Quando é preciso voltar
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Short fic de três capítulos
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Capítulo dois: Zona de conforto
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Bella POV
Era engraçado como nós podíamos simplesmente nos acomodar na vida. Eu havia me acomodado há muito tempo quando o assunto era a minha relação com os meus pais. Obviamente eu só fiz isso porque era muito melhor para mim conviver apenas com alguns telefonemas de Charlie, uma visitas esparsas e uns encontros nos aniversários de família. Era muito mais confortável para mim montar a minha família sem ter que explicar para os meus filhos por que motivo eu não sou filha de verdade da Renée e por que eu briguei com ela há tanto tempo.
Confesso também que foi orgulho meu. Quando resolvi que adotaria Maggie e que a criaria como minha filha, não aceitei que minha madastra insinuasse que não seria capaz disso. Briguei, me afastei. O meu pai não ficou do meu lado, escolheu se afastar. E eu deixei assim. Era demais para o meu ego ir procurá-los algum tempo depois para dizer que, como eles viram, eu consegui sim criar Maggie e que eu perdoava eles por não terem acreditado em mim quando eu mais precisava.
Talvez eu não tenha perdoado.
- Mãe? – a voz da minha filha mais velha me despertou de meus devaneios. – Te atrapalho?
- Claro que não. – sorri, me afastando da janela do quarto e indo em sua direção. – Você está linda com esse vestido vermelho. – elogiei.
- Obrigada. – ruborizou. – Você também está magnífica nesse azul.
- Gostou? Escolha do seu pai. – rodei o longo e leve vestido.
- Por que não me surpreendo? Ele ama te ver de azul. – sentou na cama de casal. – Você pode me ajudar com a trança? Não consigo fazer sozinha.
- Claro! – peguei a cadeira da mesa que havia no canto e coloquei de frente para o grande espelho na parede. – Sente aqui.
Logo comecei a entrelaçar seus lindos e longos fios loiros, tão diferentes dos meus, mas que certamente era parecidíssimos com os da minha mãe Isobel. Minha mãe e de Rachel.
- Maggie... – comecei, enquanto ajeitava a trança. – Você tem ido ao túmulo da sua mãe?
- Na verdade, eu fui com a tia Alice ontem. – contou.
- Ah. – ajeitei uns fios que caiam. – Pronto. Está linda. – sorri para o nosso reflexo no espelho.
- Você queria ter ido também? – me encarou ainda sentada. – Nós podemos ir amanhã.
- Não, meu bem. – acariciei seu rosto. – Eu só queria saber se você ainda vai lá. Eu tenho sido um tanto relapsa, na verdade.
- Tenho certeza que a Rachel sabe o quanto você sente falta dela.
- Foi ela que me deu você. – olhei nos seus olhos castanhos. – Eu serei eternamente grata por isso.
- Mulheres da minha vida? – a cabeça de Edward adentrou o quarto. – Será que eu consigo uma mãozinha com os pimpolhos?
Rimos antes de segui-lo ao quarto onde encontramos Shane pulando na cama enquanto Josh "lia" um livro de desenhos sentado na sua cama.
- Vamos lá, meus bonitinhos! – bati palmas assim que entrei. – Quem vai para o banho primeiro?
- O Josh! – Shane apontou ainda pulando.
- E você vai parar com esse pula-pula. – Edward o pegou.
- Mas papai... – fez beicinho.
- Não, não, não, Shane! – o colocou embaixo do seu braço. – Nós vamos tomar banho agora.
- Mas não ia ser o Josh primeiro? – o meu menino esperto de cinco anos perguntou agarrado nas costelas do pai.
- Ele foi o primeiro ontem. – Maggie interveio.
- Vamos lá, mocinho. – bati de leve na sua bundinha. – Para o banho com o papai.
Edward o levou para o banheiro e eu me aproximei do meu pequeno nerd.
- Josh, meu bem, você já sabe que roupinha vai colocar para a ceia? – afastei seus cabelos cor de cobre dos seus olhinhos.
- A Maggie escolhe. – deu de ombros, sem desviar o olhar do livro.
- Tudo bem, eu posso fazer isso. – minha filha foi para o armário escolher uma roupa.
- Que livro você está lendo? – me sentei ao seu lado.
- É um livro de desenhos, mamãe. – rolou seus olhos. – Não dá para ler.
- Você tem mesmo cinco anos? – indaguei mais para mim mesma.
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Todos nós já estávamos prontos e arrumados três horas antes do horário marcado para a chegada dos meus pais.
A campainha tocou e Edward abriu.
- E aí, pequenina? – abraçou Alice. – Como vão?
- Estamos bem. – a minha meia-irmã respondeu. – Ella está com Jasper trazendo os presentes. E Violet.
- Ela dormiu no caminho? – ri.
- Ela sempre dorme quando anda de carro. – deu de ombros.
- Olá, olá, família! – Jasper saudou adentrando o nosso apartamento cheio de sacolas com sua filha mais velha logo atrás também carregada. – Feliz Natal!
- Credo, Jazz, precisava isso tudo? – meu marido apontou, pegando Violet no colo que vinha atrás deles ainda sonolenta.
- Vocês sabem como a mamãe é. – Ella largou os presentes no chão e veio me abraçar. – Estava com saudade de você, tia Bella.
- Eu também, querida. – devolvi o abraço.
- Hey, vamos acomodar os presentes na árvore! – Maggie convidou. Então ela, os meninos e Ella foram carregando as sacolas em direção à árvore montada em um canto da sala.
- Você quer ir também, Vi? – Alice indagou para a menininha no colo de Edward. Ela balançou a cabeça afirmando.
- Vamos lá, o titio te leva! – e eles foram se juntar ao resto.
- Eu estou preocupada com Violet. – minha meia-irmã confessou, retirando finalmente suas grossas luvas.
- Já falei para você que ela é só tímida, meu bem. – Jazz falou, sentando no sofá ao seu lado.
- Ah, Allie, ela tem seis anos, não? - me sentei com eles. – É normal ela ser quietinha. O Josh também é tímido assim.
- Ai, não sei. – suspirou. - Às vezes eu acho que demoramos muito para ter outro filho. Acho que perdemos o jeito com crianças.
- Ora, pare com isso! – bati de leve na sua perna. - A Maggie tem exatamente a idade de Ella e os meninos são um ano mais novos que a Vi. E está tudo bem.
- Você é uma mãe muito melhor que eu, Bella.
- ALICE! – eu e Jasper gritamos juntos. Ela só se encolheu. Alice sempre criava complexos sobre a maternidade, mas todos sabiam que ela era ótima no que fazia.
- Que seja. – esfregou o rosto. – Precisa de ajuda com a comida?
- Vamos lá para cozinha. – ofereci, me levantando e esticando uma mão a ela.
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- A Ângela vai vir? – perguntou, me passando a bacia com as batatas cozidas.
- Ela disse que ia tentar passar aqui antes da meia-noite. – contei começando a amassar as batatas. – Parece que os pais do Simon vão vir da Austrália, então querem passar o natal todos juntos.
- Com quantos anos o filinho deles está mesmo? – disse olhando o peru no forno.
- O John está com sete já. – respondi. – O tempo só faz passar.
- É... – se sentou na minha frente na mesa. – Bella, você tem certeza que isso foi uma boa ideia?
- O quê? – devolvi, já sabendo o que ela queria dizer.
- Chamar o papai e a mamãe para a ceia. – tamborilou os dedos na mesa. – Já faz o quê? Quinze anos que vocês mal se falam?
- Não é que nós mal nos falamos, Alice. – temperei o purê recém feito. – Nós conversamos por telefone às vezes.
- Com Charlie você fala no telefone. – retrucou. – E Renée?
- Ela falou na minha cara que eu deveria colocar Maggie para adoção, Alice. – larguei.
- Aí está. – apontou para mim. – Você não perdoou ela ainda, maninha.
Suspirei e me sentei, apoiando os cotovelos na mesa e colocando as mãos no meu rosto.
- Eu sei que não. – assumi, um nó já aparecendo na minha garganta. – Só que eu não posso ficar assim para sempre! – a encarei. – Tudo bem que eu não sou filha legítima dela, mas foi ela que me criou como se fosse a minha mãe! E mesmo que eu fosse a filha ilegítima de Charlie e nós duas tivéssemos as nossas rusgas, ela foi uma mãe para mim.
- Eu sei que sim. – segurou a minha mão por cima da mesa. – Eu só não quero que você se machuque. Eles podem não ser as pessoas mais compreensivas do mundo. – alertou.
- O que eles querem mais de mim?- apertei sua mão. – Eu me tornei uma médica de sucesso, me casei, tive filhos, consegui criar a Maggie! Até o meu TOC está há anos sob controle!
- Você não precisa provar nada para eles, Bella.
- Eu sei. – suspirei. – Eu sei.
- Amor? – Edward entrou na cozinha e viu nossas mãos juntas. – Opa, estou atrapalhando algum momento fofo entre irmãs?
- Não. – ri um pouco. Soltei a mão de Alice. – O que você queria?
- A Ângela ligou e disse que ela, o Simon e o pequeno John vão passar aqui daqui a pouco.
- Ah, que bom. – falei me levantando e colocando o purê na geladeira.
- Eu vou ver como as crianças estão. – minha irmã falou saindo da cozinha.
- Ela disse que vão vir cedo para irem embora antes da meia-noite. – meu marido continuou.
- Uhum. – continuei arrumando as coisas no balcão da pia.
- Bella, Bella, Bella... – senti seus firmes braços me abraçarem pela cintura. – Não pensa tanto, meu amor. – beijou meu ombro.
- Ai, Edward... – me recostei nele, aproveitando o carinho. – Eu não vou conseguir fazer isso.
- Você vai, sim. – me virou nos seus braços. – É só não se deixar perder o controle.
- Humpf! Controle! – revirei meus olhos. – Eu não deveria ter que me controlar perto dos meus pais.
- Na verdade, é com a família que nós mais nos controlamos. – beijou a ponta do meu nariz.
- Eu não me controlo com você. – retruquei. Edward levantou uma sobrancelha sugestivamente e eu ri, entendendo a ambiguidade do que havia dito. – Bobo. – bati no seu ombro, me afastando. – Quantos anos você tem mesmo? Quinze? – brinquei.
- Quarenta e dois, na verdade. – sorriu seu habitual sorriso torto.
- Nossa, está com tudo em cima, bonitão. – gargalhei, cortando o pão que estava na mesa.
- Bella... – chamou, segurando minha mão. – É sério, não fica mal antes da hora. – me abraçou. – Se der tudo errado você ainda terá a mim e às crianças. Você ainda terá Alice e Jazz e os nossos sobrinhos. Você ainda terá a amizade de Ângela, de Simon, de Emm e de Rose. – beijou meus cabelos. – Você ainda vai ter uma galera que te ama muito.
Virei meu corpo e o abracei com tudo que tinha.
- Obrigada. – beijei seu maxilar. – Você é a pessoa que me faz não perder a fé na humanidade. – declarei. – Eu te amo.
- Não mais do que eu te amo, Bella. – selamos nossos lábios suavemente.
- Ai, meu Deus! – a voz de Jasper nos separou. – Vocês são casados há tempo demais para ter todo esse romantismo. – zombou. – O Emmett ligou. Disse que ele e Rose estão presos no trânsito mas que chegam antes da meia-noite.
- Espero! – falei. – Preciso de todo o apoio que conseguir para enfrentar Charlie e Renée.
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Eram oito horas da noite quando a campainha tocou. Desta vez quem foi atender foi Maggie, pronta para fazer toda a festa necessária para Esme e Carlisle.
- Feliz Natal! – ela falou ao escancarar a porta sem ao menos olhar no olho mágico. – Oh...
Não foi só ela que parou com o entusiasmo quando viu quem havia chegado. Charlie e Renée. Uma hora adiantados.
Congelada no lugar eu estava, congelada fiquei. O que eu faria?
Alice tomou conta da situação.
- Mãe, pai! – os abraçou. – Entrem, chegaram cedo. – tentou sorrir, o nervosismo evidente.
- Renée ficou com medo de pegar muito trânsito e acabamos saindo mais cedo de casa. – Charlie explicou.
- Fizeram bem. – meu marido se pronunciou. – Emmett e Rosalie estão presos no trânsito, não sabem quando chegam.
- Quem são esses? – minha madastra perguntou um tanto ríspida. Segurei o ar.
- Os nossos amigos do trabalho. – Jasper sorriu um pouco, tentando quebrar o clima tenso que insistia em se instalar na sala. – Emmett foi nosso mentor!
- Ah. – respondeu, dando uma olhada pelo apartamento.
Um silêncio estranho pairou entre todos. Maggie finalmente fechou a porta e veio se sentar junto de Ella no sofá, os menores estavam perto da árvore brincando e nem pareceram notar que havia chegado alguém. Alice parada ao lado dos dois como se estivesse pronta para segurá-los se preciso, Jasper e Edward parados entre mim e eles como se fossem uma barreira. Era ridículo.
Enchi meus pulmões de ar, ajeitei a saia do vestido azul, e juntei toda a força que sempre carreguei dentro de mim. Era a minha família. Minha família.
- Olá! – sorri o mais sincero que pude, me aproximando deles que ainda estavam parados perto da porta. – Como vocês estão?
- Bella. – meu pai disse e me abraçou. Ele me abraçou. Retribuí meio sem jeito, bastante surpresa.
- Oi, pai. – falei antes de me virar para Renée e receber um abraço duro dela. Sem surpresa alguma.
- Por favor, sentem! – Alice disse, e todos se encaminharam para os sofás e poltronas da sala. – Querem beber alguma coisa?
- Você parece a dona da casa, Alice. – minha madastra pontuou, um riso afetado. – Que eu saiba Bella que deveria fazer esse papel.
E aí estava. A primeira alfinetada da noite, a primeira indireta para mostrar que eu era a filha bastarda e incompetente de Charlie e nada mais. Tudo entre sorrisos, claro.
- Alice só está ajudando, mãe. – disse, rindo também. A palavra "mãe" parecendo cada vez mais incerta. – Mas então? Vocês aceitam algo?
Definitivamente eu iria ter de sair da minha zona de conforto esta noite. Seja o que Deus quiser.
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Oi oi!
Mais um capítulo. O próximo é o último e onde, finalmente, vai acontecer o verdadeiro enfrentamento de Bella com os pais depois de tanto tempo.
Entendam que eu estou escrevendo esta história supondo que vocês lembrem de tudo que aconteceu em Reação de Coragem (vocês podem ler toda a história no meu perfil) e saibam por que Bella e eles estão assim. Lembrem-se que não é que ela não fale com os pais, só que eles não são mais próximos. Nada passa de um telefone esporádico e alguns aniversários de família.
Beijo, beijo
Isa
