CAPÍTULO 5:
Depois de deixar o canavial, tendo confirmado as informações colhidas pelos rapazes, Valery passou a tarde na delegacia local e na biblioteca pública fazendo algumas pesquisas por conta própria
À noite, o trio de caçadores reuniu-se numa lanchonete próxima ao motel para o jantar.
- Rapazes, sinto ter que ser eu a dizer, mas vocês precisam mudar a colônia pós-barba, com urgência.
- Muito engraçada, Valery. Hilária! – Dean amarrou a cara, puxando a cadeira para que a moça se acomodasse.
- Está tão ruim assim? – Sam farejava os braços, incomodado - Nós gastamos todo o estoque de sabonetes do quarto...
-Relaxa, Sam. Não deve estar fedendo tanto. Não estou sentindo nada.
- Pois então, meu caro, suas células olfativas devem estar destruídas...
- Pega leve, detetive. Nós tivemos um dia de cão. - Dean inspirou o ar ao redor de si.
- O que aconteceu, afinal? – a moça estava curiosa.
- Acho que sei o que nos atacou, Dean. - o mais jovem voltou a tela do laptop para o irmão e a detetive esticou-se toda para olhar também - Joguei na internet as características daquela coisa e, olha só.
- Isso se parece muito com a criatura, Sam.
- Eu também acho. Só que essa estátua está na América do Sul, bem no meio da região amazônica.
- Mas lendas locais podem se manifestar em regiões diferentes, ao acaso, Sam. - Valery comentou - Já vimos isso acontecer.
- Sabemos disso, Val. - Sam digitou um endereço eletrônico – Segundo a lenda, esse bicho pode ser um Mapinguary, que significa 'animal que ruge' ou ' a besta fedida', dependendo do dialeto.
- Quem batizou essa coisa sabia do que estava falando. - Dean sentiu-se arrepiar.
- Existem duas versões da lenda: uma em que a criatura é um espírito da floresta e outra em que é um ser corpóreo, descendente do Megatherium, ou mais comumente conhecido como preguiça gigante, um dos maiores mamíferos que viveram sobre a terra, maior que o elefante moderno.
- Mas ainda estou confuso... - Dean coçou o alto da cabeça – Será que essa criatura viajou milhares de quilômetros até a Flórida e ficou escondida durante todo esse tempo?
- Não sei, Dean. Tudo é possível. Há relatos sobre avistamentos pelo Chile e alguns países da América Central também.
- Bem, isso nos leva aos ossos que vocês encontraram. – a detetive desdobrou o lenço que continha os fragmentos e depositou-o sobre a mesa, juntamente com uma foto de satélite. - Andei pesquisando por conta própria e, com a ajuda de um amigo, consegui essas fotos. E adivinhem só...
- Tem alguma coisa enterrada naquela fazenda que não é pra ninguém saber, além dos corpos dos caras que desapareceram. – Dean arriscou.
- Exatamente. – Valery acrescentou uma pasta com cópias de documentos cartográficos às pistas que colhera - Toda essa região era uma espécie de santuário para preguiças gigantes há milhares e milhares de anos atrás. Parece que uma ramificação dessa espécie viveu por aqui por bastante tempo. Há registros de fósseis em várias regiões do norte da Flórida.
- E essas manchas mais claras no meio da floresta podem ser um cemitério de preguiças gigantes, não é?
- É uma possibilidade, Sam.
- Mas o que os ossos dessas tais preguiças têm a ver com o desaparecimento de dois cortadores de cana?
- Se vocês observarem com atenção rapazes, verão que a área do lado oposto da estrada do campo de Gusman é de floresta nativa e está sofrendo uma devastação considerável. - a detetive colocou outra foto ao lado da primeira - Para falar a verdade, no mesmo ritmo em que o canavial cresceu nos últimos dois anos.
- Talvez por isso – Dean concluiu - a criatura só tenha se manifestado agora... Talvez a floresta esteja ameaçada de uma forma irrecuperável. Mas ainda não sei onde entram os cortadores... Esse papo está me torrando os miolos...- o loiro sacudiu a cabeça, tentando organizar as idéias.
- Nós também descobrimos algo bem interessante hoje, Valery. – Sam fechou o computador e continuou - Quando estávamos fugindo da besta, acabamos entrando numa região pantanosa e esbarramos num cadáver submerso.
- Aquilo também estava fedendo... – Dean calou-se ao olhar reprovador de seu irmão.
- Não sei se esse corpo vai nos ajudar muito – uma ruga de preocupação desenhou-se na testa da moça.
- Como assim? – Samuel questionou-a - Se um corpo foi encontrado a polícia não tem que interferir?
- Tecnicamente, sim. Se for resgatado e pudermos provar que é de um dos empregados desaparecidos. E ainda especulando, não temos provas de que foram eliminados a mando de Gusman, nem que têm alguma relação com a devastação da floresta, exceto por aquela gravação que vocês encontraram.
- Que por sinal, está uma porcaria.
- Exatamente. Na realidade, não temos muito para um mandado. - Valery parecia desanimada - Com a influência de Gusman junto às autoridades locais e algumas mais importantes, é capaz de termos de esperar dias por um mandado de busca.
- Até lá, o cara já virou comida de jacaré. – Dean completou.
- E adeus evidências... - Sam juntou as fotos que estavam sobre a mesa e observou-as novamente, apertando o lábio inferior - O cara está devastando a floresta, não está?Nós poderíamos acionar as autoridades florestais ou algum grupo ecológico, sei lá...
- Poderíamos, Sam, mas não creio que chegariam muito longe. – Valery colocou sobre a mesa uma folha impressa - Não há nenhum registro de proteção ambiental para aquela área e o nosso amigo fazendeiro acaba de assinar um contrato milionário com o departamento de energia para fabricar etanol. Conseguiu autorização para construir a usina exatamente onde está essa faixa da floresta tropical.
- Com a crise do petróleo, é bem provável que o governo feche os olhos só pra não perder o fornecedor...
- Espera aí, Sammy. Você está dizendo que, mesmo com um cadáver e, talvez dois, mais a devastação da floresta o cara ainda vai ser tratado como um herói nacional?
- É bem possível, Dean. Podem existir interesses muito maiores aqui.
- O fato, rapazes, é que Henrique e seu amigo provavelmente filmaram ou colheram provas capazes de comprometer a construção, sendo mortos por isso. Mas não temos as malditas evidências. Então, estamos legalmente de mãos atadas.
- Você disse bem, detetive – Dean piscou e sorriu de lado - Legalmente...
- Vocês dois vão retornar para resgatar o corpo? – Valery animou-se, de repente.
- Acho que não temos outra opção. – Dean calou-se por um momento enquanto a garçonete servia as refeições - Sammy, aproveita pra descobrir como se mata aquela coisa porque eu não estou a fim de levar outra carreira daquele bicho fedorento.
- Nem de mergulhar nos alagados, não é?
- Cala a boca, Sam!
- Se você não quer tocar no assun...
- Saaaaaammm...
Rood divertia-se com a discussão dos irmãos enquanto saboreava o prato à sua frente, quando seu celular tocou.
- Olá, querido! ... Sim, está tudo sob controle... Não, não creio que vá me demorar muito... Também sinto a sua falta... Não, claro que não esqueci. Não se preocupe... Está certo... Pode deixar... Com certeza...Também te amo. – desligou, sorrindo.
Samuel ergueu as sobrancelhas, surpreso com a conversa que ouvia e com a expressão de desagrado que se desenhava na face de seu irmão.
- Algum problema, caçador? – Valery indagou ao perceber a dose excessiva de força que Dean colocava na faca ao cortar seu bife.
- Nenhum. Está tudo ótimo. Ótimo mesmo. Melhor, não poderia.
- Excelente. Então podemos comer em paz, não é, Dean? – Samuel tratou de pôr um fim naquela conversa. A última coisa da qual precisavam era Dean Winchester numa crise explícita de ciúmes.
Os três caçadores terminaram o jantar em silêncio. Um silêncio ensurdecedor, diga-se de passagem. Um silêncio cheio de perguntas, principalmente da parte do mais velho dos Winchester que, vez por outra, levantava os olhos e encarava a moça, mas acabava por engolir suas dúvidas com a ajuda de um copo d'água.
- Bem... – Sam tentou buscar uma maneira de sair - Estou satisfeito e acho que vou dar uma volta por aí.
- Aonde você vai, Sammy?
- Não se preocupe. - levantou-se e foi saindo - Só vou caminhar um pouco e... colocar as idéias em dia...
- Bem, já que o Sam resolveu dar uma voltinha, - Dean sorriu para a moça - nós poderíamos, talvez...
Oh, sinto muito, Dean. - Valery apanhou sua bolsa na cadeira vazia - Tenho um compromisso.Fica pra próxima. - afastou a cadeira no intuito de retirar-se.
- Espera aí. Que compromisso? – o rapaz tinha uma ruga no meio da testa - Com o cara do telefonema?
- Boa noite, Dean. – a jovem saiu sem responder.
O mais velho dos Winchester sentiu o sangue ferver em suas veias. "Onde já se viu? Um compromisso... Eu estou aqui, nós estamos aqui e ela tem um compromisso... O que pode ser tão importante que não poderia esperar até amanhã?" - largou os talheres sobre o prato, fazendo barulho - "Lá vou eu pro chuveiro, novamente..." - pensou, indignado.
CONTINUA...
