CAPÍTULO 4:
Na manhã seguinte, os rapazes tomaram o Impala e seguiram, por uma estrada secundária, até a região dos desaparecimentos.
O lugar era espetacular: de um lado da estrada, a vastidão do canavial e, do outro, árvores centenárias de uma floresta tropical.
Decidiram carregar suas pistolas com munição real caso topassem com criminosos ou algum animal perigoso.
À medida em que se embrenhavam na floresta, a luz, vez por outra, rareava sob a copa das árvores. Sentiam sob seus pés, o solo fofo e úmido, coberto por folhas e trepadeiras. Ao longe, o trinar de pássaros.
Caminharam por bastante tempo, mas não encontraram nada, vivo ou morto, que lhes esclarecesse as dúvidas.
- Cara, acho que não tem nada aqui além de mato e insetos! – Dean sentou-se sobre um tronco derrubado.
- Acho que você tem razão. – Sam voltou-se para o irmão, limpando o suor que lhe corria pelo rosto.
- E então, damos o fora?
Antes que o rapaz pudesse responder ao irmão, um redemoinho formou-se à sua frente, levantando a folhagem do chão. Os dois observavam o fenômeno, surpresos. As folhas giravam, seguindo o vento e formavam um turbilhão de, mais ou menos, um metro de altura, movendo-se para frente e recuando, como se quisesse chamar-lhes a atenção.
Nenhum dos irmãos já havia presenciado algo parecido, mas na sua profissão, estavam cansados de saber, que o estranho é muito normal. Seguiram o redemoinho até a borda de uma clareira desmatada.
Ali, da mesma maneira que surgiu, o fenômeno desapareceu, deixando os rapazes intrigados diante de uma boa extensão de floresta derrubada e muitos, muitos buracos no chão escuro cercados por terra revolvida.
Um alarme soou dentro de seus cérebros e puseram-se a remexer nos montes de terra em busca de restos mortais. Nada. Gastaram toda a tarde e só encontraram alguns ossos e presas que pareciam bem antigos.
No caminho de volta, antes de adentrarem mais uma vez à floresta, Sam tropeçou numa pequena filmadora coberta de lama. Aquilo sim poderia trazer luz ao caso.
Algumas horas mais tarde, já com o sol a se pôr, Sam e Dean chegaram ao motel.
- Dean, olha aquilo. – Samuel cutucou o irmão, indicando o lado oposto da estrada.
- A cavalaria chegou, Sammy! – Dean sorriu de lado e piscou, matreiro - Vamos nessa!
Os rapazes atravessaram a rua em direção a um automóvel estacionado no posto de gasolina, onde uma mulher ainda jovem, com cabelos escuros presos para trás por óculos de sol, debruçava-se sobre o teto do carro.
- Quem diria, Valery Rood sobre quatro rodas! – o mais velho ironizou, aproximando-se.
Sem responder aos gracejos de Dean, a detetive contornou o Corvette prata, aproximou-se dele e puxando-o pela gola da camisa, calou-o com um beijo decisivo.
- Olá, Dean. – a moça lançou-lhe um olhar provocador, limpando a mancha de batom que havia marcado o canto dos lábios do rapaz. - Como está?
- Melhor agora. - os olhos dele cintilavam.
- Oi, Sam – dirigiu-se ao caçula, entregando-lhe um embrulho e um sorriso terno. – Feliz aniversário.
- Obrigado, Valery, mas como...
Sou uma investigadora. Preciso estar bem informada a respeito de tudo e de todos. – piscou para Samuel. - Espero que goste. É um dos meus favoritos.
- Se é um livro,ele vai gostar. – Dean meteu-se na conversa.
- Bem, senhores, vão me convidar para entrar ou vamos resolver nossos negócios aqui mesmo?
Os rapazes apontaram a direção do quarto e deram passagem à mulher.
Um entregador de pizza bateu à porta, interrompendo a conferência sobre os últimos acontecimentos. Samuel recebeu e pagou a encomenda.
- Então, é isso. - Dean concluiu.
- Ainda não entendi porque me chamaram. Estavam indo bem, pelo que vejo.
- O fato, Valery, é que o meu irmão aqui – Sam explicou - acha que não há nada de sobrenatural no desaparecimento do rapaz e que este caso é meramente policial.
-Sei. – a detetive aceitou a fatia de pizza e a cerveja oferecidos pelo jovem – E, sendo assim, envolver a polícia local no caso seria um tanto quanto embaraçoso para vocês, não é ?
- Garota esperta! – o mais velho sentenciou – Os caras iam cair em cima de nós feito abelhas no mel.
- Eu bem que sugeri...
- Está bem, está bem, Sam. Já entendi. O plano era uma droga e deveríamos ter bancado os policiais desde o princípio. Satisfeito?
- Talvez não, senhores.
- Dá pra parar com esse negócio de senhores? - Dean reclamou com a boca cheia – Isso me deixa nervoso!
- Perdão. É a força do hábito. - É bem provável, Sam – dirigindo-se ao mais moço - que não tivessem conseguido nada com a tal investida, visto que trabalhadores ilegais têm a tendência de fugir das autoridades e seus empregadores, nem se fala!
A expressão de satisfação no rosto do loiro era indescritível.
- Pode ser. – Samuel sentou-se diante da detetive, do outro lado da mesa - Ops! – levou a mão ao bolso traseiro da calça - Tinha esquecido completamente disso!
Dean arregalou os olhos e arqueou as sobrancelhas, animado. Gesticulou pedindo a pequena fita VHS que o irmão exibia e adiantou-se em colocá-la na filmadora que tinham na mochila. Conectou o aparelho à tv enquanto seu irmão e Valery acomodavam-se no sofá.
A imagem estava um tanto escura, mas podia-se perceber a clareira onde os irmãos estiveram e vozes que sussurravam.
"- Henrique, vá devagar... Eles podem nos ouvir, cara.
- Vamos logo com isso. Deixa de ser mole.
- Não estou enxergando direito...Vá mais devagar.
- Olha lá, Saulo... Focalize bem ali. Está vendo? Está pegando tudo?
- Estou, mas o que eles vão fazer com aquele monte d...
- Continue filmando e cale a boca.
- Henrique... Henrique, volte aqui. Mas que merda...
- Fique aí. Vou chegar mais perto pra ouvir o que estão falando...
- Henrique, volta aqui. Se pegam a gent... "
Ouviram um som abafado e a imagem tornou-se distorcida e repleta de chuviscos. No áudio, uma gritaria incompreensível. Sam levantou-se, bateu na lateral do aparelho e voltou a fita algumas vezes, mas em vão.
- Parece que a sua teoria tem fundamento, Dean – Valery concordou com o caçador depois do que viu e ouviu. - Está me parecendo um caso de queima de arquivo. Só nos resta saber o que acontece naquela floresta que não pode ser revelado e que vale a vida de dois seres humanos.
- Então vai nos ajudar? – Samuel questionou-a.
- Com certeza. Amanhã farei uma visita oficial à fazenda do Sr. Gusman e veremos no que dá. - a moça levantou-se – Vocês devem retornar à mata e ver se encontram mais alguma coisa que ajude na investigação, certo?
- Já vai, assim tão cedo? – Dean quis saber, ao perceber que a detetive dirigia-se à porta.
- Nem seus lindos olhos verdes me fariam perder esta noite de sono, meu caro. Estou exausta! – atirou-lhe um beijo e sorriu - Tenham belos sonhos.
Sam não conteve a risada diante da expressão desamparada do irmão.
- Parece que você está perdendo o jeito, mano velho...
- Cala a boca, Sammy e não enche! – Dean levantou-se irritado - Vou tomar um banho...Frio!
Como combinado, enquanto Valery apresentava-se na fazenda de Gusman, os irmãos Winchester retornavam à clareira onde haviam encontrado a filmadora. Refizeram todo o caminho em silêncio, esgueirando-se entre as árvores e arbustos para ocultar sua presença dos funcionários que trabalhavam no corte das árvores.
Chegando ao local desejado, os irmãos separaram-se com o objetivo de cobrir uma área maior e, exatamente onde Sam havia tropeçado na pequena filmadora, Dean encontrou, em meio às folhagens, um crucifixo preso a uma corrente e um cartão de visita sujo e meio amassado.
Dentro da mata, um cheiro forte os cercou. Um redemoinho se formou e os envolveu, aproximando, cada vez mais os dois, empurrando-os na direção oposta à que vieram. Era difícil enxergar com a quantidade de terra e folhas que era erguida do chão. Ambos caminhavam ao sabor do vento, protegendo os olhos como podiam.
Para a surpresa da detetive, O Sr. Gusman, em pessoa, veio recebê-la no canavial. Era um homem grande, de porte imponente, metido num terno bem cortado e com um cachimbo entalhado preso ao canto da boca. O aroma mentolado do fumo impregnava o ar ao seu redor.
- Em que podemos servi-la, detetive? - o homem estendeu-lhe a mão.
- Rood, senhor. Valery Rood. – aceitando o cumprimento.
- Mão firme para uma senhorita. – soltou uma baforada.
- Não se pode ser muito frágil nessa carreira, não é mesmo? –encarando-o com um sorriso - Gostaria de ter a sua permissão para entrevistar seus empregados e andar por aí para tentarmos esclarecer algumas pendências a respeito do desaparecimento de dois dos seus funcionários na última semana. Se não for um incômodo, é claro.
- Obviamente que não, oficial. – Gusman indicou o caminho para que a moça se adiantasse - Mas, sinceramente, penso que está perdendo o seu tempo e o precioso dinheiro dos contribuintes com essa gente. Eles devem estar medidos num buraco qualquer embebedando-se.
- Possivelmente. Mas nenhum de nós deseja que sejamos acusados de omissos só porque não se tratam de cidadãos americanos, não é certo?
Valery jogava com as palavras na intenção de captar qualquer sinal, mas o homem era uma geleira. Ou não tinha a menor idéia do que estava acontecendo ou era um excelente ator.
- Você é do FBI, não?
- Pertenço a uma divisão especial. Como tenho certa experiência com desaparecimentos e estava na região...
- Está certo. Não quero atrasá-la ainda mais. - estendeu novamente a mão forte - Mais tarde receberei o senador Tucker para um drink. Se quiser aparecer, não se acanhe. Ramirez indicará a sede.
- Fico lisonjeada com o convite, senhor, mas estou aqui a trabalho. Não seria conveniente. Mesmo assim...
A detetive ateve-se por um momento observando aquele homem afastar-se. "Tem alguma coisa aqui", pensou.
Quando a ventania finalmente cessou, Sam e Dean viram-se diante de uma região alagada, coberta por uma vegetação viscosa, parecendo lodo e algas.
Novamente, aquele cheiro quase insuportável encheu o ar. Um mau cheiro tão forte que lhes ardia as narinas. Um silêncio sepulcral dominou a floresta. Algo estava por ali e os rapazes podiam senti-lo nos ossos.
Samuel escaneava a mata, apertando os olhos, medindo cada milímetro, num giro de cento e oitenta graus que lhe colocou de frente para o irmão. Uma sombra cresceu por trás de si e só se deu conta do perigo, ao deparar-se com a expressão de horror nos olhos do mais velho.
Dean, que já havia engatilhado a arma, disparou contra a criatura depois de jogar o caçula dentro d'água. Esvaziou o pente da pistola, mas aquela besta enorme, fedorenta e de pelos avermelhados, espessos como uma carapaça, continuava a avançar sobre eles.
Sam ergueu-se e, num puxão, trouxe o irmão para dentro da água também e ambos nadaram para o fundo, o mais rápido que puderam, sem olhar para trás.
Mais adiante, os irmãos perceberam que a criatura não os perseguira pela água, que estavam no meio de uma lagoa bastante extensa, mas de pouca profundidade, de modo que poderiam andar por ela.
- Parece que o bicho não gosta de água, Dean.
- Não é de se admirar... Fedendo daquele jeito... Nossa! Estou até enjoado!
- Bem, isso nos dá uma vantagem. – Sam tentava retirar as minúsculas folhinhas verdes que grudavam em seu rosto - Podemos caminhar pela água até acharmos uma saída segura.
- E você tem alguma noção de onde ela esteja, irmãozinho?
-Não. Mas é melhor do que encarar aquela coisa. E que diabos era aquilo, afinal?
- Sei lá, Sammy. Nunca vi nada igual... Aquele troço pediu pra nascer feio e entrou na fila um monte de vezes, cara. Além de feder pra cacete...Argh!!
- Vamos logo, Dean. – Samuel parou de repente e encarou seu irmão com uma expressão nada animadora – Oh, meu Deus...
- O que foi, Sam?!
- Parece que algo bateu nas minhas pernas, Dean...- tateando o que havia na água, franziu o cenho e torceu os lábios -...E parece um corpo...
- Agüenta aí, Sam. – Dean mergulhou os braços na água escura - Cara, isso está ficando cada vez melhor...
Os Winchester encararam o cadáver, aparentemente de um homem ainda jovem, já azulado e em decomposição. O arrastaram até perto de um tronco fincado na água e fixaram-no pelo cinto para que ficasse à vista.
- Não parece com a foto do Henrique.
-Deve ser o outro, Sam.
- Não dá para carregá-lo.
- Isso está fora de cogitação, maninho. Vamos cair fora, encontrar Rood e passar a localização do presunto.
- Com certeza ela terá como enviar uma viatura para recolher o corpo.
- Isso se uma anaconda não aparecer para jantar. – comentou o mais velho, já a caminho, novamente.
- Anaconda?! Não viaja, Dean!
-É, cara, anaconda. Aquela cobra imensa que vive na água e devora meio mundo. Você nunca assiste tv?
-Não seja ridículo. Isso é só uma lenda.
-Olha só quem está duvidando de lendas... Cuidado, garoto.
- Não começa, tá? E são sucuris.
-O quê?
-Essas cobras enormes das quais você falou. Sucuris não existem na Flórida. Elas são nativas da América do Sul.
- E quem me garante que uma não resolveu emigrar?
- Faça o favor de fechar esse seu arsenal de besteiras, Dean? Não precisa se preocupar com isso, está bem? E se você não tivesse matado tantas aulas de Biologia pra ficar "pegando" as líderes de torcida atrás das arquibancadas, saberia que sucuris só se alimentam de seres vivos, não de carcaças.
-Está certo. Se você garante...
- É. Eu garanto. É só não urinar na água que vai ficar tudo bem.
- Não entendi...- Dean continuava seguindo o irmão com a água na altura do peito – A cobra é atraída pelo cheiro da urina, é isso?
-Claro que não! Que idiotice!!
- Ué? Então, o que é que tem a ver uma coisa com a outra?
- Nada, Dean. Nada. Só não faça, certo?
- Sammy... Agora que tocou no assunto, a minha bexiga está estourando!
-Dean, se tem amor às jóias da família – o caçula indicou a parte de seu irmão que estava submersa com o olhar apenas NÃO FA-ÇA IS-SO, ENTENDEU??
- Qual é, Sam... Vai dizer que agora tem alguma lei que proíbe um sujeito de se aliviar no pântano?
-Não. Anda logo.
-Dá pra explicar esse papo, ô esquisito? Eu estou realmente apertado aqui.
-Então, feche a boca e acelere o passo. Essas águas estão repletas de microorganismos que, se você urinar, penetram pela sua uretra e se instalam nas paredes internas da sua 'área de lazer', provocando uma infecção que você não vai nem querer saber como se trata, sem contar, que o 'parque de diversões' vai ficar interditado por um loooongo tempo. É motivo suficiente?
- E só agora você me diz isso?! – Dean bateu com força atrás da cabeça do irmão.
- Não vai me dizer que você fez?!
- Não, mas a coisa está ficando preta. Ou amarela, por assim dizer...
-Dê o seu jeito, mano. Amarra um barbante, canta um mantra, sei lá. Faça qualquer coisa, mas não deixe sair!
-Mas que merda, Sam!! Eu, sinceramente, não sei de onde você tira esse tanto de esquisitices, cara. Às vezes você me assusta!
Mais tarde, fora da lagoa...
- Finalmente... – Dean sorriu aliviado - Tem certeza de que aquelas coisinhas não são mais um perigo?
- Tenho. Estamos fora da água. – Sam estava impaciente e tremendo com a aragem do início da noite – Anda logo. Tem um carro pipa aí?
Os irmãos tomaram seus lugares no Impala e Dean deu a partida rumo ao motel e ao encontro marcado com a detetive.
Sam verificou o celular encharcado e atirou-o, em seguida, visivelmente irritado, dentro do porta-luva.
- Sam...
- O que é?
-Tem certeza mesmo sobre o lance, você sabe, dos germes na água?
- Você ainda está pensando nisso? Já disse que está tudo bem, cara.
- É bom mesmo. – Dean apertou os olhos por um momento - Sammy, é bom que você esteja absolutamente certo de que o brilho das minhas 'jóias' não será ofuscado por aquelas coisinhas invisíveis ou eu juro que te rogo uma praga daquelas que você vai precisar de um guindaste se quiser usar o seu 'brinquedo'...
