Capitulo quatro – dezessete.
James e Lily estavam sentados na única mesa que havia no salão comunal do dormitório dos monitores chefes, um de frente para o outro. Seus pés descalços se tocavam por debaixo da mesa, provocando doces arrepios nos dois.
Estavam namorando a três meses, duas semanas, quatro dias, dezoito horas, quarenta e cinco minutos e cinqüenta e sete segundos, cinqüenta e oito, cinqüenta e nove; quarenta e seis minutos. Tudo isso segundo as contas de James, já que Lily não parecia se preocupar muito com os números.
Fora bem complicado convencê-la de que os dois dariam certo sim juntos; aparentemente ela também havia ouvido a conversa sobre os signos, mais de uma vez. O problema não eram os signos, era a teimosia e a inegável independência de Lily, que faziam com que ela, além de não querer parar para escutar, quisesse falar o tempo todo sobre todos os possíveis erros da relação, fadada ao fracasso, dos dois.
Pessimismo com certeza é uma coisa menor que isso. E James não conseguia tirar isso da cabeça. O pessimismo e as palavras de Lily.
Durante os três meses em que ele tentou repetidamente fazer com ela entendesse que os dois eram perfeitos um para o outro, ele fez milhares de desenhos, deixando-os espalhados no salão comunal de propósito. Ela os empilhava cuidadosamente e devolvia a ele, garantindo que só não os queimava porque 'até eram bonzinhos'.
Lily, nos desenhos, era uma espécie de deusa, sempre empoleirada em um pedestal, tão alto que os cabelos vermelhos dela contrastavam com o céu em azul vívido. Ela até gostara dos primeiros desenhos, afinal James a via como uma deusa, e isso é algo a ser comemorado. Na verdade, James a via como uma garota caprichosa, metida, indiferente e temperamental; porém linda. O garoto desfilou um dia inteiro pela escola com a mão de Lily estampada no rosto quando disse o que realmente o pedestal significava, não que ele tivesse se importado muito. Mas, no final das contas, os dois entenderam que não adiantava tentar esconder o que a escola inteira já sabia: os dois eram loucos um pelo outro de uma maneira bonita e irracional. E ambos tinham dificuldade para demonstrar seus sentimentos.
Houve uma quase festa o dia em que eles começaram a namorar, providenciada pelos marotos, claro. Depois disso, em todos os desenhos, Lily não estava mais no pedestal, mas James ainda continuava vestido de arqueiro medieval, um guerreiro obstinado que não desiste até alcançar seu objetivo.
E, desde então, toda vez que eles decidiam fazer os deveres de casa no salão comunal do dormitório dos monitores-chefes, eles ficavam sentados um de frente para o outro, com os pés descalços se tocando aleatoriamente por debaixo da mesa. James sempre fazia o dever de casa durante a noite, ou não os fazia na maioria das vezes, para poder observar Lily em silêncio e desenhá-la observando cada detalhe.
Ele estava fazendo um desenho grande, a folha ocupava todo o lado dele da mesa e alguns lápis coloridos estavam espalhados pelo lado de Lily, que havia retraído os pés e mordia os lábios, concentrada no dever de casa de Transfiguração. Após alguns segundos, ela largou a pena e afundou as mãos nos cabelos vermelhos, desmanchando o coque que havia feito e o refazendo em seguida.
- Jimmy? – chamou, o cutucando com o pé.
- Lil? – ele devolveu, sem levantar a cabeça, enquanto desenhava o tronco de uma grande árvore que ocupava a metade do desenho.
- Se você fosse um animago, que animal você seria? – ela perguntou ainda cutucando-o com o pé gelado.
James deu um risco enorme na folha e começou a tossir como se tivesse se engasgado com o ar. Lily levantou rapidamente e começou a dar tapinhas nas costas do namorado, visivelmente preocupada com o que quer que houvesse acontecido a ele.
Quando parou de tossir, James murmurou um feitiço para apagar o risco que havia feito na emoção do momento e bebeu o copo de água que Lily pegara para ele. Olhou para a namorada com os olhos arregalados e voltou-se para o desenho, na tentativa de se concentrar e fugir do assunto.
A ruiva estreitou os olhos e, ao invés de voltar para a própria cadeira, encostou-se no espaldar da do namorado, abraçando-o desajeitadamente. Beijou-o no pescoço e sussurrou 'Você está escondendo alguma coisa'.
O efeito foi imediato. O moreno deu outro risco no desenho, de uma ponta a outra, e levantou-se da cadeira tão rápido que quase tropeçou. Lily gargalhou e se deixou cair no sofá, puxando o namorado junto. Os dois sentaram um ao lado do outro e a ruiva o olhou com as sobrancelhas erguidas.
- Então...? Vá em frente.
Ele corou e suspirou audivelmente.
- Não posso contar, não é um segredo só meu. – desconversou. Ia levantar, mas a garota o puxou pela mão, forçando-o a se sentar.
- Todos os marotos estão envolvidos? – ela sondou, olhando-o nos olhos.
James fraquejou e confirmou com a cabeça. Olhou para os lados, desejando mais que tudo que os amigos entrassem pela porta do dormitório e arranjassem uma desculpa, convincente ou não, para tirá-lo dali. Praguejou mentalmente por ter trocado a senha do dormitório assim que ele e Lily começaram a namorar. Preço da privacidade.
- Isso tem alguma coisa a ver com o segredo do Remus? – ela continuou, visto que o garoto não esboçava reação alguma a não ser sacudir a cabeça, desolado.
Ele estacou no momento em que ela terminou a frase e piscou seguidas vezes, como se estivesse tentando entender como ela sabia daquilo. Levantou e abriu a janela, deixando o vento gelado bagunça-lhe os cabelos.
- Como você descobriu? – perguntou, a voz abafada pelo vento.
- Primeiro: você pode fechar a janela, por favor? – ela pediu, arrepiada com o frio. Ele assentiu e fechou a enorme janela com um estalido. – Obrigada. Foi o Sev... Snape que...
- Eu vou acabar com aquele Snivellus. – James exclamou já se dirigindo a entrada do dormitório.
Lily o seguiu e o puxou pelo braço antes que ele saísse.
- Ele não me contou, ele só supôs e depois eu descobri. – ela consertou, puxando o namorado para o sofá novamente. – Você deveria tentar me deixar terminar uma frase. Seria bem legal.
- Como você descobriu? – ele repetiu, fingindo não ter ouvido as ultimas palavras da namorada.
Lily suspirou. Fez James esticar as pernas e deitou no sofá, usando-o como travesseiro. Ele começou a mexer distraidamente no cabelo vermelho dela, embora sua cabeça girasse com a possibilidade de Snape ter contado para outras pessoas além de Lily.
- Eu e Snape estávamos conversando...
- Quando? – ele a cortou e tirou as mãos dos cabelos dela instantaneamente.
- Se você parar de me cortar eu posso contar. - ela retrucou soando irritada. - Agora continua mexendo no meu cabelo porque é bom.
James murmurou um 'desculpa' que Lily sequer ouviu e a beijou na testa, antes de voltar a mexer nas madeixas vermelhas da garota. Estava realmente nervoso.
- Eu e Snape estávamos conversando no quinto ano, logo depois daquele episodio em que você o salvou no Salgueiro Lutador. – ela recomeçou, frisando o ano em que havia conversado com o garoto. – Então eu comentei que o Remus era doente e ele disse que era todo mês na lua cheia. Eu o cortei, mas fiquei pensando nisso. Então eu cheguei ao óbvio.
- Moony sabe que você sabe? – ele perguntou, agora penteando o cabelo da garota com um pente conjurado do ar.
- Moony? – ela repetiu incerta. – Não, o Remus não sabe que eu sei, eu acho. Eu pensei em contar para ele, perguntar, sabe? – confessou, corando um pouco. – Mas se ele não fosse eu achei que pudesse ficar ofendido.
- Ele não ficaria ofendido por você saber que ele é um lobisomem. Ele ficaria preocupado se soubesse que você sabe e você o evitasse. – James a corrigiu.
Lily era esperta e o Snivellus havia visto Remus na entrada da passagem secreta. Ele estava se preocupando a toa, ninguém mais saberia.
- Então agora você pode me contar por que ficou assustado quando eu perguntei em qual animal você se transformaria se fosse animago. – ela lembrou, embora o garoto estivesse torcendo para que ela esquecesse.
- Você não pode contar pra ninguém, nem para os outros marotos, senão eles vão me matar. Isso é um segredo tão sério quanto o mapa. – ele sussurrou, embora os dois estivessem sozinhos no salão comunal dos monitores.
- Mapa? – ela franziu a testa.
- Uh, merda. – ele xingou, batendo na própria testa. – Esquece que você ouviu isso! Sobre os animagos, bem, nós somos.
- Eu não vou esquecer de mapa nenhum e você é um animago? Isso é tão legal! – ela riu, se sentando virada para o namorado. Seus olhos verdes brilhavam.
James contraiu as sobrancelhas, visivelmente confuso. Onde estava a bronca por quebrar as regras do Ministério? Onde estava o discurso de 'isso é ilegal e você nem deve ser registrado, seu idiota'?
- Tudo bem que você sempre foi avesso às regras, mas isso é muito mais do que eu esperava. – ela confessou rindo. – Sirius, Peter e Remus também são?
- Peter e Sirius sim. Um rato e um cachorro, respectivamente. – ele disse, pensando no problema que teria ao contar que havia dito o segredo dos segredos para Lily. – Nós decidimos fazer isso pra acompanharmos o Moony nas noites de Lua cheia. Você sabe, lobisomens não atacam animais.
- Inteligente, muito inteligente. – murmurou, dando um tapa em James quando ele fez uma reverência fingida. – Você é o quê? Além de um gato. - ela sorriu, piscando um dos olhos cor de esmeralda.
- Aw, bem, eu sou um cervo. – ele murmurou em resposta o mais baixo que pôde.
Lily riu e deitou novamente, oferecendo o pente para o garoto. James a olhou, tentando se manter sério e a fez sentar, levantando em seguida.
- Você não pode contar pra ninguém. – ele a lembrou, sentando na cadeira para voltar a desenhar, não sem antes retirar o outro rabisco do desenho.
- Prometo, Mr. Prongs. – ela riu e voltou para a cadeira, embora tivesse deixado o dever de cada de lado e agora espiasse o desenho que o namorado fazia.
Olhar por cima da mesa, porém estava ficando cada vez mais complicado, visto que James toda hora virava a folha para acrescentar um detalhe na grande árvore desenhada ou para pintar um pássaro no céu.
Ela se levantou e arrastou a cadeira até parar ao lado do namorado, que a olhava como se ela fosse algo bem próximo de uma pessoa louca. Sorriu e sentou-se, debruçando sobre o desenho demarcado em caneta preta. James estendeu um lápis verde e ela o aceitou, começando a pintar a grama para ajudá-lo, enquanto ele desenhava uma pessoa bem no centro do desenho.
Lily terminou de pintar a grama alguns segundos antes de James terminar o esboço do desenho. Ele colocou o braço para tapar a vista da garota, que fez beicinho e foi se aninhar no sofá, carregando um pesado livro.
Já estava na vigésima terceira página do livro quando James tossiu para anunciar que havia terminado o desenho. Ela sorriu abertamente e levantou, ansiosa para ver o que o namorado fizera dessa vez.
Era lindo. Uma garota, ela, sentada em um cervo, sob uma enorme árvore que começava a perder as folhas amareladas para a relva verde.
- Nossa Jimmy. – ela sussurrou. Beijou-o apaixonadamente e riu. – Esse desenho significa que eu posso montar em você quando eu quiser? – perguntou maliciosamente.
- Sempre. – ele devolveu no mesmo tom, porém não pode evitar rir.
- É outono no desenho. – ela reparou. – Eu pensei que sua estação do ano favorita fosse o inverno e não o outono.
- Eu não consigo decidir. – ele confessou, puxando a garota, que estivera debruçada na mesa, para seu colo. – Eu gosto das duas estações, mas o outono é especial.
- É? Por quê? – ela perguntou, bagunçando os cabelos já bagunçados do namorado.
- Porque era outono quando eu vi você pela primeira vez. – ele lembrou. – Era outono quando eu pedi pra sair com você e você aceitou. E ainda era outono quando eu a pedi em namoro e você disse sim.
Ela sorriu e o beijou. James a abraçou com um braço só e assinou o desenho, não sem antes escrever L.E. com a maior letra que conseguiu, fazendo-a sorrir inconscientemente.
- Por que você é um cervo? – ela perguntou após alguns minutos.
Ele a fez levantar e levantou também, passando as mãos pelo cabelo, em sinal claro de nervosismo.
- Ah não Lil!
Ela gargalhou e o empurrou para o sofá. O sol no céu do desenho brilho com força e o cervo e a menina, animados por magia, piscaram para o nada.
Ene/AA: Heys. Sim, eu sei que eu demorei, mas eu queria postar as duas fics juntas. Foi mal. Anyway, espero que vocês gostem do capitulo. É o penultimo, o que quer dizer que a história acaba capitulo que vem, então quem não comentou só tem mais esse capitulo e o próximo pra deixar de ser bobo e dizer pelo menos 'legal, bjs'. Obrigada por lerem, eu posto o próximo até o fim do mês.
