CAPÍTULO 6:
Na manhã seguinte, embarcados no Impala, os três jovens repassaram os detalhes da ação, a caminho da lagoa.
- Então, basta acertar chumbo grosso no meio dos olhos da criatura, certo, Sammy?
- Certo. Partindo do princípio que a lenda está correta...
- Sabem o que está me incomodando?- Valery aproximou-se do banco dianteiro - Se o Mapinguary é um defensor da floresta, por que atacou vocês?
- Sei lá – o loiro respondeu, fitando-a pelo espelho retrovisor - Acho que não estava escrito na nossa cara que éramos os mocinhos.
- Pode até ser, mas ainda não estou convencida. De qualquer maneira, precisamos ser rápidos e discretos. Thomas estará esperando por nós com o equipamento. Basta que indiquemos o caminho e a equipe dele fará o resto.
- E esse seu amigo, Valery, é de confiança? – Samuel estava preocupado - Afinal, se Gusman é realmente tão poderoso, pode ter qualquer um no bolso.
- Não se preocupe, Sam. Confio totalmente nele.
- Nossa, detetive... Tanta confiança... - Dean ironizava - Isso não é do seu feitio.
- Qual é o problema com você ? Seja objetivo.
Olha, vocês dois... - Sam interveio mais uma vez - Vamos nos concentrar no trabalho, ok?
Com a ajuda do cientista forense, amigo de Valery, o corpo na lagoa foi resgatado sem maiores problemas.
Dean observava, de longe, enquanto ela conversava com Thomas, e Sam via estampar-se no rosto de seu irmão aquela expressão que dizia "sai da frente que eu vou explodir".
Valery, brevemente, relatou sua conversa aos rapazes e os três tomaram o rumo das escavações enquanto o veículo dos peritos se afastava pela estrada de terra.
Sam e Dean caminhavam à frente e a detetive os seguia de perto, atenta aos movimentos da floresta.
Por um momento, ela deteve-se a observar um pequeno pássaro que sobrevoava, em círculos, o caminho que percorriam. Levou a mão aos olhos, protegendo-os do sol brilhante da manhã, na tentativa de identificar a ave que os seguia.
O pássaro desenhava círculos no ar, cada vez mais baixo, aproximando-se dos caçadores em vôos rasantes como se quisesse chamar-lhes a atenção.
- Aonde você vai, Valery? – Sam questionou-a, batendo no ombro do irmão para que este se voltasse.
- Vão em frente. Não demoro e já alcanço vocês. – Ela tomou a mesma direção da ave.
- Pára de graça, garota! – Dean ordenou - É melhor ficarmos juntos.
- Tenho um pressentimento, Dean. - acenou para que eles continuassem em seu caminho - E só pra constar, você não manda em mim.
- Argh! Como é teimosa!!
- Parece até com alguém que conheço... – Samuel empurrou o irmão de volta à trilha.
Mais adiante, a detetive avistou a clareira da qual os irmãos haviam falado. Encontrava-se agora atrás de uma cerca viva de trepadeiras que se penduravam nos galhos mais altos das árvores e desciam quase a tocar o chão, formando uma cortina verde. Do outro lado, o pequeno pássaro pousou sobre um monte de pedras e cantava, incansavelmente. Por um momento, passou pela cabeça de Valery que aquele animal estava disposto a mostrar-lhe algo oculto sob as pedras, mas como isso seria possível? "Tudo é possível, detetive, tudo é possível..." pensou ela, aproximando-se do local.
A pequena ave silenciou e batia com o bico sobre as pedras de cima do monte.
Seus instintos de caçadora raramente falhavam e eles lhe gritavam para que removesse aquelas rochas dali.
Tomou seu celular, mas não havia sinal. Precisava contactar os irmãos, mas também não havia tempo para voltar. Logo aquele lugar estaria cheio de empregados da fazenda a recolher os fósseis. Pensou numa possibilidade quase que absurda, respirou fundo e concentrou-se em Samuel. Talvez, mesmo sem estar em perigo e se conseguisse se concentrar o bastante, poderia enviar uma mensagem ao caçula dos Winchester. Nunca havia tentado isso antes, mas há sempre uma primeira vez para tudo.
- Dean... – Sam parou de repente, levando as mãos à cabeça e apertando os olhos.
- O que foi, Sam? – o mais velho aproximou-se, preocupado - Teve outra visão?
- Acho que sim... Argh! – sacudiu a cabeça, tentando livrar-se da dor – Acho que é a Valery.
- Como assim, a Valery? Ela está em perigo? O que você viu? Fala logo Sammy!
- Eu não sei... ela estava... perto de um monte de pedras... Havia uma ave pequena...um canto... Precisamos voltar.
- Está certo, já estou convencido. Você está bem? – Sam acenou que sim - Ótimo. Vamos nessa. Mostre o caminho.
Alguns minutos mais tarde, seguindo a trilha deixada pela moça, os irmãos encontraram Valery junto à uma árvore, um tanto pálida. Rapidamente ela explicou como havia encontrado aquele local e relatou suas suspeitas.
Sob as pedras, um saco preto guardava os restos mortais de Henrique que, apesar do estado avançado de decomposição, ainda podia ser identificado.
Um estalar de gravetos pisados alertou os três jovens para a aproximação de visitas indesejadas e, sem perder tempo, ocultaram o cadáver em meio às folhagens.
Novamente aquele cheiro pútrido e nauseante invadiu a floresta. Um rugido ensurdecedor tomou conta do espaço e uma sombra enorme, bem mais alta do que Sam, caminhava em passos pesados por entre as árvores, arrastando atrás de si uma longa e pesada cauda.
Os jovens puseram-se em posição de defesa, já que não havia para onde correr ou lugar para se esconder. Era a hora de encarar a criatura e rezar para que a lenda tivesse um fundo de verdade.
Todos os três engatilharam suas armas e esperaram. Seus olhos corriam a mata, seus ouvidos se aguçavam a cada pequeno som. A respiração estava pesada e profunda. Não podiam perder a coisa de vista, ou melhor, do radar. Porque vê-la ainda não era possível, apenas senti-la. Aquele mau cheiro revirava-lhes o estômago.
Por alguns segundos, não houve qualquer movimento ou som pela imensidão verdejante.
Vários cliques por trás da cortina de trepadeiras fizeram com que os caçadores percebessem que, talvez, a criatura fosse apenas mais um de seus problemas. Visualizaram as silhuetas dos homens que se aproximavam, armados.
O primeiro disparo fez com que Sam, Dean e Valery se atirassem ao chão, contra-atacando com disparos seguidos em direção aos seus agressores.
Valery, instintivamente, atirou-se para mais longe dos rapazes na tentativa de ampliar sua linha de fogo.
De onde estava, a detetive enxergou, ao longe, na borda da mata, uma figura. Tony observava tudo, com um sorriso no rosto e equilibrava-se com agilidade sobre sua única perna. Valery ensaiou um gesto para avisá-lo do perigo, mas num piscar de olhos, o garoto havia sumido dentro da vegetação.
Há poucos metros de distância, os irmãos Winchester verificavam a munição e continuavam a defender-se. Sam virou a cabeça ao som do grito desesperado do irmão mais velho que já corria em direção à detetive, que tinha às suas costas o enorme Mapinguary. Dean mirava entre os olhos do ser, mas este sequer se mexia, pondo-se como uma parede entre a moça e os atiradores que se aproximavam dela, pela retaguarda.
Valery acionou o gatilho uma, duas, três vezes, mas não havia mais balas no pente. Arrastou-se para trás, indo encontrar-se com o caçador que vinha em seu socorro.
Do seu ponto de vista, Samuel observou formar-se um redemoinho diante da criatura selvagem que grunhia, exibindo suas longas presas e lançava para longe os homens de Gusman,paralisados pela figura assustadora. Viu a ventania crescer e envolver a todos, de forma violenta, inclusive o monstro fedorento. Havia aquele turbilhão de folhas, galhos e terra que crescia e girava, arrancando do solo o que estivesse ao seu alcance e elevando à altura das copas das árvores.
Os jovens caçadores agarraram-se aos troncos mais próximos com toda a sua força e, quando tudo terminou, não sabiam ao certo o que realmente tinha acontecido. Só constataram que, tanto a criatura quanto os capangas tinham desaparecido e uma grande quantidade de ossos de fósseis estava espalhada pelo solo revirado.
