Capítulo 16 – Voldemort
Tom estava sentado numa mesa escondida, atrás de uma estante de livros na sessão de História da Magia, na biblioteca de Hogwarts, lendo um de seus livros. Estava sozinho, fazendo devidas anotações para o dever que o Professor Binns havia mandado naquele dia.
Verdade que ele não tinha dúvidas sobre a matéria nem o conteúdo, mas a simples vontade de conhecimento o fazia ter mais de três a quatro livros abertos sobre a mesa. Diferentes pontos de vista de diferentes autores. Para Tom Marvolo Riddle , isso era uma das melhores fontes de conhecimento.
Alguns dos livros, Tom havia conseguido na Sessão Proibida, após ter pedido permissão do professor. Lia o livro chamado História das Magias Tenebrosas, escrito por J.T. Hendrick. O capítulo falava sobre alguns bruxos da época e suas criações para a sociedade naquela época. Lia sobre os bruxos Anacleto H. Server, Orus Ytrio, e Shid Raines, responsáveis pela criação de vários feitiços e objetos mágicos.
"No século XII, dos anos 1150 a 1180, na atual Irlanda, Shid Raines, se interessou pelos estudos alquimicos de Paracelso. Passou mais de vinte anos, recolhendo informações e criando suas próprias teorias. Sesu amigos chegaram a acreditar que Raines poderia ser o grande bruxo a desvendar o segredo da Pedra Filosofal, a formação dos Oroboros e outras perguntas que o Mundo Bruxo tinha em mente.'
Alguns anos antes de sua morte precoce, Raines tornou-se amigo de um grande e respeitado bruxo alquimista, chamado Noctis Cetra Horcrux, proveniente da atual Roma. No entanto, Noctis provou ser um bruxo das Trevas, levando consigo Shid Raines e seus estudos.
Estima-se que Noctis Horcrux tenha vivido mais de 600 anos, ultrapassando mesmo Nicolau Flamel, o grande bruxo alquimista descobridor da Pedra Filosofal.
Raines e Horcrux usaram as leis da Magia em conjunto a Alquimia e conseguiram criar o método de comportar a alma em objetos de interesse, e assim, tornando-se imortal.
Raines, na sua tentativa, não obteve sucesso, morrendo logo em seguida. Horcrux no entanto foi capaz de sobreviver ao encantamento, denominando os objetos com partes de sua alma de Horcrux, Noctis criou o que se aceita como o método supremo da imortalidade."
Imortalidade.
Parou a leitura. Tinha mais, bem mais. Mas aquela palavra o fez estancar. Estava branco, os olhos grafites saltados, brilhantes, ansiosos; o coração batendo forte; tremendo, suando, esqueceu de ler, ouvir, sentir e tocar. Tudo que fazia era olhar aquela palavrinha quase ilegível. Imortalidade.
Imortalidade, disse baixinho, murmurando, sorrindo.
Ela era tangivel. Ela existia e poderia ser conquistada. Graças aquele bruxo chamado Noctis Horcrux, Tom Riddle poderia ser imortal. Ele poderia ser o maior bruxo que o mundo já vira. Ele poderia ultrapassar Grindewald e até mesmo Dumbledore. Ele seria o começo de uma nova era. Seria o que lideraria uma revolução.
'O quê?' Indagou Rose sem entender o que Hermione estava falando.
Hermione sentiu que suava bastante, algumas mechas de cabelos estavam pregadas na testa, no pescoço e na nuca. Uma enxaqueca tomou conta da cabeça e seus olhos ardiam. Além dos olhos, sentia algo queimar o nariz, a garganta e o peito. Uma dor suprema a envolvia por todo o corpo.
'Eu criei Voldemort. Eu o fiz ser o que é.' Ela respondeu, escondendo os olhos entre as mãos. 'Eu fui tão burra, tão ingênua. Como eu não vi isso acontecendo?'
'Hermione...' Tentou Rose. Mas Hermione nem a escutou.
'Eu.. eu estou fazendo tudo errado. É tudo culpa minha...' Ela chorou. ' Harry..Ron..o que vou fazer? Eles vão me odiar pro resto da eternidade, Rose.'
'...' Rose ficou calada, sem dizer algo. A franja do cabelo escuro lhe caiu sobre os olhos azuis.
'Harry me odiou por dois meses porque pedi a Prof. McGonagal que confiscasse a vassoura dele.' Disse com a voz fina, aguda, mergulhada no choro, 'Ron me odiou porque achou que Bichento tivesse comido o Perebas...
'Hermione...'
'Ron me odiou quando tentei ensinar a ele a fazer o Wingardium Leviosa...' Disse soltando uma lágrima do olho esquerdo. 'Harry me odiou quando falei a ele que deixasse o Livro do Príncipe Mestiço pra lá. Ron me odiou quando fui pro Baile de Inverno com Viktor... Ron tem razão...eu... eu estou sempre estou confraternizando com o inimigo...'
Um ardor se fez no rosto de Hermione e ela piscou os olhos no mesmo instante, assustada. Ela olhou para Rose e a viu com o rosto sério, os olhos azuis contorcidos, e a mão direita parecendo arder pelo tapa que dera na castanha.
'O que voc-'
'Que diabos está falando, Hermione? É assim que pretende lutar contra Riddle?`
'Lutar contra? Você ouviu o que eu disse, Rose? Eu o criei!'
'Você está só se enganando!'
'O que-'
'Você criou Voldemort? Indagou agora olhando nos olhos castanhos de Hermione. 'Você o criou? E DAÍ? Você tá aqui pra ajeitar as coisas, não é? VOCÊ TEM UMA CHANCE, NÁO TEM? Vai ficar deitada nessa cama, se castigando pelas coisas? Enfrente as coisas, Hermione! Mesmo que lhe partam a cara! Levante-se daí e vá enfrentar Voldemort. Enfrente seus amigos, enfrente Harry e Ron, e acima de tudo, enfrente você mesmo, porque se não consegue ganhar de si mesmo, de Voldemort é que não vai!'.
Hermione encarava os olhos azuis de Rose. O coração batendo forte, acelerado, como se o próprio e a mente tivessem encontrado uma harmonia. Internamente, Hermione agradecia a Rose por estar com ela. De uma forma inesperada, Rose sempre injetava um pouco de esperança, um pouco de liberdade e um pouco de determinação em Hermione. Era algo que a deixava com total vigor de seguir em frente e acabar logo com isso. De chutar o pau da barraca e mostrar a si mesmo que é capaz de fazer o que ela própria duvidava. De mostrar a Riddle que ela não perderia pra ele. Nem que ele fosse realmente o maior bruxo do mundo. Talvez seja por isso que Rose estava na Grifinória.
Calada, Hermione abaixou os olhos castanhos. 'Você não criou Voldemort, Hermione, ele sempre esteve lá.' Completou Rose de forma baixa. 'Está se odiando no lugar de seus amigos. Está colocando todo o fardo em cima dos seus ombros sobre tudo o que está fazendo e o que acontecerá. Não pode achar que tudo é culpa sua.'
'Mas se eu não estivesse aqui...'
'Teria acontecido a mesma coisa, não é? Você voltou porque aconteceu.'
'Mas...'
'HERMIONE!' Chamaram alto Leslie, Fox, Hugo e Presto, logo que entraram na Ala Hospitalar. Rose piscou os olhos e afastou-se de Hermione, limpando a garganta. Hermione piscou os olhos e virou o rosto para os outros amigos. 'Voce tá bem? Ficamos sabendo que você piorou... Como está se sentindo?' Perguntaram em uníssono.
Hermione cerrou os dentes. 'Estou... bem.' Ela respondeu sorrindo para os quatro amigos. Então, os meninos se acomodaram ao redor da cama de Hermione e passaram o tempo livre restante conversando com ela.
'Estou realmente bem.'
Biblioteca
"Noctis enumerou o que era necessário para a criação de uma Horcrux, seu procedimento de proteção, criação e mesmo sua destruição.
Como fazer:
Passo 1: Escolher um objeto qualquer para se encerrar a alma.
AVISO: não recomenda-se fazer Horcruxes em seres vivos, pois seria de sua responsabilidade o que fazer com o próprio corpo, correndo o risco da Horcrux ser destruída.
Passo 2: Matar uma pessoa. Para fazer uma Horcrux, é preciso ter alma repartida em pedaços dentro do próprio corpo. Para isso, deve-se agir contra a lei da natureza: matando. Cada vez que uma pessoa mata, sua alma vai sendo dividida.
Passo 3: Deve-se fazer o círculo alquímico da Transmutação Humana sob o objeto de escolha. Para selar a alma no objeto é necessário conjurar o feitiço 'Claudere Anima'.
Como Proteger:
Horcruxes são objetos comuns. Podem ser algo valioso com propriedades mágicas, mas ainda assim não são seres vivos e não irão defender a alma contida.A alma pode até tentar se defender entrando na mente de pessoas, mas não serão páreas para bruxos qualificados. Serão necessários feitiços de proteção ao redor da Horcrux para a alma oculta não ser destruída.
Protego Totallum :cria uma barreira invisível ao redor da Horcrux. Pode ser facilmente remediada por feitiços explosivos.
Salvio Hexia:Fará com que qualquer ser vivo perto do local enfeitiçado se esqueça do que veio fazer e volte por onde veio.
Cave Inimicum:Deixa a Horcrux invisível (só serve para objetos).
Burns Globaris: Deixa a Horcrux incandescente, fazendo queimar quem a toque.
Invictor Totallum: O feitiço de desilusão não ocultará completamente a Horcrux,mas a deixará transparente com a mesma textura e cor do meio que a envolta.
Geminio multipla: A pessoa que a tocar gerará uma reação no objeto fazendo-o se multiplicar.
Tatum horribilis:Serão conjurados, ao redor da Horcrux, animais das trevas para protegê-la quando tocada ou conjurada. Impedirá também feitiços convocatórios.
Inferius Living:Maldição dos cadáveres. O bruxo das trevas precisará de corpos a disposição para reanimá-los. Difere do Imperius pelo fato de estarem mortos.
Barricade maximilium:Uma barreira invisível é conjurada ao redor e nada irá detê-la, a não ser que o bruxo deixe algo acontecer com ela. É a maldição mais indicada e aconselhada pelo fato de não causar danos ao criador caso este se esqueça.
Blackputrid curse:A mais terrível das maldições em objetos (não funcionará se lançada diretamente a um ser vivo). Quem tocar o objeto amaldiçoado completamente à mão livre e nua certamente morrerá. A maldição se espalha a partir da parte do corpo tocada e vai se dirigindo aos órgãos vitais e aos tecidosapodrecendo-os. Sem os devidos cuidados, em cinco minutos ocorrerá morte cerebral e hemorrágica. Mesmo com os mais complexos feitiços e poções restauradoras conhecidas, o feitiço se espalhará. Não há caso registrado de quem tenha sobrevivido à maldição.
'Você não vai pra aula?' Perguntou Madame Skelter de repente. Tom piscou os olhos grafites e levantou o rosto para a bibliotecária. Ele fechou o livro que lia e o segurou forte na mãos.
'Sim, é que me entreti com este livro. Gostaria de levá-lo.' Ele disse esforçando-se para parecer normal. Estava tão ansioso, que qualquer um que visse poderia dizer que ele não estava bem.
'Sim, mas é claro que sim.' Ela disse sorrindo. Tom Riddle levantou-se da mesa, colocou a mochila sobre o ombro direito e com o livro nas mãos seguiu a bibliotecária. Ele andava devagar, sua mente havia guardado tudo o que tinha lido.
Começara a chover. O vento lá fora fustigava as árvores. O tempo estava mudando. A busca incansável pela imortalidade. Tom Riddle sabia que conseguiria. Matar? Isso não era oproblema, havia tantos que desejava ver mortos. A começar pelos trouxas lá fora, inúteis a seu ver. Depoisos sangues-ruins e mestiços. Os sangues-puros prevaleceriam. Ele seria o líder da revolta do mundo bruxo. Todos os outros iriam sucumbir a seus pés. Ele comandaria, ele faria Horcruxes e viveria para sempre. Suas mortes seriam importantes e os objetos teriam algum valor, histórico, econômico ou até mesmo familiar.
Ele tinha um objeto importante, que considerava bastante. Seu diário. Mas este estava com Mudblood. Ele precisava pegar de volta. E ele iria pegar de volta. Iria fazê-lo sua primeira Horcrux. Iria dar o primeiro passo para a eternidade.
Um sorriso apareceu no rosto de Tom Marvolo Riddle.
E havia chegado a hora...
Estava pronto para ser Lord Voldemort.
Tom Riddle caminhava pelos corredores do castelo de Hogwarts, com o livro História das Magia Tenebrosas dentro da mochila, escondida, para que nenhum aluno visse que de fato ele estava carregando consigo um livro tenebroso pertecente da sessão proibida. Escondida também era a sensação que tinha por dentro do corpo, de ansiedade, felicidade, orgulho e tenacidade, sendo coberta por uma expressão de seriedade, altivez, poder e postura.
Seus olhos grafites estavam negros, fortes, como cor de besouros pretos no meio da madrugada. O ar gélido do meio do outono o fazia refrescar-se por tempos em tempos, evitando uma ligeira suadeira. O rosto estava limpo, seco, sem um sinal de nada. Parecia que ele não pensava em nada. Em nada além de ser Voldemort.
Tom logo percebeu os alunos caminharem e seguirem cada qual para suas aulas, já que o intervalo havia terminado. Ele teria aula de Poções naquele período, mas ele sabia que Professor Slughorn não se incomodaria com um pequeno atraso. E desculpas era o que não faltavam para Tom Riddle naquele momento.
Ele seguiu caminho diverso, indo para o local onde evitara por uns dias. Local que sabia que ela estaria lá. Ouviu boatos que Mudblood havia ficado doente misteriosamente após o dia em que ela se infiltrou na Sonserina para espioná-lo e esse misteriosamente era o que lhe perturbava.
No entanto, ele a evitou. Por diversas razões a princípio. Mas agora, tinha algo que ele não podia evitar. Havia algo que ele precisava e iria pegar de volta. Ele sabia que ela lhe daria o que queria. Ele tinha como fazer ela lhe entregar seu diário.
Ele caminhava em passos lentos, sem a mínima pressa, com a certeza de que tudo daria certo. Por que haveria de dar algo errado? Tudo estava meticulosamente pronto em sua mente. Sabia bem o que teria que fazer para criar sua primeira Horcrux e dar o passo para a imortalidade e o primeiro passo para ser o melhor feiticeiro que o mundo já vira. Havia poucas chances daquilo não dá certo. E de certa forma, por mais sendo poucas, mas eram chances, isso o deixava um pouco mal. Não só pelas chances pequenas, mas porque havia somente uma pessoa que poderia atrapalhar aquilo tudo. E era justamente quem Riddle estava indo atrás.
Hermione Granger era realmente alguém a quem se inspecionar, de acordo com Riddle. Ela dizia ser de Durmstrang, embora fosse Sangue-Ruim; nascida na Alemanha, embora falasse um inglês perfeito com perfeito sotaque londrino; apenas estudando em Hogwarts por fugir da Guerra Trouxa; embora ela estivesse com os olhos atrás de Tom o tempo inteiro. Ela estava mentindo. Ele sabia. Ele sempre soube. O problema não era esse. O problema era ele não descobrir a verdade.
Nada.
Nada que ele pensava fazia sentido. Nada fazia sentido para Mudlood estar ali, em Hogwarts, perseguindo-o. No inicio, poderia se pensar em certa animosidade, mas então passara a ser pessoal. Passara a ser espionagem plena. Algo que Tom Riddle defintivamente nunca enfrentara. Nem talvez pensaria enfrentar. Não com uma reles garota de sangue imundo.
Seus dentes cerravam-se dentro da boca todas as vezes que pensava sobre aquilo. Ela era extremamente inofensiva. Era completamente sensível, temerosa e ingênua. Ainda assim, ele não conseguia descobrir o segredo dela. Ainda assim, não conseguia descobrir a verdade. Isso o deixava irritado. Não, deixava-o... impotente. Ela parecia sempre afastar-se dele quando ele queria aproximar-se dela. Ela estava sempre escorregando pelos mãos. Estava sempre um passo a frente dele. E ele não conseguia acompanhá-la. Não consiguia nem fazê-la tropeçar. Isso chegava a ser angustiante em certo ponto. Tom nunca havia se sentido daquela maneira. Tinha vontade de gritar para saber se aquele sentimento sairia de dentro dele. Tinha vontade até de matá-la, só para fazê-la parar de andar. Para parar de ficar longe dele.
E então o estômago se retorcia.
Retorcia-se a todo e qualquer momento que ele se esforçasse a pensar em como matar aquela menina. Não era a maneira de matar que fazia seu estômago retorcer. Era a simples visão dela morta. Era a visão dele a matando que o deixava enjoado.
A expressão dura e altiva de Tom logo se findou, e em seu lugar, se forjou a expressão da dúvida, incerteza, confusão e raiva. Raiva por ele não conseguir fazer o que era tão fácil. Raiva por não conseguir tirá-la da cabeça, dos dentes, do estômago ou de qualquer parte do corpo. Raiva de saber que fizera coisas por impulso, sem pensar nas suas consequencias.
'Se você sempre soube que era eu...por que então me beijou?'
Ele se perguntava aquilo a todo momento. Era algo que o estremecia a cada vez que lembrava daquilo. Tinha calafrios e tentava sempre afastar o pensamento, a memória e a voz da menina para algum outro pensamento ou memória como forma de não arrependimento. Mas aquilo retornava. E retornava causando-o maior desconforto.
Tom Riddle estancou, e chegou-se próximo a parede de pedra, encostando ali o corpo e a cabeça – deixando-a inclinada para cima- com os olhos negros fitando o céu nublado da Inglaterra. Ele respirou fundo e fechou os olhos, levando a mão direita ao rosto e tampando os olhos e boa parte do nariz entre os dedos finos.
Ele precisava urgentemente tirar aquilo da cabeça. Precisava esquecer de tudo que envolvera aquela garota Sangue-Ruim. Ele era Voldemort. Ele era o cara que lideraria a revolução. Ele não podia ter arrependimentos. Não podia ter pensamentos desconfortantes. Nem sentimentos indiscretos.
Ele precisava se recompor. Precisava recuperar a confiança que perdera há menos de um minuto quando suas lembranças o levaram a pensar na Mudblood.
Ele seria imortal. Seria melhor que Dumbledore, Grindewald e Salazar Slytherin juntos. Ele fazer-ia de Noctis Horcrux seu melhor amigo. E da eternidade, seu mestre.
Ele abriu os olhos negros e retirou a mão de cima do rosto. A cabeça ficou erguida para frente e suas pernas caminharam com força e determinação, afastando-o da parede, em direção a Ala Hospitalar.
Ala Hospitalar
Hermione ajeitou-se na cama da enfermaria, ficando sentada, encostando-se nas barras de ferro que serviam de encosto. Ela fez uma careta discreta ao sentir o gelo do ferro passar para a sua pele. O lençol branco estava cobrindo suas pernas, deixando-as confortavelmente quentes sobre a calça de linho que estava vestindo.
Ela havia realmente melhorado. Estava sem qualquer sinais de febres, cansaço ou dores. Até mesmo as bolhas causadas pelo surto mágico haviam desaparecido. Ter tido a visita de seus amigos daquela época lhe fez bem. Mas nada lhe fez tão bem quanto o que Rose havia dito.
Ela tinha uma chance. Ela estava ali pra consertar as coisas. Estava se culpando pelas coisas como se tudo que ela fizesse fosse um fracasso. Ou o resultado do fracasso. Ela não era fracassada. Ela era Hermione Granger, a melhor aluna de Hogwarts do seu tempo. A mais brilhante bruxa da sua idade.
Ela estufou o peito em orgulho e sentiu o coração bater forte como se grilhões tivessem sido libertados. Sentia que poderia fazer aquilo. Bastava apenas ela se esforçar. Bastava apenas vencer suas próprias limitações, assim como dissera Rose. Bastava vencer sua moralidade, como dissera Riddle.
Ela piscou os olhos quando viu um bloco grande de pedra se mexer do outro lado do aposento. O bloco logo se deslocou, afastando-se para frente e ela não evitou sorrir quando viu Fenrir passar pela passagem feita com o giz de lunático.
'Você deveria entregar isso a Leslie, sabia?' Ela disse sorrindo quando ele aproximou-se da sua cama.
'Por quê?' Ele perguntou sem entender.
'Pertence a ela.'
'Preciso disso mais do que ela.' Ele remendou dando de ombros e logo subiu – num pulo- na cama de Hermione, sentando sobre o colchão macio no canto direito inferior, ficando perto das pernas da menina.
'O que está fazendo aqui?'
'Rose havia dito que você ficou doente por um surto mágico. Daí, hoje, antes de ir para a aula ela foi até o salão e me disse que você já estava melhor. Aí vim te ver. Todos estão em aulas, não tem perigo.'
'Mas se o Curandeiro te ver estará com problemas...'
'Ele não está por aqui. Eu senti o cheiro dele se afastando, até ouvi ele dizer que ia atrás de umas plantas nas estufas. Ele é meio biruta...parece falar sozinho.'
Hermione riu do jeito que Fenrir comentou sobre o curandeiro. 'E como anda se virando pelo castelo em relação a comida?'
'Ah, eu fui a cozinha um monte de vezes. Os elfos me dão tudo que eu quero. Outro dia eles me deram três bandejas só de carne.' Disse sorrindo de orelha a orelha e abrindo os braços alegre. Ele guardou o giz no bolso da calça rasgada enquanto continuava o discurso. 'Ás vezes, quando estou entediado, eu caminho pelo castelo, mas eu tenho cuidado, viu? Ele é bem grande, já me perdi algumas vezes. A sorte é que os alunos também parecem se perderem.'
Hermione sorriu mais uma vez. 'É. Nem os alunos conhecem a escola direito. Hogwarts tem mais mistérios do que se pode imaginar, Fenrir.'
'Eu sei. Já percebi isso. Até os animais da Floresta.'
'Animais da Floresta?' Estreitou as sobrancelhas sem entender Hermione. Fenrir fez um aceno com a cabeça.
'Sim. Os animais na Floresta estão assustados. Eu sei. Eu sinto. Quando estava por lá, haviam coisas estranhas acontecendo. Alguns centauros estavam morrendo misteriosamente, pelo menos foi o que eu ouvi um deles dizer. Eu tentei ser amigo deles, mas o chefe do bando não deixou. Disse que humanos não valem nada e que seria desonra a Grande Deusa o aceitar de um acordo entre humanos.'
'Morrendo misteriosamente...' A voz de Hermione ficara distante, tentando arranjar alguma explicação para aquilo. 'Você não conseguiu descobrir como eram dadas essas mortes, Fenrir? Como esses centauros eram encontrados? Ou como a própria floresta se comportava quando um deles morria?'
'Sei lá, eu não me preocupei em saber. Achei que se perguntasse a um deles, eles me matariam. São bem raivosos.'
'Você não sentiu nada de diferente na Floresta quando um Centauro morria?'
Fenrir entortou a boca para o lado direito, tentando se lembrar de alguma coisa atípica na floresta quando acontecia tais eventos. Ele cruzou os braços pequenos e olhou para o colchão tentando encontrar alguma lembrança.
'Eu lembro que quando um centauro morreu, o resto do bando o levou para o lugar central. Não fui doido de seguí-los, pois eles estavam indo muito adentro da floresta. Mas eu senti cheiro de sangue quente.'
'Sangue... isso é estranho.'
'Por quê?' Indagou Fenrir levantando o rosto sem entender. 'Quando morremos sangramos, não é? O que tem de estranho nisso?'
'Nós somos bruxos, Fenrir. Qundo um bruxo mata o outro, os feitiços são limpos, secos. Um Avada Kedavra não deixa rastros de sangue.'
'Mas há feitiços que deixam, não?' Fenrir perguntou franzindo as sobrancelhas.
'Sim. Mas eles não são usados quando se tenta ter mortes misteriosas.' Hermione respondeu levantando os olhos para cima. 'Se os centauros que morreram, e até outros animais, sangraram, quer dizer que eles tiveram que lutar contra algo. Lutar com a força bruta mesmo. Talvez algum outro animal na própria floresta.'
'Não poderia ter sido algum aluno da escola?'
'Acho improvável um aluno querer se meter com centauros na Floresta. E mesmo que quisesse, provavelmente os matariam com Avada Kedavra e não com feitiços que os façam sangrar. Sangrar significa dar pistas. Só um aluno piscótico faria esse tipo de coisa.'
'Acho que alunos psicóticos é o que não faltam nesta escol-...' Fenrir pulou da cama de uma vez, deixando-o Hermione assustada, e se jogou por baixo da cama, rastejando-se cada vez mais para ficar perto da parede e no canto escuro embaixo da cama sem poder ser visto.
As portas pesadas da Enfermaria se abriram, um pouco devagar por serem pesadas, e Hermione piscou os olhos castanhos ao reconhecer Tom Riddle. O coração da castanha, que já estava em sobressalto pelo susto de Fenrir, passara a entrar em completo descompasso, mas ela cerrou os dentes e se escondeu embaixo de uma expressão de seriedade, determinação, frieza e postura.
'O que está fazendo aqu-...' Ela não terminou a frase, pois Tom Riddle a calara, colocando a mão direita sobre a boca da garota. Os dois estavam muito próximos. Riddle quase colara o próprio corpo conta o de Hermione. O rosto a poucos centímetros de cada um. Hermione engoliu em seco e fitou os olhos negros dele. Negros como besouros.
'Eu preciso dele, Mudblood. E desta vez me refiro ao diário. Traga-o para mim, hoje, á meia-noite, na Sala de Astronomia.' Ele terminou com a voz dura. Hermione tinha o corpo completamente tenso. Ele estava diferente. Ela não sabia explicar, mas sentia que ele estava diferente. E essa diferença assustava Hermione. Ela estava assustada. Estava com medo dele. Riddle retirou a mão de cima da boca de Hermione, mas ainda assim, ela não falara nada. Estava atônita demais para dizer alguma coisa.
'Você me ouviu?' Ele indagou sério, o rosto completamente branco de qualquer expressão. Hermione não disse nada nem fez gesto algum. 'Você irá trazê-lo para mim. Hoje. Não tente me enganar. Quem sofrerá as consequências não será você.' Hermione sentiu a própria respiração parar intencionalmente. 'Não foi por um motivo bobo que deixei Lestrange saber de tudo. Ela tem o seu valor. Mas não faça o que estou dizendo, e deixará de contar com ela para o que quiser a partir de amanhã. ' Hermione não desviou os olhos castanhos por falta de força. O coração chorou por ar e Hermione lembrou-se de voltar a respirar. 'Hoje. Meia Noite. Sala de Astronomia. Não me faça esperar.'
Tom percebeu Hermione mexer a cabeça, abaixando-a. Para Riddle isso fora a resposta afirmativa. Ele sorriu amarelo para a castanha. 'Fácil fazer negócios com você, Mudblood.' Ele afastou-se dela e saiu da Enfermaria, indo para a Aula de Poções que já havia começado.
Hermione cerrou os punhos com força, segurando pano do lençol entre eles.
'Aaahh...Eu vou arrebentar a cara dele!' Cuspiu Fenrir ao sair debaixo da cama de Hermione. Ele tinha os punhos fechados na altura dos ombros; os olhos negros contorcidos; e os dentes cerrados com força na boca. 'Ele ainda me deve por aquela pedrada! E agora ameaçou a Rose, sem nem ela estar aqui. Ele não tem honra! Ele não...'
'Fenrir!' Chamou Hermione levantando o rosto. Fenrir olhou para Hermione. 'Não se meta com ele.' Ela disse com a voz séria, mas ali com aquele frio gélido, pareceu também uma voz mandatória. Fenrir conseguiu perceber o tom de voz.
'Mas...'
'Não se meta com ele.' Ela repetiu e desviou os olhos castanhos para Fenrir. 'E não conte isso a Rose, ouviu?'
'Por que não?'
'Porque isso não interessa a você nem a ela. Não é nada demais. Ele só quer um diário.' Ela disse fingindo um sorriso. 'Eu vou entregá-lo. Não precisa se preocupar com isso. É só um diário besta e sem graça.' Ela completou.
'Por que aqule garoto ameaçaria Rose por um diário inútil?' Quis saber Fenrir.
'Talvez ele seja um dos alunos psicóticos de Hogwarts.' Remendou Hermione. E não havia dúvidas daquilo. Riddle era louco. Um insano.
'Se você vai entregá-lo, estará fazendo o que ele está mandando. Mas ele não deveria mandar em você...'
'Não se meta nisso, Fenrir. Ou você volta para aquele orfanato!' Ela ameaçou, fazendo-o calar-se e afastar-se da cama da menina. Ele abaixou o rosto cicatrizado e algumas pareceram acentuar-se. 'Escute...' Chamou Hermione mais uma vez, agora com uma voz mais simples e fina. 'Se você se meter nisso, trará problemas para você. Por isso, você só deve se preocupar em como arranjar carne.' Ela terminou sorrindo. Fenrir piscou os olhos ainda não convencido, mas forçou um sinal de entendimento.
'Mas se você quiser, ainda posso quebrar a cara dele.' Ele rissou levantando os olhos para ela. Hermione sorriu.
'Quando eu tiver essa vontade, pode ter certeza que te pedirei ajuda.' Ele estufou um pouco peito, feliz de ter ouvido aquilo.
Hermione desviou os olhos para os lençois. Ela realmente tinha que entregar o diário. Ela não podia colocar Rose em perigo. Hermione bem sabia o que Riddle poderia fazer com ela. Se ele tivesse a ameaçado em vez de Rose, talvez Hermione pudesse lutar contra, mas o desgraçado preferiu usar os outros para força-lhe a fazer o que ele bem queria. Ele tinha razão... Ela era previsível. Mas ela não podia negar ser o que era. Não podia fingir que era imprevisível quando sua melhor amiga corria os riscos que ela não corria.
Hoje. Á meia noite. Na Sala de Astronomia. Ela ia entregar-lhe o diário.
Sala de Astronomia. Meia-Noite.
Hermione apoiou os braços sobre o peito da janela, inclinando a cabeça para olhar o céu e as costelações. Conseguiu reconhecer as Três Marias e portanto o Cinturão de Órion. Ela pedia aquelas estrelas que levassem embora a angústia que sentia. Angústia cada vez mais aumentada a cada segundo que passava por enquanto esperava Tom Riddle naquela sala.
O Diário de Tom Riddle estava em suas mãos, sendo segurado com uma força quase descomunal. A capa preta do diário se tornando cada vez mais úmida pelo suor de suas mãos.
Sentiu a circulação sanguinea aquecer o corpo mais forte quando a porta da sala de aula fora aberta. Ela não olhou para trás. Ficou ainda – de olhos fechados- pedindo a Órion que desse força a ela.
'É realmente fácil fazer negócio com você.' Ele afirmou categórico ao ficar ao seu lado. Hermione abriu os olhos castanhos. Ela fitou o rosto de Riddle e percebeu-o sem qualquer expressão. Os olhos ainda negros, talvez a luz da lua de prata não os deixavam ficarem grafites.
Não.
Não era isso. Ela sentia. De alguma forma ela conseguia sentir. Havia algo de diferente nele. Algo que a assustava, que a deixava amendrontada. Algo que ela não conseguia desvendar. Riddle adiantou a mão direita e tentou tirar o diário das mãos de Hermione, mas ela o segurava com tanta força que ele não conseguira. Tentara novamente, mas mais uma vez ele não conseguira. Então ele percebeu que ela não estava querendo entregar-lhe o diário.
'Algum problema?' Ele perguntou sério, sem entender porque ela não o entregava.
'Você está...diferente.' Ela disse olhando-o nos olhos.
Tom piscou os seus negros. 'Do que está falando? Não tem nada de diferente em mim.'
'Tem sim.' Respondeu no mesmo instante. 'Eu consigo ver. Consigo sentir. Tem alguma coisa... em volta de você... alguma coisa maligna.'
'Talvez seja o ambiente em que estamos. Sabe, o universo é muito imenso. E suas leis, complexões e poeiras assustam a Humanidade. A desconhecida imensidão de um quê misterioso,infinito e sempre em expansão. Você sabia, Mudblood... que os estudiosos dizem que o Universo é imortal?' Ele perguntou sorrindo para ela.
Hermione engoliu em seco. Ela entendeu. Finalmente havia entendido. Ele começara. Começara a estudar a imortalidade. Começara a saber sobre as Horcruxes e as usariam para se tornar Imortal. E precisava daquele diário para fazer sua vítima. E ela? O que ela havia feito naquele tempo todo? Nada. Ela não fizera nada. Estava deixando tudo acontecer. E aquilo era realmente culpa dela.
Hermione recuou alguns passos, deixando Riddle curioso. A expressão no rosto da menina em completa desolação e completo cansaço.
'Algum problema?' Ele perguntou querendo saber.
'Só estou com coisas demais na cabeça.' Respondeu sentindo-se mal.
'Se isso ao acaso é muito forte pra você, tente enfrentar depois.' Ele aconselhou.
'O quê?' Ela indagou confusa para o garoto a sua frente.
'Se não pode enfrentar esse problema agora, faça-o depois.' Hermione piscou os olhos castanhos. 'Algumas coisas parecem mais fáceis quando se olha por uma certa distância.'
'É...isso é realmente uma delas.' Ela respondeu sem jeito. 'Mas... eu deveria fazer isso? Deveria ignorar isso e fingir que posso resolver depois?'
'Vou deixar você mesma ter a resposta.' Tom sorriu para ela. 'Eu mesmo tenho deixado algumas coisas de lado para enfrentá-las depois. Se você ainda enfrentá-las, não será problema ter feito agora ou depois, não é?'
Hermione sentiu o estômago se contorcer. Ela não respondeu. Não sabia o que responder. Ela assustou-se um pouco quando sentiu o diário ser tirado de suas mãos por Riddle num gesto repentino.
'Mas não nos esquecemos do nosso acordo.' Ele disse sorrindo amarelo, segurando o diário em uma das mãos. 'Tenha uma boa noite, Mudblood.' Terminou afastando-se da menina e aproximando da porta. Hermione não respondeu, olhando para o chão, pensativa em alguma coisa. Tom ainda a fitou, parado, ante a porta.
Seus dentes cerraram-se, seu estômago se contorceu, seus pêlos enrijeceram-se e sua expressão se endureceu. Agora ele conseguia entender porque procurava evitar a menina. Começava a sentir tais coisas que o desagradam. Eram desconfortáveis ao extremo, deixando-o confuso e irritado.
'Mudblood...' Chamou pela última vez. Hermione levantou o rosto para ele. 'Gostaria de ir ao baile comigo?'
NA: Gostaria de pedir desculpas pelos erros no capítulo passado. Eu troquei de notebook e é bem chato ter que ficar mudando a todo momento de linguagem Português para Inglês e vice-versa. O formatador de texto também não ajudou, mas eu já o consertei e espero não ocorrer novamente.
Eu não sei se consegui passar a 'diferença' na personalidade de Tom Riddle, mas era o que eu pretendia. Espero que tenham gostado do capítulo tanto quanto eu. Sim, eu gostei de escrevê-lo. Até o próximo.
