Death Note e seus personagens não me pertence.
Fic sem fins lucrativos.
Esse capítulo inevitavelmente é um pouco mais dramático. Ora! Estamos falando da morte do L (que eu amo). Estamos falando da fuga de Mello (que eu amo). Então é inevitável o drama. Espero que entendam, porque pra mim é muito difícil escrever sobre a morte de L, mas acho que me controlei um pouco.
Minnasan!
Obrigada por estarem aqui novamente.
Boa leitura.
PROMESSAS
CAPÍTULO 6
-O QUE FOI, ROGER? - Mello perguntou.
-L morreu...
Um silêncio sufocante tomou conta do lugar imediatamente. Near sentiu uma tontura cegando-o. Manteve-se firme. Ele não podia fraquejar.
Mello entrou em choque. Quase riu. Só podia ser uma piada. Isso não podia ser real.
"L...morreu?"
-Morreu?! M...Mas como?! - Mello vociferou espalmando as mãos sobre a mesa de Roger. Sua face se transfigurou.
Near voltou a montar seu quebra-cabeça. Precisava manter o equilíbrio dentro de si. Não podia entrar em pânico como Mello. Mas, estava infinitamente chocado. Sintia uma dor profunda em seu ser.
"L...L..."
-Ele foi morto por Kira...? Foi isso?! - Mello continuava incrédulo.
-Provavelmente... - murmurou Roger.
-Está me dizendo que ele prometeu mandar Kira pra forca e... E acabou sendo morto por Kira?!
-Mello..
-Quem não ganha um jogo... Ou monta um quebra-cabeça... Não passa de um perdedor. - Near falou. Ele não queria falar isso. L jamais seria um perdedor. Mas Near sabia que isso traria Mello de volta. De volta do seu transe com a notícia fatídica.
Silêncio.
-E qual de nós L escolheu? Eu ou o Near? - perguntou Mello, incapaz de conter a ansiedade.
-Ele ainda não tinha decidido... E agora que está morto, não poderá mais escolher...
"...L..." Near chamava mentalmente.
-Mello... Near... O que acham de vocês dois unirem forças...? - perguntou o velho hesitante.
-Sim, é uma boa idéia. - respondeu Near calmamente. "L...L... Você não podia morrer... Como é que você foi nos deixar? L..." Quem via a figura etérea de Near não podia imaginar o quanto sua mente processava os dados. L morrera. Ponto. Não ouviria mais a sua voz. Não sentira mais seu cheiro. Era o fim. Cruel. Brutal. "L...L..."
-Impossível Roger...Você sabe que eu e o Near não nos damos bem... Sempre competíamos um com o outro. Sempre...
"Impossível? Que? Isso é passado Mello. Somos um agora. O que é que você está dizendo? Impossível? Mello! Não torne as coisas piores! Vamos trabalhar juntos e pegar Kira! Mello! Mello!" Near ficou chocado com as palavras proferidas por Mello.
-Tudo bem, Roger... Near será o sucessor de L. Ele não é como eu. Sei que conseguirá agir de maneira fria e imparcial... Como se estivesse resolvendo um quebra-cabeça. - o loiro ficou em silêncio por alguns segundos. - Eu tô caindo fora... Inclusive deste orfanato.
-Mello! -gritou Roger.
Near se viu caindo num abismo de silêncio profundo. Parecia que um paredão de vidro tinha se estilhaçado dentro dele.
" O que você está falando agora Mello?"
-De qualquer forma, Roger, estou perto de completar quinze anos. Vou viver do meu jeito.
Mello fechou a porta da sala de Roger. Fechou os olhos lentamente. Levou a mão à boca. Sentiu-se nauseado. Arrastou-se até seu quarto. Fechou a porta. Apoiou os cotovelos nos joelhos e afundou o rosto nas mãos. Sentiu-se envelhecer dez anos.
NEAR LENTAMENTE LEVANTOU-SE do chão da sala de Roger.
-Se encontrar-se com Matt, diga-lhe para vir à minha sala. - falou Roger antes de Near sair pro corredor.
A figura de Matt trazendo um garotinho pela mão se aproximou dele sem pressa.
-Ei Near, deixe eu te apresentar o mais novo morador da Wammy's Ho-- - Matt não concluiu a frase ao ver o rosto de Near. - Near... O que houve? Você está pálido! Mais do que o normal.
Near olhou pra Matt mudo. Não conseguia falar.
-O que foi? - perguntou Matt se aproximando.
Near apoiou-se na parede do corredor.
Matt virou-se para o garotinho que estava ao seu lado e disse pra ele ir brincar. O menino obedeceu e correu pra jardim.
-Near... ?
-Roger... Roger quer falar contigo.
Matt estava assustado. Near estava mal com alguma coisa. E agora Roger queria falar com ele. Aonde estaria Mello?
-Aconteceu alguma coisa com Mello? - perguntou aflito.
Near balançou a cabeça levemente.
-L...L...
E virou as costas, arrastando-se pelo corredor.
MATT, AFLITO, ENTROU NA SALA de Roger pra receber a trágica notícia.
-Roger... Quer falar comigo? - perguntou trêmulo.
O homem mantinha o rosto baixo. Os olhos fechados. Teria mais uma vez que dominar sua dor para dar a notícia à mais um aluno. Suas forças chegaram no fim. Ele estava no limite.
-Matt...L morreu.
-Quê?
-E Watari também...
-Ahn?...
Matt ficou parado diante de Roger. Que notícia era essa que o o homem estava lhe dando... Impossível... L... Watari... Mortos. Matt buscou forças, mas não encontrou. Sentiu os joelhos fraquejarem. Levantou os olhos e encarou o velho à sua frente. Uma dor sufocante consumia-o. Ficou em silêncio tentando assimilar as palavras amargas que o velho diretor lhe dizia.
-Roger...
-Matt, você sabia que Watari era meu irmão? - perguntou o diretor.
"Watari...? Seu irmão?..."
A mente de Matt dava voltas. Sentiu vontade de ser abraçado por Gevanni. Precisava dele.
-Seu irmão? - perguntou tonto.
-Ah... - murmurou o diretor fracamente.
-Eu sinto muito, Roger...
-Eu estou te falando porque eu sei que você tinha um apreço enorme pelo meu irmão... Queria que você soubesse que ele o amava muito. Assim como amava L. - Roger deu um sorriso triste. - Ele sempre me perguntava sobre você... Todas as crianças são especiais e muito amadas, mas por algum motivo ele tinha um sentimento enorme por você.
Matt sentiu um nó do tamanho de uma bola de tênis na garganta. Tremia. Engoliu em seco. Ouvir Roger falando aquelas coisas não ajudava muito. Só piorava a situação. L morto. Watari morto. Que dia terrível. Virou as costas pra sair.
-Matt... - chamou Roger. - Pegue Kira. Faça-o pagar por nos ter tirado L e Watari.
Matt arregalou os olhos. Roger sorriu novamente. Ainda triste. Ainda arrasado.
-Eu sei que vocês três vão pegá-lo. Eu confio em vocês. E Watari e L também.
Matt respirou fundo.
-Ok... Eu juro que os vingarei. - disse Matt fechando as mãos com força e saindo em disparada. " É uma promessa..."
NEAR ENCAMINHOU-SE tonto para seu quarto. Abriu a porta. Mello não estava ali. Saiu do quarto e foi pro de Mello. A porta estava trancada.
-Mello...- chamou baixinho, engolindo o choro. Silêncio. - Mello... Mello... - sentiu o choro subir por sua garganta, mas ele resistia. - Mello... Mello... - segurou-se na porta. Sentia-se fraco. - Mello... Mello... - a voz começou a falhar. Mas Mello não respondeu. Continuou em silêncio. Near escorregou-se na porta, sentando no chão do corredor. Afundou o rosto abatido nos braços. Ficou ali por intermináveis minutos. Os piores de sua vida. Sim. O pior dia da sua vida estava acontecendo naquele exato momento.
Sufocava o choro. O coração partido.
"L... L... Lawliet! Você não podia ter nos deixado..." Como sentia-se terrível e impotente! "A pessoa que mais admirava na vida...A pessoa que Mello admirava... Estava morta... Brutalmente assassinada por um aspirante à Deus... Um verme qualquer, criminoso."
Near permaneceu aos pés da porta do quarto de Mello por um tempo indeterminado. Segurando-se. Tentando manter a mente fria e vazia. Mello precisaria dele são. Não podia se entregar à dor. Ele teria que ser o pilar de Mello. Por dentro, rasgava-se em lamentos. Mas por fora deveria ser a pedra de sempre, pra ser capaz de dar um pouco de consolo à pessoa que mais ama na vida.
Depois de longo tempo, Near ouviu barulho dentro do quarto e lentamente a porta foi aberta. O rosto tão lindo de Mello tinha uma expressão carregada. Velha. Pesada. A sobrancelha estava franzida. O olhar, sempre tão vivo e brilhante, estava vazio e opaco.
Ambos se abraçaram.
-Desculpe Near... Eu precisava ficar sozinho. - disse afagando o cabelos de Near. - Desculpe por tê-lo deixado aflito.
-Não se desculpe, Mello. L... L está...
Mello apertou Near ainda mais contra o seu corpo.
-Mas nós iremos pegar o Kira. Vingaremos L. Vingaremos todos que esse verme matou. - sussurrou Mello afetado. A voz baixa, saía em fracos murmúrios.
-Então por que você falou que ia deixar o orfanato? Pensei que você fosse me deixar...
Mello ficou imóvel. Near levantou os olhos para encará-lo.
-Desculpe Near...
O garoto de cabelos brancos afastou-se de Mello e só então viu uma pequena mochila na cama. Suas íris se comprimiram. Por que Mello estava piorando tanto as coisas?
-Além da morte de L... Você vai... ? - Near não sabia que as coisas podiam ficar piores, mas a cada minuto, o mundo parecia desabar. Deixando-o ainda mais desorientado. Perdido. Sério Near viu que precisava de todas as suas forças e ser o Near que todos conheciam. Empertigou-se e enrolou uma mecha do cabelo.
-Entendi. - a voz saia fria. - Então realmente você estará me abandonando...
-Near...
Virou-se e saiu do quarto.
Mello fechou os olhos com força. Será se Near não entendia? L estava morto! Ele precisava fazer alguma coisa. Não deixaria Kira impune à esse assassinato. Mello sentia as lágrimas escapando por seus olhos fechados. Ele não se importava. Sempre foi o impulsivo, sempre foi guiado por suas emoções. Sempre fora incapaz de se controlar. E, não seria hoje que se controlaria. Não seria hoje... O dia da morte de L. Apertava as mãos entrelaçadas com força. A morte de L era algo imperdoável. Faria Kira pagar por isso. E depois viveria com Near. Mas, agora, eles não podiam ficar juntos. Near teria que entender...
-L... - um murmurio chegou aos ouvidos de Mello. - ...Watari...
Mello abriu os olhos e a figura de Matt veio-lhe aos olhos. O ruivo, sempre tão cheio de energia, tinha um semblante abatido. Os olhos estavam caídos. Baixos. Opacos.
-L... - repetiu.
Ficaram se olhando.
-Você disse Watari?
-Sim...
Mello fechou os olhos. "Watari também...?"
Matt encontrou Mello exatamente como supunha: rasgando-se em lamentos. Ele não podia mostrar-se fraco. Sentou-se ao seu lado. Acendeu um cigarro. Depois de longos minutos de silêncio o ruivo perguntou:
-Vejo que tem uma mochila pronta. Já sabe pra onde ir? - perguntou dando uma tragada e controlando-se com todas as forças pra não cair no choro como Mello.
-Não...
O olhar de ambos se encontraram e Mello pulou pros braços de Matt. Ficou por alguns segundos abraçado ao ruivo. Matt fez Mello deitar em seu colo e acariciava seu cabelo loiro. A fumaça dançava no espaço vazio. O silêncio entre eles tinha um quê de conforto. Mello endureceu o coração e deu um fim àquelas lágrimas. Apenas permaneceu deitado no colo de Matt, sentindo, por incrível que pareça, paz.
-Matt... depois que eu pegar Kira, vamos morar juntos. Eu e o Near. Mas ele ainda não sabe disso. - o loiro sorriu tristemente. Abriu os olhos por alguns segundos e encarou os olhos cor de mel de Matt - Eu quero que você more conosco. - ficou sério, a expressão pesada. Engoliu em seco. - Essa é nossa despedida, Matt... Vou me despedir de Near e vou embora sem olhar pra trás. Viva até lá, por favor... - sua voz sumiu e milagrosamente, dormiu.
Matt ficou olhando fixamente para aquele rosto conhecido por longo tempo. Pelo o que conhecia Mello, ele sumiria da vista por um bom tempo. Caçaria Kira com todas as suas forças. E se mataria na busca se fosse preciso. O ruivo fechou os olhos por alguns segundos. Que expressão triste e carregada estava estampada na face de seu querido Mello. Olhou a mochila que o loiro tinha preparado. Desvincilhou-se de Mello devagar e abriu a mochila. Riu. Só tinha chocolate dentro.
-Mello, Mello... Mesmo no fim, eu tenho que cuidar de você...
Saiu do quarto de Mello e foi ao seu.
MELLO E NEAR MANTINHAM-SE IMÓVEIS no meio do corredor escuro do Lar Wammy's. Pelo janelão no fim do corredor podiam ver que a chuva açoitava impiedosamente a cidade. O barulho do turbilhão de gotas era o único som. Todo o casarão estava em silêncio e pesado luto. Os alunos se reuniram na capela para rezar e chorar a perda de seus entes queridos. Mello permanecia encostado na parede. As mãos enfiadas nos bolsos. O olhar baixo.
Near permanecia ereto,observando-o com grande apreensão. As mãos repousavam dignamente ao longo do corpo magro e pequeno. O olhar triste e sério vagava na dor.
Concentrou forças e sussurrou:
-Não entendo por que não podemos nos unir e lutarmos juntos. Você só está complicando mais as coisas...
-Near... Você é o sucessor de L. Eu não vou ficar sob suas ordens. - respondeu Mello um tanto seco. Near espantou-se com aquela resposta.
-Mello! Você sabe que isso é irrelevante! - o silêncio reinou entre eles. "Então é por isso...? Não volte a ser o velho Mello, por favor...". - Além do mais, você está quebrando a sua promessa!
-Para que você possa cumprir a sua...
Os olhos de Near se aguçaram.
Novamente o silêncio os envolveu.
-Você é o número 1 Near. Estou feliz por você o ser. - falou Mello suavemente. A voz baixa, de quem sofre.
Mello aproximou-se de Near e o abraçou forte. Um sentimento sufocante se espalhava por seu corpo.
-Near... - o Mello apaixonado estava ali. Near o abraçou com força. Mello continuava sendo o mesmo, afinal. - Isso não é um adeus, Near... - enfatizou cada sílaba para que se fizesse claro.
-Mello...
-Breve nos encontraremos...
-Mello... - Near agarrava com força o corpo de Mello.
Ambos silenciaram, agarradas um ao outro. Os olhos fechados.
-Near, você esperará por mim?
Near afastou o corpo pra olhar o loiro nos olhos.
-Sempre...
Mello apertou o abraço. Beijou a testa do garoto de cabelos brancos e se abaixou pra pegar a mochila que estava caída aos seus pés. Lentamente foi largando a mão de Near e virou as costas. Começou a descer as escadas que levavam à saída. Parou num degrau e virou-se um pouco o rosto para encarar Near.
-A propósito, a música favorita de L é High Hopes, do Pink Floyd... - Mello virou as costas e continuou descendo lentamente.
Os olhos de Near se arregalaram. Então ele sabia... Mello... Estava à sua frente, afinal. O coração de Near batia absurdamente acelerado dentro do peito.
"Mello...Mello... Mello..." Near tentava chamá-lo. Mas a voz não saiu. Incrivelmente uma paz invadiu seu coração. Sentiu-se tranqüilo. Algo inexplicável.
-Near... - Mello tirou uma barra de chocolate do bolso.
-Mello... - Near enrolou o cabelo prateado.
-Quem chegará a Kira primeiro? - loiro mordeu o chocolate.
-Uma disputa... - um sorriso triste decorou o rosto de Near. Ainda assim, era um sorriso. A repetição do que fizeram a vida inteira.
-Nosso objetivo é o mesmo. Eu o esperarei.
-Sim. - respondeu Near.
Ele também estaria esperando por Near, afinal.
Mello voltou a descer as escadas, perdendo-se na escuridão do andar abaixo. Near ficou parado diante da janela, observando a saída, esperando vê-lo partir. Mello cruzou com passos rápidos o pátio do Lar Wammy's sentindo a chuva torrencial inundar seu corpo, deixando-o quase que instantaneamente molhado. Abriu o portão alto de ferro. Ele deu uma rápida olhada pra trás. Avistando a figura de Near se destacar na escuridão do casarão. Engoliu seco. Continuou o seu caminho e desapareceu na escuridão da noite.
NEAR LEVANTOU A MÃO e tocou o vidro da janela.
"Mello...L..."
Ficou parado imóvel por um tempo que ninguém sabe quanto. Até que sentiu passos atrás de si. Virou-se. Era Matt.
-Matt... Você precisa ir com ele!!... Vá com ele, Matt. - falou Near tentando manter a voz fria, mas falhando.
-Near... Não posso. Infelizmente. Esse caminho é só dele.
-Não! Vá com ele.
-Near... - chamou Matt baixinho.
Near virou-se para a janela. Empertigou-se. Levou uma mão ao cabelo prata. Fez um cachinho lentamente.
Matt ficou observando a figura controlada de Near.
-Não se controle tanto, Near.
Near ficou em silêncio. Matt continuou.
-Amanhã não teremos mais tempo pra chorar as nossas perdas. Não guarde tanto sentimento pesado contigo.
-Matt, se você continuar com esse assunto desagradável, terei que ignorá-lo. Pois eu, definitivamente não vou chorar, se é o que você quer.
Matt observou o corpo frágil de Near e viu que ele tremia. Aproximou-se e o abraçou.
-Pois deveria. - disse o ruivo baixinho, deslizando a mão pelo cabelo branco de Near.
Near sentiu o aconchego do abraço de Matt e viu o quanto estava tremendo. Sentiu que todas as suas reservas tinham se esgotado. A dor e o choro subiram por sua garganta. Agarrou-se na camisa listrada de Matt, e deixou que as lágrimas viessem aos seus olhos. E chorou. Como nunca tinha feito em sua vida. Chorou a morte de L. A fuga de Mello. A solidão evidente que o esperava. Chorou. O Near seco, indiferente, impassível, chorou. Molhando a camisa listrada de um amigo. Agarrando o tecido entre seus dedos pálidos. Chorou. O que nunca fez na vida. Chorou. Aquele choro amargo, ele chorou. Sendo amparado por uma pessoa que ignorou a vida inteira.
Depois de algum tempo perguntou com a voz pastosa:
-Ele vai morrer, não vai?...
Matt sentiu seu coração falhar uma batida. Engoliu em seco. Procurou a voz mais segura e confortante que tinha e respondeu:
-Então temos que pegar Kira antes disso...
Near continuou agarrado a Matt.
-Venha, vou levá-lo ao quarto. - disse Matt conduzindo Near lentamente pelos corredores desertos do Wammy's House.
-Sinto-me enjoado. - disse Near.
-Quer vomitar? - perguntou Matt.
-Não.
"Mello e Near são mais parecidos do que imaginam." Pensou Matt enquanto sustentava o peso do corpo de Near. O garoto de cabelos brancos levou a mão a boca, seu corpo tremeu numa pequena ânsia.
-Venha...- disse Matt arrastando Near para o banheiro mais próximo. Near perdeu as forças e vomitou. Matt o amparou. Ajudou-o.
-Sinto-me um inútil. Desculpe Matt... - Near ofegava um pouco. - Não queria ter me tornado um passional. Sinto muito mesmo...
-Você não precisa se desculpar, Near...
Matt abaixou a tampa do vaso e pôs Near sentado. Passou uma toalha úmida no rosto suado e pálido do garoto.
-Sente-se melhor?
-Sim...
Matt voltou a ajudar Near e o guiou até o quarto, deitou-o na cama. Tapou-o com um lençol. Levantou-se.
-Acredito que queira ficar sozinho. - disse Matt encaminhando-se para a porta - Se precisar de alguma coisa, me chame.
-Não Matt! Fique comigo. Não me deixe.
Matt ficou assustado. Não esperava uma reação dessas de Near. Matt sempre foi o amparo de Mello. Sempre foi o braço direito. Sempre foi a gota de realidade às insanidades e dores do loiro. Não imaginava que a mesma coisa aconteceria com Near. Além de Mello, agora Matt também teria que cuidar de Near. Que fato novo. Inusitado. Logo o Near, que sempre fora tão independente. Tão auto-suficiente. E ali estava ele, frágil, pedindo pra ele ficar um pouco mais. Sentindo dor. O Near humano. O Near real. O Near que Mello trouxe à vida.
Matt retornou o caminho e deitou-se ao lado de Near.
-Obrigado. - disse Near numa oitava abaixo.
Matt o abraçou.
-Tudo bem... Tudo bem... Vai ficar tudo bem, Near... Mello sabe se cuidar. Melhor do que eu e você juntos.
Matt ficou olhando o rosto angustiado de Near. Lágrimas esporádicas escorriam pelo canto dos olhos fechados. Near se encolhia, tremia, aproximava o corpo ao de Matt. Respirava pesadamente. Matt sentia dor no seu coração. Lembrou-se de Watari. O velho. Como gostava daquele velho de cabelos e bigodes brancos. Desde que Matt era pequeno, Watari já tinha aquela aparência de velho. Sempre de cabelos brancos. Sempre com aquele bigode branco. Com aquela cara sempre pronta pra abrir um sorriso. Matt lembrava-se das inúmeras vezes que estivera diante da presença de Watari. De como o homem conseguia transmitir conforto e segurança em momentos silenciosos. Matt lembrou-se de um momento em especial em que ele, sem querer, chamou Watari de pai. O velho deu um sorriso escancarado e os olhos marejaram. Matt ficou sem graça na mesma hora e pediu desculpas mas, Watari pediu pra ele chamá-lo daquela forma sempre que quisesse. A felicidade não podia ser maior no interior daquele menino ruivo magricela nos seus 6, 7 anos. Abraçou o homem e chamou repetidas vezes "pai, pai, pai".
Matt suspirou. Abriu os olhos. E lá estava Near. Lá estavam ele chorando suas perdas. Ali eles não eram os sucessores de L. Ali, eles não eram os meninos superdotados. Ali eles não eram os futuros chefes das principais agências de inteligência do mundo. Ali, eles eram apenas adolescente que tiveram perdas irreparáveis. Era como tivessem perdido o pai, o irmão mais velho. Matt engoliu em seco. Sim. Esse era o papel de Watari e L. Pai e irmão mais velho. Aquele tipo de pessoa que podiam contar. Que podiam ligar a qualquer hora do dia ou da noite. E, agora, jaziam mortos... Aqueles que mais lutaram pela justiça, mortos.
Matt lembrou-se das palavras de Roger. "Sei que vocês três vão pegá-lo". Sentiu o peso da responsabilidade. Mas não tinha que se preocupar com isso esta noite. Hoje só teriam que deixar fluir as dores que emanavam de suas almas.
MELLO OLHOU A RUA deserta assim que cruzou os portões do Lar. A chuva caía sobre seu corpo mas ele não se importava. Os pés hesitaram um segundo. Começou a caminhar. Que caminho seguir? Qual seria o seu caminho? Desceu a rua e virou a esquina. O frio agredia seu corpo. Caminhou sem saber pra onde ir. Apenas deixou ser guiado por seus passos errantes.
As janelas das casas do bairro estavam fechadas. A maioria das casas mantinham as luzes apagadas. Por hora, um carro passava em alta velocidade na rua principal. Ele caminhava. As mãos afundadas no bolso do casaco. Estava frio. Mais um passo. Uma dor. Mais um passo. A mesma dor. Outro passo. A dor lacerante, pulsando dentro dele. Mais um passo... E mais um...
Deixou pra trás o bairro tranqüilo do orfanato, entrando numa área movimentada da cidade. As pessoas passavam por ele, mas Mello não as via. Apenas continuava seu caminho, a cabeça erguida, o cabelo loiro colado no rosto devido a água constante, desprezando as pessoas que cruzavam com ele na noite chuvosa. Guarda-chuvas passavam por ele fazendo acentuar o barulho da chuva. Continuou andando. Afastando-se lentamente do Lar. Caminhando.
Seu pé esquerdo mergulhou numa poça de água na calçada. Irrelevante. Fechava os olhos. Controlava suas emoções. As gotas ligeiramente salgadas escorriam por seu rosto, misturando-se com as lágrimas discretas que tentava conter.
"L..."
A escuridão de seus sentimentos sufocava sua alma. Vulnerável. Sofrendo pesarosamente a morte de L. Mello continuou caminhando, cruzou bairros, passou por pessoas que caminhavam apressadas encolhidas nos seus casacos caros. Caminhava, caminhava, caminhava... Cruzou ruas e becos e esquinas.
Sua mente trabalhava numa velocidade impressionante. Tantas coisas aconteceram nas últimas horas! E quanta coisa ruim! Sentia-se zonzo pela forma agressiva como as coisas acontecem. Estava tudo tão bem, de repente, o mundo gira, e tudo muda. Estava tudo em paz e de repente... A vida da uma rasteira. Tira-nos o chão. Acaba com o nosso mundo.
"L..."
L era um mundo caro e estimado de Mello. L... Perfeito em todos os seus designos e agora, morto, numa cova qualquer... Mello fechou os olhos. Como? Como?
"L..."
Mello culpava-se. De uma maneira ou de outra, ele se culpava. Deveria já está pronto. Deveria ter abandonado o orfanato e ido ao encontro de L. Ajudá-lo. Protegê-lo.
"L...L..."
Protegê-lo de Kira. Morrer em seu lugar.
"L... me perdoe..."
Mello, do nada, flexionou os joelhos, pegou impulso e começou a correr. Corria na maior velocidade que seu corpo era capaz. Corria, alucinadamente, entre pessoas, entre carros, entre as ruas molhadas. Corria. Como se aquela corrida, como se aquele cansaço, como se aquele esforço, fosse capaz de atenuar o turbilhão de sentimentos que reviravam em seus interior. Desceu uma avenida. Atravessou a rua sem olhar pros lados. Correu. Sentia seu batimento cardíaco aumentar. Tinha a impressão de que infartaria a qualquer momento. Mais um pouco. Franzia o cenho. O rosto contraído pelo esforço. Pela dor.
"L! L! L! L!"
O ar gelado entrava em seu pulmão como facas, mas ele pouco ligava. Queria continuar correndo. Virou uma esquina e o farol alto de um carro agrediu seus olhos. Correu. Sentindo o ar faltando. Tentando extravasar seus sentimentos. Correu. Sentiu seus joelhos fraquejarem. Correu. Mais um pouco. Mais um pouco. Correu...
Parou exausto. Pos as mãos nos joelhos, descansando o peso do corpo. Os olhos fechados. O oxigênio em pequenos fragmentos doloridos em seu peito. Devagar. Normalizou a respiração. Abriu lentamente os olhos, mirando a grama molhada. Estava numa praça qualquer. Ergueu os olhos.
"L..."
Vozes inundaram sua mente. Frases e afirmações dançaram, com voz realista e dura, em sua cabeça.
MORTO
ENTERRADO NUMA COVA RASA
ANôNIMO
-PARE!
sIM, Agora não há NADA MAis QuE você possA fazER.
-paree!
De QUE adIaNTOu toDAs aQUElas HoRaS de estUDO?
DE QUE ADIANTOU?
-pareee!!
"L"
mOrto. Simples assim. Foi-se.
ViROu pÓ.
-PARE
SEU ROSTO SENDO DISFIGURADO
PeRDeU-se.
AbaNdoNOU sEu CORpo
-pare...
"L"
E VOCÊ NÃO FOI CAPAZ DE PROTEGÊ-LO
Não dIZIa que O AmaVA?
-PARee
Inútil...incaPAZ DE pROTEger queM dIZ amAR...
-PARE!!
O próximo SErá O nEar?
Silêncio.
As vozes silenciaram dentro dele. Parecia que tinha levado um tapa na cara. Mello levou ambas as mãos ao rosto, contorcendo a face levemente. A chuva continuava a castigá-lo. Impiedosamente. Ficou em silêncio. O eco de seu último pensamento,agourento, repetindo em sua mente. Deixou-se cair por alguns segundos num banco da praça.
-Perdão L... Não fui capaz de protegê-lo...
O corpo de Mello era açoitado devido a baixa temperatura em que se encontrava. Ergueu-se lentamente do banco. Precisava encontrar um lugar pra ficar. Sim. A luta pela sobrevivência começou. E ele ia lutar até o fim.
-E eu não vou deixar nada acontecer ao Near... Nem que eu tenha que entregar a minha vida... - falou entre os dentes que tilintavam de frio.
Caminhou em busca de "algum lugar" pra ficar. Já estava mais calmo. Conseguia raciocinar com mais nitidez. A partida do lar, a chuva e o frio que machucavam seu corpo, a corrida exaustiva, e as lágrimas que derramara, abrandaram a dor de seu coração. Sentia-se aliviado.
As horas continuaram passando e ele perdia-se pelas ruas desertas de Londres, absorto em pensamentos. Mentalizando planos. Preparando-se para capturar Kira. Ele não tinha um apoio. Teria que conseguir. E alcançaria Kira com as próprias mãos. Kira maldito! Pagaria caro por ter feito o que fez. Mello escreveria o nome de Kira no maldito caderno e esperaria para vê-lo agonizando diante de seus olhos.
Mello estava exausto. Tanto fisico como emocionalmente. Sentia-se farto da imensidão de sentimentos devastadores que arrancaram-no do eixo, que o lançaram à mais profunda escuridão.
Sem mais forças Mello estava no seu limite. Tinha que sentar. Precisava repousar um segundo. Procurou o melhor lugar e viu que já estava no centro de Londres. Desceu as escadas que levavam ao metrô. O lugar estava deserto. Completamente abandonado, fazendo ecooar o som de seus passos pelo espaço vazio. Mello tremia de frio. Sentou-se num banco qualquer. Procurou com os olhos o relógio eletrônico do lugar. Duas horas da manhã. Estava andando há horas. Frio. Estava só. Fechou os olhos com força. Sentiu vontade de fumar. Idiota! Ele que sempre foi avesso ao cigarro... Abriu a mochila pra pegar seu verdadeiro vício. Espantou-se com o que viu. A mochila estava socada de coisas que ele não tinha colocado. Bem que teve a impressão te ter achado mais pesada do que tinha se lembrado. Encontrou um bilhete.
Pegou o papel dobrado. Abriu-o. Leu:
O que você pretendia com aquela bagagem, loirão?
Nem só de chocolate vive o homem! Mesmo nos momentos cruciais
eu tenho que cuidar de ti, né? Preocupa-me o fato de que estarei longe por tempo
indeterminado. Seja como for...Este casaco eu comprei ano
passado quando estive nos E.U.A., mas nunca cheguei usar. Acredito
que você fará melhor proveito dele do que eu.
Amigo, cuide-se. E mantenha-se vivo.
Seu ruivo maldito,
Matt
Mello fechou o bilhete entre os dedos.
"Matt...Obrigado por tudo".
Ficou de olhos fechados por alguns segundos, já sentindo falta do ruivo. Sorriu levemente. Matt não perdia o humor nem em momentos como este. Sabia que por dentro estava em pedaços, mas sempre mantinha-se firme. Mello abriu os olhos. Tirou o casaco da mochila. Um casaco vermelho, com uma gola volumosa, com uma espécie de penujem branca na borda da gola e do capuz. Mello gostou do casaco. Era seu estilo.
-Matt, você ficaria horrível usando-o. - sorriu um pouco.
Tirou o casaco que estava vestindo, que estava completamente encharcado, e colocou o que Matt dera. Sentiu seu corpo se aquecer novamente. Continuou verificando os restantes dos itens na mochila: encontrou luvas, um cachecol, uma passagem para New York e um maço de notas. Mello pegou devagar o dinheiro. Quantia suficiente para ele se manter por alguns meses.
"Matt... Obrigado..."
Mello fechou os olhos com força. Não sabia o que doía mais. Se era deixar ou ser deixado pra trás.
"Matt... Near... "
As pessoas que ele mais se importava na vida. Teria que sacrificar seu relacionamento com Near e Matt para poder vingar a morte de L. Era inevitável. Era difícil. Era doído. Mas era necessário. Seu pensamento vagava, saudoso.
"Near..."
A rivalidade que virou amor. Os inimigos que se renderam, sôfregos, em meio a batalha.
"Near..."
Seu indiferente Near. Seu insensível Near. Seu frio Near. Seu estúpido Near. Seu desprezível Near. Seu pequeno Near. Seu Near... Simplesmente isso. Deixar Near para trás era mais difícil do que ele demonstrava. Mais difícil do que ele podia admitir. Era uma dor sufocante. Lacerante.
"Near..."
As coisas chegaram ao extremo. Mello sacrificaria tudo o que tinha pra fazer justiça à morte de L. Usaria todo e qualquer meio que desse acesso. Infelizmente, Near fazia parte desse sacrifício.
"Near...Near... Near... Near..."
Uma frase de uma música que Mello não sabia aonde tinha ouvido (provavelmente no quarto de Matt) veio-lhe à mente. A voz do cantor. O violão. E a frase que na época não tinha dado muito importância.
Will you wait for me forever?
Mello fechou os olhos.
"Sempre" a voz baixa de Near chegou-lhe aos ouvidos.
Sufocado pelos últimos acontecimentos, Mello inclinou-se sobre o banco frio. E assim Mello dormiu. Numa estação de metrô no centro de Londres. Jogado num banco qualquer. Sendo metade do homem que um dia fora...
A LUZ PÁLIDA DO dia cinzento adentrava o quarto. As pálpebras de Near mexeram levemente.
-Que bom que você conseguiu dormir um pouco, Near. - disse Matt.
-Já você ficou acordado a noite toda. E que noite longa...
-Ah... Mas isso pra mim não é novidade... Eu varo noites fazendo coisas inúteis.
Silêncio por alguns minutos.
-Matt... Desculpe. Eu sei o quanto você amava L e Watari e o Mello. Mas mesmo assim eu fui insensível e egoísta... Nem olhei pra sua dor. Desculpe por não tê-lo... - disse Near tímido.
-Near... - Matt sorriu. - Ta tudo bem. Eu sei me cuidar sozinho.
Ficaram em silêncio por algum tempo.
-Matt.
-Hun?
-Aonde será que ele está? - perguntou baixinho.
"Não me pergunte isso! Não me pergunte isso Near!!"
-Não pense nisso... Se não você vai enlouquecer. - disse Matt gentilmente.
Near encolheu-se um pouco mais nos braços de Matt.
-Se conseguir, durma mais um pouco. Esse dia vai ser longo...
-Ahh... É o dia que eu não quero viver... - sussurrou Near.
O BARULHO ENSURDECEDOR DO METRÔ acordou o garoto loiro de súbito, que praticamente caiu do banco em que dormira. Mello sentou-se rapidamente reparando que alguns trabalhadores já tomavam o caminho pra seus respectivos serviços. Levou a mão a testa. Estava com uma terrível enchaqueca. Levantou-se. Comprou um café. Foi à bilheteria. Comprou uma passagem e entrou no metrô. Estava indo pro aeroporto.
MATT LEVANTARA DEVAGAR para não acordar Near que voltara a dormir. Foi ao seu quarto pegou seus pertences. Separou algumas coisas que precisavam ser aniquiladas para não deixar rastro. Fez uma pequena mochila. Foi ao antigo quarto de Mello e a cama vazia e ainda feita fez doer o peito do ruivo. Mas ele passou por cima daquela dor. Tirou os pertences de Mello e os colocou numa caixa. Encontrou uma foto bonita do loiro, tirada no outono passado. Pôs a foto no bolso.
Voltou ao quarto de Near com uma mochila e duas caixas de papelão.
-Vou pedir pro Roger guardar isso pra gente. Quando tudo estiver acabado, tenho certeza que Mello gostará de rever seus pertences. - colocou as caixas no chão. - Separe tudo que precisa ser destruído e os coloque nessa caixa. Pediremos à Roger pra cuidar disso pra gente também.
Near estava parado no meio do quarto. Os olhos tristes, baixos. Matt aproximou-se dele, colocando ambas as mãos nos ombros do garoto.
-Este é o dia de mostrarmos a nossa força. O tempo de entristecer já passou. Hoje nós não somos os meninos bonzinhos que choramos. Hoje, somos os agentes calculistas que vingaremos as mortes dos nossos companheiros. De acordo?
-Sim. - respondeu Near quase rindo. Matt estava tratando ele como se fosse criança. E, era exatamente assim que Near se sentia diante do ruivo. Ele nunca tivera contato com Matt ( com ninguém, na verdade) e surpreendera-se com a personalidade do garoto. Agora sabia o por que que Mello não o largava: Matt era abundante em tudo. Conseguia captar os sentimentos das pessoas que estavam ao seu lado com uma facilidade impressionante. Matt era uma pessoa muito especial.
-Óó... - disse Matt estende a mão. - Mello deixou uma foto pra trás. Fique com ela.
Near pegou a foto nas mãos delicadamente. Segurou firme, como se assim fosse capaz de guardar Mello mais perto, mais próximo.
Matt mexia nas coisas de um lado pro outro. Jogando algumas coisas na caixa pra guardar e outras num saco de lixo pra serem destruídas.
-Já apaguei todos os dados da investigação dos nossos computadores. Agora só temos que arrumar suas coisas. Vou acompanhá-lo até o FBI. - disse o ruivo desconectando uns cabos do computador de Near. - Comprei as passagens para hoje, às 19 horas.
-E depois você vai pra onde, Matt? - perguntou Near jogando um robô gigante dentro da mochila que Matt trouxera.
O ruivo ficou em silêncio por alguns segundos.
"Pra onde que eu vou?..."
-Não sei ainda Near... Ainda não sei...
NO PORTÃO DE EMBARQUE NO aeroporto internacional de Londres, um rapaz loiro mantinha um rosto sério e sombrio. Os cotovelos enterrados nas coxas. A mochila jogada no chão. As mãos entrelaçadas.
"Manter a mente vazia... Isso... Focalize-se! Concentre-se! Encontre Kira!"
Os olhos se estreitaram com o pensamento. Era isso ou a morte. No olhar azul um brilho intenso de força e uma gota de insanidade reluziram.
Mello estava mais determinado do que nunca.
-VOCÊS SÓ PODEM ESTAR DE BRINCADEIRA! - Roger estava alarmado. Levantara-se de sua cadeira mantendo ambas as mãos apoiadas na mesa, como se precisasse de equilíbrio - Eu não posso perder vocês! Meu Deus! L, Watari... Mello se foi, o meu menino, agora vocês também? Querem matar esse velho?
-Roger! Não temos tempo pra isso! - falou Matt. - Lá fora há um assassino em série, inescrupuloso. Aqui está o sucessor do maior detetive do mundo. Vamos usar nossas vantagens e vamos capturá-lo!
-Eu sei... Eu sei.. .Mas assim, de repente? Sem festa? Sem despedida? - Roger estava inconsolável, falando coisas sem sentido. - Watari... L... Mello...
-Roger! Acalme-se! Estamos todos em luto. Por favor. Por Wammys... - disse o ruivo baixinho.
Roger estava com terríveis olheiras. A noite tinha sido longa pra todos os moradores do casarão afinal.
Roger sentou-se novamente em sua cadeira de couro. Pôs o polegar e o indicador entre os olhos, apertando. Suspirou cansado, de olhos fechados.
-A herança... - pigarreou. - A herança de L e Watari que pertence às vocês estão nessas pastas. Por favor, assinem essas folhas. - Matt e Near aproximaram-se da mesa e assinaram nos locais indicados. - Essa cópia é de vocês. Depois dêem uma olhada pra ver o que lhes pertencem. - Ficou em silêncio por mais alguns segundos. - Vocês ainda não têm acesso ao valor em espécie por serem de menor. Automaticamente eu sou o tutor de vocês. Dentro dessa pasta está o cartão de crédito/débito, que vocês podem usar a vontade. - Parou novamente. Sua voz saia estranha. Como se não fosse dele. - Matt, cuide da herança de Mello. Uma outra ou outra ele vai voltar pra você. - Roger ficou quieto novamente. -Se precisarem de quantias mais altas, me liguem e eu faço a liberação.
-Ok. - falou Matt.
Todos caíram num silêncio desconfortável. Falar de herança fazia a coisa se torna mais real. Como se esfregasse na cara deles "olha veja, nós realmente morremos. Nossos bens agora a vocês pertence... Olha veja! Você ganhou uma casa... Veja, eu morri, e agora minhas propriedades estão em seu poder... Eu não posso mais cuidar das coisas que conquistei, então é seu... Veja, fique com as nossas coisas...Veja!..." Near estreitou os olhos, sentindo o gosto amargo da realidade que não cansava de o maltratar. Lançou um olhar à Matt.
-Estamos indo pro aeroporto. As passagens já estão comigo. Roger, por favor, ligue pro diretor do FBI e anuncie a nossa chegada.
-Ok... - sussurrou sem opções.
Near virou-se para sair. Matt ficou parado ainda olhando pro velho diretor. Cruzou a sala e o abraçou. Roger caiu no choro.
-Tomem cuidado, pelo amor de Deus. Qualquer coisa me liguem. Não deixem de me ligar, ta ouvindo? QUALQUER coisa me liga. E não deixe esse velho sem notícias. Matt... Oh Matt, meu filho, juízo. Tome cuidado. As coisas estão feias fora das paredes deste casarão. Cuidado. Tomem cuidado. Zelem por suas vidas... - Roger olhou pra Near, hesitante. Como que se ponderando se quebrava ou não a barreira de Near. Após alguns segundos, decidiu por não. Near nunca fora uma pessoa que se podia se aproximar. Roger apenas lançou um sorriso triste ao garoto de cabelos brancos. Abaixou a cabeça ainda mantendo Matt entre seus braços.
-Ok...ok... - disse Matt forçando um sorriso. - 'Podexá' que eu vou pra cama cedo, não vou esquecer de escovar os dentes e sempre terei um guarda-chuva na bolsa! - deu outro sorriu forçados - E não faça drama, Roger! Eu não estou indo embora. - virou as costas e se aproximou de Near, pegando-o pelo pulso. Falou por cima dos ombros. - Até parece que eu vou deixar a comida da miss Brown pra trás... Até parece. - sorriu mais uma vez e saiu da sala num rompante afim de evitar um drama, trazendo Near consigo.
Desde que soubera da trágica notícia, Matt não tinha derramado uma única gota de lágrima. Não ia fraquejar agora. Se seguraria mais um pouco.
MATT E NEAR ENCAMINHAVAM-SE LADO rumo ao estacionamento do Lar Wammy's. Um grupo de crianças os aguardavam. Matt parou assustado. Aquelas crianças estavam com o rostinho triste.
"Tá todo mundo triste nessa porra..."
-Matt... É verdade que tu não vai morar mais aqui? - a voz baixa de Ray estava cheia de ressentimentos.
"Sim... Estou indo embora, talvez morra na busca a Kira... Talvez nunca mais volte à esse lugar...Mas tudo bem...".
-Não é bem assim. - disse Matt se ajoelhando diante das crianças. - Eu tenho que levar Near à um lugar. E vou demorar um pouco pra voltar.
-Por que ele não vai sozinho? - perguntou uma das crianças que fazia círculo ao redor de Matt.
-Porque ele tem medo de andar de avião sozinho. - respondeu o ruivo.
Todas as crianças viram a cabeça pra encarar Near, lançando-lhe olhares reprovadores.
-Mas não façam essas caras! - disse Matt sorrindo - Eu deixei um monte de coisas na minha cama. Vão lá pegar, é presente pra vocês. Vão! - disse o garoto fazendo-os andar na marra. Lentamente as crianças começaram a andar, numa marcha lenta, de volta ao interior do casarão. Mas Ray ficou pra trás. Olhando-o atentamente.
Matt o fez se aproximou e o abraçou.
-Esse presente é especial. - disse entregando-lhe seu playstation portátil (inseparável). - E é seu.
Os olhos de Ray se encheram de lágrimas.
-Eu não quero isso. Eu quero que você fique! - falou.
Matt realmente se assustou com essa. Meu Deus!
-Ray, eu e você vamos fazer um juramento: assim que eu terminar o que eu tenho que fazer...
-Que é levar Near à algum lugar...
-...eu vou buscá-lo e nós vamos morar juntos num lugar ensolarado, perto do mar, aonde possamos fazer castelos de areia. O que você acha? - Matt estava sendo sincero. Assustou-se com isso. Jamais faria uma promessa leviana pra enganar uma criança.
Os olhos de Ray se abriram, esperançosos.
-Jura? - perguntou.
-Sim! - - respondeu sorrindo."Mais uma promessa... Mais uma... Quantas mais você fará, Mail? Quantas poderá cumprir?" - Agora cuide-se até lá, está bem?
-Sim - respondeu Ray como se estivesse diante de seu coronel.
Virou as costas e entrou no carro, sentido-se cada vez pior.
UM CARA GORDO, DE UNS dois metros de altura pra uns cinco de largura sentou-se ao lado de Mello no avião.
"Filho da puta desgraçado, gordo do cacete! Eu sou muito azarado mesmo em sentar do lado de um cara desse. Maldito!"
Sentia-se esmagado em sua poltrona da janela. Atravessar o oceano com um gigante ao lado não é nada confortável. Fechou os olhos irritado.
-Você está indo visitar parentes? - perguntou o homem virando com certa dificuldade a cabeça em cima do pescoço gordo.
Mello ficou incrédulo. Era só o que faltava. O estranho querer da um de legal e conversar com ele! Quanto azar.
-Não. - respondeu seco e grosso.
-Está indo estudar?
-Não.
-Passeio turístico?
-Não.
-Encontrar a namorada?
Uma veia grossa saltou na testa de Mello.
-Não.
-Pesquisa?
-Não.
-Intercâmbio?
-Não.
-Voltando pra casa?
-Não.
-Em busca de aventura?
-Não.
-Fugindo de casa?
-Não.
-Rebeldia?
-Não.
O homem ficou em silêncio por algum tempo, pensando em alguma hipótese que tivesse esquecido de perguntar.
-Desisto. Por que está indo pra New York?
Mello olhou pra ele bufando de irritação. Se falasse a verdade, com certeza, esse cara ia desistir de ser "amigo" dele. Sorriu maliciosamente e respondeu:
-Porque eu tenho que pegar um assassino.
O homem ficou em silêncio. De repente soltou uma gargalhada.
Mello alarmou-se com aquela reação. O cara não o estava levando muito a sério.
-Você e mais quantos? - perguntou o homem entre risos.
-Sozinho. - respondeu Mello já se virando no banco pra ficar numa boa posição e deferir um soco naquela cara gorda.
O homem se aproximou dele e ficou sério.
-Menino, estamos falando de New York. Você parece ser um garoto determinado, mas vai morrer na primeira esquina se não tiver os contatos certos.
-Dispenso a sua preocupação . - disse o loiro ríspido. - Eu sei me virar sozinho.
-Já esteve em New York antes?
-Mas é claro!
-Já esteve no Brooklin? Digo, nas entranhas do Brooklin?
Mello pensou por alguns segundos.
-Não.
-A-há! Pois é lá que você vai encontrar caras... É lá que você tem que encontrar os contatos certos. É lá que você vai conseguir comprar armas. E munição. Ou você pretende pegar esse assassino com barras de chocolates? - o homem apontou pra mão de Mello, que segurava uma barra pela metade.
-Eu não sou idiota! - vociferou.
-Ainda bem, porque seria uma pena alguém tão jovem e bonito como você morrer assim...
Mello ficou em silêncio. Após alguns segundos o homem estendeu a mão.
-Meu nome é Richard. Mas as pessoas me chamam de Big, eu sinceramente não sei o porque... Bem, você pode me chamar do que quiser.
-Mello. As pessoas me chamam de Mello. Você pode me chamar de Mello. - disse irônico, estendendo a mão sem muito interesse.
-Já sabe aonde vai ficar? - perguntou Big.
-Não é de sua conta.
-Não sabe, né? Olha, posso lhe arrumar uns contatos. Tem um camarada meu, o Broke, que em um dia vai fazer você conhecer todas as vielas de New York, te apresentar pra garotada, sabe como é?
"Broke? Só pelo nome, deduzo ser um débil mental."
-Não sei se estou interessado. - disse cruzando os braços.
Mas estava. Conhecer as entranhas de New York, conseguir armas, contatos, era o começo...
NEAR MANTINHA UM ROBÔ azul entre os braços. A limusine cortava Londres no fim da tarde. O dia manteve-se nublado e chuvoso, como se também chorasse. Matt ao seu lado estava quieto. Um silêncio que não o pertencia. Near lançou um olhar de soslaio à Matt. O ruivo estava tão sério. Tão distante. Mas percebeu o olhar de Near. Virou o rosto, deu um sorriso forçado e falou:
-Acho melhor a herança de Mello ficar sob seus cuidados. - disse estendendo uma pasta preta à Near. - Roger confiou a mim porque não sabia do relacionamento de vocês.
-Sim. - respondeu sem muito interesse, pegando a pasta.
Matt voltou a se enterrar no silêncio e Near o observou por mais alguns instantes. Apertou o robô entre os braços. Dali há algumas horas estaria embarcando num avião, e só Deus sabe o que o aguardava.
COMO ERA DE SE ESPERAR, BROKE era um rapaz com um sorriso escancarado nos lábios, mantinha um palito entre os dentes e estava vestido numa camiseta brega (amarela, horrorosa) com os botões abertos. Conversaram pouco (se é que dava pra conversar com um cara que usa meio neurônio). Ele disse que tinha "um lugar" pra Mello ficar até encontrar uma moradia melhor.
-Tenho certeza de que você não vai se arrepender . - falava Broke enquanto subiam as escadas de um prédio às ruínas. - Não é de luxo, mas dá pra você se virar por uns dias. - Deixou as escadas e seguiu por um corredor escuro e longo. A madeira estalava debaixo dos pés do chocólatra enquanto ele seguia Broke. De cada lado do corredor, portas marrons dos apartamentos faziam fila ao longo da parede úmida e escura. Limo e manchas se espalhavam pela pintura porca. O cheiro de álcool e maconha impregnava o lugar. Dos apartamentos vinham barulhos diversos. Mello pôde distinguir alguém discutindo, uma televisão ligada, gemidos de sexo, um som com uma música country, algo de vidro se partindo contra a parede e uma criança chorando.
"Isso não é lugar para uma criança..." Mello tinha certeza de que seria isso que Matt diria.
Broke continuava seu discurso.
-...pelo menos é perto do centro da cidade... sempre que precisar de alguma coisa, me chame... - viraram a esquina do corredor e pararam diante de uma porta escura. A maçaneta era nova. Mello observou que aquele apartamento deve ter sido arrombado uma infinidade de vezes. A porta se abriu e Mello manteve o rosto impassível. Uma cama velha de solteiro com um colchão (de 15 centímetros de espessura) sem forro. Uma cadeira verde, descascada. Um pseudo-guarda-roupa sem uma das portas. A janela - ou o que sobrara dela - forrada por uma folha de zinco. Uma lâmpada fraca pendurada pelo fio desencapado. A luz bruxuleante deixava o ambiente ainda mais surreal. Um lugar perfeito para viciados e alcoólatras. O lugar fedia a cerveja velha. Um cinzeiro (que devia estar ali há séculos) estava jogado no chão com uma porção de bitucas de cigarros.
Broke levou a mão a cabeça e riu sem graça.
-Está pior do que eu me lembrava.
-Não. - falou Mello com sua voz grave e autoritária. - Está ótimo. - Ficou quieto. - Me leve pra conhecer o resto dos homens.
Broke hesitou por alguns segundos.
-Vamos.
Voltaram pelo caminho fétido. Desceu os três andares daquele apartamento ( Mello reparou que devia ter centenas deles) e um grupo de rapazes fumava na calçada enquanto ouvia música alta.
-Este é o rapaz que falei. - disse Broke. Todos silenciaram e olharam a figura de Mello boquiabertos.
-Você só pode está de brincadeira. Essa belezinha só seria útil como 'princesa', eu- - falou um garoto alto, sorrindo debochado. Antes que pudesse terminar a frase, Mello já sacara a magnun do cós da calça e a mirava na testa do cara. Engatilhou e o barulhos do metal fez todos ficarem quietos.
-Com quem você pensa que está falando? - perguntou grave. A sobrancelha franzida. O olhar absurdamente assustador.
Todos os garotos se espantaram e se interessaram de repente.
-Quando foi que você conseguiu essa arma? - perguntou Broke boquiaberto. - Desde que você chegou está ao meu lado... Eu não vi...
Mello lançou um olhar de desprezo para o garoto.
-Você é lento demais... - falou.
Todos ficaram em silêncio. Mello continuou com a arma na mão. Fechou os olhos por alguns segundos.
-Diga então o que você quer. - disse um cara alto, que tinha uma cicatriz no rosto dando uma tragada no cigarro.
Mello voltou a colocar a arma no cós da calça e tirou uma barra de chocolate do bolso do casaco. Todos os rapazes tinham expressões de infinito espanto. A figura singular de Mello destacava-se no lugar.
-Eu preciso de força e vocês de cérebro... - disse mordendo um tablete do chocolate, que logo se derreteu em sua boca. - Tenho uma proposta pra vocês. Conseguiremos um dinheiro e assim, você me farão possíveis favores.
O silêncio foi geral. Eles estavam assimilando o que Mello lhes falara.
-Como se 'conseguir dinheiro' fosse fácil - um garoto branquela no meio da roda falou alto fazendo todos os outros caírem na gargalhada. Aquele tipo de idiota-popular que sempre que abre a boca todo mundo ri. Mello odiou-o. Desprezava pessoas desse tipo. Mas ele sabia, não-gênios são sempre previsíveis e superficiais. Usaria-os (se conseguisse), apenas. Seriam apenas fantoches.
-Foi por isso que eu perguntei: Com quem vocês acham que estão falando?
Silêncio. Mello impunha respeito. Era algo atávico a ele. Espírito de liderança.
-Eu sou o cérebro. Vocês são a força. O que me dizem disso?
-Qual é a sua proposta? - perguntou um garoto de cabelo preto batendo nas costas.
-É simples: assaltaremos o banco central de Manhattan. Talvez consigamos uns 20 milhões de dólares... Com isso, vocês estarão com os bolsos cheios e, sob meu comando, entrarão numa empreitada em uma missão.
Silêncio.
-20 milhões...?
-Nunca assaltamos um banco... - A voz parcialmente débil de um dos garotos chegou aos ouvidos de Mello, irritando-o.
-É por isso que eu disse que vocês precisam de cérebro. - falou Mello ríspido. - Se vocês pensam que eu pretendo me junte a você para vê-los traficar, estou caindo fora. - tirou um papel dobrado do bolso. - Vejam. Esse é o esboço do assalto.
Os garotos fizeram um círculo em volta do papel, vendo o desenho da estrutura do banco e lendo a letra fina e uniforme de Mello. O loiro afundou a mão esquerda no fundo do casaco e ficou observando a cena.
"Será se eles realmente são úteis?".
Depois de alguns minutos, eles olhavam de Mello para o papel boquiabertos. O plano era ridiculamente simples, mas parece ter surpreendido aqueles meninos do gueto.
-Você tem certeza de que isso é possível? - perguntou um deles.
-Sim... - respondeu o loiro. - Se fizerem o que eu mandar, tudo sairá como planejei.
A resposta foi sim, é claro...
E, antes de Near e Matt aterrizarem nos Estados Unidos, Mello já tinha conseguido seus primeiros 'peões' para batalha.
A PENSYLVANIA AVENUE ESTAVA movimentada. Near mantinha-se no último degrau da entrada do prédio do FBI. Matt estava uns três degraus abaixo de Near. A uma certa distância, Gevanni estava parado, observando a cena. Esperando por Near. Agora eles eram chefe-subordinado. Near estava sob seus cuidados. Tremia discretamente, observando com pesar Matt se despedir de Near.
Near e Matt se encaravam. Conversam em silêncio. Compreendiam.
-Bem, está entregue. - Matt disse numa voz casual tentando quebrar o gelo de mais uma despedida. - Até mais.
Mas Matt não saiu do lugar. Continuou parado, ponderando. Near ficou quieto. Apenas apertou o robô em seus braços. Ficaram se olhando.
-Near... "cuide dele pra mim... Cuide de Gevanni..." Mas apenas pensou. Não conseguiu pôr em palavras. Olhou Gevanni à distância. Teve vontade de aproximar-se dele e lhe dar um grande beijo e dizer que tudo ocorreria bem, que breve estaria de volta... Mas não podia, Gevanni era tímido e discreto. Morreria de vergonha se Matt fizesse isso.
-Sim... Eu farei...- respondeu Near, deduzindo o que Matt estava pensando.
O ruivo engoliu em seco, virou-se para ir embora. Desceu os últimos degraus da escada e já alcançava a escada quando Near o chamou.
-Matt... - chamou Near. Matt parou e olhou sobre o ombro - Por favor, não morra...
O ruivo continuou o seu caminho sem dizer nada. Near o viu se afastar lentamente, perdendo-se entre os pedestre da rua movimentada. Near sentiu a dor da partida de Matt. Esse sentimento era completamente novo. Nessas últimas semanas, tinha adquirido um sentimento de admiração e carinho pelo ruivo.
Near fechou os olhos por alguns segundos. Ele tinha mudado tanto! E tudo por causa de Mello.
"Mello".
O ruivo já saíra da visão de Near, que lentamente virou-se, aproximou-se de Gevanni:
-Gevanni... Vamos acabar com isso de uma vez, antes que mais uma tragédia se suceda.
-Sim. - respondeu baixo.
Mal sabia Near que levaria pelo menos quatro anos até 'acabar com isso de uma vez'...
COM PASSOS TRÊMULOS MATT se afastou do prédio do FBI.
"Gevanni... me perdoe".
Não teve tempo de se despir de seu amante. As coisas aconteceram rápidas demais. Quando se deram conta, a vida tinha feito o favor de os afastar.
Virou a esquina, desceu os degraus que levavam ao metrô. Pegaria um até New York. Um de seus bens na herança, foi o apartamento de L em Manhattan. Rodava a chave no bolso do casaco. Como era difícil, meu Deus! Tragou o cigarro com tanta força que chegou a ficar um pouco tonto.
Qual seria o seu caminho?
Matt não fazia mínima idéia. Pela primeira vez na vida, estava confuso e perdido. Em sua frente não tinha um caminho... Nem mesmo um atalho. Apenas uma escuridão densa e assustadora. Com um assassino à espreita. Um assassino infantil, psicótico.
Outra tragada generosa. Jogou a metade do cigarro no cesto de areia quando das portas do metrô se abriram. Entrou, buscando um lugar pra sentar.
"O que eu vou fazer?"
Claro que ele podia ingressar ao FBI. Podia até mesmo se juntar à equipe de Near. Mas não era esse o caminho. Sabia que não era. Suspirou cansado, olhando pela janela e só vendo a escuridão do túnel em que o metrô serpenteava veloz. Sentiu-se velho, sozinho...
Uma ruga de preocupação franzia seu rosto.
"Mello".
Matt perdia-se em pensamentos. A viagem de Washington até Manhattan não era longa, mas foi o suficiente para causar dor de cabeça em Matt de tanto que pensou. Mas, o ruivo não tinha chegado em lugar algum pensando. Ele ainda não sabia o que fazer. Não sabia. A única certeza que ele tinha, era que tinha que ir ao antigo apartamento de L em Manhattan. Alguma coisa o chamava pra lá.
Jogou a cabeça pra trás sentindo-se estranho. Ele tinha 15 anos, mas sentia o peso da maturidade como chumbo nos ombros. Deixou outro suspirou longo cortar o ar.
SOZINHO.
A palavra simplesmente surgiu em sua mente, como um fantasma. Matt fechou os olhos com força e fez o pensamento desaparecer.
Matt deu uma olhada pra visualizar o edifício. Luxuoso e imponente como era de se esperar. Cruzou o saguão e cumprimentou o porteiro, dizendo que era o novo proprietário do apartamento 1006. O homem inocentemente perguntou o que tinha acontecido "aquele menino magrelo, de cabelo preto, que tá sempre acompanhado de um senhor educadíssimo." Matt engolira em seco e não respondeu nada. Pegara o elevador e subira ao 10º andar. Parou diante da porta de carvalho do seu novo apartamento. Colocou a chave na fechadura e uma dor latejara em seu peito. A dor que ele estivera ignorando até agora. A dor que ele não se permitiu sentir enquanto estava com Mello, com Roger, com Near. Mas agora ele estava, SOZINHO.
Não se sentia digno. Não sentia que merecia tanto carinho e consideração. Sentia-se um invasor. Watari, L, lhes tinham deixado seus bens mais valiosos. Matt simplesmente achava isso demais pra ele.
Ainda parado diante da porta, sentiu-se enjoado.
"L... esse apartamento é seu.. Eu não posso fazer isso". Sentia-se muito mal. Ficou parado alguns minutos, mirando a porta fechada, com medo de ver as coisas de L lá dentro. O apartamento cheio de lembranças.
Sabendo que L não apareceria para dizer pra ele entrar, sabendo que nada mais podia ser feito, rodou a chave. Lentamente abriu a porta e entrou. Era a primeira vez que ele estava nesse apartamento. Ele não queria ver as coisas no apartamento. As coisas de L. Seus bens. Seu cheiro. As coisas que tinha comprado. Mas, um chinelo azul estava jogado no meio do hall de entrada logo chamou a atenção de Matt. O chinelo de L. "Eu também não quero ver chinelos... Não quero ver nada... Droga."
Caminhou-se até o quarto olhando o menos possível para evitar a dor de ver as coisas de uma pessoa que já não vivia. Jogou-se na cama, ficando em posição fetal.
Cuidara de Mello, consolara Roger, reconfortara Ray e as outras crianças. Cuidara até de Near. E agora, ali estava ele SOZINHO.
-Quem cuidará da minha depressão...?
Encolhera-se ainda mais na cama.
-Pai... L... desculpem-me por não ter chorado a morte de vocês... Perdão... - as lágrimas desceram. - Eu não podia fazer isso na frente deles, né? Pai... Watari... você sempre me ensinou a cuidar dos outros... E o fiz... Pai, pode me responder... como é que eu cuido de mim...?
Exausto adormeceu, chorando sua primeira e última lágrima.
NEAR ACOMPANHOU GEVANNI E ELES RUMARAM para o prédio que seria a sede deles dali em diante. Gevanni mostrou a Near o seu novo quarto e disse-lhe para descansar um pouco. O dia tinha sido sufocante. Near concordara.
Assim que Gevanni fechou a porta Near compreendeu...
A solidão abraçou-o. Como uma mão gélida, a solidão comprimiu seu espírito. A nuvem cinzenta de maus dias se formava no horizonte.
Que preço alto teria que pagar... Que preço amargo...
O preço que Near teria de pagar para cumprir a sua promessa... A solidão.
O preço por ser o número um... A solidão...
A solidão. Sua nova companheira.
Deitou-se na cama e sentiu frio. Encolheu-se. Puxou as cobertas. Frio e solidão. As noites não seriam mais as mesmas. Sem o corpo de Mello, com certeza, ele passaria frio todas as noites. Todas as noites de solidão.
MATT ACORDOU E SE VIU ENVOLTO PELA ESCURIDÃO. O sol se pora há algum tempo e o apartamento estava num completo breu. Tateou a parede em busca de um interruptor. Acendeu e o quarto revelou-se a ele. Mas o ruivo não queria ver nada. Não queria mexer nas coisas de L. Ele só foi ali... Só foi ali porque alguma coisa o atraia àquele lugar. Mas ele não sabia o que era.
Suspirou e seus ombros curvaram-se cansados. Fechou os olhos por alguns segundos e depois os reabriu. O notebook de L destacou-se no ambiente. Sentou-se na cadeira e ligou o aparelho.
"SENHA"
-Senha? Interessante... Não há sistema que eu não possa entrar...
Claro que não foi fácil entrar num sistema bloqueado pelo próprio L, mas Matt conseguiu após algumas horas. E uma coisa chamara a sua atenção. Havia um arquivo escrito 'recebido'. Estranho. Matt nem tinha aberto pasta nenhuma. Nem se conectado. Era como se o arquivo já estivesse esperando por ele...
Matt abriu e era uma foto.
Ampliou-a.
Era uma foto de L. Uma foto recente, tirada há alguns meses. O corpo estava mais alto do que Matt se lembrava desde a última vez que vira o detetive.
Um jovem japonês de terno azul e cabelos castanhos estava ao lado de L. Parecia alguma reunião solene. Estavam numa plataforma decorada com flores.
Matt franziu o cenho.
-Você deveria estar caçando Kira e não participando de reuniões. Afinal de contas, o que você estava fazendo...?
Uma faixa com letras miúdas estava esticada atrás de dois garotos na foto.
Matt ampliou. Leu
"Bem-vindo a Universidade de Tou- " E depois não era mais possível ler.
-Universidade?
Matt ficou em silêncio e observando o rosto de L. O detetive mantinha no rosto um sorriso discreto direcionado para o garoto ao seu lado. Um sorriso que Matt nunca viu.
Matt apertou o queixo com o indicador e o polegar. Parecia um sorriso de admiração... De quem está interessado... L sorria timidamente para o garoto que estava ao seu lado.
-Apaixonado...?
Matt arregalou os olhos.
-Será...?
Aproximou ainda mais a foto e era. Um daqueles sorrisos que precedem a paixão.
Perguntas e fatos começaram a pipocar na mente de Matt.
Universidade?
Kira está no Japão, isso é fato.
L estava apaixonado?? Será se isso é mesmo verdade?
Universidade de Tou-...
Tenho que descobri que universidade era essa.
Isso fazia parte da investigação?
Estava se arriscando tanto assim?
Desconfiava que Kira era um universitário?
Ou o quê?
O que L fazia ali?
E, a pergunta mais gritante:
-Mas quem diabos é esse cara ao seu lado L...? Quem seria tão brilhante a ponto de fazer com que o maior detetive do mundo se apaixonasse? - o som da voz do ruivo enchia o apartamento escuro.
A mente de Matt continuava a processar os fatos.
-Apesar de meu japonês ser um lixo, acho que vou pro Japão. Droga! Deveria ter estudado mais...
Com o cotovelo apoiado na mesa, Matt continuava olhando a foto. O rosto tímido e contido de L. O sorriso singular.
-Qual foi o preço desse sorriso, L? Quem é essa cara?
"Quem é esse cara? Quem é esse cara? Quem é esse cara?" A pergunta martelava a mente do ruivo.
-Céus, não tem jeito... Amanhã estarei indo pro Japão. Que Kami-sama me ajude...
Agora ele já tinha um caminho.
XXX
Aos mais esquecidos: no Capítulo 2, Mello e Near têm uma conversa casual em que Near diz que L fez um pequeno teste com ele, para que este descobrisse qual era a sua música favorita. Então, nós aqui estamos no 6º capítulo e quem revela a música favorita de L é o Mello.
High Hopes é uma música belíssima. Eu estava em dúvida entre ela e Confortably Numbi, também do Pink Floyd. Mas, o som de sinos (!!) no início de High Hopes foi crucial na escolha. Quem não conhece a música eu recomendo. É muito boa.
Repararam como eu gosto de música, né? Musicista frustada dá nisso...
"Maluca, você matou o L" Débby-chan, foi inevitável. Na verdade essa fic começa quando L morre e Mello deixa o Wammy's House. O primeiro parágrafo dessa fic é exatamente desse momento fatídico.Não tinha como eu voltar atrás. Mas acredite, matar L doeu pra caramba (você sabe que ele é o meu favorito).
E perdoem os erros ortográficos e de digitação. Sempre que releio capítulos antigos encontros erros deste tipo o.o' gome.
Só uma observação (que eu já deveria ter posto nos capítulos anteriores): sei que o Wammy's House fica em Winchester, mas é tão atávico a idéia de que eles estejam em Londres, que eu não me esforço pra modificar meus capítulos. Então, fica 'avisado' que o Lar Wammy's desta fic está em Londres, apesar de eu saber (e vcs também) que ele fica em Winchester. Domo-arigato.
Reviews? Onegai!
Próximo capítulo: Near fundou o SPK, Mello foi pra máfia, e o que ficou fazendo Matt durante os quatro anos de ausência? A-há! Descubram nos próximos capítulos!
bjs e até lá!
o/
