EPÍLOGO:
"Há dois dias, a redação da WWT-KP recebeu informações a respeito de fatos, no mínimo, curiosos na área prevista para a construção da usina de produção de etanol de propriedade do proeminente cidadão Horácio Gusman, envolvendo a morte de dois cortadores de cana. Nossa fonte conseguiu registrar com fotos de um celular um imenso cemitério de preguiças gigantes. Grupos ecológicos já se mobilizam pela proteção do santuário das preguiças.
Agora, nossa equipe fala diretamente do local, com maiores detalhes..."
- Bem, parece que o nosso trabalho aqui está encerrado. – Valery concluiu, desligando a tv do seu quarto do motel e acomodando-se sobre a cama. Foi uma boa idéia verificar o logotipo do cartão que vocês encontraram no mato.
- É, parece que sim. – concordou o mais velho dos Winchester, da cadeira junto à parede Nada como um pouco de publicidade pra produzir um belo escândalo e botar areia na empada daquele ricaço metido a besta.
- Gusman deve estar fugindo dos jornalistas e dos ambientalistas até agora... – Samuel recostou-se próximo ao irmão. Ah, a Edna pediu pra agradecer pela ajuda. A família já reclamou o corpo. E com o dinheiro que o jornalista investigativo havia prometido aos rapazes por provas que incriminassem o Gusman pela devastação, vão mandar o Henrique pra casa.
Só espero que a justiça seja feita. –a detetive comentou.
Se o seu amigo for mesmo eficiente –Dean colocou nas palavras uma entonação muitíssimo sarcástica não será difícil provar como e onde Henrique e Saulo foram mortos. Daí pra um dos capangas abrir a boca, é um pulo.
Vai voltar ao departamento? - Samuel questionou a jovem caçadora.
- Talvez, não sei ainda. – a moça apanhou uma capa de lona que continha um violão e abriu-a, examinando o instrumento - Preciso saber como anda a minha situação por lá antes de dar as caras novamente.
- E a gente precisa dar o fora antes que aquele pela saco do Henricksen apareça, Sammy.
- Pois é... – a detetive dedilhava uma canção, afinando as cordas - Mas antes de qualquer coisa preciso entregar uma encomenda a uma certa senhora, ou o tio Jack vai querer o meu fígado no azeite.
- Ah, então era este o compromisso da outra noite...
- O que você imaginou que pudesse ser, Dean?
- Eu? Eh... Eu não imaginei nada... – não havia uma desculpa pronta - Você é dona do seu nariz e pode fazer o que quiser, não é? Pode ir aonde tiver vontade e quando bem entender...
Bela melodia. – Sam interferiu em socorro ao irmão.
- Esta foi a primeira música que a tia Olga me ensinou a tocar – Valery continuava dedilhando as cordas - Ela toca divinamente e tio Jack mandou fazer este violão especialmente para o seu aniversário. - a moça parecia ignorar as tentativas do loiro em se justificar.
Ambos perceberam que Valery não estava totalmente presente naquele quarto e calaram-se quando ela começou a cantarolar as palavras que a canção dizia, num tom suave.
"Lying in my bed
I hear the clock tick and I think of you
Caught up in circles, confusion is nothing new
Flash back to warm nights, almost left behind
Suitcase of memories
Time after time..."
No rosto do mais moço, desenhou-se um sorriso satisfeito ao perceber que os olhos da jovem caçadora buscaram os de seu irmão com uma delicadeza que jamais havia testemunhado antes.
"...Sometimes you picture me
I'm walking too far ahead and you callin' to me
I can't hear what you've saidThen you say: "Go slow, I fall behind"
The second hand unwinds..."
Naqueles breves momentos, o pequeno quarto do motel encheu-se de ternura. Uma ternura rara na vida daquelas pessoas. Um silêncio do tamanho do mundo permitia que a voz suave de Valery, levada pelos acordes harmoniosos do violão, tocassem fundo no coração.
"...If you're lost
you can look and you'll find me
Time after time
If you fall, I'll catch you, I'll be waiting
Time after time..."
Quando os olhos de Dean cintilaram pelas lágrimas contidas, Samuel entendeu que era sua deixa e retirou-se, quase invisível, fechando a porta atrás de si.
O caçula dos Winchester, ainda no corredor, pôde ouvir os últimos versos da canção. Então, pendurou aquele velho cartaz na maçaneta, onde se lia "Não perturbe" e dirigiu-se ao seu quarto.
Algumas horas mais tarde, Sam estava diante do laptop, intrigado diante de informações interessantes que encontrou ao pesquisar um pouco mais sobre lendas latino-americanas, quando bateram à sua porta. Levantou-se e, ao abri-la, numa sacola de papel, estavam uma garrafa fechada por uma rolha de cortiça, um gorro vermelho e um cachimbo de madeira entalhada onde estavam inscritas, na parte de baixo, as iniciais H.G.
- Bem que eu estava desconfiando... – Sam sorriu, retornando ao lugar onde estava, próximo à janela. – Por isso as balas não mataram o Mapinguary. Era você o tempo todo e nos enganou direitinho, seu trapaceiro... – voltou o rosto para a vidraça e, através dela, viu Tony, do outro lado da calçada, dirigir-lhe um aceno acompanhado de um riso largo e, em seguida, desaparecer envolto num redemoinho.
Dentro da garrafa estava um pequeno pedaço de papel onde o caçador leu "Nem tudo é o que parece, amigo."
FIMN/A(2): Direto do fundo do baú, "Time After Time", numa versão de Eva Cassidy .
