Death Note não me pertence. Nem seus personagens. Nem sua trilha sonora.
A única coisa que me pertence é o amor que sinto por seus personagens! Amo amo amo amo! Dizem que é loucura, mas quer saber? Bendita loucura essa que me toma!
Eu poderia muito bem ter divido esse capítulo em dois para que não ficasse muito comprido. Mas não fazia sentido. Simplesmente os fatos que ocorrem aqui não podem ser separados!
Tenho algumas explicações nas Notas Finais.
Ah! Eu ADOREI escrever esse capítulo!
Espero que gostem de ler tanto quanto eu gostei de escrever!
Boa leitura!
E obrigada pelos comentários!
Promessas
Capítulo 3
À MESA DO CAFÉ DA MANHÃ, Matt servia leite pra Ray, que permanecia em seu colo. Observava Mello desconfiado. O amigo loiro estava distante. Pelo olhar vago, o ruivo percebia que o pensamento do amigo estava numa outra esfera. Longe da mesa do café, longe das conversas que sempre participava.
-Mello... – chamou.
Mas Mello não ouviu. Era praticamente impossível vê-lo assim. Mello sempre fora muito atendo as coisas ao seu redor. A ambição de suceder L fazia-o ficar em alerta vinte e quatro horas por dia. Ele ouvia as pessoas sussurrarem o seu nome há quilômetros de distância.
-Mello? – tentou uma segunda vez.
Ray olhava intrigado pra Mello. Olhou pra Matt e sussurrou com sua voz infantil:
-Deixa ele, Matt... Se não ele vai brigar contigo. – falou sincero.
Matt sorriu e disse:
-Eu sou forte. – olhou pra Mello mais uma vez e tocou-lhe o braço. Mello despertou olhando-o.
-Falou comigo Matt?
-Então, finalmente, aconteceu. – disse o ruivo sério.
Mello estava exausto pela noite não dormida. Limitou-se a franzir a testa.
-Finalmente aconteceu. Você e o Near.
Ao ouvir o nome Near o coração de Mello falhou uma batida. A surpresa que teve ao ver Matt falando isso com tanta segurança, desnorteou-o.
-Que? Ta delirando como o pirralho no teu colo é? – falou fingindo segurança.
-Ora, ora... Como se você pudesse mentir pra mim.
-Matt, eu não sei o que você esta falando!!. – disse perdendo a paciência.
-Sabe sim. E nem pense em alterar a voz comigo. Mantenha-se no seu lugar. E pare de se achar um peixe fora d'água por estar sentindo o que eu sei que você esta sentindo. Melhor: por estar sentindo o que eu sei que você SEMPRE sentiu. – Matt virou o rosto pra Ray. – Quer geléia de cereja?
-Não seja ridículo!! – vociferou o loiro.
"Droga...mais essa agora! Matt maldito! Mas como ele, como ele...? E ainda age assim, na maior naturalidade! Como se isso fosse uma coisa rotineira!"
Olhou o amigo ruivo nos olhos. Suspirou cansado. Baixou os olhos pra xícara na sua frente.
-Tudo o que importa é como você se sente em relação a isso. As coisas externas são externas! Você não tem que se preocupar com elas! Você só tem que ser feliz! Alguém tão interessante e inteligente como você não tem que desperdiçar energia numa coisa que já sabe qual é a reposta. – concluiu o ruivo seguro, passando geléia numa torrada.
A voz de Near veio-lhe a mente "Será mesmo que você não encontrou resposta? Ou você, destruidor de brinquedos, não a quis aceitar?"
Mello fechou os olhos.
"Mas ele virou as costas... Ele também deve estar confuso..."
-Então, é melhor vocês dois conversarem, não é mesmo? – perguntou Matt
-Cara! Que falta de privacidade! Vai ficar lendo a minha mente também?
-Não. Eu vou lhe deixar sozinho com suas próprias decisões.
-Olha aqui Matt: pára de agir assim!! Eu odeio o Near! Eu o odeio mais do que tudo! – gritou. Olhou o rosto de Matt. Pela expressão séria Mello viu que o ruivo não estava brincando ou debochando. Suspirou. Abaixou o tom de voz. Olhou o amigo mais uma vez. – não pense que têm o direito de falar essas coisas sem sentido! Essas coisas ridículas e sem noção! Eu já ouvi demais hoje! Chega! Eu quero é que se dane, você e o Near!
Com isso, levantou-se sumiu do refeitório encolerizado. Matt riu.
-Ora, ora... Quanta teimosia desnecessária!
...
MELLO PERCORREU OS CORREDORES da instituição atordoado!
"Era só o que faltava! Eu perder a cabeça por causa de uma coisa tão insignificante como o Near... Como um beijo! Que inferno! Tudo culpa minha! Por que eu fui querer saber? Por que? Por que eu quis saber das motivações de Near? Droga! Droga! Droga! Eu tenho que me manter frio... Eu tenho que agir com a razão! Quando eu encontrar o Near eu vou quebrar a cara dele por ter me beijado!"
Mello nem precisou esperar muito. Ao passar por uma porta aberta avistou Near sentado no chão. Aproximou-se mais e viu que a professora de inglês falava algo com ele. Ela gritava.
Mello observou o que estava acontecendo.
-Eu vou mostrar pra vocês... Órfãozinhos de merda! Criancinhas abandonadas pelos pais... Bando de arrogantes prepotentes! Eu não vou permitir que vocês maculem o meu currículo impecável... E minha vingança vai começar por ti!
Mello viu a mulher levantar a mão e antes que pudesse deferir um golpe em Near, Mello segurou o braço da mulher.
-Ora, ora... Quanta hostilidade! Ainda mais a essa hora da manhã. Não dormiu bem, Sra. Rachel?
-Argh! – rosnou. – Me solte!
-TPM? Comeu algo que não fez bem? – Mello franziu o cenho. - Vá embora. Saia daqui antes que eu tenha que matá-la! – falou aborrecido ao ver que a mulher tinha um objeto pontiagudo nas mãos e, se ele não chegasse a tempo, provavelmente Near estaria em maus lençóis.
-Até parece! – zombou a mulher. – até parece que você pode me matar.
-Na verdade, ele pode. – a voz de Matt ecoou pelo aposento. Os três olharam pra ele. Matt estava encostado na porta, os braços cruzados. – Mello tem um estoque invejável de armas e afins... Se eu fosse a senhora eu tomaria cuidado.
-É impossível expressar o quanto vocês são arrogantes! Agora os três juntos! Não poderia ser melhor! – falou a mulher insana. – Me vingarei de todos que tentarem me humilhar.
-Matt? O que você esta fazendo aqui? – perguntou Mello.
-Ah... Mello me desculpe, mas estou aqui por um motivo bem diferente do seu. Estive pesquisando sobre essa mulher. E deduzi que estaria aqui. De acordo com a minha investigação, várias crianças sofreram sérias lesões quando tiveram algum tipo de contato com ela... – Matt olhava distraído pra algum lugar fora da janela. Continuou – Deve ser difícil ser professora e viver cercado de crianças sem poder ter filhos né? – falou cínico. – Ou talvez, esse seu instinto de violência contra crianças seja porque seu marido a abandonou por que a Sra. não pôde dar filhos à ele. Engraçado, logo após a separação, ele teve três filhos! E são lindas crianças!
A mulher ruborizada bufava descontrolada.
-Mudei de idéia! Eu vou começar a minha vingança por ti, ruivo maldito!
-Hei Mello, ela ta me chamando do mesmo jeito que você me chama! – disse Matt despreocupado.
Mello recostou-se na mesa e cruzou os braços também
-Coitada Matt! Estou começando a ficar com pena! Essa mulher se deu muito mal em vir parar logo aqui!!
-É... Bem, pelo menos eu me distrai por algumas horas... O que eu posso concluir da minha investigação é:
-...Mais uma vida deplorável – concluiu Near.
-É verdade Near. – falou Matt olhando o garoto de cabelos brancos ainda sentado no chão. – Você esta bem? Ela chegou a fazer alguma coisa?
-Não. Mas tentou. Eu estava distraído e o Mello... – Near calou-se.
Matt nem precisou olhar Mello: sabia que estava ruborizado.
A mulher estava completamente fora de si. Virou o corpo e rindo psicóticamente, pulou em cima de Near. Antes que pudesse alcançá-lo, Mello já tinha puxado o garoto e enlaçava-o com o braço direito.
-Ora, ora, Near... Enferrujou? L não te ensinou a ser forte?
Near abaixou os olhos, envergonhado.
-Desculpa, Mello, eu baixei a guarda. Não sabia que ela tentaria algo de novo. – desculpou-se de modo que somente Mello pôde ouvi-lo.
-Idiota. Não precisa se desculpar... – Mello respondeu com a voz também baixa.
-Bom trabalho Matt. – a voz de Roger cortou o diálogo dos meninos. – Você superou as expectativas. – disse Roger apoiando uma das mãos no ombro do ruivo. – Essa mulher é procurada por toda Inglaterra. Maus tratos, tortura, abuso de poder... Ela é especialista em disfarce e por isso foi impossível pegá-la. Mas L a encontrou. Ela era um pequeno teste que L sugeriu para ver o quão astutos os alunos dessa instituição estavam em relação a pessoas com personalidade oscilante e caráter duvidoso... É claro que vocês não estavam a mercê do mau-humor dessa criminosa. Ela estava sob minha vigilância vinte e quatro horas por dia.
-Que? Que você esta falando, velhote? – gritou.
-Podem levá-la.
Homens vestindo ternos impecáveis adentraram o aposento.
-FBI! Mulher pare de reclamar e sinta-se honrada por ser presa pelo FBI! – falou o garoto encostado à porta.
Os homens elegantes prenderam-na instantaneamente. Ao passarem pelo ruivo, agradeceram-no.
-Menino, você tem um grande potencial. Cresça um pouco mais e viremos te buscar.
Matt fez uma mesura e agradeceu.
Mello e Near estavam boquiabertos.
-Hei Matt, ta tentando suceder L também? – perguntou Mello.
-Que? Você acha que eu vou ficar preso num prédio enquanto os outros fazem o trabalho divertido? Não, isso só mesmo você e o Near. – respondeu com seu jeito meigo e cortês de sempre.
-Venha Matt, quero que você me mostre as provas que recolheu. – falou Roger virando as costas e sendo seguido pelo ruivo.
Mello e Near foram envolvidos rapidamente pelo silêncio. Só assim perceberam que Mello ainda enlaçava Near pela cintura.
Mello largou-o imediatamente.
-Você realmente é um inútil! – falou mudando instantaneamente de tom – Nem mesmo de uma velha senhora é capaz de se proteger. E ainda se diz forte... – debochou.
-Agradeço pelo que você me fez, mas lembre-se: eu não pedi pra você fazê-lo. Então me poupe dos seus comentários. – respondeu Near.
-Humpf! E ainda por cima é um mal agradecido! Deveria ter deixado ela ter cortar! Inútil esnobe!
-Então não perca o seu tempo comigo: vá embora. Saia daqui.
Mello ficou um tanto chocado ao ver Near mandando que ele se afastasse. Depois de terem se beijado...
-Eu não sabia que você era tão falante. – falou Mello por fim.
-Que? – perguntou Near.
-Eu sempre tive plena certeza que você não falava nada! Mas eu fico estupefato pelo tanto que você fala! Você me surpreende, Near.
Os dois se olharam. Near levantou uma sobrancelha.
-Você arqueando a sobrancelha também não é muito do seu tipo. – comentou Mello cruzando os braços.
-Você fala como se me conhecesse! Mas na verdade, você não sabe nada sobre mim, Mello. Nem você, nem ninguém! Eu simplesmente deixo as pessoas pensarem o que quiserem.
-Por que?
-Porque é mais seguro. – falou sentando-se e enrolando uma mecha do cabelo prata.
-Seguro?
-Sim... Não quero expor a minha alma para as pessoas. É muito mais fácil deixar elas pensarem o que quiserem... – juntou os brinquedos á sua volta e ficou em silêncio por alguns segundos – até porque, todos acreditam no que querem. Inclusive você, Mello. Você sempre acreditou que eu sou desprezível e sempre me odiou. Mas você nunca quis ver se realmente eu era desprezível. Assim como você admira L acima de todas as coisas sem nem mesmo saber se L é digno de sua total devoção.
-Que papo mais cafona. – falou Mello tentando se mostrar indiferente àquelas palavras.
-Sim. É cafona e ta cheio de clichês e tal. Eu não sei o porque que você ainda esta aqui ouvindo isso. – falou Near sarcástico.
Mello enfureceu-se rapidamente.
-Eu nem preciso conhecer você realmente pra saber o quanto eu te odeio e o quanto você é desprezível, Near. – falou Mello indo em direção a ele e suspendendo-o pelo colarinho. – Você é desprezível. Arrogante. Metido. Eu te odeio mais do que cinco minutos atrás.
-Então porque esta aqui ainda? – perguntou Near. – Vá embora. Suma!
-Porque eu estou aqui ainda? – perguntou Mello olhando fixamente aquele rosto à sua frente. – Porque... Porque... Eu preciso... – Mello silenciou a sua voz ao encontrar os lábios de Near.
O corpo de ambos se aproximou rapidamente. O peito de Mello encostou-se a Near fazendo com que o coração de ambos batessem juntos. No mesmo ritmo acelerado. Na mesma velocidade dos cúmplices. Na mesma dança.
A mão direita de Mello acariciava o rosto de Near enquanto a esquerda abraçava-o pela cintura. A mão direita de Near puxava a camiseta preta de Mello enquanto a esquerda passeava pelos fios dourados. O aroma da atmosfera mudou. O mundo tornou-se um grande borrão. Mello era o porto seguro de Near. Near era a ilha no naufrago de Mello.
O ar faltou-lhes nos pulmões e pausadamente Mello e Near se separaram. Um olhou o outro.
-Não faça mais isso Near! – vociferou Mello.
-Foi você quem me beijou! – Near se defendeu.
-Eu? Você acha que eu te beijaria? – perguntou enfurecido.
-Sim. Foi o que você acabou de fazer. – respondeu Near olhando pra Mello com a face corada.
Mello soltou um riso nervoso.
-Até parece!! E pare de ruborizar. Isso é repugnante. – falou ríspido e zombeteiro.
"Repugnante...?" Pensou Near sentindo uma dor cruciante em seu peito.
Mello viu o brilho nos olhos de Near se dissipar rapidamente. Quase que instantaneamente o garoto voltou a ficar pálido e endireitou a postura. Olhou Mello mais um segundo, abaixou-se e juntou os brinquedos. Passou por Mello e encaminhou-se para a porta. Mello sentiu uma dor fina e profunda cortar seu peito.
"Por que aquele olhar? Por que? Eu...".
O coração de Mello continuava batendo acelerado. Virou-se para a porta, mas Near não estava mais lá. Ele já tinha saído.
Mello engoliu seco.
"Hunf... é melhor assim".
Tentou se convencer. Mas ele não conseguiu afastar a dor em seu peito. A dor de ter sido terrivelmente duro... De ter falado algo que não deveria...A dor de ter magoado uma pessoa muito especial. Talvez a pessoa mais especial pra ele...
...
DEPOIS DISSO MELLO NÃO encontrou Near em lugar algum. Ele procurou-o mesmo que não tenha admitido para si mesmo. Mas foi em vão. Ele simplesmente parecia ter sumido.
"Mas ele não poderá fugir da punição. À noite nos encontraremos."
E lá estava. Near subira numa mesa para alcançar uma prateleira alta e ia organizando os livros distraidamente. Não dirigiu o olhar pra Mello quando este entrou. Apenas continuou a fazer o que estava fazendo.
-Hei, Matt, até que enfim! Pensei que teria que fazer tudo SO-ZI-NHO! – falou alto enfatizando cada sílaba.
"Idiota! Esta tentando chamar minha atenção. Prepare-se pra ficar exausto!". Pensou Near.
As horas passavam pesarosamente. Mello falava e falava... Mas viu que era inútil. Aquele Near que respondia os seus comentários parecia não estar ali. Quem estava ali era o mesmo Near de sempre: indiferente. Frio. Distante.
"Droga! Por que esse idiota ta me ignorando desse jeito?".
Mello simplesmente não estava suportando aquela indiferença.
Observava-o pelo canto dos olhos, mas o garoto gênio não notava. Ele marcava livros, ajeitava nas prateleiras. Mas não estava nem aí aos comentários ofensivos de Mello. Depois de Mello ter menosprezado o beijo que compartilharam, Mello podia gritar e espernear, que não era mais digno de receber uma olhadela dele.
-Hei Near, gosta de Beatles? – Perguntou Matt de repente.
A voz de Matt cruzou o ouvido de Mello como um soco.
"Quê que esse maldito do Matt ta querendo?"
Mello virou o rosto incrédulo para observar a cena. Viu que Near também ficara surpreso com a pergunta.
-Sim. – respondeu em voz baixa olhando pra Matt com um brilho de curiosidade nos olhos. Mello sentiu ciúmes ao ver que os olhos de Near brilhavam e não era dirigido pra ele. Franziu a sobrancelha e continuou observando.
-Ótimo! Então venha cá escolher uma música. – Matt disse fazendo sinal pra Near se aproximar.
Near hesitou por um segundo. Então pulou da mesa e dirigiu-se para perto de Matt.
O ruivo estendeu-lhe o ipod e Near segurou-o ainda olhando-o. Abaixou os olhos e foi passando as músicas. Após alguns segundos apertou o play.
YesterdayOntem
All my troubles seemed so far away todos os meus problemas pareciam tão distantes
Now it looks as though they're here to stay agora parece que eles vieram pra ficar
Oh, I believe Oh, eu acredito
In yesterday no passado
A música encheu o ambiente. Ao reconhecer a música Mello virou o rosto para frente numa tentativa de esconder suas emoções que afloraram ao ouvir o som envolvente. Fechou vagarosamente os olhos mau contento as batidas do seu coração. Era a sua favorita.
-Boa escolha, Near. – falou Matt olhando para o garoto de cabelos brancos.
Mello permanecia de costas para os garotos. Os olhos permaneciam fechados. A respiração entrecortada.
"Minha música favorita...".
Suddenlyde repente
I'm not half the man I used to be não sou metade do homem que costumava ser
There's a shadow hanging over me existe uma sombra pairando sobre mim
Oh, yesterday Oh, ontem
Came suddenly veio de repente
Matt e Near voltaram a trabalhar, mas Mello permanecia imóvel.
Why She Por que ela
Had to go I don't know teve que ire u não sei
She wouldn't sayela não me disse
I said eu disse
Something wrong now I long algo errado e agora sinto falta
For yesterday do ontem
"She? Não, He!"
Pensou um Mello angustiado.
"Mas que diabos esta acontecendo comigo? Droga! Eu tenho que agir! Tenho que parar com essa tremenda palhaçada! Já esta na hora de eu cair na real!".
Yesterdayontem
Love was such an easy game to play o amor era um jogo tão fácil de se jogar
Now I need a place to hide away agora eu preciso de um lugar pra me esconder
Oh, I believeOh, eu acredito
In yesterday no passado
Mello respirou fundo.
"Eu não posso ser tão idiota a ponto de me deixar levar por uma música!".
Virou o corpo e desligou o som. Matt apenas lançou um olhar de soslaio e fingiu que não percebeu. Mais alguns minutos se passaram em que cada um fazia o seu serviço. O silêncio voltou a envolver-lhes.
Mello lançava olhares ansiosos para Near. Ele queria poder olhar fundo naqueles olhos azincentados e se encharcar no oceano de mistério e vida que tinha visto. Ele precisava saber o que o menino de cabelo branco estava sentindo. Mas Near parecia não perceber sua presença. Continuava a fazer o serviço. Ignorava Mello.
"Droga, ta me ignorando de propósito!" Pensava Mello enquanto olhava disfarçadamente para o garoto.
"Ele pensa que eu estou ignorando-o para irritá-lo. Idiota. Estou fazendo isso pra me proteger." Pensava Near distraído, cantando mentalmente 'There's a shadow hanging over me'
Matt virou-se e se encaminhou pra porta.
-Pra mim deu. To indo.
-Não Matt. Fique! Precisamos acabar isso juntos. – falou Near.
-Desculpe Near, mas estou cansado e acredito que vocês possam fazer isso sem mim.
-Não podemos. Por favor, Matt, fique. – pediu Near.
Matt ficou visivelmente chocado.
"Imaginei que quisessem ficar sozinhos" Pensava confuso.
Near saltou da mesa e se encaminhou para a porta também.
-Então eu também vou. – falou Near.
-Não, eu vou ficar até o fim então... – disse Matt por fim.
"Realmente... Ele quer se afastar de mim... Esta desesperadamente evitando ficar perto de mim..." O loiro pensava com uma certa frustração.
...
O RESTO DA SEMANA PASSOU dessa maneira. Near voltou a ser o que era. Silencioso e indiferente. Não se permitia ficar sozinho com Mello. Quando Matt saia, ele saia junto com o ruivo, deixando Mello pra trás, observando-o angustiado. Duas semanas se passaram desde que tinham acabado de organizar a biblioteca e Mello só conseguia ver Near no período matutino, durante as aulas. No período da tarde, o menino sumia de vista. Deixara de freqüentar a sala de convivência no período noturno, quando os alunos se reuniam pra relaxar. Deixara de habitar os locais que diariamente passava as tardes. Os locais onde Mello poderia encontrá-lo. Os lugares em que Mello sabia que ele estava...
Mello no fundo da classe não deixava de fitar a figura pálida na primeira carteira da fileira da janela. Como um novo vício. Algo poderoso que ele não podia controlar. Filmava cada movimento de Near em busca de uma olhadela. Em busca de uma expressão. Mas elas não vieram. Near permanecia sentado no seu jeito pouco confortável de sempre. Montava quebra-cabeças como sempre. Enrolava cachinhos prateados entre os dedos como sempre. Estava longe de Mello... Como sempre.
Mello espreitava os movimentos delicados de Near, como se fosse uma música lenta e sensual. Mirava os dedos lívidos girando as peças para logo em seguida encaixá-la no lugar certo.
"Dedos finos e pálidos que um dia afundavam em meus cabelos...".
Gradativamente percebeu que Near começou a chegar atrasado na aula e sair dez minutos antes das aulas acabarem. Um fato novíssimo e inusitado.
Os professores olhavam Near desconfiados, mas nenhum deles falava alguma coisa. As ordens de Roger eram explícitas:
-Deixem todas as crianças com suas excentricidades.
Mas Mello notara de imediato o motivo dessas chegadas atrasadas e saídas adiantadas: era uma manobra de Near para evitar qualquer possível encontro com o loiro.
Aos poucos, os atrasos e saídas tornaram-se faltas esporádicas. Até que para desespero de Mello, Near faltou uma semana inteira.
Mello se remexia na cadeira inquieto e angustiado a cada dia que a falta de Near se tornava evidente.
O nome do chocólatra de segundo lugar foi pro topo do ranking de melhor aluno da instituição. Devido as faltas constantes de Near que não participava mais de provas e nem trabalhos e nem dos debates. Incrivelmente, isso teve um gosto amargo para Mello. Tornou-se o número 1, era tudo o que queria, mas por que não estava feliz?
Sentia-se terrivelmente triste.
"Sem Near estou completamente sozinho...". O pensamento melancólico aumentava a aflição do chocólatra. Sentia-se, pela primeira vez na vida, pessimamente sozinho. A ausência de Near era-lhe perturbadora. Mello não sabia disso até senti-la.
Desde sempre Near esteve na vida de Mello.
Sempre.
Continuamente, um foi o rival do outro. As disputas. As brigas. As diferenças. Os extremos de cada um.
Mello o via zanzar pelos corredores a passos lentos arrastando seus brinquedos inseparáveis. Mello via seu corpo curvado sobre legos e castelos e quebra-cabeças e patinhos... Mello avistava o cabelo em desalinho com os cachinhos quase cômicos...
E agora, Near não estava mais ali... Um buraco gigantesco se abrira em seu interior.
Contudo, sua mente argumentava desesperada que era melhor assim. Pelo menos ele não corria a tentação de beijar um outro garoto.
"Eu sou um menino... Sou um garoto... Eu sou um homem... Possível sucessor de L... Não posso imaginar que alguém 'assim' poderia substituí-lo... Imagina o L... Uma pessoa como ele jamais faria uma coisa dessas... Aliás, uma pessoa como ele, não perde tempo com coisas inúteis... Não posso decepcioná-lo!" (nota da autora intrometida: O Mello é tão inocente as vezes, né? Mal sabe ele as pegadas que o L dá no Raito!).
E, uma outra parte de Mello ansiava pela presença de Near desesperadamente...
Mesmo Near sendo indiferente, Mello podia se aproximar dele. Gritava, esperneava, chuta seus brinquedos.
Sentia-se vivo...
Sabia que era o único fio que ligava Near ao mundo real. Eram apenas crianças, mas Mello já tentava derrubar o muro que Near construiu ao redor de si. Até que eles conheceram L. Quem era. Porque era. E, imediatamente, L tornou-se uma pessoa de valor imensurável para ambos. Mello recordou-se que sentira uma coisa estranha dentro do peito ao ver a atenção que Near dispensava à L. Agora, anos depois, é que ele pôde distinguir: sentira ciúmes de Near.
L invadira o mundo paralelo de Near como ele próprio tinha tentado inúmeras vezes, sem conseguir. No seu coração de menino, foi ali que começou a disputa.
Mello também queria chamar a atenção do enigmático cara de cabelos negros. E conseguiu. Agora o loiro tinha contato direto com L.
Mas Near continuou inalcançável. Permaneceu preso em seu mundo não dando nenhuma brecha à ele. Até que...
"Seus olhos são bonitos, Mello...".
O loiro fechou os olhos. Só de lembrar seu coração ardeu desesperadamente no peito jovem.
Near tinha dado uma brecha à ele.
"Não, na verdade ele abriu a porta e convidou-me para entrar...".
Os olhos continuavam fechados. A mente processava tudo.
"... e eu o chamei de repugnante...". Concluiu com tristeza.
Mello gritava internamente tentando convencer a si mesmo. Mas o fato era que suas forças estavam esvaindo. Todas as suas tentativas tinham se mostrado infrutíferas. Não conseguia de maneira alguma tirar Near da cabeça. Ele já não conseguia mentir a si mesmo. Um desejo corria por seu corpo. Ansiava por tocar Near. Ansiava por estar perto dele novamente. Sentia falta dos dedos pálidos dele em seus cabelos, deslizando por suas costas... Tudo o que Mello sentia é que a ausência de Near era uma dor lacerante no fundo de sua alma.Ele já estava se rendendo...
Devido exaustão mental em que se encontrava, Mello pegou no sono rapidamente com esse pensamento na cabeça.
...
M
E
L
L
O
Uma voz baixa chamava-o.
Mello
Uma voz cheia de sentimentos. Uma voz de quem chora.
Mello percebeu que estava no corredor dos quartos dos meninos.
Estava escuro.
Ele apertou os olhos tentando se acostumar a escuridão.
Sentiu um cheiro fétido.
Sangue?
As paredes do casarão jorravam sangue.
M
E
L
L
O
A voz continuou chamando. Um soluço de choro sentindo ele pôde ouvir.
De repente, todas as portas fechadas do corredor se transformaram em pedra.
Mas uma porta estava aberta.
M
E
L
L
O
O loiro caminhou sentindo medo. A voz que chorava e chamava por ele parecia estar se distanciando.
M
E
L
L
O
O loiro ofegou um pouco e entrou no quarto. Near estava sentado no chão com o corpo cheio de sangue. Muitas feridas, suas roupas rasgadas. Mas o pior eram os olhos. Terrivelmente tristes.
NEAR?
O choro continuou baixinho, até se tornar um murmúrio. Near levantou a cabeça. E uma lágrima rolou antes dele se transformar em poeira e desaparecer diante de Mello.
O garoto loiro olhou espantado à sua volta sem acreditar que Near tinha sumido diante dos seus olhos. Olhou-se no espelho e viu que seu rosto estava transfigurado. Era o rosto de Mello, mas terrivelmente mau. Uma expressão demoníaca e zombeteira. Um riso sádico. Olhos frios. A pele cadavérica.
...RePuGNaNTe...
Surpreendeu-se ao ouvir a si mesmo dizer essa palavra de forma inescrupulosa. Deu um grito ao ver o monstro que se transformara.
...
NEAR ESTAVA PARADO DIANTE das telas dos computadores com a sobrancelha franzida. As informações que L estava lhe passando eram cada vez mais complicadas... Um enigma em tanto.
-Eu não consigo encaixar as peças nesse quebra-cabeça maldito que é o caso kira. – sussurrou.
A garganta estava seca. E ele estava com fome. Olhou o relógio que marcava 3 horas da madrugada. Tinha jantado às 20 horas, quando a miss Carter levara, gentilmente, sua refeição ao quarto.
A barriga deu um ronco. Resignado, saiu do quarto pra buscar alguma coisa pra comer.
"Há essa hora, não há perigo".
...
ACORDOU SOBRESSALTADO COM seu próprio grito. Seu coração batia excessivamente acelerado. Levou a mão à testa e sentou-se na cama tentando normalizar a respiração.
-Sonho...
Coçou os olhos. Seu coração ainda batia acelerado. Olhou o relógio. 3 horas e três minutos.
-Pareceu tão real...
Uma angústia tomara o peito de Mello... Lembrar de Near cheio de sangue, tão real, era uma imagem muito forte. Nervoso e inconsciente, Mello saiu do quarto. O corredor longo estava escuro e silencioso. Caminhou desconfiado e deu uma olhada rápida para as paredes do corredor. Tudo limpo. Sim, tinha sido só um sonho. Foi guiado por seus passos e parou diante da porta do quarto de Near. Encostou a testa na porta e deferiu um golpe.
-Near? – chamou baixinho pra não acordar os outros meninos.
Silêncio.
Bateu novamente.
-Near? – esperou – Near?
"Será se o filho da mãe está dormindo?".
Mello recuou um passo e viu pela fresta da porta que havia luz acesa dentro do quarto. Provavelmente o computador.
-NEAR! Não se faça de surdo. Abra a porta. – bateu seguidas vezes já aumentando o volume da voz.
Como a resposta não veio ele girou a maçaneta lentamente abrindo a porta.
-Near?
O cheiro de Near imediatamente encheu suas narinas. Mello inspirou fundo e fechou os olhos. Ficou assim alguns segundos sentindo o aroma de Near. Adentrou o quarto lentamente.Olhou o aposento vazio. Um quebra-cabeças, relativamente grande, estava no chão quase totalmente montado. As telas dos computadores exibiam letras N na mesma fonte de L. A cama estava bagunçada e havia vários brinquedos espalhados pelo chão.
Mello observava o quarto vazio achando aquilo tudo muito suspeito. Depois de um sonho tão terrível como aquele, tudo que ele queria era ver que Near dormia tranqüilamente, indiferente ao pesadelo horrendo que ele tivera.
Pos as mãos na cintura e ponderou por alguns segundos.
"Aonde que ele se meteu a essa hora da madrugada?".
A imagem de Near cheio de sangue veio a sua mente.
"Provavelmente, ainda estou sonhando... Só pode ser is-".
- O que você está fazendo aqui?
A voz de Near tirou Mello de seu devaneio. Mello virou-se para encarar Near. O menino tinha uma tigela de biscoitos na mão e um copo de leite.Observou atentamente o rosto do garoto. Nenhuma gota de sangue.
"Ótimo".
Near aguardou alguns segundos, mas não obteve resposta.
- O que você esta fazendo aqui, Mello? Esse silêncio não responde a minha pergunta. – perguntou novamente. A voz de Near saia fria e dura, mas seu coração batia descompassado dentro do peito.
-Eu... – o que ele foi fazer ali mesmo? – eu... – balbuciou.
Os dois se olharam fixamente. Near desviou os olhos e deixou o prato e o copo de leite na mesinha. Abaixou-se. Começou a montar o quebra-cabeça.
-Mello, se você não sabe o que veio fazer aqui, pode sair agora.
-Por que?
-Por que não tem nada pra você fazer aqui. – respondeu Near impassível.
-Pare de me ignorar! – exclamou Mello.
Near ficou em silêncio. Soltou a peça que tinha entre os dedos e pegou uma mecha do cabelo.
-Por que você esta fazendo isso? Por que esta me ignorando desse jeito? – indagou Mello.
"Idiota! Não sabe uma resposta simples dessas?" Pensava Near.
O silêncio pairava entre eles.
-Responda Near!
-Pare de fazer perguntas desnecessárias! Não tenho porque te responder. Saia do meu quarto. Estou farto de você me perguntando um monte de coisas. Chega. Saia. Agora. – rebateu Near.
-Não. Eu só vou sair depois de você me dizer por que mudou novamente. – disse o loiro sentando-se no chão e encostando as costas na cama de Near.
-Que saco! Ter que ter aturar é um saco! É por isso que você é o número 2: você não consegue entender as motivações das pessoas. Quando me mostrei falante, você não entendeu, então me perguntou. Quando eu volto a ficar no meu canto, você não entende, então pergunta. Mello, você não sabe de nada. Não entende nada das pessoas. E, ainda me chama de frio. De vazio. De indiferente. Você é só um garotinho que tira notas altas nas provas... Perto de mim, você é somente um menininho confuso.
Mello ficou um tanto chocado pelas palavras de Near, mas não se deixou abalar. Tentou permanecer calmo.
Near ficou em silêncio por alguns segundos. Então com voz firme e segura, respondeu:
-Então não tenho escolha. Se você quer tanto saber... – suspirou. – Eu imaginei que você pudesse ser digno de ter um vislumbre de quem realmente eu sou. Mas eu estava enganado, então, cai fora.
Aquilo doeu. O peito de Mello rasgou-se e ele teve a impressão de ter ouvido o barulho. Todo o seu sistema vital parou por uma fração de segundo. Levantou-se lentamente e lançou um olhar ao garoto que continuava montando e remontando aqueles quebra-cabeças estúpidos.
Saiu do quarto e fechou a porta.
Near respirou quando Mello saiu do quarto. Seu coração doía por ter dito coisas tão duras à uma pessoa que tanto...
Fechou os olhos.
"Idiota".
...
MELLO PERCORREU O LONGO corredor do andar dos quartos dos garotos arrasado. Sim, essa é a melhor palavra para descrevê-lo. Ficou arrasado com as palavras proferidas por Near. Near estava completamente certo. O loiro sentiu-se nauseado e correu para o banheiro. Flexionou os joelhos e teve ânsias de vômitos. Apenas ânsias. Nada saia... Mas seu estômago dava voltas.
Apoiou uma das mãos na parede e seu cabelo loiro logo se transformou numa cortina para o seu rosto abatido. Mil facas pareciam ter transpassado o corpo de Mello.
Uma nova onda de ânsias tomou o seu corpo e ele vomitou como nunca tinha feito na vida. Instantaneamente um gosto amargo invadiu sua boca. Ele suava. Tremia. Sentia-se perdido.
-Foi um belo fora, Near... – sorriu tristemente. Lavou o rosto suado. Escovou os dentes. Mas o gosto amargo ainda permanecia: dentro de seu coração. Dentro de sua alma.
Ele estava completamente dilacerado.
MELLO NÃO SABIA QUE PODIA viver depois de ter sentindo uma dor tão excruciante em sua alma. Mas pôde. Abriu os olhos lentamente e a primeira coisa que viu foi o vaso sanitário.
-Puta merda, dormi no banheiro... – Levantou-se e encarou sua imagem refletida no espelho.
-Estou um lixo.
Tirou as roupas e se jogou debaixo do chuveiro. Queria que aquela água quente lavasse toda a sua alma. Lavasse toda a sujeira. Toda dor. Todo o arrependimento que o consumiam lentamente. Dia após dia...
...
DEPOIS QUE MELLO SAIU, Near não conseguiu voltar a se concentrar na investigação. Sentou-se no peitoril da janela e deixou que sua mente vagasse.
Depois de que Mello tinha chamado ele de repugnante... Depois de ter menosprezado o beijo de ambos, Near lutara com todas as forças contra a maré de seu coração. Não tinha coragem para encarar o loiro depois daquilo... A humilhação que sentiu, a tristeza que se instalou no seu semblante... Ele não podia permitir que todos soubessem que o Near, indiferente e frio, estava triste por alguma coisa. Principalmente Mello.
Com certeza o loiro zombaria ainda mais dele. Humilhando-o por ser tolo...
Com isso, manteve-se no quarto durante as tardes. Já não perambulava pelos corredores como sempre fizera. Só saia pra buscar brinquedos na sala de convivência na alta madrugada, quando todos já estavam nas suas camas. Começou a chegar atrasado de propósito para não ter nenhum inconveniente e encontrar Mello pelos corredores. Saia mais cedo para passar na cozinha e pegar um prato com a miss Carter, que servia-o com carinho enquanto observava desconfiada. Ia direto ao quarto e almoçava trancado.
Só de pensar em ter de encarar as orbes azuis de Mello dava-lhe calafrios. Ele não se importava com mais nada. Só queria se manter longe para curar-se da tremenda burrice de ter se tornado um sentimental. Um apaixonado.
Fechou os olhos.
Assim, Near deu o seu melhor e dedicou-se inteiramente ao caso Kira. Mantinha contato com L durante o dia quase todo e tinha acesso a um microfone, aonde ouvia conversas no QG de L, no Japão. Com muito esforço evitava pensar em Mello, e estava conseguindo, lentamente se concentrar a investigação.
Mas era impossível esquecê-lo. Near, de fato, nem tentava. Desde menino que nutria uma admiração pelo rapaz loiro. Admiração essa que foi crescendo aos poucos até se transformar em algo grande, poderoso e irreversível...
Near lutava para afastar a sensação de falta que seu coração e corpo sentiam de Mello. Sentia falta dos gritos. Das palavras que tentavam instigá-lo. Sentia falta de observar Mello morder seus chocolates com obsessão. Sentia falta do cheiro de Mello. Sentia falta de ouvir seus passos furtivos se aproximando de Near.
Entretanto, a coisa que mais sentia falta, era ter seus brinquedos chutados.
Era estranho pensar isso. E Near se surpreendeu com este fato. Mas, ele não encontrou graça em montar os quebra-cabeças se não tivessem quem os chutasse... Não tinha graça nenhuma ele construir castelos enormes de cartas se não tivesse quem os levasse ao chão... Não tinha graça armar construções gigantescas de lego se Mello não estivesse ali pra chutar tudo e sair sentindo o gostinho da vitória...
Near olhou o quebra-cabeça que estava no chão. Estava ali há umas duas semanas e ele não tinha ânimo para terminá-lo... Um quebra-cabeças simples desses que ele montava em uma tarde... Só pra ter o sádico prazer de ver Mello se aproximar e chutar e acabar com tudo.
Suspirou. Não teria mais gritos. Nem afrontas. Nem tentativas de chamar atenção... Tudo estava acabado.
-Depois de tê-lo sorrindo ao meu lado, voltamos à estaca zero... É um ciclo, isso nunca acabará... Vãs esperanças...
As palavras saiam neutras da boca rosada de Near. Era a conclusão mais acertada. Não tinha o que argumentar. Ele amava Mello; Mello o odiava. Não adianta dar soco em ponta de facas. Era a hora de assumir a sua posição. E aceitar o seu destino.
-Fui um completo inútil... Não adianta, Nate River, seu idiota, você nasceu simplesmente para substituir L... Nasceu para ser a pessoa solitária que você é... Agora já virou questão de sanidade... Tenho que me manter afastado de Mello... Acho que está na hora de ir para o FBI...
Sua voz baixa ecoou pelo quarto bagunçado.
Aos poucos o véu da noite foi se retirando elegantemente e o dia amanhecia calmo e tranqüilo. E Near permanecia com os olhos bem abertos. Tentando esquecer a coisa mais importante da sua vida.
Uma batida a porta fez seu rosto virar lentamente.
-Bom dia querido. – era miss Carter. A cozinheira e mãe de todos na instituição. – Trouxe-lhe um cafezinho fresquinho.
-Ah... Obrigado miss Carter. A senhora, como sempre, esta sendo muito gentil.
-Bem, eu não posso deixar o meu doce de coco abandonado no quarto sendo consumido pelos problemas e ainda por cima de barriga vazia, né? – Colocou a bandeja na mesinha e virou-se pra ele, levando uma de suas mãos à cintura gorda. – Não sei o que esta lhe afligindo. E nem quero saber. Problemas de um gênio são demais para a cabeça de uma simples cozinheira como eu. Mas eu acredito que ainda há uma esperança, seja lá qual for o seu problema. – ficou encarando o menino por alguns segundos. A carinha triste de Near lhe cortou o coração. Buscava forma de o alegrá-lo. – A propósito, hoje tem o jantar de despedida de Kate. Vai ser bom pra você. Sair um pouco do quarto pra ir a uma festa vai ser animador. –disse exibindo um sorriso de incentivo.
"Como é inocente... Mas tem boas intenções".
-Eu não irei, miss Carter.
Ela virou-se para encará-lo. Sua expressão era terna e séria ao mesmo tempo.
-Near, querido, fugir nunca é um caminho seguro. Porque quanto mais corremos, mais vamos ao encontro. E, além do mais, não faça uma desfeita dessa. Lembre-se quem você é. Honre seu posto. Honre o seu nome e nos dê o prazer de sua companhia como sempre! – ela virou-se foi até o guarda-roupa de Near. – Vou levar esse terno lindíssimo pra passar. Acredito que você queira usá-lo, já que ganhou dele.
-Tudo bem. – respondeu sem opções e esperou que ela saísse do quarto.
Virou a cabeça de volta para a janela.
-Eu não queria ter que ir à uma festa...
Ficou em silêncios por alguns minutos.
-Mas já que terei de ir... Vou assumir o meu destino.
Com isso, saiu do peitoril e pegou o telefone. Discou um número e aguardou.
-FBI, bom dia, em que posso ajudá-lo?
...
SAIU DO BANHEIRO COM os cabelos encharcados. Passou direto pelo seu quarto e foi pro quarto de Matt. Abriu a porta e entrou. Ao fechá-la novamente, o ruivo tirou o rosto de baixo das cobertas e com a maior cara de sono encarou Mello.
-Vem cá. Você esta com uma cara péssima.
Mello arrastou-se até a cama de Matt e deitou ao seu lado. Matt o tapou com o cobertor e fechou os olhos. Estava morrendo de sono.
O loiro colocou o braço no rosto e ficou pensando. Ainda tinha Matt. Ainda podia contar com o amigo ruivo. Seu parceiro e companheiro para todas as horas.
-Quer um chocolate? – perguntou Matt com voz sonolenta.
-Não. – respondeu Mello num murmúrio.
"Não? É mais grave do que eu pensei...".
-Então tente dormir um pouco... Você esta com o rosto abatido... Vomitou?
-Sim...
"Vomitou? Chegou a esse ponto?"
Matt sabia que o corpo de todas as pessoas reagiam de formas diferentes quando era atingido por alguma emoção muito forte. Febres altas, insônia, sono excessivo, falta de apetite, apetite demasiado, enjôos, choro, desmaio, mal-humor... Mas nunca vira nada disso passar perto de Mello. O máximo que lhe ocorreu foi um sumiço repentino no dia que L foi embora. Todos procuraram por ele durante a tarde, mas não o encontraram. A noite já avançava para alta madrugada e Matt estava na janela do quarto esperando preocupado. Até que Mello entrou no quarto do ruivo e sem dizer nada caiu na cama do amigo, dormindo quase que instantaneamente.
Matt levantou-se e foi ao guarda-roupa. Mexeu em algumas caixas e parou ao lado da cama com um copo de água.
-Toma, vai se sentir melhor. – disse estendendo à Mello um comprimido pequeno.
Mello nem se deu ao trabalho de perguntar que remédio era aquele. Engoliu, tomou a água e virou-se. Matt voltou pra cama e tapou a ambos. Ficou observando o rosto de Mello relaxar e ele pegar no sono.
"Você levou um golpe duro, né meu amigo? Mas tudo vai ficar bem...".
MELLO ACORDOU COM UMA batida na porta. Sentiu Matt se levantar e ir atender.
-Ainda está na cama Matt? – a voz de Roger chegou ao ouvido de Mello, mas ele continuou de baixo das cobertas, de olhos fechados.
-Sim... Hoje é sábado, Roger...
-Ah... É mesmo. – Roger olhou pra dentro do quarto. Um cabelo loiro escapava das cobertas. Reconheceu o cabelo de Mello. – O que houve com ele?
-Dor de cabeça. – Matt mentiu.
-Ah... Já deu algum remédio?
-Sim.
-Bem, vim avisá-los que hoje teremos o jantar de despedida da Kate. – disse com voz baixa. – Desejo que estejam no salão de festas as 22 horas com suas roupas formais... – Roger suspirou triste – Ela é mais uma que perdemos... Mais uma que vai pro FBI...
-Que isso Roger? Não fale assim! – disse Matt tentando confortá-lo. – Você sabe que o desejo dela sempre foi esse. Você já deveria estar acostumado, afinal, ela não é a primeira e nem será a última...
-Desde que L se foi... – Roger engoliu seco. – Temos enviados inúmeros agentes... Sei que estão bem, mas... É um serviço muito arriscado...
Roger – disse Matt aproximando-se. – Não é hora pra isso. Você deveria estar orgulhoso. Ela esta sendo chamada pro mais alto escalão do FBI.
-Sim, é verdade, você esta certo. Obrigado Matt. – falou o velho com voz embargada.
-Se precisar de alguma coisa, não hesite em me chamar... – falou Matt.
-Sim, obrigado. Acho que preciso de você no salão de festas. Pode descer daqui a pouco? Os músicos vão chegar a qualquer momento–. Falou.
-Claro. Daqui a pouco eu desço.
-Obrigado mais uma vez Matt. Você é um bom menino. – Virou e saiu.
Matt fechou a porta.
-Então quer dizer que temos festa hoje? – perguntou Mello submergindo nas cobertas.
-Sim.
-...
-Aproveite essa festa para se animar... Você realmente precisa disso...
-Vou tentar...
Matt trocava de roupa.
-Vou pegar o terno que você ganhou de L e pedir para que passem.
-Ah... Vai ser a primeira vez que irei usá-lo.
-É um bom motivo pra se alegrar, não acha? Esse presente foi muito especial... – falou Matt.
-Tem razão... Só por causa disso, a festa já vale a pena.
Matt agora completamente vestido deu um sorriso animador.
-Então fique ai e durma um pouco mais. Daqui há pouco eu volto.
-Ta – respondeu Mello já voltando a se encolher debaixo das cobertas.
...
ERAM NOVE HORAS DA noite e Mello e Matt se arrumavam pra festa.
-Cara, eu adoro vestir terno!! – falou Mello enquanto dava um nó na gravata.
Matt parou o que estava fazendo pra olhá-lo:
-Desconhecia esse lado seu. – disse calçando os sapatos.
-Matt, eu sou um cara que tem estilo. – falou Mello com voz divertida.
-Ah sim... Eu percebi isso quando você apareceu com a primeira calça de couro. – Matt respondeu sorrindo. Olhou o loiro. – Como é que você está?
-Bem... Depois daquele remédio que você me deu, que provavelmente é proibido no mercado,eu me sinto muito melhor. – falou Mello enquanto se olhava no espelho atentamente. Fechou os botões do blazer negro. Penteou cuidadosamente os fios dourados. A vestimenta preta contrastava com o amarelo vivo dos seus cabelos.
-Sim Mello. Você está lindo – disse Matt. Ambos saíram do quarto e se encaminharam para o salão de festas.
...
NEAR PARADO DIANTE DO espelho sentia-se estranho:
-Isso é mesmo necessário? Por que preciso usar roupas formais a cada festa dessa? – ajeitou o colarinho da camisa impecável. Colocou a gola da camisa branca por cima do blazer preto, dando um ar mais descontraído. Olhou para a gravata estendida em cima da cama. – Definitivamente, gravata eu não irei usar.
Passou as mãos pelos cabelos, mas não os penteou. Balançou a cabeça para que as madeixas pratas tivessem um bom caimento. Botou a mão no bolso da calça e saiu do quarto.
Caminhou distraído pelos corredores abandonados. Provavelmente todos os alunos já estavam no salão de festas. Near já podia ouvir do corredor o barulho de música e pessoas conversando. Parou diante da enorme entrada e observou o salão decorado. Centenas de luzes pendiam do teto alto, deixando todo o ambiente num clima charmoso e romântico. As mesas redondas espalhadas pelo lugar espaçoso foram minuciosamente decoradas. As toalhas compridas na cor champagne, a prataria, os arranjos florais, tudo de muito bom gosto e extraordinariamente luxuoso.
Os janelões que iam do chão ao teto, com as cortinas de veludo verde abertas, permitia que a noite estrelada adentrasse o salão e também participasse da festa.
As portas do salão que davam para o jardim também tinham sido abertas e Near, numa rápida olhada, reparou que o jardim também tinha sido decorado e que as mesmas luzinhas que pendiam do teto, abrilhantavam as árvores do Wammy's House. Near já tinha perdido a conta de quantas vezes participara de festas assim. E, em todas elas, Watari e Roger foram extremamente generosos, proporcionando à todos uma festa com muito requinte. Todos participam da festa. Inclusive as crianças menores, que se divertiam correndo pelo salão com suas roupinhas de festa. Near quase riu ao ver Roger. O velho não conseguia conter a dor da partida de mais um filho. Todas as vezes que algum dos órfãos deixava o casarão, o homem sentia-se terrivelmente mal. Já não era novidade pra ninguém ver um certo senhor meio calvo chorando rios de lágrimas em festas como essa.
Near reparou tudo isso numa simples olhadela. Até que avistou Mello no meio de tantos o se seus olhos tivessem um imã que era fortemente atraído pelo garoto de lindos olhos azuis.Seu coração falhou uma batida quando os olhos de ambos se encontraram. Mesmo depois de dias de confinamento, Near não conseguia controlar seu coração quando avistava o dono de seus pensamentos.
Ainda parado à entrada, Near continuou fitando os olhos de Mello, que estava na outra extremidade do salão, de pé, conversando com uma garota que Near não conhecia, próximo aos músicos, que vestiam paletós brancos enquanto tocavam animadamente seus instrumentos.
Near desviou os olhos do loiro ao lembrar-se de suas palavras "e pare de ruborizar... Isso é repugnante". Seu coração doeu novamente àquelas lembranças.
Os olhos de Near foram atraídos para o garoto ruivo que dançava com uma garota no centro do salão.
"Matt, você é extraordinário! Eu o invejo."
Near correu os olhos pelo salão espaçoso à procura de um lugar que lhe fosse apropriado. Uma mesa vazia próxima a uma das janelas lhe chamou a atenção. Caminhou-se pra lá sentindo o peso do olhar de Mello sobre si, passando pelos convidados que dançavam entre as mesas, conversavam animadamente, riam alto.
Sentou-se e tirou as mãos dos bolsos. Um garçom trouxe-lhe uma bebida. Alguma coisa com limão.
Near tentava mostrar-se indiferente. O que era uma tarefa deveras difícil. Dispo-se a observar atentamente todos à sua volta. Na parede oposta a Near, ficava as mesas do FBI. Eles sempre participavam das festas. As crianças se escondendo embaixo das toalhas compridas. Os funcionários rindo entusiasmados enquanto seguravam uma ou outra criança no colo.
Todos ali se protegiam. O cuidado que cada funcionário tinha para com aquelas crianças era sincero. Near via o quanto fora privilegiado ao ser deixado à porta daquele orfanato quando ainda era um bebê de dias. Ali ele teve educação de altíssimo nível, ali ele tinha contato direto com o maior detetive do mundo...
"Aqui em conheci Mello...".
Uma criança passou correndo e acidentalmente bateu com a testa na mesa de Near. Ela caiu sentada tamanho foi o choque contra a mesa de carvalho. O choro e as lágrimas logo vieram ao rosto da garotinha. Near olhou pros lados em busca de alguém que pudesse acudir a menina. Percebeu que todos os funcionários tinham crianças nos braços.
Então, uma lembrança veio à mente de Near.
Com isso levantou-se e pegou a menina no colo.
-Shhhhh... – sussurrava no ouvido da garotinha que deveria ter uns três anos, enquanto embalava-a desajeitadamente nos braços. Mergulhou os dedos finos no seu copo de bebida e tirou uma pedra de gelo, colocando-a imediatamente sobre o hematoma avermelhado da garotinha.
Aos poucos o choro foi se acalmando. Near secou suas lágrimas e sorriu pra ela. A menina prontamente pos o polegar na boca e recostou-se no peito de Near.
Sem escolhas, Near voltou-se a se sentar e deixou aquela menina deitada no seu colo. Procurou pelo relógio do salão: 23:30 horas. Já estava tarde. Ele estava uma hora e meia atrasado.
"Um dia também cuidaram de mim... Tudo o que me resta é retribuir da maneira que posso...". – tirou a franja loura dos olhos da menina. – "afinal de contas, somos as crianças sem pais... Temos que cuidar uns dos outros..."
Near foi levado à lembrança que o fez se levantar e pegá-la no colo:
Ele e Mello deveriam ter uns cinco anos e brigavam pela posse de algum brinquedo. Depois de um tirar o brinquedo à força da mão do outro, os dois 'caíram no braço' na briga infantil. Rolavam pelo chão distribuindo socos e chutes até que despencaram escada abaixo. Um se agarrou no outro sentindo as dores de ter os degraus agredindo-os sem dó. Quando chegaram ao sopé da escada, o que pareceu uma eternidade, os dois se olharam e caíram no choro, sentindo dores por todo o corpo. Até que diante deles apareceu um garoto magricela com olheiras fundas e um cabelo desgrenhado. L pegou a ambos nos braços e os levou pra passear pelo jardim. Near lembrava-se que só por estar sendo acolhido nos braços de alguém fez com que seu choro parasse. Aquele dia foi o primeiro em que ele e Mello ficaram em paz juntos.
Near suspirou saindo de suas lembranças. Por trás daquele menino frágil e distante, havia um homem formado.
...
MELLO QUASE GRITOU.
Estava chocado. Mais uma vez Near o tinha surpreendido. Ele estava com uma criança no colo! Isso é inimaginável. Near acudiu a criança. Tomou-a nos braços. Embalou-a. Pôs um gelo no hematoma. E agora, a deixa dormir em seu colo.
"...".
Mello estava completamente abismado. Reparou que Near balançava levemente as pernas, provavelmente pra fazer com que a criança pegasse no sono. Mello não conseguia parar de olhá-lo. Sabia que a agente do FBI que estava ao seu lado falava alguma coisa, mas ele não a estava ouvindo. A única coisa que lhe chamava a atenção era o menino de cabelo prata. E além de tudo, Near estava incrivelmente lindo.
"O cabelo em desalinho... A roupa impecável... Um contraste perfeito...".
A banda encerrou uma música agitada e um violão sereno encheu o ambiente. Imediatamente Mello reconheceu a música. Seu coração disparou:Yesterday, a música que Near colocara na biblioteca.
Em uma fração de segundos Near procurou pelos seus olhos. Foi um ato automático, mas quando se deram conta, ambos se encaravam fixamente. Um olhar tão profundo, tão intenso, que eles permaneceram estáticos.
...
O CORAÇÃO DE NEAR doeu no peito ao ouvir o som envolvente e procurou pelos olhos de Mello. Pareceu estilhaçar-se em centenas de pedaços ao fixar o olhar nos olhos azuis. Ele imediatamente abaixou a cabeça e fechou os olhos com força. A dor era intensa demais.
"Eu nunca conseguirei deixar de amá-lo... Eu não tenho dúvidas em relação a isso... Infelizmente ele me odeia".
Near permaneceu de cabeça baixa fitando o rosto da menininha que dormia despreocupada em seus braços.
"Eu não posso me expor... Nate seu idiota! Esqueça-o!... Esquecê-lo? Impossível...".
O duelo interno dos Near's foi cortado com a voz sorridente de miss Carter.
-Near querido, olha só... Sobrou pra você! – disse ela se aproximando e pegando a garotinha no colo. – Obrigada por ter vindo querido, você esta lindo!
-A senhora também. Esta muito elegante.
-Só elegante né? De miss só tenho o apelido. – virou-se rindo da própria piada levando a menina nos braços.
Minutos depois um jovem de cabelos negros e terno impecável se aproximava da sua mesa.
-Obrigado por ter vindo. Por favor, sente-se. – disse Near apontando a cadeira à sua frente.
...
OS OLHOS DE MELLO se abriram tamanho foi o seu espanto.
"Quem é aquele cara na mesa do Near?".
Matt viu a cara de perplexo de Mello e seguiu com os olhos para ver onde ele estava olhando. Pediu desculpas à menina com quem estava dançando e se aproximou do loiro.
-O nome dele é Gevanni. É do FBI. – disse de forma que só Mello pudesse ouvir.
-Como você sabe Matt? Eu nunca vi esse cara antes! – Mello perguntou se virando para encarar o rosto do amigo. – Matt, cara! Você está da cor do seu cabelo!
O ruivo virou o rosto pro lado, numa tentativa de esconder o próprio rubor. Mello não se conteve e se pôs diante do amigo.
-Por que você ruborizou? – indagou visivelmente chocado ao ver Matt envergonhado. De repente os lábios de Mello se curvaram num tênue sorriso – Não vai me dizer que você...?
Matt olhou pro chão.
-Matt, olha pra mim! Por que esteve guardando este segredo?
-É porque... Bem... É tão... Recente... Então... Bem... Sabe né?...
-Não, definitivamente não sei... Mas, acredito que depois teremos muito que conversar.
-Sim... – falou Matt voltando a respirar.
Mello ficou quieto por alguns segundos então perguntou:
-Você disse FBI?
-Sim.
-Já estão querendo levar o Near? – perguntou o loiro aflito.
-Não Mello... –Matt hesitou por um segundo. – O Near já está querendo ir...
"JÁ ESTÁ QUERENDO IR...JÁ ESTA QUERENDO IR... JÁ ESTÁ QUERENDO IR... JÁ ESTÁ QUERENDO IR... JÁ ESTÁ QUERENDO IR..."
A frase repetiu inúmeras vezes na mente do loiro. O chão sumiu de baixo de seus pés e Mello sentiu-se caindo. Caindo nas profundezas de um abismo sem fim. As coisas pareciam ficar piores a cada dia que se passava.
"Near".
Era doloroso demais...Ele não tinha imaginado uma coisa dessas. Esse era um baque árduo... Ele não estava preparado... Sua mente processava as informações com velocidade.
"Quer dizer que o Near vai embora? Vai sair do orfanato? Vai me deixar pra trás? QUE DIZER QUE A PRÓXIMA FESTA SERÁ DE DESPEDIDA DO NEAR? ... Tenho que fazer alguma coisa"
Com esse pensamento deu dois passos pra frente, mas sentiu Matt lhe segurar.
-Não Mello... Não. – disse o ruivo sério.
-Eu não posso deixar que ele simplesmente vá embora!
-Pode parecer duro o que eu vou lhe dizer... Mas você teve tempo para corrigir o erro...
-Matt...
-Sei que quer fazer alguma coisa... Mas agora não é a hora... Descubra o melhor horário. Se é que haverá um...
Mello ficou em silêncio por alguns segundos.
-Você tem razão... – olhou os olhos cor de mel de Matt. – E se não houver melhor horário, eu o criarei... – suspirou – Preciso ter controle sobre as minhas emoções...
Matt riu.
-Acho que isso você já tem, Mello... Agora disfarça e pára de ficar olhando. A propósito, aquela agente do FBI que estava falando contigo ta com a cara amarrada porque você a deixou falando sozinha. Vamos chamá-la para jantar conosco e tente se distrair.
-Não Matt, deixa essa mulher pra lá. – disse Mello se encaminhando para uma mesa vaga. Sentaram-se.
"Se você não fosse tão cabeça dura, poderíamos estar os quatros jantando juntos..." Pensava Matt enquanto se servia.
Roger subiu ao palco e fez seu sermão meloso de sempre.
-Agora vamos aos avisos: Todos sabem que amanhã iremos pra casa de praia. Então, os alunos que quiserem ir estejam no estacionamento às 8 horas. Nem um minuto a mais. E caso se atrasem, ficarão pra trás. Eu não vou chamar ninguém nos quartos, então, coloquem seus despertadores e não percam o horário. Não hesitarei um segundo na hora de partir. – falou terminando seu discurso.
-Eu adoro essa semaninha de pseudo-férias que nos dão no meio das aulas! É tão relaxante! Tem certeza de que não quer ir? – diz Matt sorvendo um gole de bebida.
-Não. – respondeu Mello.
-Cara, você adora a casa de praia. Acho que vai ser bom pra você, Mello.
-Não Matt, definitivamente eu não vou. Não estou em clima.
-Você quem sabe.
...
NEAR VIU GEVANNI LEVANTAR-SE e voltar à mesa dos agentes do FBI. Os dois jantaram juntos e tiveram uma conversa tranqüila e decisiva. Near poderia até dizer que foi agradável.
Gevanni era um jovem de imensa inteligência. Refinado e altamente educado. Conversaram por quase uma hora e Near ficou sabendo que ele já fazia parte da futura equipe de Near. Gevanni tinha tentado ingressar à equipe de L, inscrevendo-se, mas foi impedido porque estava no meio de uma investigação internacional. Quando retornou aos Estados Unidos a equipe já estava formada.
-Mas, ficarei imensamente grato em trabalhar na sua equipe, Sr. Near.
-Apenas Near, por favor.
-Como queira.
"Agora é real... Breve estarei abandonando este lugar... É dolorido, mas necessário.".
Depois de ficar tanto tempo trancado dentro do quarto, Near sentiu falta de sentir o vento. Com isso Levantou-se, pôs as mãos nos bolsos e dirigiu-se para a grande porta que levava para o jardim. Ao sair para o frescor da noite e sentir o vento ousado em sua pele, ele relaxou visivelmente. Permaneceu parado alguns minutos na espaçosa varanda. Olhou pra baixo avistando o jardim enfeitado. Um casal de namorados se beijava de baixo de uma árvore e só, mais ninguém.
"Ótimo".
Se tinha uma coisa que Near apreciava era o anonimato. Pode parecer contraditório dizer que o número 1 não gosta de chamar a atenção. Mas não é. Mesmo ele sendo sempre o centro das atenções, Near ansiava pelo anonimato. Near gostava de ser invisível. De não chamar a atenção. Como se ele fosse autor de uma peça de teatro e não os atores que trabalhavam nela.
O contrário de Mello, que era sempre o protagonista das maiores produções.
Ambos eram o extremo do mesmo fio.
Sentia um peso afundar no seu estomago e percebeu que desde que chegara suas mãos suavam frias. Desceu devagar a alta escada de mármore branco em formato de arco sentindo a brisa fresca acariciar sua face. Caminhava lentamente pelo jardim pouco iluminado. A brisa da madrugada afagava seu rosto. Pensamentos distantes. Andava distraído, mãos nos bolsos do terno que ganhara de L. Ele terminantemente preferia suas roupas leves do dia-a-dia, mas sentia-se incrivelmente honrado por usar este presente do detetive enigmático. Ele sabia que a roupa elegante que Mello estava vestindo também tinha sido um presente de L. Near pôde distinguir em Mello a satisfação em usar um presente da pessoa que mais admirava na vida.
Alguns alunos comentavam que Mello e Near eram paparicados por L... Mas essas crianças não sabiam o que era isso... Elas não podiam entender o peso que estava sobre os ombros de Near e de Mello. A responsabilidade de suceder o maior e melhor detetive do mundo.
-Elas não podem compreender... Elas não entendem... – sussurrou enquanto caminhava pelo caminhozinho de pedra que o jardineiro habilidozamente fizera. Continuou adentrando ao jardim da propriedade. O "Jardim de Pedra" é como as pessoas chamavam. Um lugar que a maioria não gostava. Um chafariz antigo no centro da clareira sendo circuncidado por árvores frondosas . E o silêncio. Provavelmente era o silêncio que fazia com que as pessoas não gostassem daquele lugar.
Near parou próximo do chafariz deliciando-se com som da água. Ergueu os olhos e contemplou o céu pontilhado por centenas de milhares de estrelas reluzentes.
Suspirou.
Permaneceu assim, ouvindo a música do silêncio confundir-se com a música de seu coração. Até que ouviu passos se aproximando.
Virou-se pra ver quem chegava.
...
MELLO VIU NEAR SE LEVANTAR E SAIR do salão sem olhar pra trás. Logo em seguida, Matt resmungou alguma coisa, levantou-se da mesa e retornou ao interior do casarão. Depois, com uma discrição francesa, Gevanni ergueu-se e seguiu pelo caminho que Matt tinha ido.
Mello teria rido se não estivesse se sentindo tão deprimido. Pôs os cotovelos nas mesas e apoiou a cabeça nas mãos sentindo-se terrivelmente mal.
-Saco...
Ele ergueu a mão e pediu que o garçom lhe trouxesse uma taça de vinho. O garçom riu:
-Menino, você deve ter uns quinze anos... Eu não quero ser preso. – virou ainda rindo da cara de indignação de Mello.
-Puta... Saco...
Com isso levantou-se também...
...
NEAR VIROU O ROSTO e a figura esbelta de Matt saindo da penumbra foi-lhe revelado.
-Oi Near. – disse Matt tragando o cigarro.
-Oi Matt.
-Linda noite, não é mesmo?
-Sim.
Matt sentou-se na beirada do chafariz. Ambos ficaram em silêncio por algum tempo.
-Como você está Near? – a voz de Matt saiu grave e a pergunta estava carregada de um sentimento de sincera preocupação.
-Bem. – respondeu franzindo a sobrancelha.
"Que pergunta estranha."
-Bem você não está. Mas até que você mente melhor do que o Mello. – deu outra tragada no cigarro soltando a fumaça logo em seguida. Ergueu os olhos para encarar o céu.
Near sentiu um frio súbito perpassar seu corpo. Ficou chocado por Matt falar aquilo tão simplesmente.
"Mas como ele?..."
Matt sorriu levemente ao ver a confusão no rosto de Near. O garoto de cabelos brancos continuava olhando para o céu, mas seu rosto estava ligeiramente ofegante.
-Você tem que lutar pelo o que é de vocês. – falou Matt.
"Lutar? Ele não sabe o que está falando... Mello me odeia"
-Acreditar, Near. É disso que estou falando. Confiar no que sente e acreditar que esse amor puro cresça ainda mais... E o Mello não te odeia. Se é o que você está pensando.
Near virou-se para encarar o ruivo.
-Matt... Eu não sei o que lhe dizer... Você está se confundindo...
-Near... Não tente fazer papel de bobo. Saiba que eu torço muito por vocês, e mal posso esperar pelo momento em que possam ficar juntos. – disse o ruivo virando-se e encarando o rosto de Near ao seu lado – Haverá um dia em que nós três nos separaremos. Aproveite o hoje. Perdoe as palavras duras. Por que o amanhã pode ser solitário e difícil.
Os dois ficaram se olhando fixamente. A mente de Near dava voltas. Matt era um poço de tranqüilidade.
-Estou interrompendo alguma coisa? – voz de Mello chegou-lhes ao ouvido e os dois se viraram para o encarar.
Matt ergueu uma sobrancelha e fez uma cara como quem diz "PARA DE FALAR BESTEIRA"
Near não fez cara nenhuma. Apenas desviou os olhos e voltou a contemplar o céu.
Os três caíram num silêncio profundo. Mello observava Near completamente hipnotizado. Não conseguia desviar os olhos do menino.
"Lindo...".
Um vento enérgico atingiu o corpo dos três e jogou os cabelos loiros de Mello sobre seu rosto. Imediatamente ele lembrou-se da mão de Near no quarto, colocando seus fios dourados pra trás da orelha... Mas agora Near estava longe, com as mãos nos bolsos, indiferente. Distante. Resignado, ele próprio teve que colocar os cabelos no lugar.
Os minutos se passaram e ninguém disse nada.
Mas Matt jurava ouvir o coração de cada um batendo acelerado. Quase riu da cena.
Near virou-se.
-Bem, boa noite.
-Boa noite, Near. – respondeu Matt com uma voz agradável.
Mello não conseguiu falar nada. Parecia que tinha uma pedra entalada na garganta. Apenas observou Near se afastando sem poder fazer nada. Notou que encaminhava-se para o lado oposto à entrada do salão de festas e sumir de vista. Continuou olhando para onde ele tinha ido até que Matt quebrou o silêncio.
-Estou surpreso.
-Com o que? – indagou Mello.
-Com as atitudes suas e as do Near.
-Do que é que você esta falando agora? Tem estado a cada dia mais falante, Matt.
-O amor que vocês viram um nos olhos do outro fez com que vocês amadurecessem rapidamente. Você está a cada dia mais conseguindo controlar suas emoções. Está ponderando antes de agir.
Mello ficou quieto. Por fim perguntou:
-E o Near?
Matt deu um sorriso.
-Ele saiu de redoma de cristal que o protegia. E não está mais conseguindo voltar à ela. E sabe por que?
-Não. – respondeu sentindo um pouco de medo da resposta que viria.
-Porque você a estilhaçou em milhões de pedaços.
Ambos ficaram quietos.
-Olha, estou cansado de vocês. Está na hora de vocês dois agirem... – levantou-se ao ouvir a buzina de uma moto. – To indo cuidar do meu homem.
Mello observou Matt caminhar no seu passo cheio de atitude até uma moto preta e subir na garupa de Gevanni. Segundos depois a moto cantava pneus em alta velocidade se distanciando do Lar Wammy's.
Mello encaminhou-se até o lugar onde Near estivera parado e deitou-se no chão fazendo dos braços apoio para a cabeça. Observou o céu aveludado da madrugada. As lembranças de Near atormentavam sua mente. O menino que tinha usurpado seu posto de número 1. o menino que tinha chutado a sua cara. O menino que tinha debochado dele. O menino que supôs que seu beijo tinha gosto de chocolate. O menino curioso sobre a textura de seu cabelo. O menino que lhe beijara os lábios. O menino que causava inúmeras sensações ao seu corpo.
"Near, Near, Near... Estou enlouquecendo. Pare de me assombrar!."
Os olhos azul-acinzentados, o perfume inebriante. A voz doce. A pele macia. O sorriso raro...
Mello sentiu o vento forte atingir seu corpo.
-Ele sabe luta. Ele sempre quis saber a textura do meu cabelo. – Mello sorriu ao lembrar disso. – Ele supôs que os meus lábios tinham gosto de chocolate. Ele se aproximou de mim porque me... – Mello arregalou os olhos com o pensamento incompleto. – ... E ele está me ignorando porque eu zombei dele quando nos beijamos... Mas é claro que ele faria isso... Nos beijamos. Juntos. Ninguém beija sozinho. Idiota! Eu sou um idiota! Mereço um soco bem no meio da cara! Como que alguém é capaz de zombar de uma criatura tão adorável como aquela? Como alguém pode chamá-lo de repugnante? Eu sou um maldito. Realmente. Perto dele eu sou somente um garotinho assustado querendo ser o número um...
Mello respirou fundo.
-Ele me julgou digno de conhecê-lo e eu me mostrei indigno...
Ficou em silêncio por alguns segundos. Fechou os olhos com força.
-Droga! Estraguei tudo! Com a minha teimosia! Com a minha falta de maturidade!
Permaneceu de olhos fechado vários minutos. Seu coração ainda doía. Sua alma ainda doía.
-Tenho que me desculpar.
Levantou-se e encarou o casarão quase que num completou breu. Caminhou sentindo seu coração palpitar desesperado. Levou a mão ao peito angustiado.
-Acalme-se. Mantenha o controle sobre si. – sussurrou cruzando o prédio às escuras.
Subiu os andares que o separavam de Near e parou hesitante diante do quarto do garoto gênio. Mello tinha a impressão de que teria um enfarte a qualquer momento tamanha era a angustia em seu peito. Trêmulo girou a maçaneta e abriu a porta do quarto. O ambiente era iluminado apenas pelas telas dos computadores.
Near estava sentado no peitoril da janela. Os braços cruzados no peito. Os joelhos dobrados. A cabeça encostada na parede. Virou o rosto lentamente para ver quem esta à porta do seu quarto numa hora daquelas.
-Apenas me ouça... – disse Mello.
XxX
Não atirem pedras, pelo amor de Kami-sama!
Sei que esta faltando o lemon...
Mas eu juro (JURO) que terá no próximo capítulo. Eu não entendo esse pessoal que só quer 'ver' lemon, lemon, lemon... Mentira, entendo sim! Mil desculpas, mas é que não é assim tão fácil descobrir que se ama o seu maior rival e que, ainda por cima, tem o mesmo sexo!
Acredito que várias pessoas estranharam o comportamento de Near, Mello e Matt. Sei que está cravado em nossas mentes que o Near não fala nada, o Mello quebra tudo e o Matt só joga. Mas eu, definitivamente, não acredito só nisso. Partindo do ponto de que eles já têm quinze anos, são gênios, eu os 'amadureci' aqui na fic. Os capítulos 1 e 2 são mais 'infantilzinhos'. Mas essa é a verdadeira intenção. Porque como falou Matt, eles amadureceram ao verem um no olhar do outro, a imensidão de sentimentos que os envolve.
Mas, eu não estou fazendo isso sem base nenhuma. Enquanto eu escrevia, mantive os meus mangás em que eles aparecem (do 7 em diante) abertos, observando as expressões de cada um. E eu também me espantei ao ver o quanto o Near fala! Nós nos acostumamos com a visão do Near indiferente, mas quem observar o mangá (que é mais detalhado do que o anime) vai ver que ele é até abusado! Se divertiu horrores com a cara do Raito ao ver que os seqüestradores colocaram o Death Note em um míssil! E vários outros momentos que ele aparece cheio de expressões e tal!
Espero que entendam as minhas motivações porque eu estou tendo um prazer IMENSO em detalhá-los assim!
Já comecei a escrever o capítulo 4 e vou espremer tudo que há em mim para escrever um lemon perfeito! Tenho a estranha sensação que suprimi todas as minhas idéias lemon na minha outra fic 'Entardecer' (propaganda), mas vou fazer de tudo para que esse lemon seja ainda melhor do que aquele!
Então é isso!
Se você chegou até aqui, obrigada! Você acabou de ler 21 páginas!
Espero que voltem no próximo capítulo!
Bjs e obrigada!
-faço uma humilde reverência.-
o/
