Desenhos, Por J.P.

Capítulo três - quinze

Era muito, muito cedo quando James acordou naquele sábado. Tão cedo que nem Moony, que acordava e dormia com as galinhas, estava em pé. O problema era que ele não conseguia dormir. E ele tinha tentado até contar hipogrifos, sem o sucesso esperado.

Apesar de demonstrar calma na frente de todos os amigos, James estava tremendo por dentro de medo dos N.O.M.s. Sabia que passaria em todas as provas práticas, mas tinha uma memória falha e sempre esquecia algum detalhe importante da guerra dos duendes em 1357 ou do descobrimento da nova espécie de mandrágora que revolucionou os cuidados médicos no século XVII.

Tentando fazer o menos possível de barulho, ele se vestiu e desceu para o salão comunal vazio. O relógio marcava quase seis e meia. James não conseguia se lembrar da última vez que acordara naquele horário por vontade própria.

O céu aberto anunciava que o dia seria quente, pelo menos mais quente do que a primavera morna. James não conseguiu sentar nem ficar observando as janelas. Sabia que todos estavam dormindo, menos ele. Após cerca de um minuto de discussão mental, resolveu descer para o salão principal e tomar café da manhã antes de todos. Poderia escolher o lugar que quisesse, pensou, mas logo se lembrou que já fazia isso, mesmo com todos os lugares cheios.

Aos quinze anos, tinha praticamente toda a escola nas mãos. Era aluno modelo, se saia bem em todas as matérias. Aprontava as dele junto com os amigos, mas nunca, ou quase nunca, eram pegos e culpados pelo que faziam. Não era nada de mais; só algumas bombas de bosta, feitiços de tropeço e cócegas. Raramente um caos geral...

Era o melhor artilheiro que a escola já tivera, segundo McGonagal dissera, com o orgulho estampado em sua face raramente risonha. Com o trabalho de equipe, o time da Grifinória era o primeiro colocado e potencial ganhador da taça de quadribol do ano.

James, porém, não tinha o que mais queria: Evans, Lily Evans. Na verdade, tinha o desprezo da garota, como ninguém mais na escola possuía ou gostaria. Evans, a monitora perfeitinha. Evans, a melhor aluna em poções, feitiços, transfiguração e história da magia. Evans, a garota mais linda e complicada da escola.

As portas do salão principal estavam escancaradas e alguns alunos sentados à mesa sequer levantaram o rosto quando o barulho dos sapatos no chão anunciou a chegada de alguém. A maioria dos estudantes era ou do quinto ou do sétimo ano, uns poucos lendo grossos livros de revisão e murmurando feitiços em voz baixa.

O pesadelo/sonho ruivo de James, Lily, estava sentada exatamente onde os marotos se sentavam todos os dias desde que se tornaram amigos: perto o bastante da mesa dos professores para ouvir o que quisessem e longe o bastante para aprontarem sem serem notados. Era um dos poucos que liam, seus olhos verdes se moviam rapidamente capturando palavras e mais palavras. Por algumas vezes, ela olhou para o nada em sua frente e murmurou algumas frases pausadamente, como se estivesse tentando memorizar alguma coisa antes da prova. James riu e suspirou, deveria estar fazendo o mesmo, embora soubesse que não aprenderia nada na última hora.

O garoto se sentiu tentado a sentar-se ao lado dela e perguntar se ela poderia explicar algo da matéria para ele. Sorriu marotamente e sacudiu a cabeça para se livrar da idéia, não podia atrapalhá-la, ela estava revisando e não ficaria muito feliz em ser incomodado, principalmente por ele.

Sentou-se a alguns metros da garota, tão próximo à mesa dos professores que teve certeza que conseguiria ouvir até o barulho de mastigação dos mestres. Encarou a mesa de madeira e deixou a cabeça descansar sobre os braços. Quem olhasse acharia que ele estava dormindo, mas, de soslaio, ele via Lily debruçada no livro, os cabelos vermelhos emoldurando o rosto branco como a neve, com exceção das sardas ocasionais no nariz e nas bochechas.

Xingou baixo por não ter trago papel e canetas. Olhou ao redor na tentativa de identificar alguém que não estivesse fazendo nada, assim como ele, para que pudesse pedir um papel e qualquer coisa para escrever.

Assustou-se quando uma garota morena se sentou na sua frente com um caderno, algumas penas e um tinteiro. Sorriu e adiantou-se para segurar o material, mas a garota foi mais rápida e puxou para o próprio colo o que havia colocado na mesa.

- Oi James. – ela sussurrou, na óbvia tentativa falha de soar sexy.

- Oi MacDonald. – ele devolveu, sem se preocupar com o tom de voz. Olhou de soslaio para Lily, ainda concentrada na leitura e deu um sorriso falso. – Pode me emprestar uma folha, uma pena e o seu tinteiro? Deixei tudo lá em cima.

- Claro. – confirmou, recolocando tudo de volta na mesa. James rapidamente pescou uma pena boa e a mergulhou no tinteiro, começando a rabiscar o pergaminho amarelado.

Mesmo estando de cabeça baixa olhando para o desenho, James sabia que Mary MacDonald, melhor amiga de Lily Evans, ainda estava sentada ali, observando-o desenhar a ruiva. O que não era nem um pouco bom, definitivamente. Soltou a pena após alguns segundos e olhou para a garota. Ela tinha um ar obstinado, como se tivesse decidido que iria conversar com James Potter assim que acordara naquela manhã.

- Posso ajudar em alguma coisa MacDonald? – perguntou, tentando soar o mais interessado possível. Não conseguiu saber se tinha conseguido.

- Na verdade pode. – ela riu. – Eu não entendi como a guerra dos duendes começou e nem porque aquele Hagar não sei o que decidiu que não compraria mais o chá da...

- É melhor você perguntar para a Evans, MacDonald. – James a cortou. Sequer se lembrava de já ter estudado isso. Será que cairia na prova? Bem, se caísse, ele já responderia uma questão a menos.

- Pra Lily? Mas ela está estudando.

- Eu também, MacDonald, tentando, na verdade. – falou, voltando para o desenho que mal fora iniciado.

- Você está estudando? É mesmo? – ela perguntou casualmente, embora soasse um tanto desconfiada. – O quê?

- C-como assim? – ele devolveu assustado. Mary não era tão sonsa quanto parecia, mas era mais irritante do que parecia.

- O que você está estudando? – ela perguntou debruçando na mesa para ver o papel em que o garoto escrevia.

James puxou a folha para si e colocou os braços por cima, tapando-a quase completamente. Seu coração batia acelerado. Se os marotos tinham feito graça dele quando descobriram os desenhos, ele seria humilhado pelo salão se ela visse.

- São algumas novas manobras de quadribol, você não entenderia. – respondeu, olhando do desenho para Mary e dela para Lily, sentada a alguns metros de distância, ainda concentrada no livro.

A garota pareceu pesar a resposta antes de se dar por convencida e sentar novamente no banco. James relaxou visivelmente, dobrou o papel e o guardou no bolso. Era algo valioso demais para cair em mãos erradas. Tentou não olhar para a ruiva, mas não conseguiu. Quando retornou o olhar para a mesa, percebeu que Mary estivera o observando.

- Você gosta dela. – ela murmurou como se tivesse acabado de fazer uma descoberta que mudaria o mundo por completo.

- Quê? N-não, eu não gosto dela! – ele exclamou tão alto que alguns alunos viraram-se para olhá-lo. Um desses alunos foi Lily, e James teve certeza que se olhar queimasse ele teria virado carvão naquele instante.

- Que bom que não. – ela suspirou aliviada. – Vocês não combinam mesmo.

James ouviu a última frase da garota ecoar em seu cérebro por um minuto inteiro. "Vocês não combinam mesmo" foi passado com os mais diferentes sotaques e entonações, antes que ele pudesse sacudir a cabeça para expulsar a frase da mente.

- Como assim nós não combinamos? – perguntou se debruçando na mesa em direção a morena. Falava o mais baixo que conseguia, porque não agüentaria outro olhar daquele que Lily tinha lançado a ele.

É obvio que eles combinam. Os dois são da grifinória, os dois são bonitos, os dois são inteligentes, os dois... Eles, bem... Talvez não combinem tanto assim...

O garoto olhou da mesa para a garota a sua frente e ergueu as sobrancelhas. Mary suspirou fingidamente, pois era bem claro que estava se divertindo com a situação, diferente de James, que se afogava em pânico mal contido a cada milésimo de segundo.

- Que dia você faz aniversário? – ela perguntou. – Vinte e sete de março. – ela mesma respondeu, cortando James, que havia aberto a boca para respondê-la. Ele concordou, confuso em saber que ela sabia seu aniversário.

- O que tem isso a ver com eu e a Evans combinarmos? – ele questionou sem entender.

- Você é de Áries! E a Lily é de Aquário. – ela falou como se fosse óbvio. – Vocês não combinam. – atestou, com a cara mais triste que conseguiu fingir.

James piscou várias vezes e olhou ao seu redor, como se esperasse que os marotos saíssem de debaixo da mesa e gritassem que aquela era uma pegadinha. Não aconteceu.

- O que eu quis dizer é que os signos de vocês não combinam. – ela começou a explicar. – Você se daria melhor com alguém de gêmeos, como eu! A Lily não combina com você, tudo que você conseguiria seria algo próximo de um inferno astral. Ela é uma garota difícil...

- Eu sei! – James a cortou.

- Não, essa frase é dela. São os aquarianos que dizem 'eu sei' pra tudo. – ela falou irritada. – O fato é que você e a Lily só conseguiriam magoar um ao outro, como já fazem sem nem estarem juntos.

- Eu magoei a Evans? – ele perguntou chocado. – Quando?

A cabeça dele girava com todas as informações. Áries, aquário, inferno astral, magoar um ao outro? Ele nunca havia feito nada que pudesse magoar Lily. Ou havia?

- Esquece isso. – ela murmurou sacudindo a mão na direção dele, com uma expressão que dizia claramente que havia falado mais do que deveria. – O que importa é que vocês estarão forjando obrigações adicionais para vidas futuras, nas quais as duas almas estarão acorrentadas juntas, numa sucessão interminável de íntimos relacionamentos, através da lei inevitável de atração e repulsão, ação e reação magnéticas.

- Quê? Eu... ahn? - ele balbuciou, olhando novamente para os lados, atônito.

- O que eu quero dizer - ela começou a explicar pausadamente, como se estivesse conversando com uma pessoa com retardo mental grave - é que só poderão ficar juntos quando a mistura da áurea de vocês transformar o carma negativo em uma nuvem positiva que os levará para uma viagem pelas suas reencarnações anteriores e a vid...

- Olha MacDonald, foi bem legal falar com você, mas eu tenho que ir. – ele a cortou, levantando e começando a caminhar para fora do salão. – Obrigada pelo papel. – agradeceu sem se virar.

Passou direto por Lily, sem olhá-la nem por um segundo e se esgueirou pelas passagens secretas do castelo até chegar à torre da Grifinória. Subiu as escadas que levavam ao dormitório masculino e entrou no quarto sem fazer barulho.

Os três amigos ainda dormiam a sono solto, embora Remus ocasionalmente falasse "1536", "Nicolau Flamel" ou "lua cheia". James riu, pegou uma pena e o tinteiro e desceu novamente.

Sentou-se no canto do salão comunal que tinha vista para o portal de entrada e uma poltrona perto, para o caso de precisar se esconder da maluca dos signos MacDonald. Tirou o desenho do bolso e o terminou, dando atenção especial aos olhos da garota, verdes e atentos ao que quer que fosse. Varias pessoas desceram dos dormitórios durante esse meio tempo, assustando James, que olhava por cima do ombro a todo instante. Escreveu L.E. e assinou como normalmente fazia quando concluiu.

Virou a folha ao contrário e desenhou dois planetas, separados pelo sol. Escreveu J.P. em um deles e L.E. no outro. Agora sim eles estavam separados pelos astros. Riu ironicamente.

- Prongs acordou com as galinhas hoje! – ouviu a voz de Sirius gritar, ainda nas escadas.

- E você dormiu como um cachorro! – devolveu rindo.

Olhou para o novo desenho, riscou as letras L.E. rapidamente e o enfiou no bolso no momento em que os amigos colocaram os pés no salão comunal. Sorriu marotamente e desceu as escadas rumo ao salão principal, esperando que pudesse comer seu café da manhã em paz, sem estudos e sem astros confusos.


Ene/Aa: Ois pessoas. Desculpem a demora, os trabalhos da faculdade estão me sufucando. Prometo que depois do dia 11 (que é quando eu entro de férias) vou atulizar com mais frequência. Até lá, leiam e comentem para a minha felicidade aumentar.

Beijos enormes, corações!