You're dangerous, 'cos you're honest.
You're dangerous, you don't know what you want.
Well you left my heart empty as a vacant lot
For any spirit to haunt.

No dia seguinte ela estava esparramada sobre a cama. Braço estendido sobre o tórax dele e pernas entrelaçadas. Jon a encarou por alguns minutos e se perguntou se aquilo deveria ser tão normal. Dormirem na mesma cama era algo ao qual estavam acostumados e o elemento sexual não tornava aquele pequeno momento mais ou menos cotidiano. Era apenas desconcertante pensar que devia se sentir enojado, confuso e culpado por tudo aquilo.

Não conseguiu encontrar dentro de si qualquer um destes sentimentos. Arya parecia estar no seu devido lugar. Seu rosto estava relaxado numa expressão serena e quase satisfeita, o que era um avanço tremendo. Quando ela chegou a Juneau, era normal ouvi-la resmungar durante o sono e às vezes acordava com o som de um choro baixo e persistente. Era tão errado assim oferecer a ela um pouco de carinho e aceitação, quando ele sabia exatamente o que era aquela sensação de abandono que ela sentia?

O sexo foi apenas um desdobramento da relação deles. Algo que nenhum dos dois esperava, mas que eventualmente haviam fantasiado em seu íntimo. Esperar que uma mera fantasia se tornasse realidade era um pouco de mais, mas aos poucos o que era apenas idealização se tornou tensão, depois contato físico até que eles estivessem enroscados um ao outro sobre a cama, buscando em cada gemido uma afirmação de que não estavam mais sozinhos no mundo.

Ele se esgueirou para fora da cama, fazendo questão de cobri-la com o edredom pesado, antes de buscar algo pra comer na geladeira. Vestiu uma calça de moletom e foi até a cozinha.

Deparou-se com a bagunça do lugar e de como haviam transformado o apartamento num retrato perfeito do caos. Jon lembrou-se de como haviam feito amor em cada um dos cômodos, de como ela chamava o nome dele toda vez que ele ameaçava se afastar, de como as pernas dela sempre o prendiam pelo quadril quando ela estava muito próxima do clímax.

Garrafas vazias tombadas sobre a pia da cozinha, caixas de comida chinesa no lixo aberto, pratos sujos jogados de qualquer jeito sobre a mesma bancada em que havia sentado Arya para conseguir um ângulo melhor, enquanto o orgasmo se aproximava de forma tão avassaladora que ele chegou a perder a noção do bom senso e disse que a amava.

Entre todos os elementos que compunham aquela natureza morta peculiar, havia de tudo, menos pacotes de camisinha e preservativos usados. Aquilo despertou a consciência dele para os riscos que corriam. Ele não a queria longe, nem sabia se era capaz de mandá-la de volta pros pais depois da noite anterior, mas também não queria ser o pai de uma criança gerada por sua meio irmã.

Precisava tomar uma decisão prática. Não era algo que gostaria de fazer com qualquer garota, mas tinha que admitir que era a solução mais viável. Ele se vestiu as pressas, pegou a carteira e correu até a farmácia mais próxima.

Quando Arya acordou havia um copo d'água sobre a mesinha de cabeceira e um comprimido suspeito ao lado. Ela ouviu o barulho do chuveiro sendo desligado e quando a porta abriu, Jon saiu de lá usando apenas uma toalha enrolada na cintura. O cabelo úmido caindo sobre os olhos, o rosto sempre sério, com traços angulares e indubitavelmente masculinos.

Ele a encarou sem graça. Ela ainda estava nua e deitada sobre a cama, como se aguardasse por ele.

- É melhor tomar isso. – ele disse apontando para a pílula. Arya encarou o remédio como se não entendesse muito bem do que se tratava.

- O que...? – ela não teve tempo de perguntar.

- Não queremos que acidentes aconteçam. – ele disse prático, sentando-se ao lado dela na cama – Nós fomos muito relapsos ontem. Isso não pode acontecer.

Ela ficou calada, como se ponderasse se devia ou não tomar a pílula. Jon parecia ansioso e desconfortável ao lado dela e por um momento seu receio era de que ele a mandasse embora assim que tivesse engolido o remédio. Um medo tolo, diante daquilo que poderia acontecer caso ela não tomasse, mas ela entendia que Jon tinha uma boa razão para querer que ela fizesse aquilo.

Arya colocou o comprimido na boca e bebeu metade do copo de água, enquanto Jon observava tudo atentamente. Ficaram em silêncio desconfortável por alguns segundos, sem saber exatamente o que fazer.

- Devia marcar uma consulta com um médico. – ele disse constrangido.

- Eu não estou doente, Jon. – ela resmungou – Não é porque eu dormi com você que eu tenho algum tipo de doença contagiosa, então pare de agir como se eu tivesse.

Ele a encarou chocado. Foi quando percebeu que aquilo havia soado de um jeito totalmente equivocado e que Arya ainda estava com medo de tudo e de todos. Jon passou os braços ao redor dela e a abraçou forte, afundando o nariz contra o cabelo bagunçado dela.

- Eu não quis dizer isso. – ele disse enquanto beijava o rosto dela – Só acho que é uma atitude responsável. Consultar um médico antes de começar a tomar pílulas.

- Está dizendo que...- não, ele não queria que a noite anterior fosse a primeira e a última vez. Também não queria mandá-la embora.

- Estamos nisso juntos. – ele beijou a boca dela com carinho, sentindo Arya envolve-lo em seus braços pelo pescoço – Casais normais pensam nessas coisas. E somos muito jovens pra trocar fraudas.

You're an accident waiting to happen
You're a piece of glass left there on a beach.
Well you tell me things

I know you're not supposed to
Then you leave me just out of reach.

x-x-x-x-x-x-x-x

Arya acabou seguindo o conselho dele e procurou um médico para conseguir uma receita. A pílula que Jon havia insistido para que ela tomasse fez efeito e ambos ficaram mais aliviados em saber que não havia o risco dela ter engravidado acidentalmente. Depois disso eles se tornaram mais cuidadosos.

Passaram a agir mais como um casal de recém-casados, vivendo num apartamento minúsculo. Pagavam contas, trabalhavam, pediam comida fora e assistiam tevê abraçados, até que um dos dois desse sinal de que queria algo mais excitante do que um jogo amistoso de futebol, ou American Idol.

Ela completou dezoito anos já no final do verão. Comemoram com um bolo pequeno de confeitaria e Jon deu a ela uma corrente de prata com um pingente em forma de lobo. Ela sorriu satisfeita. Quando crianças eles fantasiavam a respeito dos animais que gostariam de ter, por mais peculiares que fossem. Enquanto Bran queria uma águia, Sansa uma chinchila, Robb um cavalo, Jon e Arya sempre queriam lobos.

Por dias eles viveram como se o mundo não existisse e duvidaram de que poderia haver felicidade além daquelas paredes. Acordavam nus e aconchegados junto ao corpo um do outro, dormiam sussurrando a mesma frase, como se fosse um mantra, o uma oração.

Eu te amo...Eu te amo...

Num sábado pela manhã, pouco antes da hora do almoço, o celular dele tocou e com desagrado o nome de Ned Stark surgiu no visor, para lembrá-lo de que havia um mundo além daquelas paredes e neste mundo Arya estava sendo investigada como suspeita da morte de um rapaz por atropelamento. Jon atendeu o telefone se preparando psicologicamente para qualquer coisa que o pai tivesse a dizer.

- Alô. – ele disse, esperando pela voz de Ned Stark do outro lado.

- Estão em casa? – o pai perguntou imediatamente. Jon se levantou do sofá num pulo e começou a se vestir de forma apresentável.

- Estamos. – ele disse rapidamente – Arya saiu pra comprar alguma coisa, mas já deve estar voltando.

- Ótimo. Eu acabei de desembarcar. – Ned disse sério – Me passe o endereço daí.

- E o que diabos o senhor está fazendo em Juneau? – Jon perguntou imediatamente.

- Vim buscá-la. – Ned respondeu de forma prática – Sansa mudou a versão do depoimento à polícia. Jeoffrey foi interrogado outra vez e acabou confessando. Está sendo acusado agora. Não há razão pra Arya continuar aqui, além disso, ela vai ter que depor semana que vem, só pra confirmar a narrativa dos fatos.

- Eu duvido que ela queira voltar. – Jon disse um tanto amargo.

- Não seja difícil, Jon. – Ned pediu de uma forma que Jon quase conseguiu sentir pena – Eu sei que errei com você e com ela também, mas nós somos uma família e Arya precisa de nós ainda.

- Pode falar com ela e tentar convencê-la disso, mas aviso que será inútil. – ele disse ríspido – Vou te dar o endereço.

Quando Arya chegou em casa, Ned Stark já estava sentado no sofá tentando manter uma conversa minimamente civilizada com o filho. Jon estava sendo espetacularmente difícil naquele dia e não era só pelo rancor que guarda pelo pai, que a vida inteira fez vista grossa para as atitudes da esposa que não tolerava a presença de Jon na mesma casa em que ela criava seus preciosos filhos legítimos.

Arya deixou as compras de lado e ponderou por um momento se estava feliz ou não com a presença do pai no apartamento. Apreensão tomou conta dela e tudo o que ela desejava naquele instante era correr para os braços de Jon em busca de um pouco de segurança.

Pra surpresa dela, Ned a abraçou forte e beijou sua testa. Ele segurou o rosto dela entre as mãos como se procurasse por algum arranhão, ou qualquer sinal de que ela não estava bem. Jon virou o rosto desconcertado. Não era segredo pra ninguém que Arya sempre foi a filha favorita do pai deles, aquela que mais se parecia com Eddard Stark, tanto fisicamente, quanto no temperamento.

- Eu senti tanto a sua falta. – Ned disse à filha – Eu não devia...Eu não devia ter demorado tanto pra agir.

Arya retribuiu o abraço de forma desajeitada e imediatamente lançou a Jon um olhar cheio de significado. Anos atrás ele teria dado tudo para ouvir do pai as mesmas palavras, agora a relação dos dois havia chegado num ponto em que o rancor e a magoa eram tão grandes, que ela duvidava se havia ou não um modo de restaura-la.

Ned explicou o que havia acontecido enquanto ela estava fora. A fuga dela não foi encarada com bons olhos nem pela polícia, nem pela promotoria, mas quando Sansa confessou que estava sendo ameaçada por Jeoffrey para mentir o que havia acontecido na noite do acidente e que um exame de corpo de delito havia comprovado que a garota Stark mais velha estava sendo vítima de agressões praticadas pelo noivo, o quadro se reverteu.

Eddard Stark insistia que a filha mais velha estava terrivelmente arrependida da mentira e que queria apenas o perdão da irmã. Por algum motivo, Arya duvidou daquilo. Ned informou que a razão de estar ali era buscá-la para que pudesse prestar novo depoimento, apenas para confirmar o que Sansa havia dito à polícia, e levá-la de volta pra casa.

- Do depoimento eu não posso escapar. – Arya disse encolhendo os ombros – Mas eu não sei se quero voltar pra casa.

- Mas é o seu lugar. – Ned insistiu – Nós sentimos sua falta, sua mãe não para de falar sobre isso. Bran está se recuperando e está ansioso para que você veja o progresso dele. Robb está voltando também.

- Do que me vale uma família que me vira às costas quando eu mais preciso? – ela questionou sem qualquer emoção na voz e Jon viu estampada no rosto do pai toda mágoa que aquelas palavras causaram – Eu vou com o senhor e vou prestar meu depoimento, mas não garanto que eu vou ficar.

- E o que vai fazer da sua vida depois? – Ned perguntou contrariado.

- Terminar meus estudos aqui e quem sabe consiga entrar na Universidade de Juneau. – ela respondeu – Princeton, Yale, Harvard...Eu não sou material pra esses lugares.

- Vamos discutir isso depois. – Ned disse acariciando a cabeça dela – Eu já marquei nossas passagens. Embarcamos amanhã no voo das dez da manhã.

- O senhor vai ficar aonde? – ela perguntou sem encará-lo.

- Tenho um hotel reservado. Acho que dá tempo de arrumar suas coisas até lá. – Ned disse.

- Vamos estar prontos. – Jon respondeu.

- Vamos? – Ned encarou o filho com ar de espanto.

Who's gonna ride your wild horses?
Who's gonna drown in your blue sea?
Who's gonna ride your wild horses?
Who's gonna fall at the foot of thee?

- Eu não vou deixá-la passar por isso sozinha. – ele disse sério – O senhor pode estar determinado a levá-la de volta, mas eu faço questão de deixar bem claro que ela tem uma opção. Eu vou com vocês e Catelyn pode espernear o quanto quiser, que eu não ligo a mínima.

- Está bem. – Ned respondeu conformado – Robb e Bran vão ficar felizes em revê-lo, Jon. Eu sei que não pensa assim, mas você é parte da família como qualquer um dos meus filhos. Eu nunca quis que as diferenças entre você e Cat o levassem a sair de casa da forma como saiu. Foi a sua escolha, mas o que tem feito durante os últimos anos é se exilar voluntariamente.

- Me perdoe se eu não acredito nisso. – ele disse ríspido – Agora, se nos der licença, temos muitas coisas pra resolver antes de embarcar.

- É claro. – Ned concordou – Até amanhã então. – Ned apertou a mão do filho e se despediu da filha com um abraço, antes de deixar o apartamento.

Assim que ouviram o som do carro se afastando, Arya correu para os braços de Jon, desesperada por um pouco de segurança. Ele retribuiu instantaneamente. Ele beijou o rosto dela até alcançar a boca. Era um beijo desesperado e urgente.

- Obrigada. – ela sussurrava contra a boca dele – Obrigada.

Naquele mesmo dia Jon ligou para o chefe informando o que estava acontecendo. Jeor Mormont era um senhor de caráter e bom senso, por que Jon tinha grande admiração. Como Jon não havia tirado férias nos últimos dois anos e se tratava de um problema de família, o senhor Mormont concedeu a ele quinze dias de afastamento.

Jon comprou a passagem e reservou um hotel para não ter de conviver com Catelyn Stark durante aqueles dias. Caso Arya quisesse, poderia ficar com ele na suíte e fugir do mundo por algumas horas.

Quando tudo estava resolvido, ele a encontrou na cozinha, lavando a louça do almoço. Ele foi até ela e a abraçou por trás. Arya inclinou a cabeça para descansá-la contra o ombro dele. Podia sentir a respiração pesada dela, a tensão em seus músculos e o coração acelerado.

- Eu estou com medo. – ela confessou num sussurro. Jon beijou o pescoço dela e a abraçou com mais força.

- Eu sei. – ele respondeu contra o cabelo dela – Eu estou aqui. Eu vou estar sempre aqui pra te proteger.

- Faça amor comigo. – ela pediu – Eu preciso que faça amor comigo, Jon.

Ele não disse nada. Deixou que uma de suas mãos driblasse a blusa que ela usava e acariciou um dos seios pequenos dela, enquanto mordiscava o lóbulo da orelha. A outra mão desabotoou a calça jeans dela e encontrou o caminho sensível até o sexo. Arya pressionava o traseiro contra a virilha dele e Jon não precisava de mais nada para ficar excitado.

Deslizou dois dedos para dentro dela, massageando-a, provocando-a até que Arya estivesse se contorcendo entre seus braços, mas o acesso que tinha a ela não era o bastante para tornar o momento mais prazeroso. Ele se afastou dela apenas o bastante para retirar a blusa que Arya usava, assim como a calça e as roupas íntimas.

Arya ficou de frente pra ele. Retirou a camisa dele com urgência e também a calça do moletom velho que ele estava usando. Agarrou-se a ele, beijando-o como se sua vida dependesse do ar que saia dos pulmões dele.

Jon a sentou sobre a bancada para que ela ficasse numa altura melhor. Beijou o rosto dela por inteiro antes de descer pela linha do pescoço até chegar aos seios dela. Gostava dos seios dela. Pequenos, com mamilos rosados que imploravam pela atenção dele. Sugou-os com cuidado, massageou e provocou tanto quanto podia.

Sua mão voltou ao ponto oculto entre as pernas dela, arrancando gemidos suaves. Arya o abraçava e arranhava suas costas sem piedade, enquanto ele a conduzia habilidosamente até o ápice do prazer, quando ela jogou a cabeça pra trás e buscou apoio contra abancada, enquanto seu corpo estremecia inteiro.

Ele deslizou para dentro dela enquanto Arya ainda estava se recuperando do orgasmo. Úmida e quente, ela ainda estava hipersensível e a invasão repentina fez com que ela se agarrasse a ele com força, como se aquilo pudesse conter um segundo orgasmo que vinha rápido de mais.

Ela conseguiu se recompor a tempo, enquanto Jon se movia contra ela num ritmo muito mais lento do que ele desejava. Não era sexo, não era uma questão de satisfação de desejos primais. Era amor, era carinho, era segurança e tudo mais que eles precisavam na pessoa um do outro. Arya pediu para que ele fizesse amor com ela e ele nunca conseguiu dizer não a um pedido dela.

- Eu te amo... – ela sussurrava junto ao ouvido dele e o efeito daquelas palavras era poderoso.

O ritmo aumentava, ela pedia por mais atenção, mais paixão, mais dele por toda parte, impregnando-a com seu cheiro, seu suor, sua saliva e tudo o que pudesse afirmar que nada daquilo era uma ilusão. Que pudesse afirmar que quando ela embarcasse naquele avião, por mais que a família insistisse em dizer o contrário, ela continuaria pertencendo a ele. Que o lugar dela era onde ele estivesse.

Ela se rendeu ao orgasmo outra vez, enquanto Jon continuava se movendo dentro dela até conseguir alcançar sua própria satisfação, sussurrando a aquela mesma frase contra o ouvido dela.

Eu te amo...Eu te amo...Eu te amo...Precisavam desesperadamente acreditar naquelas palavras para que pudessem enfrentar os desafios que estavam por vir. Seria estressante, cansativo e torturante para eles voltar e encarar todos os Stark e tudo o que eles precisavam era da certeza de que não estariam sozinhos.

Well you stole it 'cos I needed the cash
And you killed it 'cos I wanted revenge.
Well you lied to me 'cos I asked you to.
Baby, can we still be friends?

No dia seguinte eles embarcaram no voo das dez da manhã, mais sonolentos do que deveriam graças à noite turbulenta que tiveram. Arya dormiu a maior parte do tempo, encostada contra o ombro dele, enquanto Ned observava os dois em silêncio. Não era exatamente uma novidade para o senhor Stark. Os dois sempre foram muito próximos, mesmo quando crianças.

Jon a acordou pouco antes da aterrissagem. Desembarcaram e Robb já estava esperando por eles no aeroporto. Jon suspeitava que o reencontro como os irmãos era a única coisa que ele apreciaria na viagem e depois de dois anos sem encontrar Robb pessoalmente, ele se sentiu genuinamente feliz de poder abraçar o irmão mais velho.

- Eu não sabia que estava vindo. – Robb disse satisfeito – É bom ver você, Jon!

- É bom ver você também! – Jon respondeu sincero.

x-x-x-x-x-x-x-x

Bran foi até a porta recebê-los e Jon sentiu um aperto no peito ao ver o irmão restrito a uma cadeira de rodas. Lembrou-se de quando Bran escalou pela primeira vez, ele tinha apenas quatro anos e todo apetrecho de alpinismo o fazia parecer ainda menor e mais desengonçado, mas o sorriso dele naquela ocasião era tão largo a satisfeito que chegava a doer só de lembrar.

Bran jamais escalaria outra vez e Jon lamentou não ter ficado ao lado dele quando o acidente aconteceu. Devia ter mandado Cat Stark à merda por expulsá-lo do quarto do hospital quando o visitou.

Ele parecia feliz, apesar de tudo. Seu progresso era elogiado pelos médicos e a fisioterapia estava ajudando bastante. Ele abraçou Jon com força e não se cansou de dizer o quanto sentiu saudade.

Rickon veio em seguida, um tanto desconfiado e arredio a princípio, mas quando viu Arya correu pra abraçar as pernas da irmã mais velha. Eles não se pareciam nem um pouco, mas eram ambos teimosos e mais do que apenas rebeldes. Jon viu estampado nos olhos dela o quanto sentiu falta de estar perto deles e se perguntou se ela abriria mão de tudo aquilo pra viver uma vida clandestina com ele.

Sansa veio depois, com ombros encolhidos e olhos marejados. O rosto de Arya endureceu imediatamente ao ver a irmã. Ela abraçou Sansa a contra gosto e não deu espaço para que fosse dita qualquer palavra de arrependimento, ou pedido de perdão. Jon abraçou Sansa também. Nunca foram próximos e o tratamento que recebia da irmã era pouca coisa melhor do que aquele que Catelyn dispensava a ele.

Por fim Catelyn Stark apareceu em pessoa. Correu imediatamente para a filha como mil pedidos de perdão, abraçando-a e beijando-a por todo rosto, perguntando se ela estava bem, se estava se alimentando direito e dizendo o quanto aquela fuga foi uma loucura.

Era como se Jon não existisse dentro da sala. Quando se encararam ele viu a mandíbula dela travar e o rosto se contorcer numa expressão de puro desagrado.

- O que você está fazendo aqui? – ela perguntou de forma desagradável.

- Cuidando dela, o que é muito mais do que você se preocupou em fazer nos últimos dois anos. – Jon respondeu sem dar qualquer importância a boa educação que havia recebido – E visitando meus irmãos, que eu não vejo já faz algum tempo, não que isso seja da sua conta.

- É claro que é da minha conta. Esta é a minha casa! – ela disse com dentes cerrados.

- Eu sei e é por isso que eu vou ficar num hotel. Isso dá a nós dois mais liberdade, seu só aviso que não pode me impedir de visitar meus irmãos se eu quiser e nem me impedir de ficar junto da Arya quando ela for depor outra vez. – Jon retrucou pegando a sacola de viagem e jogando sobre os ombros – Eu vou indo pro hotel. Talvez possamos sair à noite pra jantar ou fazer alguma coisa.

- Ótima ideia. – Robb disse tentando amenizar o clima – Só os irmãos. Dizem que tem um lugar novo com o melhor filé da cidade e eu estou louco pra provar. Passo no hotel as oito pra buscar você, está bem?

- Perfeito. – Jon respondeu e então se virou pra encarar Arya. Ele passou o braço ao redor da cintura dela e beijou sua testa – Vai ficar bem?

- Vou sim. – ela respondeu.

- Ok. Sabe o endereço do hotel. Se quiser ir até lá esteja à vontade. Nos vemos depois. – ele disse e então se despediu dos outros. Catelyn Stark e Ned ele fez questão de ignorar.

Naquela noite foi estranho agir apenas como irmãos, enquanto estavam cercados pelos outros Stark. Robb e ele tinham muito que conversar, Bran estava satisfeito de ter toda família junta novamente, Sansa estava presente, mas agia como se fosse um peixe fora d'água enquanto tomava conta para que Rickon se comportasse com educação.

Quando possível, Jon deslizava a mão para de baixo da mesa entrelaçava seus dedos com os dedos dela. Um gesto de apoio e conforto para ambos, uma promessa silenciosa de que estavam ali e não iriam a lugar nenhum sem o outro.

Who's gonna ride your wild horses?
Who's gonna drown in your blue sea?
Who's gonna ride your wild horses?
Who's gonna fall at the foot of thee?

x-x-x-x-x-x-x-x-x

O dia em que Arya teve que prestar novo depoimento foi consideravelmente mais tranquilo do que Jon esperava. Quando Jeoffrey confessou havia carros de quatro ou cinco emissoras de tevê diferentes esperando do lado de fora para conseguir uma boa manchete para o jornal do dia seguinte.

Ned conseguiu que a filha prestasse depoimento logo no início do expediente da polícia e que a data fosse mantida em sigilo absoluto, graças a um amigo de Catelyn Stark que era dono do jornal de maior circulação na cidade. Mindinho podia não valer nem o sal que comia, mas não negaria um pedido de Cat Stark nem que sua vida dependesse disso.

Jon esperava por ela na delegacia sem dar muita atenção para as pessoas a sua volta. Catelyn se recusou a comparecer, caso ele insistisse em acompanhar Arya. Sansa ficou em casa para não atrair atenção que seria desnecessária e prejudicial. Bran estava na fisioterapia e Robb o acompanhou, Rickon foi para a escola. Ned estava no trabalho.

Ela saiu da sala de interrogatório parecendo exausta, correu para os braços dele e Jon a apertou forte contra o peito. Beijou sua testa, desarrumou os cabelos.

- Tudo vai ficar bem. O pior já passou. – ele dizia sem soltá-la.

- Vou ser arrolada como testemunha no dia do julgamento. Vão me interrogar outra vez lá. Quando esse inferno vai terminar, Jon? – ela perguntou angustiada.

- Logo. – ele respondeu – Logo tudo isso vai acabar.

Eles saíram da delegacia. Arya ligou pra casa avisando que ela e Jon iam almoçar juntos, quando na verdade ela foi com ele para o hotel, onde pediram serviço de quarto e passaram a tarde enroscado um no outro.

Ele a encarava no fundo dos olhos, cinzentos como os dele. Acariciou o rosto dela, fazendo-a ronronar. Beijou-lhe a boca pela milésima vez. Pensou se era possível uma pessoa sentir tanto amor por outra.

- Em que está pensando? – ela perguntou. Jon a abraçou, sentindo o corpo nu dela pressionado inteiramente contra o seu.

- Que eu não quero que isso acabe. – ele respondeu – Não quero que isso o que nós temos acabe.

- Nem eu. – ela disse esfregando a ponta do nariz no tórax dele.

- Podíamos fugir daqui. – ele disse contra o ouvido dela – Fugir pra algum lugar onde não sejamos presos por isso. Onde poderíamos fingir que não somos irmãos.

- Seria ótimo. – ela concordou – Só nós dois e nada mais.

- Brasil, quem sabe? Gostaria de morar num lugar onde há calor e sol o ano todo? – ele perguntou antes de beijar a boca dela – Perto do mar. Com praias de areia branca. Ninguém que nos conheça pra nos condenar.

- Esse lugar existe mesmo? – ela perguntou retribuindo o beijo – Isso soa como paraíso.

- Foge comigo. – ele pediu – Foge comigo, Arya.

- Pra qualquer lugar. – ela respondeu beijando-o infinitas vezes.

Ah, the deeper I spin
Ah, the hunter will sin for your ivory skin.
Took a drive in the dirty rain

To a place where the wind calls your name
Under the trees, the river laughing at you and me.
Hallelujah! Heaven's white rose
The doors you open I just can't close
.

x-x-x-x-x-x-x-x-x-x

Quando ela anunciou aos pais que voltaria para o Alaska com ele, Ned Stark encarou os fatos com resignação, enquanto Catelyn insistia em dizer que tudo aquilo era absurdo. Quando as reclamações não adiantaram, a senhora Stark apelou para a chantagem emocional, mas Arya nunca foi de se deixar levar por sentimentalismo.

Depois de horas tentando convencer a filha a ficar e falhar em todos os seus argumentos, Catelyn atacou Jon.

- É ele, não é? – Catelyn esbravejava – É ele quem tem feito a sua cabeça pra continuar com isso! Tinha que ser! Como se ela já não tivesse prejudicado meus filhos o bastante.

- Eu não sei se percebeu, mas não foi ele quem preferiu acreditar numa mentira que a Sansa contou e simplesmente assumir que eu tinha matado alguém, mãe! – Arya retrucou – E essa nem é a história toda. Eu virei um fantasma nessa casa. Eu, Rickon, Sansa, todos nós deixamos de ter importância porque Bran era a única coisa com a qual a senhora se importava. Eu entendo que foi um choque, eu entendo que a senhora sentiu muito, mas nós ainda éramos seus filhos. Você virou as costas e Sansa virou saco de pancada daquele imbecil do Jeoffrey, Rickon se tornou incontrolável e eu...A senhora alguma vez se preocupou em saber o que eu estava passando enquanto tentava cuidar dele? Eu saí de casa porque isso aqui ficou insuportável e me desculpe se eu corri pra única pessoa que nunca se preocupou com as roupas que eu usava ou se eu era ou não um exemplo de feminilidade e bom comportamento!

- Está sendo injusta e está jogando o seu futuro fora por causa desse traste! – Catelyn insistiu.

- É a senhora quem sempre foi injusta com ele. – Arya respondeu – Jon nunca fez nada pra senhora e tudo o que eu consigo me lembrar é dele sento o melhor amigo do Robb, o melhor irmão do mundo pro Bran e pro Rickon. Ele teria sido pra Sansa também se ela não fosse tão parecida com a senhora. A única coisa que ele te fez foi nascer, mas adivinhe, ele não tem culpa disso. Meu pai tem, mas a senhora sempre ignorou esse detalhe.

- Então é isso? Você vai abandonar sua casa e sua família desse jeito? – Catelyn engoliu a raiva a seco.

- Não. Eu não estou deixando coisa nenhuma, eu estou voltando pra minha casa no Alaska e pra única família que me apoiou quando eu precisei. – Arya respondeu pegando a sacola de roupas – Adeus, mãe.

x-x-x-x-x-x-x-x-x-x

Ele esperava por ela no aeroporto, com as passagens em mãos e o temor de que Arya decidisse que não valia a pena trocar toda família pra voltar pra ele.

Avistou a figura esguia descer do taxi, com uma sacola com roupas e seus poucos pertences. Usando óculos escuros para esconder os olhos inchados de tanto chorar pelo caminho. Foi uma jornada difícil, mas ela voltou para ele sem que Jon tivesse de dizer uma palavra para convencê-la de que aquele era o lugar dela.

Arya não o abraçou daquela vez. Ele segurou a mão dela e sentiu o quanto aquelas últimas horas haviam sido inexplicavelmente dolorosas pra ela. Beijou-lhe a testa e passou o braço ao redor dos ombros dela.

Eles caminharam juntos. Fizeram o check-in. Sentaram-se lado a lado no voo e ela passou a viagem inteira escorada no ombro dele.

Chegaram em Juneau e assim que fecharam a porta de casa já estavam arrancando as roupas um do outro, com desespero, necessidade e desejo inexplicável. Ela precisava de apoio, de força, de segurança. Ele precisava acreditar que ela estava ali.

No ano seguinte ela concluiu o colegial e concorreu a uma bolsa de estudos no exterior. Jon conseguiu uma vaga numa multinacional. Era quase verão no Alaska e mesmo assim diziam que o inverno brasileiro era mais quente do que aquilo.

De mãos dadas eles embarcaram naquele voo, esperando encontrar um pedaço de paraíso.

Don't turn around, don't turn around again.
Don't turn around your gypsy heart.
Don't turn around, don't turn around again.

Don't turn around, and don't look back.
Come on now love, don't you look back.

Who's gonna ride your wild horses?
Who's gonna drown in your blue sea?
Who's gonna taste your saltwater kisses?
Who's gonna take the place of me?
Who's gonna ride your wild horses?
Who's gonna tame the heart of thee?

Nota da autora: A pedidos, saiu um segundo capítulo da história. Eu não tinha planejado escrever ele, mas vá lá, até eu fico curiosa pra saber que bicho que ia dar o dia seguinte. Pois é, sem acidente de percurso aqui, porque achei que ia ser problema de mais pra lidar. Sim, é pílula do dia seguinte, sim ela passa a usar anticoncepcional. E não, incesto não é crime no Brasil. É só impedimento ao casamento e filhos nascidos dessa relação herdam normalmente. Por hoje é só pessoal!

Música: Who's gonna ride your wild horses, da banda mais divônica, linda, maravilhosa, megalomaníaca e espetacular ever (que vc's já devem ter notado que é a minha favorita), U2!

Bjux

Bee