecia, mas tinha um carisma capaz de atiçar sua curiosidade quando ela ainda tinha dez anos.
Gostaria de dar um soco na cara do prepotente príncipe Edmund agora, simplesmente por obrigá-la a fazer essa viagem por mar. Tinha esperanças de encontrá-lo e mostrar a ele o seu melhor, mas com o aspecto nauseado que ela tinha naquele momento seria difícil.
Alguns nobres a receberam para dar a ela as boas vindas. Alguns lhe garantiram que dentro de alguns minutos ela estaria bem mais corada e disposta. Lucy preferiu acreditar neles, mesmo que seu estomago dissesse o contrário.
Além de tudo isso, ela estava com medo do que sua nova vida lhe reservava. Em Nárnia ela havia deixado seu pai, sua querida madrasta e seus dois irmãos menores, para seguir em direção a um país estranho.
Susan havia tido tanto cuidado com ela, tentando se assegurar de que era isso que Lucy queria, que a princesa não podia ter por ela outro sentimento se não gratidão. A rainha fazia seu pai feliz e tratava ela com todo carinho do mundo, mesmo que ela não fosse sua filha legitima. Até o ultimo momento, Susan cuidou para que tudo fosse minuciosamente arranjado para que a primeira princesa não sentisse tanta falta de casa.
Músicos, mágicos e damas de companhia, seu jogo de xadrez e seu baralho, livros, gravuras e materiais de pintura, tudo aquilo que Lucy adorava fazer para passar o tempo. Ela só não pode levar Philip, o cavalo falante que concedia a ela a honra de cavalgá-lo. Tudo isso havia sido providenciado por Susan.
Agora ela devia se preparar para encontrar o noivo em um banquete de boas vindas. O rei Caspian X não estaria presente, devido a mais uma de suas expedições marítimas. Edmund era príncipe regente há quase dois anos e para todos os efeitos agia como um bom governante na ausência do pai. Ela entendeu que era esperado que se vissem pouco, mesmo depois do casamento, o que daria a ela muito tempo a sós com suas damas de companhia e uma sensação de solidão constante. Não tinha amigos ali, tão pouco teria os cuidados do pai e da madrasta. Lucy estaria só pela primeira vez na vida.
Levaram-na aos aposentos preparados para recebê-la até o casamento e ela acreditava que aqueles permaneceriam sendo seus aposentos maior parte do tempo, a menos que ele requisitasse a presença dela. Era algo comum aos casamentos reais por acordo, apenas seu pai e Susan dividiam um mesmo quarto, por determinação do Grande Rei.
Ela não imaginava Edmund decretando qualquer coisa do tipo, o que em partes era um alívio tremendo. Ela não sabia como ele estaria depois de quatro anos sem vê-lo, provavelmente continuava sendo irritante. Um irritante carismático.
Lavaram-na e a vestiram com um vestido vermelho escuro, com detalhes dourados. As jóias eram discretas e o cabelo estava preso com uma fita larga de veludo. No pescoço o pingente em forma de laço parecia solitário.
Conduziram-na até as portas do salão onde o banquete aconteceria. Ela foi anunciada pelo arauto e logo as portas foram abertas, dando passagem a ela e suas damas de companhia. Ela ergueu a cabeça, encarou seu futuro de frente, aguardando por ela de pé no final do salão. Edmund a encarava também e era por isso que o coração da princesa parecia cavalgar dentro do peito.
Ele era um rapaz lindo...
Edmund escondeu as mãos atrás do corpo para evitar que elas denunciassem seu nervosismo quando Lucy foi anunciada. Encarou-a esperando encontrar qualquer semelhança com a garotinha que uma vez o deixou intrigado.
Havia uma garota jovem, usando vestido vermelho e com cabelo preso por uma fita de veludo larga. Ela tinha um rosto arredondado, com olhos brilhantes e um pouco assustados. A boca tinha lábios cheios e avermelhados, realçados pela pele clara. As bochechas coraram diante da análise dele e Edmund notou que ela usava no pescoço o pingente que pertenceu à antiga rainha telmarina.
Não era a garotinha adorável que ele se lembrava. Era a jovem mais bonita que ela já tinha visto.
Ela caminhou até ele e como mandava sua boa educação ela fez uma reverencia elegante. Edmund segurou a mão dela e a beijou em sinal de respeito, enquanto a conduzia diante da corte até o assento preparado para ela ao seu lado.
Sentiu-se nervoso e não conseguia pensar no que dizer a ela. O silêncio pairou de forma constrangedora até que ele se lembrasse de que deveria estar interessado em saber como ela estava e se a viagem foi tranqüila.
- Fico feliz em ver que parece disposta. – ele disse de forma solene – Receava que a viagem por mar a deixasse demasiado cansada para comparecer ao banquete.
- Não diria cansada, mas nauseada com certeza. – ela disse, tentando parecer relaxada. Ele conteve o riso.
- Me lembro bem da última vez que recebi sua visita. A reclamação foi a mesma. – ele disse num tom mais leve – Só não sei dizer quem estava mais mareada. Provavelmente era Sua Majestade, a Grande Rainha.
- A rainha, com toda certeza. – Lucy disse rindo – Já havia um príncipe a caminho e ela não fazia a menor idéia do porque estava sentindo tantos enjôos.
- Não te incomoda o fato de que não é mais a herdeira do trono? – ele perguntou, tentando não parecer rude.
- Nem um pouco. Não me via capaz de governar Nárnia. Deixarei isso para meu irmão. – ela disse sem denotar qualquer sinal de falsidade.
- Estou feliz que esteja aqui. – ele disse encarando a corte diante dele – Mais feliz ainda por vê-la usando o pingente.
- Eu disse que usaria. – ela respondeu encarando o mar de rostos que observava o jovem casal.
- É seu, até que venham nossas filhas. – ele a provocou só para ter certeza de que as bochechas ganhariam a cor tão desejada e Lucy não o decepcionou.
- Você continua impossível. – ela disse constrangida – Isso não é hora pra falar esse tipo de coisa.
- Estaremos casados em uma semana. Acho perfeitamente adequado. – ele disse sorrindo sugestivamente para ela. A mão dele decidiu ousar e discretamente segurar a dela.
Os olhos de Lucy se arregalaram diante do súbito contato e um arrepio percorreu sua espinha. Ela se lembrou de todas as vezes que ele havia lhe roubado beijos quando ela ainda tinha dez anos e ele queria provocá-la diante de toda corte. Algumas coisas não haviam mudado.
Músicos começaram a tocar e ela teve um momento para se distrair e evitar outras cenas constrangedoras. Ela sabia que ele estava ostentando um sorriso satisfeito no rosto enquanto Lucy sentia-se acuada.
E se ele insistisse em dividir o quarto com ela? O que ela deveria fazer?
Ele a convidou para dançar e o casal se exibiu para toda corte com grande competência. Ele a incentivou a dançar com suas damas e também com outros nobres presentes. Ofereceu vinho e doces variados a ela e cuidou para que um grande número de artistas a mantivessem entretida.
Os comentários que ela ouvia diziam que nunca a corte foi tão divertida e movimentada como naquela noite e que Edmund havia cuidado de cada detalhe pessoalmente para tornar a recepção memorável. Com a aprovação do pai, ele agora investia em escolas de musica e artes, estava se tornando um mecenas de peso. Tudo para tornar a corte um bom lugar para se viver.
A noite foi longa e exaustiva. Tudo o que Lucy queria era poder descansar por algumas horas e não ter que pensar em todas as pessoas que ela deveria agradar. Edmund não fez objeções à retirada dela.
Ela estava desconcertada com toda atenção que estava recebendo e ainda mais desconcertada por saber que aquela corte vibrante não era a verdadeira face de Telmar. Durante toda sua vida ela ouviu histórias para se preparar para o cumprimento do acordo. A corte telmarina era conhecida por sua sobriedade e tradicionalismo.
Sabia que Caspian X era um visionário em muitos aspectos, mas nunca ouviu dizer que ele tivesse tomado qualquer providência para que as tradições fossem postas de lado. Ela tinha a nítida impressão de que Edmund era o responsável por tudo aquilo. Por tornar aquele castelo o mais parecido possível com Cair Paravel, o lugar que ela mais amava.
Na manhã seguinte Edmund chamou por ela e Lucy foi escoltada até os estábulos logo cedo.
Ele estava usando roupas de montaria, luvas de couro e um chapéu de veludo verde. Ele teve a feliz idéia de sugerir às damas da princesa que a vestissem de forma apropriada para uma cavalgada e por tanto Lucy estava bem vestida para atividades ao ar livre.
Ele sorriu quando ela se aproximou e fez sinal para um dos cavalariços trazer um esplêndido animal de cor amarelada. Uma égua de puro sangue, com uma bela sela e arreios de prata.
- O que acha dela? – Edmund perguntou confiante.
- Esplêndida. É um animal lindo. – Lucy disse entusiasmada – É mansa?
- Perfeitamente. – ele disse sorrindo – La Rose tem bom temperamento e foi bem treinada. É uma égua de caça, mas é veloz o bastante para uma corrida, se devidamente instigada.
Lucy acariciou o focinho da égua com carinho. Edmund se sentiu confiante diante da empatia entre a princesa e o animal. Seria um bom presente no fim das contas.
- Gosta dela? – ele perguntou repetindo o gesto da princesa e acariciando a égua.
- É linda e muito educada. Não é mesmo, La Rose? – a égua bufou, como se concordasse com a princesa.
- Ela é sua. – ele disse calmo. Lucy o encarou surpresa – Seu presente de boas vindas.
- Eu não sei o que dizer. – Lucy disse rindo sem graça – Muito obrigada, ela é adorável.
- Acho que sei como pode demonstrar sua gratidão pelo presente. – Edmund disse de maneira sugestiva. Ele acariciou o rosto de Lucy com sua mão enluvada e a princesa fechou os olhos instintivamente – Eu queria tê-la beijado ontem, senhora. – ele sussurrou com a forma de tratamento peculiar aos narnianos.
- Não seria adequado. – ela disse sem muita convicção.
- Eu não me importo com protocolos. – ele respondeu e pousou seus lábios sobre os dela, segurando Lucy pela nuca para que não se afastasse dele.
Ela tentou resistir ao beijo, mas ele sabia ser persuasivo o bastante. Com um pouco de insistência a boca dela deu passagem a língua dele e o beijo se aprofundou. Os braços dele a envolveram e ela permitiu que suas próprias mãos deslizassem pelo cabelo escuro dele.
Não era a primeira vez que se beijavam, mas era a primeira vez que ele a beijava daquela maneira. Edmund buscava algo dentro dela, algo que nem mesmo Lucy poderia dizer o que era. Em algum lugar as damas deveriam estar presenciando tudo, olhando-a com reprovação e um certo divertimento.
Ele parou o beijo e a encarou diretamente nos olhos. Sorriu ao ver que ela estava corada, exatamente como ele gostava. Ajudou Lucy a subir no cavalo e então montou seu próprio animal. Cavalgaram por toda propriedade onde o castelo estava situado.
Lucy não esperava dispor de tanto tempo na companhia de Edmund. Ao longo de toda semana, ele dedicou a ela pelo menos uma hora de seu dia turbulento. Enquanto estavam juntos conversavam sobre a corte, as preferências dela, as preferências dele, jogavam cartas, e xadrez. Todas as noites havia um novo banquete, sempre com uma variedade generosa de artistas para entreter toda corte. E assim ela mal percebeu quando estavam às vésperas do casamento.
Com a súbita proximidade da cerimônia, ela começou a se preocupar com o que faria na noite de núpcias...
Ele tentou beijá-la outras vezes durante aquela semana. Aparentemente a idéia de se casar com ela não era algo desagradável ao príncipe regente. Edmund encarava tudo como uma grande brincadeira, ou pelo menos era essa a imagem que ele passava. Lucy estava nervosa além da imaginação e nem mesmo a rainha Susan tinha sido um consolo quando conversaram a respeito, antes da princesa deixar Nárnia.
Susan estava com o filho mais novo nos braços. O príncipe Arthur estava cochilando enquanto a rainha e Lucy conversavam. Lucy levou um tempo para entender que Susan não havia gostado do Grande Rei imediatamente. Como a madrasta havia explicado, no início tudo era regido pelas vontades de Peter e ela havia sofrido bastante até decidir permanecer em Nárnia.
Na ocasião o Grande Rei havia praticamente imposto sua presença, e levado Susan para a cama sem muita atenção a vontade dela. A preocupação de Lucy é que Edmund pudesse agir da mesma maneira.
Eles estariam casados e o príncipe estaria apenas exercendo um direito.
Ela encarou o vestido sobre a cama, esperando para que ela o vestisse e ostentasse o branco impecável diante de toda corte, juntamente com o buque de flores silvestres e as jóias da coroa de Telmar.
Edmund esperava pela princesa diante do altar. Após caminhar em um cortejo pelas principais ruas da capital, seguido pelos homens mais importantes do governo, ele tinha de esperar pela chegada da noiva. Lucy faria o mesmo que ele. Era uma tradição estúpida, mas o povo tinha o direito de conhecer a futura rainha de Telmar.
Não queria admitir, mas estava nervoso. Sabia que ela não desistiria, nem mesmo tinha como fazer isso, mas estava inseguro quanto ao que fazer quando fossem de fato casados.
Talvez ela não entendesse ao certo os motivos dele. O próprio príncipe teve dificuldades para assimilar o fato de que havia uma razão muito mais egoísta para desejar o casamento. Cinco anos atrás ela era uma criança e ele queria a segurança de ao menos saber quem seria sua prometida. Hoje ela era uma jovem bonita, tão adorável quanto sempre foi. Hoje ele a queria como a jovem mulher que ela havia se tornado.
O primeiro empecilho aos planos dele era a forma como ela evitava qualquer contato toda vez que ele tentava demonstrar alguma afeição por ela. O segundo é que tinha suas duvidas se ela aceitaria dividir a cama com ele.
Ele foi informado daquele comportamento peculiar adotado pelos monarcas de Nárnia e pensou que talvez ele e sua noiva pudessem se entender melhor daquela maneira. Não havia mais tempo para pensar a respeito. Lucy estava caminhando em sua direção com o rosto encoberto por um véu translucido, atraindo os olhares de todos em sua direção. Deixando Edmund sem palavras coerentes para serem ditas.
Ele a segurou pela mão e então se ajoelharam, juntos. O sacerdote ignorou a recomendação do príncipe regente e optou por uma cerimônia pomposa e muito mais longa que o esperado. Edmund pensou que talvez pudesse mandar o sacerdote para alguma província pobre do interior depois de um ato de insubordinação deste nível, mas Lucy parecia tão nervosa ao lado do príncipe que ele acabou decidindo que uma cerimônia longa colocaria os nervos no lugar.
Trocaram as alianças e foram proclamados marido e mulher.
Por toda cidade os sinos tocaram, anunciando que o tão esperado acordo de paz havia sido selado após muitas idas e vindas. Fontes jorravam vinho e hidromel, artistas se exibiam pelas ruas, pães eram distribuídos aos pobres e o país celebrava.
Dentro do castelo o baile e o banquete deram seqüência à cerimônia. Edmund e Lucy agora desfilavam entre os convidados como os futuros monarcas de Telmar. Para ele era a concretização de uma promessa que havia feito a uma garotinha de dez anos que o deixou fascinado. Para ela era um salto no escuro com um rapaz que ela mal conhecia. De qualquer maneira, era um começo para os dois.
Deixaram a corte para traz, acompanhados por um pequeno grupo de criados que se ocupariam de prepará-los para a noite. Lucy tremia e mal conseguia desgrudar os olhos dos próprios pés. Edmund tentava manter a serenidade, não era uma coisa fácil de qualquer maneira.
Separaram-se apenas por alguns minutos, até que estivessem devidamente vestidos para a cama. Quando Edmund entrou em seus aposentos, encontrou Lucy deitada a cama, estática, como um cadáver.
Sentou-se ao lado dela. Esperava que Lucy se dignasse a encará-lo, mas ela não fez isso. Ele queria poder dizer que não sabia exatamente o que se passava entre homem e mulher, mas essa era uma das lições que aprendeu ao longo da adolescência, por insistência dos nobres do reino. O mesmo não se aplicava a ela e isso seria um problema.
Decidiu tocá-la. Talvez um pequeno gesto bastasse para que ela se sentisse a vontade ao lado dele. Tocou o braço encoberto pela manga longa da camisola dela e o que conseguiu foi que Lucy se encolhesse ainda mais.
- Eu não vou machucar você. – ele disse com calma – Espero que saiba disso.
- Eu não sei se posso fazer isso. – ela disse num tom tremulo de voz. Ele não conteve o riso baixo.
- Bobagem. – ele disse sorrindo para encorajá-la – Estamos casados agora e supostamente essa será uma parte bem relevante das nossas vidas.
- Quão relevante? – o temor na voz dela era inegável.
- Isso depende, eu imagino. – ele acariciou a bochecha dela – Depende de como lidaremos um com o outro. Por que tem tanto medo de mim?
- Eu não tenho... – soou como uma mentira falha.
- Sempre pensei em você como algo que eu deveria cuidar pelo resto da vida. – ele sussurrou – Às vezes pensava que seria um fardo, hoje penso que é uma honra. Acho que você sabe o que quero dizer.
- O que? – ela o encarou nos olhos.
- Eu gosto de você. – ele roçou os lábios contra os dela – Gosto há cinco anos. Você usava fitinhas no cabelo, você revidava minhas provocações, você corava toda vez que eu tentava te beijar. Você é tão vibrante e alegre, eu nunca conheci ninguém assim. Telmar é escura e triste, mas com você por perto todos os dias são ensolarados.
- Você não se cansa de me provocar. – ela resmungou. Ele beijou a bochecha dela, descendo lentamente pelo pescoço esguio de Lucy. Ela fechava os olhos, respirava com dificuldade. Ele ria rouco contra a pele dela. Ele gostava de provocá-la.
- Você não gosta de mim. – ele disse numa constatação. Suas mãos espertas desatavam o laço da camisola dela – Sei que não gosta de mim. Por que?
- Você é... – a língua dele varreu a coerência dela, quando tocou o lóbulo da orelha. Dentes raspavam a pele sensível, lábios envolviam com cuidado – Impossível.
- Eu sou. – ele sussurrou rouco – Impossível...Debochado... – as mãos dele afastavam a camisola dela, revelando o ombro e o vale dos seios – Tenho um temperamento ruim também. – ela arfou à medida que a boca dele descia até sua clavícula – E você aceitou minha proposta a cinco anos.
- Você sabe... – ela não conseguiu terminar a frase. A boca encobria o mamilo rosado, a língua o contornava...Uma sucção forte a fez gemer alto.
- Sei o que? – ele continuava provocando-a. Suspendeu a barra da camisola, deslizou as mãos para sentir a textura da pele.
- Ser encantador. – ela admitiu com dificuldade. Ele lançou a ela um sorriso antes de voltar suas atenções para a boca dela e beijá-la sem qualquer ressalva.
As mãos dela se perderam nos cabelos negros dele. Edmund colou o corpo ao dela, sentindo-o se moldar ao seu como duas partes de um todo. Lucy fechou os olhos num ato instintivo enquanto a boca dele se ocupava da dela, provocando-a como era costume dele fazer sempre que tinha a oportunidade.
- Me abrace... – ele sussurrou ao ouvido dela e Lucy fez o que ele havia pedido.
As mãos dele buscavam expor o corpo dela, buscavam provocar arrepios e gemidos de deleite. As unhas dela arranhavam as costas dele por cima da camisa de dormir. Estranhamente, ela precisava sentir a pele dele, tocá-lo e saber que era de carne e osso, saber que era Edmund quem a abraçava.
Ele atendeu ao desejo dela e retirou a camisa de dormir. O rosto afogueado dela parecia constrangido por observá-lo nu e Edmund riu. Adorava a forma inocente como ela o encarava, achava fascinante ter algo tão puro e bom e sua vida.
Abraços, beijos, toques, sussurros e gemidos ronronados. Cada som, cada reação, demonstrava a forma como ela se entregava. Havia esperado por aquele momento com toda ansiedade do mundo e agora a tinha em seus braços. Sua jovem esposa o esperava com olhos inseguros e cheia de receios. Era seu dever fazer com que ela apreciasse aquilo.
Lucy sabia o que estava por vir. Haveria dor, mas desapareceria depois de algum tempo. Susan comentou que era algo prazeroso quando o parceiro dava atenção ao outro, pequenos sinais deixados como pistas ao longo do caminho. Ela esperava que Edmund soubesse perceber esses sinais.
Num ultimo momento ele parou para encará-la. Arfava e suor brotava de sua testa. Cabelo desordenado e olhos em chamas. Não saberia explicar, mas ele nunca pareceu tão masculino, nem tão atraente. Ele a beijou de uma forma desesperada mais uma vez e a medida que o beijo se intensificava, Edmund a penetrava.
Ela fechou os olhos com força e arranhou as costas dele. Não reclamaria da dor, não daria uma única palavra. Sentiu-o por inteiro e foi como ter o ar sugado de dentro dos pulmões. Ele não se mexeu por um tempo que ela considerou uma eternidade. A respiração de ambos era difícil e então ele passou a se movimentar como uma serpente, dançando sobre ela.
Começou como uma dor que aos poucos era substituída por algo totalmente novo. Abraçá-lo era necessário, compartilhar aquele prazer que se espalhava por seu corpo em ondas era fundamental.
Em algum momento a mente dela se desconectou e pela primeira vez ela sentiu todo seu corpo se contrair em espasmos musculares e o mundo acabar ao seu redor de uma única vez. Não sabia dizer com certeza, mas ela achava que ele havia sentido o mesmo.
Edmund desabou ao lado dela e alguns segundos depois a puxou para um abraço. Beijou a testa dela e a olhou no fundo dos olhos anuviados pelo prazer. Ele sorria satisfeito e ela tinha no rosto o semblante de quem vê o paraíso.
- Eu gostaria que dividisse o quarto comigo. – ele sussurrou – Talvez pareça estranho, talvez não se sinta confortável com isso, mas eu esperei cinco anos por você. Não vejo sentido em mantê-la longe.
- Posso conviver com isso. – ela disse de uma forma sonolenta e sonhadora.
- Boa noite, querida. – ele disse enquanto acariciava o rosto dela.
- Boa noite, querido. – ela respondeu fechando os olhos.
Foi a primeira vez que dormiram e acordaram juntos. Nos anos que se seguiram eles mantiveram a paz entre duas poderosas nações.
Apenas onze meses após a celebração do casamento e o cumprimento do acordo, nasceu em Telmar o neto de Caspian X. O reino celebrou o nascimento de um herdeiro, mas o príncipe regente não estava satisfeito, pelo menos não até ter uma filha para herdar o pingente em forma de laço. O problema é que depois de dez anos de casados, os pingentes se multiplicaram e ao final eram quatro, cada um adornando o pingente de uma das princesas.
Foi, de modo geral, um acordo muito vantajoso.
Nota da Autora: Eis que surge o fim da história. Acho que alguns gostariam de ver o desfecho de Peter e Susan, mas depois que ela fez sua escolha eu achei meio sem sentido fazer um capitulo totalmente final de novela só pra dizer que eles casaram e tiveram filhos e viveram felizes para sempre. Como Ed e Lu viraram preferência nacional, decidi fazer o final dedicado a eles. Gostei, achei fofo e talz. Espero que a fic tenha agradado a gregos, troianos, romanos e, futuramente, marcianos. Este é o fim. Obrigada a todas que acompanharam a história, principalmente às garotas que deixaram reviews e insistiram em me motivar. Dedico esta fic em especial à Estrela Potter e à Mariana Bec, que foram minhas maiores razões pra continuar com a história.
Bjux
Bee
