Capítulo dois – treze.

- Você foi um belo idiota James, meu amigo. – sussurrou Sirius aparecendo do nada ao lado do garoto, que estava parado no gramado semi-congelado, a uma curta distância do lago negro.

O moreno de óculos estapeou o outro no ombro e olhou inquisidoramente para os demais amigos. Remus e Peter gargalharam abertamente e James bufou, não hesitando em demonstrar e extravasar toda a raiva que sentia.

E daí que ele tinha cantado Lily Evans na frente do Snivellus? E daí que o seboso tinha ficado aborrecido? E daí que ele tinha azarado o morcegão? O problema era que ele tinha feito isso bem debaixo do nariz bem feitinho da Evans.

- Eu não consigo entender por que ela é amiguinha dele. – confessou com um suspiro. – Ele gosta dela. E isso é muito nojento se você pensar bem.

- Não quero pensar em coisas nojentas, nós acabamos de comer. – Peter lembrou franzindo a testa levemente, como se não pudesse evitar, porém, pensar no que o amigo havia dito.

Os quatro riram e James sentou-se ao pé da árvore em que estivera encostado, sendo seguido pelos demais. Já era o décimo ou décimo primeiro dia da primavera, porém os jardins continuavam congelados como se fosse inverno. O gelo escorregou da árvore e caiu nos cabelos bagunçados de James, motivo de mais gargalhadas dos quatro.

- Você deveria ter visto a cara do Snivellus quando você convidou a Evans pra sair. – Sirius falou após alguns minutos de silêncio. Remus deu-lhe um cutucão, estreitou os olhos cor de mel e depois suspirou. O outro só deu os ombros, divertido com a situação. – Parecia que ele tinha acabado de encontrar um dragão verde com bolhinhas amarelas, sem brincadeira. – continuou.

- Então eu realmente perdi a única cara que não expressou o tédio e mau-humor do Snivellus? – James perguntou risonho.

- Perdeu. – respondeu Peter. – Perdeu também a única cara que não foi de desgosto que a Evans fez pra você, porque você virou quando o Snivellus gritou. – ele lembrou.

- Foi uma cara de surpresa. – Remus adicionou. – Ela ficou bem chocada com o seu, digamos, atrevimento.

As palavras de Peter pesaram na cabeça do garoto de óculos. Ele abriu a boca para falar, mas nada saiu. Deixou os ombros caírem e bateu propositalmente a cabeça na grande árvore que lhe servia de encosto. Mais neve caiu em cima dele, mas dessa vez ninguém riu.

- Por que raios essa merda de neve não derrete de vez? – ele perguntou se limpando, já bastante irritado.

Nenhum dos amigos respondeu. Sirius apontou a varinha para cima e murmurou um feitiço descongelante o mais baixo que conseguiu. A água gelada molhou os quatro, porém.

- Voilá! – ele sorriu quando os três o olharam com as caras emburradas. – Isso deve servir, não é Jimmy?

James concordou com um aceno, contrariado. Sorria também, apesar de tudo. Tinha os melhores amigos do mundo e isso faria qualquer um sorrir, mesmo tendo levado um fora, um banho de neve e outro de água gelada.

Já tinha descartado a possibilidade de beijar a Evans há algumas semanas, mas agora ele teria conseguir. Daria um tempo para a garota pensar, analisar a proposta e quem a estava fazendo. Mas não desistiria. Na verdade, o fora só o tornara mais obstinado e tentado a provar para todos, principalmente para o Snivellus, que ele seria o cara que conquistaria Lily Evans.

Olhou para os amigos, cada um sentado de um jeito diferente, apoiados na grande árvore que haviam eleito como propriedade particular dos marauders. Estavam estranhamente silenciosos e calmos. Remus não lia, Peter não estava observando os demais alunos e ele, James, não estava conversando em voz alta com Sirius sobre as novas peças a pregar no Snivellus.

O sol começou a se pôr atrás da floresta proibida sob os olhares dos quatro garotos quase adormecidos. Somente James e Sirius ainda conservavam-se de olhos abertos para ver a enorme bola avermelhada se esconder no meio das árvores altas da floresta.

- Posso fazer um comentário completamente desnecessário? – perguntou Sirius animado, sem olhar para o amigo.

- Todos os seus comentários são desnecessários Six. – o outro devolveu evasivamente.

Sirius olhou para o amigo e riu.

- Isso significa que eu posso fazer o comentário que eu quiser, então? – questionou euforicamente. – Vou falar de uma vez. O sol está da cor dos cabelos da Evans.

James meramente concordou, sem desviar o olhar da bola de fogo que se punha devagar e brilhante por detrás dos horizontes do castelo. O comentário de Sirius era mesmo muito desnecessário, visto que ele já havia notado que as cores combinavam.

Quando o garoto de óculos se sentiu preparado mentalmente para responder algo, percebeu que Sirius havia adormecido, assim como Remus e Peter. Meneou a cabeça e recostou de novo para assistir ao final do pôr do sol e ao nascimento da lua crescente no céu.

Uma brisa gelada começou a soprar afastando as nuvens. Todas as constelações visíveis a olho nu podiam ser observadas com clareza no céu azul escuro.

Ele levantou-se com menos barulho do que esperava, deu alguns passos para trás e executou o mesmo feitiço que Sirius havia feito mais cedo. A neve derretida ensopou os garotos deitados sob a árvore, acordando-os instantaneamente.

James fez uma reverência cheia de floreios para os amigos e saiu correndo para o castelo em direção a torre da Grifinória. Pôde ouvir Sirius xingando até entrar no salão principal.

Andou depressa, sempre olhando sobre o ombro para se certificar de que os amigos não estavam logo atrás dele. Sirius havia feito o mesmo, mas molhara os quatro igualmente. Ele tinha sido mau, era o que Remus diria, levantando e deixando que os três se molhassem sem se preocupar.

Estava tão desatento que esbarrou em uma pessoa na hora em que entrava no salão comunal. Um arrepio percorreu seu corpo quando reconheceu quem era: Lily Evans.

A garota enrubesceu e desviou os olhos verdes do rosto do garoto. Respondeu com um aceno de cabeça o pedido sincero de desculpas de James e mordeu o lábio inferior enquanto ele subia as escadas para o dormitório de dois em dois degraus.

A porta do quarto foi fechada com um estrondo por ele, logo após sua rápida entrada. Secou-se, trocou de roupa rapidamente e sentou-se na cama, fechando os cortinados com tanta pressa que o acessório ameaçou cair.

Apurou os ouvidos para, ao menor barulho, esconder a pasta de desenhos que acabara de tirar de debaixo do colchão. Os amigos sabiam que ele desenhava, mas não sabiam dos últimos desenhos que ele vinha fazendo.

Puxou uma folha de papel em branco e começou a tracejar, com a mente dividida entre a atenção e o torpor. Nenhum dos dois sentimentos era completo, entretanto.

Estranhou a demora dos amigos e sua rapidez em concluir o desenho. Assinou-o com as próprias inicias, como fazia usualmente, e adicionou as letras L.E. quase no meio da folha. Sorriu instintivamente e guardou os lápis e o papel na pasta, empurrando-os para a beirada da cama.

Estava quase adormecendo quando as cortinas foram abertas com violência e os três amigos se jogaram em cima dele, ainda parcialmente molhados do banho de neve derretida. Tentou, em vão, sinalizar que estava com falta de ar.

Sirius, Remus e Peter levantaram quando perceberam que ele parara de se debater. James, no auge de sua atuação teatral, deixou o braço escorregar para fora da cama. Falhou, contundo, em se manter sério ante as gargalhadas dos demais.

- A Evans ficou olhando pra nós quando passamos pelo salão comunal. – Sirius comentou antes que pudesse se conter.

James meramente deu os ombros e olhou para a pasta preta aos pés da cama. Olhou discretamente para os amigos. Sirius estava sentado na própria cama, Remus enxugava o cabelo preguiçosamente e Peter deveria estar no banheiro, pois não estava a vista.

Sentou-se a fim de tentar pegar a pasta sem que um dos dois notasse. Sirius, que estivera se divertindo com um fio solto da colcha, olhou de James para a pasta e de novo para o amigo. No segundo seguinte, ele segurava a pasta preta e ao mesmo tempo tentava manter uma distância segura do amigo de óculos.

James estreitou os olhos e estendeu a mão, num pedido mudo de devolução. Sirius sacudiu a cabeça negativamente. Assoviou para chamar a atenção de Remus e jogou a pasta para ele, que quase a deixou cair.

- Muito engraçado. Estou morrendo de rir. – James esbravejou ironicamente, enquanto era feito de bobo pelos dois amigos, que arremessavam a pasta um para o outro.

Os três se assustaram quando a porta do banheiro abriu e Peter saiu, o que fez com que Sirius se esquecesse momentaneamente da pasta e a deixasse cair e espalhar todo seu conteúdo.

Ele abaixou e pegou o papel que deslizara até os seus pés. Olhou o desenho e deixou um sorriso se esgueirar pelos lábios.

- Alguém está apaixonado, não é Jimmy? – comentou maldosamente, passado o desenho para Remus, que o passou para Peter. Foi quando James conseguiu reconhecer o desenho que fizera há alguns minutos.

- Não estou não. – retrucou rápido. – É arte!

- Claro. Você desenha muito bem. – confirmou o lobisomem. - Mas L.E. com seus cabelos vermelhos refletindo os raios do sol perto da nossa árvore certamente não expressam seu amor.

Um tom vermelho parecido com o do desenho subiu às bochechas de James tão rápido quanto as gargalhadas dos amigos chegaram aos ouvidos dele. Abaixou-se para recolher os demais desenhos, mas os três fizeram-no primeiro.

James afundou na cama. Sirius observara que todos os desenhos feitos desde o começo do terceiro ano pelo amigo eram dedicados a Lily Evans e todos tinham a legenda L.E. escrita em alguma parte do papel.

Remus achara particularmente bonito o desenho de James de Lily sentada na beirada do lago com as amigas e bem engraçado o em que a garota tentava se esquivar dos tronquilhos, que tentavam subir pelas suas pernas. Ambos com a legenda escrita de lápis grafite quase apagado.

Peter gostara do que mostrava Lily no café da manhã, feliz por receber uma carta via coruja. L.E. estava escrito de vermelho, quase ao lado da assinatura.

Eram mais de cinqüenta desenhos ao todo. E por mais de cinqüenta vezes James ficou vermelho de vergonha e raiva com as insinuações dos amigos, que aumentavam e diminuíam conforme a cor das iniciais do nome da garota.

Mandou os três fazerem algo anatomicamente impossível e recolheu todos os desenhos com a raiva pulsando. Guardou-os na pasta novamente, sentou na cama e fechou o cortinado sem sequer dizer boa noite.

Já era tarde quando Sirius, Remus e Peter pararam de cantarolar que James amava Lily e era ainda mais tarde quando o garoto de óculos conseguiu adormecer. Sonhou quem os três amigos estavam distribuindo os desenhos que ele havia feito para a escola inteira. Acordou desesperado e escondeu a pasta no fundo falso do malão escolar, junto à capa de invisibilidade. Deitou novamente e mergulhou em um sono sem sonhos.


Ene/AA: Oee pessoas. Viu, nem demorei. Demorei?? Ok, eu demorei... Anyway, espero que tenham gostado do capitulo. Ele é bom fofinho e, como deu pra perceber, não é uma sequencia do capitulo anterior. Comentem eu atualizo assim que eu conseguir (ter vontade o suficiente). xD

Ps: leiam Sine die e me ajudem a sair da minha crise que me impede de escrever coisas felizes! Quer dizer, se vocês gostarem de drama não precisam ler...

BJOX corações!!